sábado, 22 de fevereiro de 2020

A misteriosa frase calvinista “de tal forma”

Como é o caso uniforme com os teólogos Cristãos deterministas [calvinistas], o calvinista apela a misteriosa frase “de tal forma” a qual eu menciono na minha contribuição a este livro. O calvinista diz, por exemplo, que Deus “determina todas as coisas ‘de tal forma’ que ‘a real atividade das causas secundárias’ é tanto afirmada quanto mantida, e por esta razão [Deus] não é a ‘única causa’ de tudo o que acontece no universo que Ele criou, nem é o autor do mal”. O calvinista declara repetidamente (geralmente citando outros) que, embora Deus seja a causa última de tudo o que existe, Deus “’concorre com todas as causas secundárias e especialmente com a vontade humana’ enquanto deixa simultaneamente a ‘contingência e a liberdade da vontade...intacta.’” Consequentemente, tudo acontece em estrito acordo com o plano predestinado de Deus, ainda “de tal forma” que Deus permanece todo santo por predestinar o mal, enquanto os agentes são moralmente responsáveis por executar o mal que Deus os predestinou a executar.   

Incrivelmente, o calvinista reconhece que isto é “inescrutável em última instância” e ainda justifica abraçar este “mistério” impenetrável ao argumentar que o relacionamento entre Deus e a criação é sui generis. Desde que isso é absolutamente singular, o calvinista conclui que não há nada que podemos comparar com este relacionamento, e assim devemos simplesmente aceitar pelo mistério incompreensível que é. O problema primário com este argumento é que as palavras só têm significado enquanto elas têm conexão, se apenas analogicamente, com nossa experiência. Consequentemente, se o relacionamento entre Deus e a criação é “completamente” singular a tal ponto que nenhuma analogia para ela possa ser encontrada, não poderíamos dizer nada significativo sobre ela. Ainda, todos os teólogos ortodoxos na história concordaram que o relacionamento entre Deus e o mundo é singular, nenhum negou a significância da fala análoga sobre esse relacionamento. E o calvinista parece concordar com este consenso, afinal, desde que ele concorda, ele tem um pouco a dizer sobre o relacionamento entre Deus a criação.

Isto nos conduz ao coração da teologia determinista do calvinista. Nem o calvinista nem qualquer outro defensor do determinismo divino, que eu saiba, tenha providenciado uma analogia que torna significativo o tipo de relacionamento entre Deus e a criação que os teólogos deterministas querem defender. E até que eles façam, eu não posso ver honestamente como atribuir significado, muito menos conceder significado a misteriosa frase “de tal forma”. Até onde posso ver, a frase equivale a nada mais do que uma reafirmação de ininteligibilidade da posição que está sendo defendida.* Os deterministas podem pressionar apaixonadamente a realidade das “causas secundárias” e a importância da “concorrência” como eles gostam, mas até que nos sejam dadas alguns meios para atribuir significado coerente a frase “de tal forma”, essas “explicações” reforçam simplesmente a ininteligibilidade desta visão.

Por esta razão, francamente, eu tive problemas para atribuir significado a maioria das explicações deterministas dos calvinistas. Por exemplo, o calvinista percebe que Deus está sempre “trabalhando concorrentemente com as coisas criadas ‘para fazê-las agir como elas agem’”. Mas o que isso pode possivelmente significar se Deus já está controlando exaustivamente todas as “coisas criadas”? O que é deixado para Deus trabalhar “concorrentemente com” a fim de “fazê-las agir como elas agem”? A menos que haja algum aspecto em contraste com as “coisas criadas” antes de Deus trabalhar concorrente com elas – que não existe nada, se todas as “coisas criadas” são exaustivamente determinadas por Deus desde o início [conforme a própria doutrina calvinista] – então, não existe nenhuma “concorrência”; existe apenas uma “ocorrência”, e ela é toda de Deus.

De forma similar, o Calvinista insiste, “As causas secundárias são e permanecem distintas de Deus, a causa primária”. Somos informados confiantemente que isto acontece “de tal forma” que a “causa primária ‘confere realidade’ as causas secundárias” tal que as causas secundárias “existem ‘unicamente como o resultado da primeira’”. Mas o que isso pode possivelmente significar, afirmar que as causas secundárias “permanecem distintas” da causa primeira quando somos também informados que a causa primeira é que “confere realidade” sobre a causa secundária, a determinando exaustivamente? Se y (causa secundária) é 100% determinada por x (causa primária), como y não é apenas outro nome para x? A menos que haja alguma qualidade em contraste de y em relação a x, então, até onde posso determinar, a afirmação que y “permanece distinto” de x é meramente verbal.

Relacionado a isso, o calvinista argumenta que a “verdadeira visão” da provisão se coloca entre a Cila do Deísmo e a Caríbdis do Panteísmo. Eu concordo com ele, mas apesar de seu sincero desejo de evitar, eu não posso ver como a própria visão do calvinista pode logicamente evitar de ser sugado por Caríbdis. Se o mundo é 100% determinado por Deus, sua “causa primária”, logo, até onde posso ver, a distinção entre Deus e o mundo é meramente verbal.** Claro, estou certo que o calvinista e outros deterministas insistirão enfaticamente e com completa sinceridade, que Deus determina exaustivamente o mundo “de tal forma” que o mundo permanece ontologicamente distinto de Deus e o Panteísmo é completamente evitado. E neste ponto eu apenas posso balbuciar, mais uma vez, o que esta frase misteriosa significa?

*Esta ininteligibilidade é ilustrada de forma sucinta no livro How Long, O Lord? Reflections on Suffering and Evil (Grand Rapids: Baker, 2006), p. 189, do D.A. Carson. Ele escreve “Deus está por trás do mal ‘de tal forma’ que nem mesmo o mal ocorre fora dos limites de sua soberania, ainda, o mal não é moralmente atribuível a Ele; o mal é sempre atribuível aos agentes secundários, as causas secundárias. Por outro lado, Deus está por trás do bem ‘de tal forma’ que o bem não apenas ocorre dentro dos limites de sua soberania, mas o bem é sempre atribuível a Ele, e apenas derivativamente aos agentes secundários”. Porém, como acontece com todos os teólogos deterministas, Carson afirma que Deus controla o mal não menos do que Ele controla o bem. Isto significa que a frase “de tal forma” serve a propósitos opostos quando usados para “explicar” como Deus não é responsável pelo mal que Ele controla, por um lado, e como Deus é exclusivamente responsável pelo bem que Ele controla, por outro lado. O que quer que seja que essa frase possa significar, eu só posso concluir que ela também pode significar, ao mesmo tempo, seu exato oposto. E isto, para minha forma de pensar, força a conclusão de que a frase “de tal forma” não significa nada. Remova a frase das sentenças acima e o significados das sentenças não é alterado. Retenha a frase nas sentenças e sua inteligibilidade não é aumentada.   

**Comecei a suspeitar que o calvinismo estrito implicava logicamente em Panteísmo enquanto lia Jonathan Edwards na graduação. Edwards, sempre um perseguidor por consistência, chega muito perto para inferir o Panteísmo de sua visão de monocausalidade divina. Em suas anotações privadas ele faz afirmações como “Falando mais estritamente, não existe nenhuma substância genuína, mas apenas o próprio Deus”; “Convenientemente pode ser dito que Deus existe e ... não existe nada mais”; e “[Deus] é um ser infinito. Portanto, todos os outros devem necessariamente ser considerados como nada...em propriedade e rigor metafísico, [Deus] existe e não existe nada mais.” H. Townsend, ed., Philosophy of Jonathan Edwards from His Private Notebooks (Westport, Conn: Greenwood Press, 1955), 17, 33, 48. Por razões teológicas, Edwards, claro, queria evitar inflexivelmente o Panteísmo, mas ele parece ter percebido no seu privado que a lógica da teologia determinista, pelo menos apontava nesta direção.     

Gregory A. Boyd

Four Views on Divine Providence, pp. 73-76. 

Tradução Walson Sales.

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