sábado, 27 de julho de 2019

Uma perspectiva cristã sobre sistemas de crenças pagãs e seculares

Por KENNETH R. SAMPLES

Como os Cristãos veem os sistemas de pensamento que estão enraizados em crenças pagãs ou seculares? Os sistemas de crenças não-Cristãs estão tão cheios de erros que os Cristãos não podem aprender nada deles? Eles são tão estranhos que só corrompem a verdade Cristã? Ou existem importantes bases revelacionais disponíveis a todas as pessoas que permitem aos não-Cristãos descobrirem verdades críticas sobre a vida e o mundo? Estas descobertas da verdade entre pagãos poderia significar que os Cristãos podem aprender com fontes pagãs ou seculares?
Esta questão controversa de como os Cristãos devem ver sistemas de crenças não-Cristãs é bem antiga na história Cristã. No mundo antigo, a questão centrou-se na relação do Cristianismo com a filosofia Greco-Romana. Dois pais proeminentes da igreja Cristã primitiva no mundo antigo apresentaram respostas diferentes para essa questão desafiadora. Curiosamente, esses dois pensadores Cristãos foram notáveis pais da igreja no Norte da África.

Perspectiva Antagônica de Tertuliano
Tertuliano (c. 160-220) foi um pai da igreja Latina no Norte da África, que foi educado em assuntos de direito e retórica e era um escritor envolvente. Ele se converteu ao Cristianismo na meia-idade. Singular, corajoso e temperamental, ele serviu como apologista e polemista no Cristianismo primitivo, numa época em que a fé encontrava uma cultura Romana hostil.
A visão de Tertuliano sobre a relação do Cristianismo com a filosofia pagã reflete uma clara antítese (um choque de oposição). Ele acreditava firmemente que os Cristãos não precisavam ou deveriam usar a filosofia pagã. Em sua mente, a filosofia pagã contaminou e corrompeu a verdadeira fé Cristã.

Aqui está Tertuliano em seu melhor momento polêmico:
O que realmente tem Atenas a ver com Jerusalém? Que concordância existe entre a Academia e a Igreja? O que há entre hereges e Cristãos? Nossa instrução vem do pórtico de Salomão, que ele próprio ensinou que o Senhor deveria ser procurado com simplicidade de coração. Fora com todas as tentativas de produzir um Cristianismo manchado de composição Estoica, Platônica e dialética! Nós não queremos nenhuma disputa curiosa depois de possuir a Cristo Jesus, nenhuma inquirição depois de desfrutar do Evangelho! Com a nossa fé, não desejamos mais nenhuma crença. Pois esta é a nossa fé esplêndida, que não há nada que devamos acreditar além dela.*[1]
Perspectiva da apropriação crítica de Agostinho
Agostinho (354-430) foi um autor prolífico, um teólogo robusto, um filósofo perspicaz e um tenaz apologista da verdade do Cristianismo histórico. Ele é uma voz Cristã universal dentro da Cristandade Ocidental e permanece tão importante para os Protestantes quanto para os Católicos.
Agostinho reconheceu que a filosofia pagã certamente envolvia crenças falsas sobre Deus, sobre o mundo e sobre a condição humana. Ele viu um choque de cosmovisões entre a teologia Cristã e a filosofia pagã. Mas ele também reconheceu que os pagãos foram feitos à imagem de Deus e eram beneficiários da revelação geral e da graça comum. Assim, os pagãos erraram sobre algumas coisas, mas também acertaram sobre outras, inclusive sobre a realidade e a bondade moral (Atos 17: 22-30).

Aqui Agostinho está comentando sobre a proximidade e o distanciamento dos filósofos Platônicos com relação à verdade:
Os filósofos Platônicos excedem todos os outros em reputação e autoridade, apenas porque estão mais próximos da verdade do que os demais, embora estejam muito longe disso.[2]
Para Agostinho, a filosofia é uma serva (a serviço) da teologia. Mas a filosofia pagã não deve ser aceita ou rejeitada na totalidade. Antes, a filosofia pagã precisa passar por uma apropriação crítica. No pensamento de Agostinho, os Platônicos possuem a imagem de Deus, a revelação geral e a graça comum; assim, seus profundos discernimentos filosóficos os colocam perto ou “mais perto da verdade”. Mas o pecado original distorce a verdade e sem revelação especial (Cristo, o evangelho), eles ainda estão "longe da verdade".
O pensamento de Agostinho sobre esse tópico tornou-se uma posição de consenso. Por exemplo, o grande filósofo Católico Tomás de Aquino (1225-1274) seguiu o modelo de apropriação crítica de Agostinho ao formar sua síntese Cristão-Aristotélica. Aqui está a descrição do teólogo Cristão Gerald McDermott sobre a abordagem de Aquino para avaliar a filosofia de Aristóteles:
Tomás de Aquino aceitou de Aristóteles o que achava que estava de acordo com a doutrina Cristã, rejeitou o que achava que não estava (e explicou por que) e usou algumas das categorias de Aristóteles para ajudar a ensinar a fé Cristã.[3]
O que podemos aprender
Embora tenham algumas idéias importantes erradas, os grandes filósofos Gregos ainda tiveram insights profundos sobre realidades como verdade, bondade e beleza. Mas como as antigas religiões pagãs se comparam às religiões mundiais de hoje? Bem, as antigas religiões pagãs eram muito parecidas com as religiões contemporâneas não-cristãs. Essas religiões não-Cristãs tem muitos fundamentos errados (falsos deuses e falsas crenças sobre a humanidade), mas também acertaram algumas questões críticas (por exemplo, um sentido dos aspectos divinos e importantes sobre a moralidade).
Acho que o modelo de Agostinho é superior ao de Tertuliano quando se trata de explicar como o Cristianismo pode se relacionar com outros sistemas de crenças. Como Cristãos, nós admitimos que pessoas em outros sistemas religiosos obtenham coisas importantes corretamente por meio de uma revelação da verdade que é dada a todos (Salmo 19). Contudo, devemos também apreciar os inevitáveis erros e distorções devido à idolatria (falsos deuses e práticas imorais) que são inerentes às religiões não-Cristãs (Romanos 1: 18-28). Esse terreno comum oferece aos Cristãos a oportunidade de construir pontes responsáveis que, esperamos, levarão a compartilhar a mensagem do evangelho com pessoas que não conhecem a Cristo.
Notas:
1. Citado em Alister E. McGrath, ed., The Christian Theology Reader, 2nd. ed. (Oxford, Blackwell, 2001), 7-8.
2. St. Augustine, The City of God, Henry Bettenson trans. (New York: Penguin, 1984), Book 11, section 5, 434.
3. Gerald R. McDermott, The Great Theologians: A Brief Guide (Downers Grove, IL: InterVarsity, 2010), 65.

Fonte:

Tradução Walson Sales.

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