segunda-feira, 29 de julho de 2019

O Papel Feminino no Primeiro Século

(Império Romano)
"A mulher é definida pelas leis de Roma, não como pessoa, mas como coisa e, se faltasse o título de sua posse, poderia reclamar-se como quaisquer móveis. Era tratada como escrava do homem e não como sua companheira e amiga; era comprada, vendida, trocada, desposada, casada, divorciada e separada de seus filhos sem seu consentimento e sem misericórdia, a vontade do capricho do seu senhor. Ele podia legalmente matá-la ainda que fosse por ter provado seu vinho ou por ter usado suas chaves." (SCOTT, Benjamin. As catacumbas de Roma p. 27- 29).
O trecho do livro supracitado descreve a infelicidade de uma realidade negra da história, no que respeita as mulheres. Porém, a história também relata o divisor de águas proposto pelo caráter da mensagem de Jesus , que confrontou e desconstruiu toda e qualquer subvalorização opressora , lançando luz ao real significado e importância das pessoas. 
Para nos levar a compreender o impacto do advento de Cristo na história de muitas vidas, vale voltarmos ao remoto tempo do primeiro século. E isso, pelas lentes sensíveis de Rute Salviano, que tem se dedicado por muitos anos aos estudos sociais e teológicos e assim, trazido preciosas informações sobre a história do Cristianismo.



Com o advento do Cristianismo e sua proposta de igualdade, humanidade e certeza de vida eterna, muitos foram atraídos. E as mulheres, consideravelmente, constituíram uma parcela muito significativa de conversão a fé cristã, uma vez que, dentre muitos outros aspectos, sentiam que na igreja tinham um lugar, um propósito de vida.

A definição do ser mulher em Roma era sempre baseada em sua inferioridade social e familiar , pois ela nem sequer tinha direito a própria identidade. Nos recenseamentos só eram contabilizadas as mulheres herdeiras; foi somente no século III depois de Cristo que Diocleciano ordenou, por razões fiscais, que fossem contadas.
Os romanos usavam o prenomen (nome pessoal), o nome gentilicium (nome de família) e o cognomen (apelido), por exemplo: Marco Tulio Cicero. Já as mulheres recebiam o nome de família, a filha de Marco Túlio seria chamada de Túlia. Os homens não se preocupavam em dar nomes as suas mulheres, pois não as consideravam como indivíduos genuínos. Elas eram apenas frações anônimas e passivas de uma família, portanto não receberam nomes singulares até uma época tardia da história romana. Os nomes Cláudia, Júlia, Cornélia Lucrécia , são derivados do sobrenome com terminação masculina. Todas as irmãs tinham o mesmo nome e eram distinguidas por epítetos como: a mais velha , a mais nova, a primeira a segunda , etc.

As romanas jamais eram dissociadas do ser mãe, mulher, ou filha de alguém, preferencialmente do sexo masculino , como por exemplo, pode ser citada a famosa Cornélia, cuja notoriedade é ligada aos homens de sua família. Ela foi mãe dos Gracos, irmãos que tentaram reformar Roma; filha de Cipião Africano, que derrotou o poderoso Aníbal e esposa do senador Tibério Sempronio Graco. Mesmo tendo ações Independentes, estas só foram legitimadas por suas ligações com o mundo masculino.
A idade escolar começava aos seis ou sete anos. As meninas ricas tinham aulas particulares em casa, onde aprendiam a ser graciosas com aulas de música e dança. Nas aulas de literatura apreciavam os poetas e as histórias de amor de Ovídio, Horácio, Terêncio.

Aos 12 anos a vida dos meninos e meninas seguiam caminhos distintos. Somente os meninos continuavam a estudar, sob o chicote de um "gramático" ou professor de literatura; as meninas ja podiam ser dadas ao casamento e ao 14 anos eram consideradas adultas. Aquela que aos 18 anos ainda não fosse casada, eram considerada, em Roma, uma solteirona.
Quando chegavam a idade de casar, seus sentimentos pouco importavam, porque eram os pais que escolhiam os maridos. Se ao filho cabia manter o nome da família, cabia a filha concretizar uma aliança matrimonial conveniente.

Que valor tinha uma menina? Caso fossem agraciados pela sorte, os pais poderiam esperar da filha o vínculo pelo casamento com uma família poderosa, assegurando uma aliança útil. O mais provável , no entanto, seria a responsabilidade tanto de cuidar quanto de alimentar ao longo de 15 anos para depois ter de pagar uma soma desastrosa para que , após o casamento tirasse de suas mãos. Não é de admirar que um dos adjetivos preferidos aplicados as filhas fosse "odiada".
Diante de tamanho contexto tenebroso em que as mulheres do primeiro século se encontravam, elas encontraram nas Palavras do Senhor alívio e esperança, e a narrativa neotestamentária testemunha isso.
Jesus apiedou-se das mulheres mais despojadas, como a viúva de Naim, louvou a viúva das duas moedinhas, por entregar tudo o que possuía e a cananeia por sua grande fé, perdoou os pecados a ungiu porque "muito amou".
Depois da crucificação e ressurreição de Cristo, as mulheres continuaram firmes na sua fé , foram as primeiras a vê-lo ressurreto e anunciar sua ressurreição.

Posteriormente, muitas foram as primeiras em seus lares a se converter, como Lídia ( Atos 16.14,15), da cidade de Tiatira, Damares (Atos 17.34), de Antenas e outras que acompanhavam o apóstolo Paulo.
O cristianismo nos primórdios, por vezes fora apresentado como a religião das mulheres porque elas representavam parte significativa de seus membros. Com elas, as congregações passaram a receber grande números de crianças.

Celso, o acusador dos cristãos, afirmou que: " sucede o mesmo no seio das famílias. Veem-se cardadores de lã, sapateiros, pessoas de maior ignorância e desprovida de abrir a boca; mas se surpreendem em particular as crianças da casa ou as mulheres que não têm mais entendimento que eles próprios, poê-se a impingir-lhes maravilhas ".
Um dos fatores de atração do Cristianismo para as mulheres foi justamente a igualdade ensinada pelo evangelho. Daí todas achavam lugar nas fileiras cristãs: patricias e plebéias, escravas ou ricas matronas, jovens virgens ou pecadoras arrependidas.


Resumo extraído do livro: Vozes Femininas no Início do Cristianismo/ Rute Salviano Almeida

Por Fabiana Ribeiro.

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