Por Michael J. Kruger
Nos debates em andamento sobre a confiabilidade dos manuscritos Cristãos primitivos, e se eles foram transmitidos com fidelidade, é frequentemente alegado que os escribas Cristãos primitivos eram amadores, não profissionais, e alguns provavelmente nem sabiam ler.
No livro de Michael Satlow, How the Bible Became Holy [Como a Bíblia se tornou sagrada] (Yale, 2014), esse mesmo tipo de argumento aparece. O livro de Satlow argumenta que tanto os cânones do Antigo Testamento quanto do Novo Testamento eram tardios, e que eles não tiveram autoridade real até o terceiro ou quarto século d.C. E parte da evidência para essa afirmação vem da avaliação de Satlow dos manuscritos do NT. Ele afirma:
As cópias dos primeiros manuscritos Cristãos de cerca do segundo século d.C., eram pragmáticas. Elas eram geralmente copiadas em papiro, em vez do pergaminho mais caro e durável. Essas cópias não têm os sinais de terem sido escritas por um escriba profissional e de serem destinadas à recitação pública (255).
Há muitas afirmações neste breve conjunto de frases. Infelizmente, praticamente todas são fruto do engano. Vamos avaliar cada uma por vez:
1. Os primeiros manuscritos do NT eram não profissionais/pragmáticas. Esta afirmação, embora corrente, tem sido seriamente questionada nos últimos anos. Embora alguns dos primeiros Papiros Cristãos (segundo e terceiro séculos) não tenham sido caracterizados pelo estilo formal que era comum entre os livros das Escrituras Judaicas ou textos literários Greco-Romanos, outros estavam muito mais próximos da meta literária dessa escala do que frequentemente se percebe. De fato, muitos textos Cristãos do segundo e terceiro séculos exibem um estilo literário manuscrito mais refinado, como P77 (Mateus), P46 (cartas de Paulo), P4-P64-P67 (Lucas e Mateus) e P66 (João).
Tal evidência levou Graham Stanton a declarar: “A alegação frequente de que os evangelhos foram considerados inicialmente como manuais pragmáticos precisa ser modificada” ( Jesus and Gospel, 206). Da mesma forma, Kim Haines-Eitzen afirma diretamente: “Os primeiros copistas da literatura Cristã eram escribas profissionais treinados” (Guardians of Letters, 68, ênfase minha).
2. Manuscritos sérios estavam em pergaminho, não em papiro. Isso, novamente, é um pouco enganador. Nos primeiros quatro séculos, a maioria dos manuscritos Cristãos estava em papiro, mas isso não significa que eles fossem menos valorizados ou considerados algo diferente das Escrituras. De fato, os Evangelhos estavam em papiro durante este período de tempo, mas Justino Mártir nos diz que eles eram lidos como Escrituras ao lado de livros do AT ( 1 Apol. 67.3). Além disso, muitos manuscritos do AT estavam em papiro durante esse período de tempo! E isso certamente não sugere que a autoridade desses manuscritos deva ser diminuída.
Além disso, a ideia de que o pergaminho é mais durável que o papiro foi contestada tanto por T.C. Skeat ("Early Christian Book Production", 59-60), quanto por Harry Gamble ( Books and Readers, 45). Veja também comentários sobre papiro de Plínio, o Velho ( Nat. 13.74-82).
3. Os manuscritos do NT não foram destinados à leitura pública. Essa ideia, mais uma vez, foi seriamente desafiada por diversos estudiosos modernos. Larry Hurtado e Scott Charlesworth observaram que os manuscritos do Novo Testamento, comparados aos textos literários de elite no mundo Greco-Romano, têm um número excessivo de ajudas ao leitor, espaçamento entre linhas mais generoso e mais caracteres por linha - tudo projetado para ajudar no leitura pública desses livros. Isso também parece se encaixar na declaração de Justino Mártir, mencionada acima, de que os primeiros textos Cristãos estavam sendo lidos publicamente nos cultos.
Além de tudo isso, pode-se acrescentar que a prática dos escribas Cristãos de abreviar palavras-chave como Deus, Senhor, Cristo e Jesus - chamada de nomina sacra (“nomes sagrados”) - indica um livro/escriba substancialmente bem organizado e desenvolvido culturalmente.
Os nomina sacra não só foram difundidos entre os primeiros manuscritos Cristãos (dificilmente podemos encontrar um texto sem eles), mas eles também têm raízes profundas que chegam bem no primeiro século.
Como uma convenção de escribas tão antiga e difundida emerge de uma cultura de escribas supostamente amadora e desorganizada? Em suma, isso não existe. Pelo contrário, Skeat argumenta que a nomina sacra “indica um grau de organização, de planejamento consciente e uniformidade de prática entre as comunidades Cristãs, as quais até agora temos poucas razões para suspeitar” (73).
Em suma, a alegação muitas vezes repetida de que os primeiros escribas Cristãos eram não-profissionais e destreinados simplesmente não se ajusta ao que sabemos sobre os manuscritos Cristãos primitivos nem sobre a cultura literária Cristã primitiva. Loveday Alexander fornece um resumo perfeito,
É claro que estamos lidando com um grupo [Cristãos primitivos] que usaram livros intensiva e profissionalmente desde muito cedo em sua existência. A evidência dos papiros do século II em diante sugere. . . o desenvolvimento inicial de uma tecnologia de livro tecnicamente sofisticada e distinta (“Ancient Book Production and the Circulation of the Gospels” [Produção de Livros Antigos e Circulação dos Evangelhos], p. 85).
Fonte:
Tradução Walson Sales.
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