quarta-feira, 17 de julho de 2019

A CREMAÇÃO É PECADO? O QUE A BÍBLIA DIZ?

Conheço muitos cristãos que há um bom tempo vem se preparando para a morte. Muitos deles já compraram terrenos em cemitérios, outros já compraram jazidos, mausoléu, alguns deles já fizeram planos funerários tanto pra ele como também para toda a família, etc. Mas em meio a toda essa preparação, sujem as seguintes questões: “A cremação não poderia ser uma alternativa para eles em vez de do enterro ou sepultamento tradicional? Afinal de contas a Bíblia condena a cremação? Ela é uma prática cristã ou pagã? Ela deve ser uma prática do cristão? A cremação não impediria a denominada ressurreição dos mortos, sendo essa a esperança de todos os cristãos que já partiram para a eternidade?” Perguntas como essas e outras são repetidas centenas de vezes e em sua maioria ficam sem respostas. No decorrer desse artigo, tentarei trazer uma luz ao tema e espero que essas perguntas e dúvidas sejam esclarecidas.
De início quero dizer que não existe na Sagrada Escritura textos que proíbam diretamente a prática da cremação dos mortos, muito menos textos que incentive execução dessa prática também. Nenhum teólogo por maior que seja, poderá afirmar com todas as letras, virgulas e caracteres correspondentes que a cremação irá impedir a ressurreição dos corpos dos cristãos que foram carbonizados. Existe uma infinidade de exemplos registrados no tempo e na história sobre cristãos que foram mortos em fogueiras e postes nos primórdios da igreja cristã. Muitos deles após terem seus corpos betumados, embebidos em óleos, amarados em estacas, foram queimados, carbonizados e reduzidos a cinzas. Seria Deus incapaz de ressuscitá-los? É claro que não.
Mas afinal o que é a cremação? A cremação é uma palavra de origem latina “cremation”, que pode ser vista como uma técnica, ato, processo ou efeito de queimar um cadáver, reduzindo-o a cinzas. O processo dar-se da seguinte maneira: “Esgotado o tempo estipulado para o velório, o caixão é fechado e levado para o local onde será feita a cerimônia de cremação, e somente então é redirecionado ao forno crematório. Para familiares e amigos, a cerimônia termina alí, mas a cremação propriamente dita, poderá ser realizada horas, ou até mesmo dias depois. Enquanto o caixão juntamente com o corpo não é colocado no forno, o corpo é mantido resfriado em uma câmara de refrigeração, podendo o mesmo ser conservado por até 30 dias. Uma vez colocado no forno crematório o corpo é cremado individualmente em um forno cuja temperatura estará entre 900° e 1200 °C graus, podendo durar entre 1 hora e meia e 3 horas. Geralmente os metais e acessórios existente no corpo durante o processo da cremação não resistirão e desaparecerão com essa temperatura, com exceção de casos em que haverá a necessidade da utilização de máquinas ou ímãs para recolher fragmentos de metais ou de ossos que não foram consumidos pelas chamas e uma vez triturados e inseridos na urna são entregues a família”.
A cremação é um dos processos mais antigos praticados pelo homem. Em algumas sociedades este costume era bastante corriqueiro pois fazia parte do cotidiano da população, visto que se tratava de uma medida prática e também higiênica. Muitos povos antigos como os viking e hindus começaram a fazer uso da cremação após seus rituais fúnebres. Os gregos por exemplo começaram a queimar seus cadáveres por volta de 1000 anos a.C. Em 750 a.C., os Romanos por sua vez, também adotaram essa prática. Em muitas civilizações e sociedades antigas a cremação era considerada uma forma de prover um destino nobre e digno a seus mortos, já o sepultamento por inumação ou entumulamento era reservado aos criminosos, assassinos, suicidas e aos fulminados por raios.
Em países orientais, a cremação é uma prática bastante antiga e ainda corrente. Na índia, muitas pessoas são cremadas às margens do rio Ganges. No Japão, a cremação foi adotada com o advento do Budismo em 552 d.C., importado da China. Para a maioria das religiões dos países orientais a cremação é uma prática consagrada, já que o fogo tem uma função purificadora, que liberta a alma. Cada vez mais, a opção pela cremação tem aparecido como uma forte escolha e isso não apenas por povos e países orientais, mas também por outros povos de culturas diferentes. A escolha pela cremação tem crescido muito nesses últimos anos, tanto aqui no Brasil como em muitos outros países, como é o caso dos EUA. Pesquisas recentes nos mostram que pela primeira vez na história dos EUA, a maioria dos americanos optaram pelo processo da cremação em vez do tradicional sepultamento. Cerca de (50,2%) disseram que ao morrer preferiam que seus corpos fossem queimados, já (48,5%) optaram pelo enterro ou sepultamento tradicional. A Associação Nacional de Diretores de Funerais espera que essa tendência de mudança do sepultamento para a cremação continue nos próximos 20 anos, com a taxa de projeção atingindo cerca de 78,8% das mortes até 2035.
Diante de tantas informações surgem diversas questões, entre elas a seguinte: “A Bíblia proíbe, condena ou recomenda a cremação?” Como eu já disse no início desse artigo: “não existe na Sagrada Escritura textos que proíbam diretamente a prática da cremação dos mortos, muito menos textos que incentive execução dessa prática também”. Com exceção do caso de Acã e sua família (Js 7.24-25), onde a morte e cremação fora determinada, como forma de castigo e punição por desobediência e imoralidade, a primeira vez que a Bíblia faz menção a cremação é em 1 Samuel 31, onde Saul e seus filhos são queimados e depois seus ossos enterrados, observe: “Ouvindo então os moradores de Jabes-Gileade, o que os filisteus fizeram a Saul, todo o homem valoroso se levantou, e caminharam toda a noite, e tiraram o corpo de Saul e os corpos de seus filhos do muro, de Bete-Sã, e, vindo a Jabes, os queimaram. E tomaram os seus ossos, e os sepultaram debaixo de um arvoredo, em Jabes, e jejuaram sete dias”. (1 Sm 31.11-13)
Os filisteus tinham cortado a cabeça de Saul (1 Sm 31.9), o corpo dele e de seus filhos provavelmente tinham sidos mutilados e já se encontravam em um estado de decomposição quando os homens de Israel chegaram até o local e recuperaram os restos mortais. O teólogo “Rodney J. Decker” acredita que o ato de cremar os corpos de “Saul e de seus filhos” tenha sido um ato mais “honroso” do que se eles tivessem levados os corpos mutilados em estado de decomposição para serem enterrados como era o costume da época, passando por rituais judaicos e cerimônias fúnebres”.
As únicas outras referências à cremação são encontradas no livro do profeta Amós (2.1; 6.8-10). Porém faz-se necessário frisar que nenhuma dessas referências refletem a práticas funerárias normativas do povo de Deus, eles não tinham tal costume. De fato, não era costume entre os judeus cremar os corpos de seus familiares. Aliás, tal prática era vista como desonrosa e desrespeitosa para com o parente falecido, era considerada uma prática horrorosa. Não é de agora, mas desde os primórdios que os judeus tinham o hábito de enterrar seus mortos diretamente na terra ou em túmulos de pedra. Eles viam na palavra dada por Deus a Abraão uma espécie de mandamento a todos os que dele descendiam: “E tu irás a teus pais em paz; em boa velhice serás sepultado”. (Gn 15.15).
Ainda hoje em pleno século XXI quando um judeu é vítima de algum atentado terrorista e morre numa explosão, os judeus ortodoxos religiosos reúne cada pedacinho encontrado do corpo para que seja cuidadosamente sepultado. Voltando agora ao registo da cremação em Amós (Am 2.1) percebemos que o texto se trata de uma das transgressões cometidas pelos moabitas, a de queimar os ossos do rei de Edom (Am 2.1). Nessa passagem Deus estava aborrecido com os moabitas porque, quando tomaram a área que pertencia aos edomitas, incineraram os corpos de tal forma que viraram cal. O pecado não estava simplesmente no fato de queimar, mas de profanar seus restos mortais. Na cultura da época, sepultar era sinônimo de honrar a memória. Queimar o cadáver era sinônimo de menosprezar e desonrar sua memória. Tratava-se, portanto, de uma questão cultural.
Os cristãos primitivos também seguiram o exemplo dos judeus no que tange ao respeito pelos mortos. Aceitavam o ensino de que o seu corpo é o templo do Espírito Santo e, como tal, deveria ser respeitosamente sepultado: “Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1 Co 3.16). “Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?” (l Co 6.19).
Os cristãos primitivos, proclamavam com todo o fervor o Evangelho de Jesus Cristo e, como parte da pregação, anunciavam a ressurreição de Jesus e deles próprios (l Co 15.3-6,14-17,51-55). Eles tinham o cuidado de sepultar os seus mortos num mesmo lugar, chamavam esse lugar de cemitério, cujo significado é dormitório. Os corpos dos santos dormiam (Mt 27.52) e todos, mortos nessa esperança, aguardavam a volta de Cristo, quando, então, juntos, iriam ressuscitar. Sem sombra de dúvida, isso incomodava os pagãos contemporâneos da época. Assim, levantou-se entre eles a ideia de que destruindo a crença na ressurreição anulariam a esperança dos cristãos na ressurreição. Entre eles, então, começou o costume de cremar os corpos.
A Escritura nos diz que viemos do pó e ao pó retornaremos (Gn 3.19). Diante dessa afirmação, muitos questionam se seria pecado ou não um cristão ser cremado ao morrer. Sinceramente, apesar dos judeus e cristãos primitivos evitarem essa prática, vejo isso mais como uma questão cultural de um determinado povo ou civilização. Não vejo como um pecado, pois pecado é a quebra de uma lei de Deus e eu não vejo nada na Bíblia que nos ordene com precisão a enterrar nossos mortos ou a cremá-los.
Não vejo a cremação como um pecado, entretanto acredito que o sepultamento esteja mais de acordo com o espírito cristão e a sua mentalidade, particularmente em relação ao que a Bíblia ensina sobre o valor do corpo e de sua ressurreição. Mesmo não havendo nenhuma proibição para a cremação na Bíblia parece que o próprio Deus concorda mais com a ideia do sepultamento, pelo menos é o que deixa transparecer o texto de Deuteronômio: “E disse-lhe o Senhor: Esta é a terra que jurei a Abraão, Isaque, e Jacó, dizendo: À tua descendência a darei; eu te faço vê-la com os teus olhos, porém lá não passarás. Assim morreu ali Moisés, servo do Senhor, na terra de Moabe, conforme a palavra do Senhor. E o sepultou num vale, na terra de Moabe, em frente de Bete-Peor; e ninguém soube até hoje o lugar da sua sepultura”. (Dt 34.4-6). O próprio Deus é quem sepulta Moisés.
Vejamos mais alguns exemplos de sepultamento na Bíblia:
• Abraão foi sepultado (Gn 25.8-10);
• Sara foi sepultada (Gn 23.1-4);
• Raquel foi sepultada (Gn 35.19-20);
• Isaque foi sepultado (Gn 35.29);
• Jacó foi sepultado (Gn 49.33; 50.1-13);
• José foi sepultado (Gn 50.26);
• Josué foi sepultado (Js 24.29-30);
• Eleazar foi sepultado (Js 24.33);
• Samuel foi sepultado (I Sm 25.1);
• Davi foi sepultado (I Rs 2.10);
• João Batista foi sepultado (Mt 14.10-12);
• Ananias e Safira foram sepultados (At 5.5-10);
• Estevão foi sepultado (At 8.2);
• Jesus foi sepultado (Jo. 19.38-42).

Se eu tivesse que escolher entre a “cremação” e o “sepultamento”, eu optaria pelo sepultamento, mas percebo que para o verdadeiro cristão pouco importa se o seu corpo será sepultado ou cremado. Pois a esperança dos que morreram em Cristo é a de que um dia irão ressuscitar dentre os mortos (1 Ts 4.16-17; I Co 15.51-52), e para sempre passarão a estar com o Senhor. Nem a cremação e nem tão pouco o sepultamento representa algum obstáculo à ressurreição dos mortos. O Deus que tudo criou pode, do pó ou do nada, trazer à vida o corpo de todos os que já partiram para a eternidade, segundo a sua vontade soberana, transformando-os em corpos gloriosos, imortais e incorruptíveis. Por isso, glorias sejam dadas ao Senhor!
“Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor”. (1 Ts 4.16-17)
“Eis aqui vos digo um mistério: Na verdade, nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados; Num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados”. (I Co 15.51-52)
Referências consultadas:
• BÍBLIA DE ESTUDO APLICAÇÃO PESSOAL, Versão (ARC). São Paulo: SBB, 1995.
• BÍBLIA DE ESTUDO PENTECOSTAL, Versão (ARC). CPAD, 1995.
• BÍBLIA KING JAMES (BKJ) ATUALIZADA. Rio de Janeiro: Editora Abba Press, 2012.
• BÍBLIA SHEDD, Versão (ARA). São Paulo: Editora Vida Nova, 2001.
• CHAMPLIN, R.N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, v. 6. São Paulo: Hagnos, 2008.
• Carter, Joe. ¿Qué deben saber los cristianos sobre la cremación? Disponível em: https://www.coalicionporelevangelio.org/…/deben-saber-los-…/ Acesso em 07/12/2018.
• C. Fernandes, Hermes. Estudo Bíblico Um cristão pode ser cremado? Disponível em: https://www.estudosgospel.com.br/…/um-cristao-pode-ser-crem… Acesso em 08/12/2018.
• Cloud, David. A cremação tem origem e propósitos pagãos. Disponível em:http://avelinofaria.net/artigos/Cremacao.pdf Acesso em 08/12/2018.
• Dos Santos, Bruno. Um cristão pode ser cremado? Disponível em:https://guiame.com.br/…/br…/um-cristao-pode-ser-cremado.html Acesso em 08/12/2018.
• Núñez, Miguel. Por qué un cristiano no debe elegir la cremación. Disponível em: http://integridadysabiduria.org/por-que-un-cristiano-no-de…/Acesso em: 07/12/2018.
• Renovato de Lima, Elinaldo. A luz da Bíblia, cremação é pecado? Disponível em: https://sub-ebd.blogspot.com/…/a-luz-da-biblia-cremacao-e-p… Acesso em 08/12/2018.
• Rick. ¿La Cremación, es pecado? Disponível em:https://verdadyfe.com/2015/04/27/cremacion/ Acesso em: 07/12/2018.
• Todo sobre Dios. Punto de vista Cristiano acerca de la cremactión. Disponível em: https://www.allaboutgod.com/…/punto-de-vista-cristiano-acer… Acesso em 07/12/2018.
• Rinaldo, Natanael. A cremação é uma prática cristã ou pagã? Disponível em: http://www.icp.com.br/df44materia2.asp Acesso em 08/12/2018.

Por Nivaldo Gomes.

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