terça-feira, 25 de junho de 2019

Meu problema com Calvino e com o Calvinismo

por Walson Sales
Caros irmãos e amigos do Facebook, venho por meio deste texto explicar algumas coisas sobre o meu problema com o Calvinismo. Estou sendo acusado de ser intolerante e segregador entre "irmãos" calvinistas, arminianos e não calvinistas, promovendo dissensões e divisões. Te convido a conhecer um pouco da minha história. Tenho lido e debatido sobre o assunto desde a metade do ano de 2005 quando fui vítima de proselitismo calvinista. Isto aconteceu quando um colega de trabalho tentou me convencer de que "o Calvinismo é o evangelho". Fiquei perplexo com esta afirmação. O colega insistia (insinuando) que alguém só seria um Cristão (Protestante) genuíno se fosse um Calvinista, ou adepto das "Doutrinas da Graça". Isso mexeu comigo e como havia adotado a atitude de C.S. Lewis, enquanto presidente do Socratic Club, que seguiria a evidência até onde ela conduzisse, comecei a estudar o assunto e quanto mais lia mais ficava chocado com as afirmações exclusivistas de calvinistas (de que uma pessoa só pode ser salva se for um calvinista), principalmente na internet. Quanto mais estudava, mais sentia uma repulsa aos pressupostos calvinistas em diversos assuntos. Algum tempo depois discuti brevemente com um calvinista, professor de teologia, que havia sido vítima deste mesmo proselitismo e havia abandonado a Assembleia de Deus (a Assembleia de Deus é o principal alvo dos calvinistas para esse proselitismo) e então era considerado um ícone do calvinismo na época. Lendo seus postulados no debate (pois ele havia afirmado: e vale salientar que por natureza todos nascemos arminianos. áté que o SENHOR nos nos dê vida conforme Ef. 2.1.), pude perceber que ele afirmava exatamente isso que tracei, á época, em forma de silogismo:
1 – Qualquer interpretação antes do calvinismo é sinônimo de morte espiritual;
2 – Logo, uma pessoa só poderá ser salva se for calvinista;
3 – Descambando na premissa de que a salvação se dá através do conhecimento, gnose, pois, o conhecimento que não seja calvinista é apenas o primeiro degrau para a salvação superior;
4 – Vida espiritual só no calvinismo.

Segue o link desse debate:

Estava claro pra mim, a partir de então, que para os HiperCalvinistas e para alguns calvinistas moderados, o Calvinismo é "o Evangelho" e que uma pessoa só seria salva "se" fosse calvinista. As implicações destas afirmações tão ousadas era a de que qualquer pessoa que não fosse calvinista ainda não era salva. Passei a entender um pouco a luta dessas pessoas para tentar "calvinizar" os membros de outras denominações, principalmente os membros das Assembleias de Deus. Fiquei ainda mais perplexo quando um dos "figurões" do Calvinismo no Brasil escreveu um artigo (cujo título é: "Carta a um pastor pentecostal que virou reformado") estimulando os irmãos de outras denominações, inclusive pentecostais assembleianos, a permanecerem nas sua igrejas "reformando, calvinizando" os demais membros aos poucos, apresentando as "doutrinas da graça". Fiquei chocado com tal proposta, pois este ato de "calvinizar" membros de outros credos e denominações protestantes havia ganho força e alcance nacional por meio de uma sugestão maldosa, repreensível, impensável, grotesca e de uma falta de caráter sem precedentes.
Pra minha maior surpresa, esta mesma ideia de que "O Calvinismo é o Evangelho" não é uma afirmação isolada, apresentada por calvinistas fanáticos de internet, mas é uma afirmação ampla, afirmada repetidamente pelos grandes ícones do Calvinismo ao redor do mundo, não apenas no Brasil. Segue um breve apanhado de citações com suas respectivas fontes:

1. O Calvinismo é Religião no máximo de sua concepção. O Calvinismo é evangelicalismo na sua mais pura e unicamente estável expressão - Warfield, Calvin, p. 497;
2. O Calvinismo, dessa forma, surge às nossas vistas como nada mais nada menos do que a esperança do mundo - Warfield, Calvin, p. 507;
3. Tem sido corretamente dito que o Calvinismo é puro Cristianismo bíblico em sua mais clara e pura expressão - Leonard J. Coppes, Are Five Points Enough? The Ten Points of Calvinism (Denver: pelo autor, 1980), p. xi.;
4. Cremos que o sistema calvinista seja a única exposição nas Escrituras e vindicado pela razão - Boettner, Predestination, p. 352;
5. O Calvinismo é o único sistema que é verdadeiro à Palavra de Deus - Talbot e Crampton, p. 78;
6. É questionável se uma teologia dogmática que não seja calvinista seja verdadeiramente cristã - Arthur C. Custance, The Sovereignty of Grace (Phillipsburg: Presbyterian and Reformed Publishing Co., 1979), p. 302;
7. Qualquer comprometimento do Calvinismo é um passo em direção ao humanismo - Talbot e Crampton, p. 3;
8. Não há nenhuma parada consistente entre o Calvinismo e o ateísmo - Loraine Boettner, The Reformed Faith (Phillipsburg: Presbyterian and Reformed Publishing Co., 1983), p. 2;
9. O futuro do Cristianismo está amarrado a este sistema de teologia historicamente chamado Calvinismo – Ibid;
10. O Calvinismo é o Evangelho e ensinar o Calvinismo é de fato pregar o Evangelho - Warfield, Calvin, p. 499;
11. O Calvinismo é o Evangelho. Suas excelentes doutrinas são simplesmente as verdades que compõem o Evangelho - Engelsma, Defense of Calvinism, p. 4;
12. É um apelido chamá-lo Calvinismo; o Calvinismo é o Evangelho, e nada mais - Charles H. Spurgeon, Spurgeon’s Sovereign Grace Sermons (Edmonton: Still Waters Revival Books, 1990), p. 129;
Estava configurado, claramente pra mim, a ideia de que o calvinismo (pelo menos para estes apresentados acima) defendia uma ideia postulada por todos os movimentos sectários e heréticos, o exclusivismo soteriológico. Empurrado pela curiosidade, fui investigar mais de perto as afirmações destes homens tão cheios de orgulho em serem os detentores da "verdade bíblica" chamada de calvinismo e encontrei muitas afirmações bizarras, determinismo, fatalismo e a ideia de Deus como o autor do pecado [sem mencionar o problema perene da maçonaria], como segue abaixo:
1. Deus predestina todas as coisas, animadas e inanimadas. Seu decreto inclui todos os anjos, bons e maus - David S. West, em “The Baptist Examiner Forum II,” The Baptist Examiner, 18 de março de 1989, p. 5; [isso inclui o pecado]
2. Todas as coisas ocorrem conforme a predestinação divina; não apenas as obras que fazemos exteriormente, mas até mesmo os pensamentos que pensamos interiormente - Philip Melanchthon, citado em Boettner, Predestination, p. 15; [isso inclui o pecado]
3. Até a queda de Adão, e através dele a queda da raça, não foi por acaso ou acidente, mas foi assim ordenada nos conselhos eternos de Deus - Boettner, Predestination, p. 234; [isso inclui o pecado]
4. Certamente, se Deus não tivesse desejado a queda, Ele poderia - e sem dúvida teria - ter impedido que ela acontecesse, mas Ele não a impediu: logo, Ele a desejou. E se Ele a desejou, Ele certamente a decretou - Zanchius, p. 88; [Segundo o calvinismo, Deus desejou o pecado]
5. Claramente foi a vontade de Deus que o pecado deveria entrar neste mundo, de outra forma ele não teria entrado, pois nada acontece salvo conforme o que Deus eternamente decretou. Além do mais, foi mais do que uma mera permissão, pois Deus somente permite aquilo que tem proposto - Pink, Sovereignty, p. 147; [Segundo o calvinismo, o pecado foi um propósito de Deus]
6. Não apenas Seu olho onisciente viu Adão comendo do fruto proibido, mas Ele decretou antecipadamente que ele devia comer - Pink, Sovereignty, p. 249; [Segundo o calvinismo, Deus decretou que Adão deveria comer o fruto]
7. O decreto de Deus da eleição e da reprovação tornou necessário que ele envolvesse o homem no pecado e na desobediência para o bem da justiça e completa misericórdia do decreto - Muller, Christ and the Decree, p. 81; [Segundo o calvinismo, Foi Deus quem envolveu o homem no pecado]
8. É até bíblico dizer que Deus preordenou o pecado. Se o pecado estivesse fora do plano de Deus, então nem uma única questão importante da vida seria governada por Deus - Palmer, p. 82; [Segundo o calvinismo, Deus predestinou o pecado]
9. Nada acontece contrário ao seu decreto. Nada acontece por acaso. Até o mal moral, que ele abomina e proíbe, ocorre “pelo determinado conselho e presciência de Deus.” - Shedd, Calvinism, p. 37; [Segundo o calvinismo, Deus decretou o mal moral que Ele abomina e proíbe]
10. Todas as coisas, incluindo até mesmo as ações malévolas dos homens perversos e dos demônios – são trazidas à existência de acordo com o propósito eterno de Deus - Machen, Man, p. 46; [Segundo o calvinismo, Deus desejou as ações malévolas de homens e demônios]
11. O pecado é um dos ‘tudo quanto’ ‘acontece,’ todos os quais são ‘ordenados.’ - Shedd, Calvinism, p. 31;
12. “Deus move as línguas dos homens para blasfemar.” - Franciscus Gomarus, citado em Newman, vol. 2, p. 339;[ Segundo o calvinismo, é Deus quem move as línguas dos homens para blasfemarem contra Ele próprio];
13. “Deus propriamente deseja que cometamos pecados, e de fato absolutamente deseja que eles sejam cometidos; não somente isto mas ele também causa no tempo estes mesmos pecados.” - John Piscator, citado em Newman, vol. 2, p. 338; [Segundo o calvinismo, Deus deseja que cometamos pecados]
14. “Quero afirmar muito franca e incisivamente que se uma pessoa fica bêbada e atira na família, era vontade de Deus que ela o fizesse” (ERICKSON, 1997, p.185) ERICKSON, Millard J., Introdução à Teologia Sistemática, São Paulo, Vida Nova, 1997.
15. Consideremos, pois, quão inadequada é sua argumentação: querem que os crimes de seus autores sejam impunes, porquanto não são cometidos senão pela administração de Deus. Eu concedo mais: os ladrões e os homicidas, e os demais malfeitores, são instrumentos da divina providência, dos quais o próprio Senhor se utiliza para executar os juízos que ele mesmo determinou. Nego, no entanto, que daí se deva permitir-lhes qualquer escusa por seus maus feitos. [Institutas da Religião Cristã, Vol. I - versão clássica, p. 217];
Deus deve olhar esses escritos com a mesma perspectiva que tratou com os amigos de Jó 42.7:
“Sucedeu que, acabando o SENHOR de falar a Jó aquelas palavras, o SENHOR disse a Elifaz, o temanita: A minha ira se acendeu contra ti, e contra os teus dois amigos, porque não falastes de mim o que era reto, como o meu servo Jó”.
Quem inclui o próprio Deus em decretar o pecado são os calvinistas, eu estou apenas interpretando. Depois fui investigar a vida do homem que foi o propulsor desta corrente de pensamento, João Calvino, e fiquei ainda mais chocado com as ações do homem que é praticamente aclamado como aquele que é o "sinete da perfeição" de vida e teologia. Calvino apresenta a sua doutrina da salvação nestes termos:
“Chamamos de predestinação ao eterno decreto de Deus, pelo qual ele determinou em si mesmo o que ele quis que todo indivíduo do gênero humano viesse a ser. Porque eles não são criados todos com o mesmo destino, mas a alguns é pré-ordenada a vida eterna e para outros a condenação eterna. Portanto, sendo criada cada pessoa para um ou outro destes fins, dizemos que é predestinada ou para a vida ou para a morte.” [João Calvino, Institutas da Religião, Livro III capt.XXI.]
Comparando com o Evangelho temos:
Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna [...] Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece. João 3. 16, 36
Depois fui ler sobre suas ações em relação ao julgamento e morte do herege Miguel de Servetus [por acaso um homem deve morrer por heresia?] Mas vc ignora as afirmações de Calvino e suas intenções acerca de Servetus, conforme os próprios calvinistas:
“Se ele [Servet] vier [à Genebra], eu nunca o deixarei escapar vivo se a minha autoridade tiver peso.” - Schaff-Herzog Encyclopedia of Religious Knowledge (Baker Book House, 1950), p. 371.
Será mesmo que Calvino não teve participação nenhuma mesmo na morte de Servetus? E a magistratura de Genebra inocenta a participação da acusação de heresia preparada por Calvino? Servetus não foi simplesmente queimado até morrer. Ele foi horrivelmente queimado até morrer! A história desta atrocidade está disponível:
“Quando o executor começou o seu trabalho, Servet sussurrou com voz trêmula: ‘Oh Deus, Oh Deus!’ O opositor Farel vociferou para ele: ‘Você não tem nada mais a dizer?’ Neste momento Servet respondeu para ele: ‘O que mais eu posso fazer, mas falar com Deus!’ Logo após isso, ele foi suspenso até a fogueira e amarrado às estacas. Uma coroa com enxofre foi colocada em sua cabeça. Quando as fagulhas foram acesas, um lancinante grito de horror brotou dele. ‘Misericórdia, misericórdia!’ ele clamou. Por mais de meia hora a horrível agonia continuou, porque a fogueira havia sido feita com madeira semiverde, que queima lentamente. ‘Jesus, Filho do eterno Deus, tenha misericórdia de mim,’ o homem atormentado clamava do meio das chamas...” - The Heretics, p. 327.
Investigando mais a frente pude descobrir nas Institutas como Calvino tratava aqueles que discordavam de sua teologia. Calvino se refere aos seus oponentes, que não criam em sua doutrina, por vários diferentes nomes pejorativos, como:
“dementes” [Institutas, 1.16.4.],
“porcos” [ Institutas, 3.23.12.],
“mentes pervertidas” [ Institutas, 3.25.8.],
“cães virulentos que vomitam contra Deus” [Institutas, 3.23.2.],
“inimigos da graça de Deus” [Institutas, 2.5.11.],
“inimigos da predestinação” [Sermão sobre a Eleição, p. 6. Disponível em: <http://www.projetospurgeon.com.br/…/ebook_eleicao_calvino.p…>],
“estúpidos” [Institutas, 3.11.15.],
“espíritos desvairados” [Institutas, pp. 1324.],
“bestas loucas” [Institutas, 4.16.10.],
“caluniadores desprezíveis” [Secret Providence, p. 209.],
“gentalha” [Institutas, 3.3.2.],
“espíritos ignorantes” [Institutas, 2.7.13.],
“embusteiros” [Institutas, 2.16.12.],
“bestas” [Institutas, 4.7.9.],
“cães, porcos e perversos” [Sermão sobre a Eleição, p. 4. Disponível em: <http://www.projetospurgeon.com.br/…/ebook_eleicao_calvino.p…>], 
“insanos” [Institutas, 3.2.38.]

e “criaturas bestiais” [Institutas, 3.2.43.].
As ofensas também abundavam em termos pessoais. A Pighius ele chama de “cão morto” [Introdução a João Calvino, The Bondage and Liberation of the Will: A Defence of the Orthodox Doctrine of Human Choice against Pighius, ed. A. N. S. Lane, trad. G. I. Davies (Grand Rapids: Baker Books, 1996), p. 15.], a Serveto ele chama de “monstro pernicioso” [Institutas, 2.14.5.] e aos anabatistas ele chama de “bestas loucas” [Institutas, 4.16.10.] por negarem o batismo infantil, que hoje é rejeitado por quase todas as denominações protestantes. Sobre o batismo infantil, ele diz que “Deus irá descarregar sua vingança sobre qualquer um que desprezar assinalar seu filho com o símbolo da aliança” [Institutas, p. 1332, IV.xvi.9.]. Como Roland Bainton bem observa, “se Calvino alguma vez escreveu algo em favor da liberdade religiosa, foi um erro tipográfico” [Roland H. Bainton, citado em Christian History, Vol. 5:4 (1986), p. 3.]
Pronto, está esclarecido meu posicionamento contra o calvinismo, não contra os calvinistas como pessoas. A medida que eles continuarem defendendo este exclusivismo soteriológico e continuarem tentando "calvinizar" membros de outros credos e denominações protestantes, a minha resposta e de outros, será a mais dura possível. Agora, gostaria de perguntar a você: Você concorda que o Calvinismo é o Evangelho? Pra mim Dave Hunt está certo quando escreveu o livro Que Amor é Este? A Falsa Representação de Deus no Calvinismo. Querem tolerância? Então tolerem. Grande abraço a todos.

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