terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Afinal, quem foi Maomé? (pt. 03)

Maomé em Meca e a primeira fase do Islã

A tradição muçulmana afirma que, certa vez, Maomé estava viajando em função dos negócios de sua mulher, quando encontrou um monge na Síria, e ele olhou nos olhos de Maomé e disse que viu “o selo do profetismo entre seus ombros” (HOUANI, 2006, p.35)6. Maomé era um homem religioso tinha o costume de fazer retiros para fazer suas orações, mas o seu contexto era politeísta, o Dr. Bill Warner explica que:

Ele era um homem muito religioso, e então, aos 40 anos, começou a fazer retiros religiosos, deixando a cidade de Meca e orando por si mesmo. Então ele começou a ouvir uma voz, e teve uma visão. Agora, essa foi uma voz que mais ninguém ouviu, e uma visão que mais ninguém viu, mas era muito importante para Muhammad, e isso mudou completamente sua vida e, de fato, todo o seu caráter. (2019)7.

Maomé afirmou ter recebido revelações de Allah (Deus) através de um anjo (Gabriel) que o visitara durante uma meditação no monte Hira, “Muhammad recebeu sua revelação quando um ser sobrenatural o atacou na caverna Hira: ‘O anjo [anjo?] me pegou a força e me pressionou tão forte que eu já não podia suportar’ (Bukhari 9:111)” foi a partir deste momento em que Maomé começou a adotar este nome que quer dizer “altamente louvado”. Tais revelações são o que posteriormente foi denominado de o Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos, por volta de 650 d.C, conforme a tradição islâmica Maomé não sabia ler nem escrever, ele recitava e alguns de seus discípulos escreviam enquanto outros decoravam tudo quanto ele lhes citava e ordenava. Com suas habilidades como “Político talentoso, chefe militar e legislador” (SALES, 2016, p. 180)7, ele começou a pregar e exercer influencias sobre o movimento religioso que acontecia na época.
Após o recebimento dessas mensagens, Maomé voltou para Meca e começou a pregar aos seus amigos e parentes de que havia sido escolhido para ser profeta do único Deus do universo, essa era uma mensagem estranha aos ouvidos dos moradores de Meca, que como já vimos, era uma cidade de peregrinação politeísta. Abdul Saleeb (2016, p.78)8, nos informa que Maomé passou ao menos treze anos pregando sobre a unidade de Allah o dia do Julgamento, o cuidado com as viúvas e os órfãos a condenação de fraudes e outros temas religiosos como o monoteísmo, entretanto sua mensagem era rejeitada mais uma vez pelos moradores de Meca. Sua esposa Khadija que ainda era viva, foi a primeira pessoa a se converter, depois seu primo Ali Abi Talib que na época tinha dez anos de idade, e que depois veio a se tornar braço direito do Islã, e o mais famoso “evangelista” muçulmano Abu Bakr, que conseguiu ganhar vinte e cinco pessoas, incluindo Al-Arqam, que cedeu a sua casa para que Maomé ensinasse a nova religião ao povo, e daí em diante outros poucos se converteram, seus principais seguidores eram servos e escravos oriundos da Arábia Ocidental, sobretudo de Meca, somente depois de algum tempo pregando o Islã e ganhar influência foi que Maomé conseguiu fazer acordos com alguns líderes tribais prometendo-lhes proteção, no início da propagação da mensagem de Maomé foi bem aceita pois, como Meca era um centro de peregrinação politeísta, seria apenas mais uma religião, só que com a pregação de submissão e monoteísmo, a mensagem de Maomé causava uma certo alvoroço pois os moradores de Meca o chamavam de louco:

Quando Maomé começou a receber as supostas revelações no período chamado "Meccia", ou seja, quando ele ainda estava em Meca e recebia uma grande oposição e por estar em minoria era pacífico, Maomé recebeu revelações de paz e salvação para os Cristãos e Judeus. Diante da intensa acusação de falso profetismo e de que ele estava louco (ele mesmo tentou se matar muitas vezes), Maomé começou a revelar dois tipos de versos no alcorão, (1) o de que não era louco e (2) como Maomé morreria se fosse um falso profeta. No primeiro grupo temos o anjo Gabriel revelando repetidamente que Maomé não era louco:
Sura 7, verso 184 do Alcorão: “Não se deram conta de que em seu camarada, Muhammad, não há loucura e que é apenas um admoestador?”
Sura 23, verso 70: “Ou dirão: ‘é um louco’ quando ele só lhes revelou a verdade? A maioria deles tem aversão pela verdade.”
Sura 34, verso 46: “Dize: ‘exorto-vos a uma coisa só: que fiquei de pé diante de Deus, cada um por si só ou dois por dois, e que reflitais.’ Não, não há loucura em vosso camarada. Ele é apenas um admoestador para vós. Eu disponho de um suplicio terrível.”
Sura 37, versos 35 a 36: “Quando se lhes dizia: ‘Não há Deus senão Deus’, ensoberbeciam-se e enfatuavam-se, e diziam: ‘Iremos abandonar nossos deuses por um poeta louco?’”
Sura 52, verso 29: “Adverte, pois! Pela graça de teu senhor, não és nem um possesso nem um louco.”
Sura 68, verso 2: “Não é, graças a Deus, um louco.”
Sura 81, verso 22: “Vosso camarada não é um louco.”
[nota: estes versos foram citados da versão do Alcorão traduzida para o português por Mansour Challita] (WOOD, 2019)8


Entretanto, mesmo com essa atitude do povo de Meca, Maomé continuou a pregar então alguns princípios não foram bem aceitos pelo povo, com uma mensagem de total submissão à sua mensagem e o abandono aos deuses adotados pelo povo de Meca não conseguia engrenar da forma de como ele gostaria:

O primeiro desses princípios foi a submissão. Muhammad disse que o Deus do Universo disse-lhe para dizer a todas as pessoas que eles deveriam fazer exatamente o que ele disse quando disse isso: que suas vidas deviam ser modeladas nele, que ele era o homem perfeito, o padrão perfeito. Isso criou dissensão dentro de Meca porque, entre outras coisas, ele disse aos habitantes de Mecca que seus antepassados estavam queimando no inferno. Ele então criou, ao mesmo tempo, um segundo princípio chamado dualidade. Ele criou uma grande divisão entre aqueles que acreditaram no que ele disse e aqueles que não acreditaram. Esta foi a grande divisão do Alcorão - a humanidade foi dividida em crentes e não crentes, o muçulmano e o Kafir (WARNER, 2019)9


Aliás, esse é um dos princípios do Islã nos dias de hoje, por isso é importante conhecermos bem a história de Maomé. 
Por Meca ser uma cidade de peregrinação politeísta pois lá se encontra a Caaba, uma pedra negra que depois foi adotada por Maomé como sendo um lugar de adoração à Allah, e ainda sofria influencias do cristianismo de Bizâncio os seus conterrâneos perceberam que sua mensagem se tornara uma ameaça às relações comerciais por isso, no ano de 622 d.C.:

As peregrinações pagãs a Meca e as feiras a elas associadas estimulavam o comércio. [...] A Caaba, em Meca, já era evidentemente um lugar importante nos tempos pré-islâmicos par a veneração dos deuses, e era o único edifício e o único lugar onde os sacerdotes realizavam seu culto. Centenas de ídolos teriam sido adotados na Caaba. Segundo a tradição islâmica, Maomé teria destruído 360 imagens de deuses durante sua “peregrinação de despedida” a Meca em março de 632, ano de sua morte (SCHIRRMACHER, 2017, p.27)10

Essas peregrinações traziam muitas pessoas para Meca e seus moradores aconselhvam essas pessoas a não ouvirem a mensagem de Maomé. No início da carreira de Maomé sua pregação era semelhante aos ensinos judaicos e cristãos. A posição sobre Maomé tornou-se tão pesada para sair de Meca, já que era comerciante na época, que ele teve que mudar-se para Medina num ato forçado. 
A passagem mais marcante de Maomé sobre Meca foi em sua volta para a cidade depois de passar aproximadamente 10 anos ganhando pessoas para o Islã e subjugando outras tribos arrecadando muitos espólios de guerra e formando um verdadeiro exército para que fosse, no final de sua vida realizada a vingança contra seu próprio povo. Esse fato nos mostra que a Arábia pré-islâmica era um lugar tolerante em relação à prática das demais religiões, mas:

Mohammed era um homem muito intolerante. Isto é interessante. Antes de Muhammad, os Árabes eram conhecidos por sua tolerância religiosa. Na verdade, Meca, a cidade onde Mohammed subiu primeiramente ao poder, teve mais de 360 religiões. Nenhum homem foi ferido por causa de sua religião até Muhammad. Mohammed converteu os árabes de serem tolerantes ao mais intolerante dos povos e a razão pela qual os árabes se tornaram intolerantes foi que eles seguiram a Sunna de Maomé. (WARNER, 2019)11

E essas características de Maomé o seguiu durante sua jornada. Segundo Bill Warner, Maomé passou 13 anos pregando em Meca e conseguiu apenas 150 seguidores. A perseguição ferrenha, proibindo as mulheres de se casarem com alguém da tribo de Maomé ou algum outro seguidor seu e como a maioria dos seus seguidores eram escravos ou da classe média baixa eram boicotados (comerciantes) e até espancados em praça pública (escravos e pobres), tanto que ele se viu obrigado a sair de Meca. Esse boicote foi tão grande que Mark A. Gabriel comenta que “O líder do boicote era um homem chamado Abu Lahab, outro dos tios de Maomé. Dirigiu-se ao mercado e disse: ‘Oh comerciantes, aumentai vossos preços para que a gente de Maomé não possa comprar nada. Se alguém se preocupar com prejuízos que tiver eu tenho dinheiro suficiente para compensar.” (2006, p.50, PDF)12. Com a morte de seu tio, que lhe protegia e de sua esposa que lhe dava apoio moral e financeiro os moradores de Meca cercaram os seguidores de Maomé e aumentaram ainda mais a perseguição. Alguns moradores de Medina, foram até Meca fazer suas peregrinações religiosas, chegando lá ouviram a mensagem de Maomé, que lhes prometeu levar paz à sua terra, segundo Harry Richardson, Maomé os leva até um lugar, fora de Meca e lhes faz um juramento de guerra, os coraixitas ficam sabendo e organizam uma emboscada para matar Maomé, com isso Maomé decide sair de Meca. (pg. 20). A fuga de Maomé para Medina é muito marcante para o mundo muçulmano onde é chamada de Hégira, e foi justamente neste dia que foi estabelecido como a fundação do Islamismo e deu-se o início da marcação do calendário Islâmico.

Por Rafael Félix.

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