sábado, 4 de julho de 2020

O ARGUMENTO COSMOLÓGICO SOBRE A EXISTÊNCIA DE DEUS EM TOMÁS DE AQUINO - Síntese.

BY WILLIAM LANE CRAIG.

Desde Platão, filósofos e teólogos  sempre tentaram  encontrar uma base racional para a fé em Deus. [...] Só há esperança de solução para o predicamento humano se houver Deus. Portanto, a questão da existência de Deus é vital para  nós hoje. A maior parte das pessoas talvez concorde que essa questão é de grande importância existencial, mas, ao mesmo tempo, nega que seja suficientemente importante para que mereça  alguma argumentação. Para o senso comum, é impossível provar a existência de Deus e, por isso, se queremos crer em Deus, devemos aceitar pela fé que ele existe.

Os últimos 50 anos, porém, testemunharam um ressurgimento notável do interesse pela Teologia natural, ramo do conhecimento teológico que procura fundamentar a crença na existência de Deus servindo-se de recursos que não os da revelação proposicional de caráter inquestionável. Atualmente, ao contrário do que ocorria há apenas uma geração, a Teologia natural é um campo de estudos pulsantes.

No dia 08 de abril de 1966, a revista Time estampou em sua capa três palavras  apenas impressa na cor vermelho sobre um fundo preto: “Deus estar morto”. O artigo debruçava-se sobre o movimento vigente  entre teólogos americanos que proclamavam a morte de Deus. Ao mesmo tempo, porém, que os teólogos escreviam  o obituário de Deus, uma nova geração de filósofos redescobria sua vitalidade. Poucos anos depois da edição em que a Time  dedicara sua capa á morte de Deus, a revista saía com uma capa nos mesmos tons vermelho e preto em que fazia agora a seguinte pergunta: “Será a Ressurreição de Deus”? deve ter sido essa a impressão daqueles teólogos com vocação para agente funerário da década de 1960! Durante a década de 1970, o interesse pela filosofia da religião continuou a crescer até que, em 1980, a Time achou que era hora de publicar mais uma reportagem especial: “Defesa de Deus se moderniza”, em que descrevia o movimento entre os filósofos contemporâneos empenhados em renovar os argumentos tradicionais a favor da existência de Deus. A revista constatava  admirada: Numa revolução silenciosa do pensamento e da argumentação que seria praticamente impensável há vinte anos atrás. Deus está de volta. O mais interessante é que esse retorno não está ocorrendo entre teólogos ou crentes comuns, e sim nos círculos intelectuais arejados da filosofia acadêmica, em que o consenso banira há tempos o Todo-Poderoso do discurso frutífero.

De acordo com o artigo, o falecido Roderick Chisholm atribuía a grande influência do ateísmo sobre a geração passada aos filósofos mais renomados são teístas e recorrem a um aparato intelectual rigoroso até então ausente para a defesa da fé nesse embate.

“Os naturalistas assistiam passivamente enquanto versões realistas do teísmo, influenciados, sobretudo, pelos escritos de Plantinga, iam varrendo a comunidade filosófica de tal forma que, hoje, talvez um quarto ou um terço dos professores de filosofia sejam teístas, a maioria deles cristãos ortodoxos [...] Os teístas de outros campos geralmente isolam suas crenças teístas do seu trabalho acadêmico. Eles raramente assumem seu teísmo e jamais procuram defendê-lo em suas atividades profissionais. Se o fizessem estariam cometendo suicídio acadêmico ou, para ser mais exato, seus artigos seriam sumariamente rejeitados [...] Na filosofia porém, tornou-se “academicamente respeitável” quase que da noite para o dia defender o Teísmo, fazendo da filosofia em nossos dias um campo favorável penetração, no meio universitário, dos teístas mais inteligentes e talentosos”.

O autor concluí que ‘Deus não está morto’ no mundo acadêmico; ele ressuscitou dos mortos em fins da década de 1960 e agora está vivo e ativo em sua fortaleza acadêmica derradeira: “os departamentos de filosofia”. Esse é o  testemunho de um filósofo ateu destacado sobre a mudança ocorrida na filosofia anglo-americana diante dos seus olhos. Acho que ele talvez esteja exagerando quando diz que um quarto ou talvez um terço dos filósofos cristãos nesse campo. Hoje, todos os argumentos tradicionais  a favor da existência de Deus contam com defensores renomados e inteligentes que defendem seus argumentos em livros publicados pelas mais prestigiosas  editoras acadêmicas, em artigos veiculados em publicações profissionais de filosofia e em papers apresentados em reuniões de sociedades filosóficas profissionais.

Agora, os ateus estão no contra-ataque. Depois dos atentados terroristas de 11 de setembro pela jihad islâmica, os secularistas se tornaram muito mais agressivos, tanto nos EUA quanto na Europa, denunciando as diversas crenças religiosas  com fervor quase evangélico. Misturando cristãos evangélicos com terroristas islâmicos, autores bem sucedidos como Richard Dawkins, Daniel Danett e Sam Harris fazem a defesa do ateísmo em best-sellers e chamam a atenção para o efeito desastroso da fé religiosa para a sociedade. Por trás das obras desses autores, muito apreciados pelo público, há críticas bem mais substanciais aos argumentos teístas feitas por gente como J. Howard Sobel em Logic and theism [Lógica e Teísmo] e Michel Martin em Companion to atheism [Manual de Ateísmo]. Assistimos atualmente a uma batalha formidável pela mente e pela alma do nosso país, e os cristãos não podem ficar indiferentes a ela.

TOMÁS DE AQUINO E O ARGUMENTO COSMOLÒGICO - A EXISTÊNCIA DE DEUS.

Em contraste com o argumento ontológico, o argumento cosmológico parte do pressuposto de que algo existe e, com base nesse algo existente, chega-se á existência de uma causa primeira ou razão suficiente do cosmo. Esse argumento tem suas raízes em Platão e Aristóteles e foi desenvolvido na Idade Média  por pensadores islâmicos, judeus e cristãos. Tem em sua defesa as mentes mais formidáveis de Platão, Aristóteles, Ibn Sina [Avicena], Al-Ghazali [Algazel], Ibn Rushd [Averróis], Maimônides, Anselmo, Tomás de Aquino, Scotus Erígena, Descartes, Espinoza, Berkeley, Locke e Leibniz. Na verdade o argumento cosmológico consiste em uma família de diferentes argumentos que, para maior conveniência, podem ser agrupados em três tipos principais.

O argumento cosmológico tomista baseia-se na impossibilidade de um regresso  infinito de causas que operem simultaneamente. Ele busca uma causa que seja primeira, não no sentido temporal, mas no sentido hierárquico ou de origem . embora Tomás de Aquino (1225-1274) não seja o autor dessa linha de pensamento, ficou célebre por tê-lo resumido em suas cinco vias em ​que prova a existência de Deus. Analisaremos as três primeiras , que são versões diferentes do argumento em defesa de uma causa primeira.

A primeira via apresenta a prova da existência de um motor imóvel tomando por base  o movimento. Vemos no mundo que as coisas estão em movimento. Contudo, tudo o que se move é movido por outra coisa qualquer. Isso porque uma coisa que tenha o potencial de se mover não pode transformar em ato  seu próprio potencial. É preciso que alguma outra coisa  faça com que ela se mova. Essa outra coisa, porém, também é movida por alguma outra coisa que, por sua vez, também é movida  por outra e assim por diante. Ora, essa série de coisas movidas por outras não pode prosseguir assim indefinidamente, e isso porque em tal série, as causas intermediárias não tem poder próprio, já que são meros instrumentos de uma causa primeira.

É importante não esquecer que Tomás de Aquino pensa aqui em causas que agem todas simultaneamente, como as engrenagens de uma máquina, e não sucessivamente, como as peças de um dominó que caem uma depois da outra. Portanto, se eliminarmos  a causa primeira, o que restará serão apenas causas instrumentais destituídas de poder. Não importa o número dessas causas  é infinito, mesmo assim elas não poderiam causar coisa alguma. Um relógio não pode funcionar senão tiver uma mola, mesmo que tivesse  um número infinito de engrenagens; um trem não poderia se mover se não tivesse motor, mesmo que tivesse um número infinito de vagões. Tomás de Aquino  conclui que deve haver uma causa primeira  de movimento  em toda a série causal. Para todas as coisas semoventes – entre elas, os seres humanos, os animais e as plantas  - isso seria a alma individual, que é o motor imóvel. As almas, porém, surgem e se vão, e por isso não podem ser a causa do movimento,  das esferas celestes. Para dar conta do movimento cósmico, temos de postular  a existência de um motor imóvel absoluto, a primeira causa de todo movimento que é Deus.

A segunda via  procura provar a existência da causa primeira da existência com base na causação existente no mundo. Observamos que as causas estão organizadas em séries. Nada pode causar a si mesmo, caso contrário teria de conferir existência a sí mesmo, o que é impossível. Tudo o que é causado, portanto, é causado por alguma outra coisa. Tomás de Aquino tem em mente aqui o mesmo tipo de série causal  simultânea que tinha na primeira via, exceto que agora as causas são causas da existência , e não do movimento. A existência  de qualquer objeto depende de todo um conjunto de causas contemporâneas, cada uma das quais depende, por sua vez, de outras causas e assim por diante. Contudo, tal série causal não pode prosseguir  infinitamente pela mesma razão explicada acima. Portanto, deve haver uma causa primeira da existência de tudo o mais, e que simplesmente não foi causada. A esta causa todos chamam “Deus”.

A terceira via é a prova da existência de um ente necessário, absoluto com base na existência de entes contingentes. Deparamos no mundo com entes cuja existência não é necessária, mas apenas possível. Em outras palavras, esses entes não tem de existir, porque os vemos surgir e desaparecer. Se fossem necessários, existiriam sempre. Nem, todos os entes, porém, podem ser contingentes, porque se tudo fosse mera contingência, segue-se que, em algum momento no tempo, tudo deixaria de existir. Tomás de Aquino pressupõe aqui a eternidade passada do mundo e parece raciocinar assim: no tempo infinito, todas as possibilidades se concretizariam. Portanto  se todo ente, inclusive a própria matéria, fosse um ente contingente  apenas seria possível que nada existisse. Por conseguinte, em face do tempo passado infinito, essa possibilidade seria concretizada  e não existiria coisa alguma. Todavia, nada existiria hoje, uma vez que do nada, nada surge. Visto que isso é obviamente absurdo, nem todos os entes podem ser contingentes. Um ente, ou alguns entes, devem ser necessários. De fato, Tomás de Aquino acreditava  que muitos entes eram necessários: os corpos celestes, os anjos e  a própria matéria.

Ele prossegue indagando onde esses entes necessários vão buscar sua necessidade de ser em sí mesmo ou em outro? Tomás de Aquino faz distinção aqui entre a essência  e a existência de uma coisa. A essência  de uma coisa é sua natureza, aquele conjunto de propriedades que ela deve possuir para ser o que é. Por exemplo, a essência do homem e a “animalidade racional”. Se faltasse a uma coisa qualquer uma dessas,  propriedades, não seria um homem. A existência de uma coisa por outro lado, é seu ser. Portanto, se um ente não é necessário em sí mesmo, isso significa que sua essência difere da sua existência. Não faz parte da  sua natureza existir. Posso, por exemplo,  pensar na natureza de um anjo sem jamais saber se um anjo existe de fato ou não. Sua essência difere da sua existência. Portanto, para que tal ente exista, algo mais deve associar á sua essência um ato de existência. Desse modo, ele passaria a existir. Contudo, não pode haver uma regressão infinita de entes necessários que derivem de outros sua existência (o raciocínio é o mesmo já observado na primeira via em relação á regressão infinita). Portanto, deve haver um ente primeiro que absolutamente é necessário em sí mesmo. Nesse ente, essência e existência não são coisas distintas. De algum modo misterioso, sua natureza é sua existência. Portanto, de acordo com Tomás de Aquino, Deus é o Ente que subsiste em sí mesmo (ipsum esse subsistens). Deus é o Ente puro e é fonte do ser para tudo o mais, cujas essências não coincidem com sua existência.
Enfim, concluímos, segundo cita McGRATH aludindo a Tomás de Aquino: “que Deus, Ele é, ao mesmo tempo, o arquiteto desse mundo, e sua causa primeira. Deus criou o mundo e imprimiu sua imagem e semelhança divina em sua criação”, (McGRATH. 2005. pg 95).

FONTE.

1. CRAIG, William Lane. Apologética Contemporânea – A Veracidade da Fé Cristã. Trad. A. G. Mendes, Hans Udo Fuchs e Waldemar Kroker. S. Paulo. 2012. Edições Vida Nova. pg 90-94.

2. McGRATH, Alister E. Teologia sistemática, histórica e filosófica - Uma introdução à Teologia Cristã. S. Paulo. 2005. Sheed. 
859 pg.

VIA LEONARDO MELO

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