quinta-feira, 11 de junho de 2020

SATANÁS NAS DUAS GRANDES OBRAS DE BLAVATSKY

Os dois livros mais difundidos de Blavatsky (embora talvez não sejam os mais lidos, pelo menos não na sua totalidade, devido ao seu volume: mais de 1.200 e quase 1.5000 páginas, respectivamente) foram “Isis sem Véu” (1877) e “A Doutrina Secreta” (1888).  Eles foram extremamente bem sucedidos comercialmente, com o primeiro livro a vender cerca de meio milhão de exemplares até 1980.  Ambos foram escritos com a ajuda de vários colaboradores.  Para “Isis sem Véu” Bravatsky contou com a ajuda de Olcott, que editou muito seu texto e escreveu ele mesmo algumas seções.  O trabalho sobre o segundo livro foi um pouco semelhante.  O caótico e totalmente desorganizado manuscrito de vários milhares de páginas, fazendo uma pilha de mais de um metro de altura, que Blavatsky trouxe com ela para Londres em 1887, foi editado em algo gerenciável por Archibald e Bertram Keightley em cooperação com uma série de outros jovens teosofistas.  O cientista júnior Ed Fawcett ajudou quem citou e escreveu muitas páginas para as seções sobre ciência (Campbell 1980, 32-5, 40-1).  Ambos os trabalhos são, portanto, esforços colaborativos.  No entanto, não encontrei menção a ninguém que tenha sido especificamente envolvido com as passagens em que Blavatsky reinventa várias narrativas bíblicas e elogia Satanás, e, por isso, aqui suponho que tenham sido escritas mais ou menos por ela mesma.

Comentaristas acadêmicos têm comentado com frequência a incoerência e a abstrusidade dos livros de Blavatsky, enquanto teosofistas tendem a afirmar que há um fio vermelho subjacente a ser encontrado - pelo menos para os iniciados.  Mesmo num contexto acadêmico, alguns tomaram uma posição extremamente simpática em relação à coerência dos textos de Bravatsky. Emily B. Sellon e Renée Weber escrevem:

Trabalhos como “A Doutrina Secreta” são tão cheios de ambiguidades, digressões e sobreposições simbólicas que desnorteiam e frustram o leitor casual. O uso da linguagem paradoxal e simbólica como método válido para transmitir a verdade é, porém, central para a epistemologia teosófica, que considera o despertar da intuição (buddhi) como essencial para o crescimento espiritual. (Sellon & Weber 1992, 320.)

Embora os textos comecem, reconhecidamente, a fazer mais sentido quanto mais fundo se penetra no mundo simbólico de Blavatsky, eles ainda são caracterizados por uma grande confusão que certamente não reside apenas no leitor não-iniciado. Portanto, a discussão a seguir não tenta extrair uma doutrina totalmente consistente dos textos, mas, ao contrário, trazer à tona, das contradições e incertezas, as instâncias de estruturas de pensamento subjacentes identificáveis, ao mesmo tempo em que destaca as inconsistências. Já em “Isis sem Véu”, Blavatsky fala do Diabo com alguns detalhes. Seu capítulo sobre a figura aqui é, no entanto, principalmente uma sarcástica exposição de crenças dos cristãos sobre o Diabo, que ela achou singularmente ridícula. Nenhuma celebração da figura digna de menção é encontrada (Blavatsky [1877]/1988, Vol. II, 473-528). A única tendência nessa direção é um pequeno acúmulo - meia página num capítulo de 56 páginas - de uma visão cabalista de Satanás como uma força antagônica cega necessária à vitalidade, ao desenvolvimento e ao vigor do princípio do bem (Blavatsky [1877]/1988, Vol. II, 480, 500).  Satanás também é mencionado em um punhado de outros lugares neste livro, fora do capítulo dedicado a ele, mas na maioria dos casos o que encontramos são variações de frases como "a existência do Diabo é uma ficção, que nenhuma teologia é capaz de demonstrar" (Blavatsky [1877]/1988, Vol. I, 472).  Nos onze anos entre esta obra e sua célebre “A Doutrina Secreta”, Blavatsky mudou sua visão sobre diversos temas.  Anteriormente, ela rejeitava o conceito de reencarnação, mas agora vem a defendê-lo com firmeza (Hammer 1999, 226-7). Satanás, também, é visto de uma maneira totalmente diferente.  Ela agora lhe oferece dois capítulos ao invés de um, e ele se torna um símbolo explicitamente positivo.

Blavatsky argumenta que Satanás - ou Lúcifer, ou o Diabo, como ela frequentemente usa os nomes de forma intercambiável (por exemplo, Blavatsky 1888a, Vol. II, 510-3) - trouxe sabedoria espiritual à humanidade, e é "o espírito da Iluminação Intelectual e da Liberdade de Pensamento" (Blavatsky 1888a, Vol. II, 162). [6] Como os Românticos, ela traça um paralelo entre Satanás e Prometeu (Blavatsky 1888a, Vol. II, 244).  A função de Satanás como herói cultural no mesmo espírito do Titã grego é evidente na Bíblia, afirma ela, desde que lida corretamente:

[...] é natural - mesmo do ponto de vista da letra morta - ver Satanás, a Serpente do Gênesis, como o verdadeiro criador e benfeitor, o Pai da Humanidade Espiritual.  Pois foi ele o ‘Prenunciador da Luz’, luminoso Lúcifer, que abriu os olhos do autômato criado por Jeová, como alegado; e aquele que foi o primeiro a sussurrar: ‘no dia em que dele comerdes sereis como Elohim, conhecendo o bem e o mal’ - só pode ser considerado à luz de um Salvador.  ‘Adversário’ de Jeová, o ‘espírito personificante’, ele ainda permanece na verdade esotérica o sempre amado ‘Mensageiro’ (o anjo), os Serafins e Querubins que ambos conheciam bem, e amavam ainda mais, e que nos conferiram a imortalidade espiritual, em vez da imortalidade física - esta última uma espécie de imortalidade estática que teria transformado o homem em um ‘Judeu Errante’ imortal. (Blavatsky 1888a, Vol. II, 243).

Esta é uma contra leitura gnóstica-satânica de Gênesis 3 que está estranhamente em desacordo com a cosmologia geral de Blavatsky.  Em outro lugar, ela afirma claramente que não há nenhum Deus criador, e nenhuma oposição entre Deus e Satanás, ambos são apenas poderes dentro do próprio homem, cada um útil em seu próprio direito (por exemplo, Blavatsky 1888a, Vol. II, 389, 478, 513). Tudo isso é contradito na passagem citada acima, onde Deus criou o homem, Satanás o libertou dos grilhões deste demiurgo e ambos são, estranhamente, muito parecidos com personagens autoconsciente com uma existência independente.

A descrição dos acontecimentos em Gênesis, diz Blavatsky, precisa ser interpretada alegoricamente para que o núcleo dos verdadeiros acontecimentos seja discernido por trás dos véus da ornamentação mítica.  Não há dúvida de que Blavatsky vê a figura de Satanás nesta narrativa como uma força inequivocamente boa, um ajudante e amigo da humanidade:

“Satanás”, uma vez que deixa de ser visto no espírito supersticioso, dogmático e não filosófico das Igrejas, cresce na imagem grandiosa de quem fez do terrestre um homem divino; quem lhe deu, ao longo do longo ciclo de Maha-kalpa a lei do Espírito da Vida, e o libertou do Pecado da Ignorância, portanto da morte (Blavatsky 1888a, Vol. I, 198).


PER FAXNELD - Stockholm University - Blavatsky the Satanist: Luciferianism in Theosophy, and its Feminist Implications. 2012, pp. 210-213.
Fonte: https://journal.fi/temenos/article/download/7512/6499

Tradução Nivaldo Gomes.

Notas de Rodapé:

[6] - De acordo com o uso do nome Blavatsky, e por uma preocupação estilística com a variedade, eu também uso esses nomes diferentes de forma intercambiável.

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