sábado, 15 de junho de 2019

A Falta de Importância do Ser Humano

O uso do raciocínio lógico na ética tem uma história filosófica longa. Sua influencia tornou-se maior durante os séculos XVII e XVIII (período conhecido como Iluminismo). Foi nessa época que os filósofos começaram a encorajar a sociedade a pensar em por si mesma, em vez de seguir cegamente os dogmas da Igreja. Immanuel Kant, por exemplo, um dos principais pensadores da época. “Sapere aude”, disse ele. O bordão que literalmente significa “ouse ser sábio”, acabou sendo interpretado como “ouse pensar por si mesmo”. E foi assim que a cultura fundada nos princípios do Iluminismo (que por vezes é chamada de Modernismo) passou a valorizar a lógica.
No século XX, houve uma mudança gradual do Modernismo para o Pós-Modernismo, o que levou muitas pessoas a perder a confiança na lógica e na razão, embora muitas ainda continuem acreditando no valor da lógica. Esse é especialmente o caso dos que trabalham com tecnologia, pois são a lógica e a razão que lhes permitem desenvolver sua tecnologia. É também a lógica e a razão que eles buscam aplicar quando consideram questões éticas relacionadas ao avanço dessa tecnologia.
Talvez o exemplo mais conhecido seja Peter Singer. Embora ele seja filósofo não tecnólogo, tem interesse particular em trabalhar com as implicações éticas dos avanços na biotecnologia. Singer é fundador e co-editor do período norte-americano Bioethics (Bioética) e é também professor do Centro de Valores Humanos da Universidade de Princeton. Já escreveu muito sobre o que ele crê tratar-se de decisões lógicas e racionais que deveríamos tomar em resposta aos dilemas éticos do mundo moderno – e não tem medo de pôr de lado crenças e valores tradicionais para buscar caminhos novos que respondam novos desafios. Por exemplo, em seu livro Rethinking Life and Death (Repensando a Vida e a Morte), que tem como subtítulo “O Colapso da Nossa Ética Tradicional”, ele argumenta que os caminhos pelos quais tradicionalmente pensamos a vida e a morte não respondem à pressão dos dolorosos e complexos dilemas médicos surgidos nos últimos anos com ampliação assustadora da tecnologia médica, que dá aos médicos o poder de salvar e prolongar a vida.
Singer reivindica que não é mais possível manter a inviolabilidade da vida como a pedra fundamental da nossa percepção ética. Devemos destacar a antiga ética e substituí-la por algo novo. Edificar algo novo requer uma base, um conjunto de princípios do qual começar. Assim, um dos mais importantes princípios adotados por Singer é a distinção humanista secular e moderna entre “ser humano” e “pessoa humana”. Singer fala que o ser humano é um membro da espécie Homo sapiens, mas a pessoa humana é muito mais que isso. Uma pessoa humana, segundo ele está no ciente de si mesma em diferentes épocas e lugares e também é capaz de antecipar o futuro, assim como ter desejos e vontades para esse futuro.
Essa distinção é muito importante para Singer, pois é por meio dela que o pensador busca argumentar que o ser humano não tem o mesmo direito à vida que a pessoa humana. Assim, ele defende a teoria de que alguém em estado vegetativo permanente ou com várias deficiências cerebrais pode até ser um ser humano, mas não é uma pessoa humana. Consequentemente, diz ele, mata-lo nem sempre estaria errado e em muitos casos seria o melhor a fazer.
De qualquer forma, Singer não para por aí. Ele aplica sua lógica implacável ao caso de bebês recém-nascidos. Argumenta que todos os recém-nascidos fazem parte da mesma categoria. Alega que nas primeiras semanas de vida os bebês não estão cientes de sua existência e não são capazes de fazer qualquer inferência ao futuro nem de ter vontades e desejos. Então, Singer afirma que “matar um bebê recém-nascido jamais será a mesma coisa que matar uma pessoa”. E, para que não haja dúvida, ele literalmente que dizer matar o bebê, não apenas permitir que ele morra. Acrescenta que, “se uma decisão for tomada pelos pais e médicos de que é melhor que o bebê morra, acredito que deveria ser possível acatar tal decisão... tomando-se atitudes reais para dar fim à vida do bebê de maneira rápida e humana.
(Brincando de Deus: Uma Conversa Sobre Ética na Medicina e na Tecnologia. Editado por Tony Watkins)
Por Rafael Félix.

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