sábado, 27 de julho de 2019

AS PRIMEIRAS HERESIAS: OS JUDAIZANTES E GNÓSTICOS NA IGREJA PRIMEVA - CONTESTAÇÃO ORTODOXA

Por Leonardo Melo (1* parte)
INTRODUÇÃO
Considerando as crônicas da Igreja Primeva, temos como primeiras heresias surgidas a dos judaizantes e seus vários desdobramentos e os Gnósticos. Os judaizantes hereges defendiam os cerimoniais da Lei, e as regras de adoração no Templo, a negação de Cristo como Filho de Deus e consequentemente da mesma substância (Homoousios), assim como, defendiam a circuncisão dos novos convertidos, recusando-se a reconhecer e compreender a universalidade da Igreja de Cristo.
O cap. 6.1-7 do Livro de Atos dos Apóstolos relata os conflitos internos no âmago da Igreja emergente, e os novos convertidos de origem grega começam a queixar-se dos novos conversos de origem judaica, cf. At.6.1 “Ora naqueles dias, crescendo o número dos discípulos, houve murmuração dos gregos contra os hebreus, porque as suas viúvas eram desprezadas no ministério cotidiano”, além de que, Estevão, diácono da Igreja, era acusado pelos homens do Templo e pelos chefes da Sinagoga e também pelos judaizantes de blasfemarem contra o Eterno e contra a Torá.
Já em referência aos gnósticos, há um entendimento nos círculos acadêmicos tanto cristão, Teológico e filosófico que a origem do gnosticismo não tem um marco temporal. Porém, é razoável lembrar que há concordância entre os eruditos que está heresia surgiu antes do Cristianismo, sob a influência da religião de mistério da Mesopotâmia, assim como do sistema sincrético persa(iraniano), do misticismo judaico da cabala, da filosofia grega platônica, neo-platlatonismo, Babilônia, Egito e Síria.
OS JUDAIZANTES
Segundo, Jean Danielou, havia nos círculos judaico-cristão, duas tendências fundamentais, isto é, uma antinomia: uma herética, representada sobre tudo pelos ebionitas cujo pensamento se expressa nas Paeudoclementinas, e chamavam-se “Igreja dos pobres “, de outro modo: Ebionitas ou pobres. Chegou-se a relacionà-la com a seita essênia; e a outra ortodoxa , influenciada pela Igreja em Jerusalém.
A despeito dos judaizantes hereges, eles começaram a criar problemas a partir do conflito em Antioquia, cf. At. 15.1-5, pois, exigiam que os novos convertidos se circundassem , segundo a Lei de Moisés, se não perderiam a salvação, e Paulo e Barnabé quando tomaram conhecimento dessa situação, entraram em conflito com eles, gerando um sério imbróglio para a Igreja local.
Alguns deles que tinham pertencido ao farisaísmo e se
convertidos a fé cristã, queriam que os convertidos do paganismo observassem as práticas prescritas na Torá de Moisés, e denunciavam os seguidores de Jesus como blasfemos e os acusavam de ensinamentos frívolos contra a Lei. segundo eles não podiam pertencer ao “povo eleito de Deus”, logo o batismo principalmente para eles não substituíam à circuncisão.

Foi através do Concílio de Jerusalém, liderado por Pedro e Tiago, que a Igreja deliberou que os novos convertidos não necessitavam de passar pela circuncisão nem observar toda a liturgia e cerimonial do Judaísmo, contudo, devem aceitar o monoteísmo e os mandamentos, e estão obrigados a aceitarem certas normas alimentares, tais como: abster-se das carnes sufocadas ou imoladas aos ídolos, as uniões ilegítimas, e comer sangue, estas resoluções foram tomadas no Concílio da Igreja em Jerusalém, cf. At. 15.13-21; e como em Antioquia o problema se agravou, então a Igreja em Jerusalém resolve enviar algumas cartas para dirimir as tensões e apaziguar os ânimos, cf. At. 15.22-29. Essa palavra final foi da maior autoridade da Igreja de Jerusalém, Tiago, irmão do Senhor.
NICOLAITAS
Temos como desdobramento da matriz herética judaica, os Nicolaitas, que provavelmente surgiu entre os anos 93-94 d.C. na Ásia e se expandiram pelas cidades de Éfeso, Tiatira e Pérgamo, que no cerne do seu pensamento doutrinário, deu ênfase dentro da Igreja a um movimento de cunho doutrinal, é especificamente ético-moral.
Não há como afirmar quem é o seu fundador de maneira precisa, há várias conjecturas, e alguns eruditos associam o fundador da seita a Nicolau de Antioquia, um dos sete , que seriam diáconos na Igreja primitiva, cf. At. 6.5, e também nos textos do Livro da Revelação, Ap. 2.6,14-15,20.
Outros associam Nicolau ao movimento herético que leva seu nome, levando em consideração a tradução grega do nome do Nikolau do hebraico Bil’am(Balaão, dominador do povo, vencedor), em referência ao profeta que, cf. Nm. 31.16, instigou ao desvio moral e religioso os israelitas, levando-os à fornicação. Os Nicolaitas seriam , então, sinônimo de corruptores dos costumes morais e religiosos. Embora combatido, este movimento herético conseguiu sobreviver até o ano 200 d.C., quando, então se dissolveu na heresia gnóstica dos ofitas, nome que se refere ao culto da serpente!
CERINTIANISMO
Também como consequência das matrizes judaizantes heréticas, temos o Cerintianismo, pregada por Cerinto, que surgiu na Ásia Menor, no século I , sendo contemporâneo de Nicolau.
Cerinto um gnóstico-judaizante que afirmava que “Jesus não é o Cristo”, e que o teólogo Alfred V. Harnack vai dizer que “Cerinto é o pai das duas naturezas de Cristo”. Segundo
Irineu de Lião: “Um certo Cerinto, na Ásia, ensinou a seguinte
doutrina: Não foi o primeiro Deus quem fez o mundo, mas uma virtude(potência) separada por uma distância considerável da Suprema Virtude(Potência-Princípio) que está acima de todas as coisas e ignorando o Deus que está acima de tudo..., O Cristo, vindo do Supremo Princípio, que está acima de todas as coisas, desceu sobre Jesus sob a forma de pomba,..., E depois se retirou dele, abandonando-o a Jesus”.(FRANGIOTTI. 1995, pg. 15)

OS ELCASAÍTAS.
Ainda como desdobramento dos judaizantes, temos a Variante elcasaíta, que surgiu durante o reinado de Trajano (90-117 d.C.), alguns judeu-cristão seguiram a liderança de um certo Elchasai ou Elkasai.
Este movimento provinha da região dos partas(província iraniana da Pérsia Antiga), também conhecida como Asárcida. Opunha-se de maneira inflexível aos ensinamentos do apóstolo Paulo, afirmava a existência de um único Deus, e afirmavam que Jesus Cristo era humano e a reencarnação dos profetas passado; observavam a Lei Mosaica, a Circuncisão, o sábado e as liturgias da Sinagoga. Admitiam dois princípios originais, um masculino, “Senhor das Grandezas, Rei da Luz”, e o segundo feminino “Espírito Santo, Ruach”, e tinham em Jesus como o primeiro mensageiro excelso de Deus, que teria aparecido personificado várias vezes, de modo particular em Adão. Há um entendimento, que eles não eram uma corrente religiosa, mas uma seita sob a influência de um misterioso livro de Revelações, que dentre o livro de Revelações, que dentre o seu conteúdo anunciavam um juízo vindouro. Hipólito, em sua tradição Apostólica cita um certo livro de revelação elcasaíta, pregando um segundo batismo, assim como, Orígenes escreveu que os elcasaítas apareceram em Cesareia anunciando que o perdão era também para aqueles que renegaram a fé.
ADOCIONISMO DE HERMAS E O ADOCIONISMO EBIONITA.
A matriz judaica herética do Adocionismo de Hermas e o Adocionismo Ebionita, de certa forma também influenciaram a Igreja primeva dos dois primeiros séculos, porém, de maneira mais moderada, a princípio Hermas tem sua Teologia influenciada sobremaneira pelo Judaísmo, e sua Cristologia identifica Jesus como divino, só após a ressurreição, é que
Ele recebe o Espírito Santo, por causa da sua fidelidade e caráter como “carne”, mas, não como o Filho do Deus vivo;

Já o Adocionismo ebionita viviam, conforme a Lei judaica e rejeitavam peremptoriamente a pregação paulina. Negavam a divindade de Cristo, porém o reconhecem como o Messias anunciado pela Lei e pelos profetas, nasceu naturalmente da relação entre Maria e José, porém sua filiação divina só ocorre durante o batismo com o Espírito Santo. Os ebionitas
interpretavam as expressões “Filho de Deus”, “Verbo”, “Espírito Santo”, segundo as categorias hebraicas, no sentido em que nenhuma delas era considerada “pessoas”, no sentido filosófico e ontológico; negavam Jesus como Deus e sua preexistência como Verbo. Eles defendiam que Deus deu o título ao nosso Senhor Jesus Cristo, de Filho porque o
adotou.

REFERÊNCIA.
1. GONZALEZ, Justo L.. A Era dos Mártires. Uma história ilustrada do Cristianismo. Vol. 1. S. Paulo. Vida Nova. 1995. 177 pg.
2. ALTANER, B. & STUIBER A.. Patrologia. S. Paulo. Paulus. 1988. 545 pg.
3. PELIKAN, Jaroslav V.. Tradição Cristã. Uma história do desenvolvimento da doutrina. Vol.I. Trad. Lena Aranha & Regina Aranha. S. Paulo. Shedd. 2014. 376 pg.
4. FRANGIOTTI, ROQUE. História das Heresias (séculos I - IV). Conflitos Ideológicos dentro do Cristianismo. S. Paulo. Paulus. 2013. 168 pg.
5. CAIRNS, Earle E.. O Cristianismo através dos Séculos. Uma História da Igreja Cristã. S. Paulo. Vida Nova. 2008. 671 pg.
6. CRISTIANI, Quirino. Breve História das Heresias. Trad. José A. Dellagnelo. S. Paulo. Ed. Flamboyant. 1962. 128 pg.

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