sábado, 4 de julho de 2020

OS PRIMEIROS PAIS APOLOGISTAS - SÍNTESE.

POR  ROQUE FRANGIOTTI  / ALTANER & STUIBER.

INTRODUÇÃO.

Sempre a verdade foi atacada. Começou no Jardim do Éden com Satanás, Gn. 3.1, 4; “[...], É assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim? “Então a Serpente disse a mulher: certamente não morrereis”. Ao longo dos séculos essa influência intensificou-se no coração e na mente dos homens. Tornou-se banal na medida que foi incorporada no dia a dia do ser humano. Praticamente as relações sociais, políticas, educacionais, econômicas, culturais e até religiosas em seus diferentes níveis são de uma forma ou de outra influenciada pela mentira. Isso é característico do ser humano caído.

Não é a toa que o próprio Jesus afirmou que o mundo jaz no maligno e que a mentira procede dele, Jo. 8.44 “Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele”. “Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e  pai da mentira. “Sabemos que somos de Deus, e que todo o mundo está no maligno. I João 5.19,. baseado nestas premissas entendemos que a mentira contaminou e contagiou o homem influenciando-o decisivamente. A mentira também atingiu a religião. É fato que as heresias e seitas estão fundamentadas em uma hermenêutica eivada de vícios e enganos. Em  uma exegese que apenas atinge os interesses daqueles que a usam e com toda sorte de engano se produzem verdadeiros absurdos teológicos na área da interpretação Bíblica.

A Igreja sofre sobremaneira com  essas falácias doutrinárias, que só pervertem o verdadeiro caminho para os céus. Porém, Deus sempre levanta homens compromissados com a verdade  das Sagradas Escrituras e que estão dispostos a defendê-la se possível com a própria morte. Na velocidade em que as heresias, mentiras e ensinos enganosos começaram a surgirem, Deus proporcionalmente levantou verdadeiros gigantes da fé, que com veemência e espírito voluntário se levantaram contra os falsos ensinos e mentiras ensinadas pelos hereges.

*OS PRIMEIROS  APOLOGISTAS *.

É razoável afirmar que antes dos padres apologistas, surgiram os padres ou pais apostólicos. Foram eles que começaram a produzir as primeiras literaturas cristãs. É este o entendimento de ROPS, “O primeiro grupo destes escritores designa-se geralmente com o nome de Padres apostólicos. São os que correspondem ás duas primeiras gerações cristãs, e dos seus autores pode-se dizer o que Santo Irineu escreveu de são Clemente: “tinha ainda a voz dos apóstolos nos ouvidos  e seus exemplos diante dos olhos”. Os primeiros, são Clemente, santo Inácio de Antioquia, são Policarpo e o desconhecido autor da Epístola de Barnabé, são certamente contemporâneos dos últimos anos de são João. Se tivermos em conta a duração da vida de um homem, os últimos situam-se entre 170-180, isto é, antes do fim do século II, [...] esta primeira literatura cristã apresenta-se, pois, sob um aspecto modesto: os seus fins e os seus meios são limitados. Mas, em breve, a partir da segunda metade do século II, começa a expandir-se e a ganhar altura” (ROPS. 1988. pg.267-272). Também, ALTANER & STUIBER  concordam que os escritos mais antigos sobre a Igreja pós-apostólica surgem com os sucessores dos apóstolos, os padres apostólicos: ”Os escritos cristãos mais antigos pós N.T. e igualmente os primeiros escritos neotestamentários são cartas que, além de atenderem ás circunstâncias imediatas  e ao próprio destinatário, haviam de servir á instrução e exortação de outras comunidades, sendo por esta razão, transmitidas e colecionadas. Assemelham-se bastante em conteúdo  e forma ás cartas apostólicas; seus autores procuram mostrar aos fiéis em termos despretensiosos, a importância da salvação manifestada em Cristo e fortalecer-lhes a esperança na volta do Senhor. Inculcam, outrossim, obediência aos pastores das comunidades e acautelam-na contra heresias e cismas. Estão longe de empregar uma argumentação científica do Cristianismo em geral ou de verdades de fé, tomadas de per sí, qual se propõe os apologistas do séc. II. Enquanto monumentos do Cristianismo primitivo e veneráveis testemunhos da tradição dogmática, possuem esses escritos  extraordinário valor. Alguns foram  temporariamente considerados canônicos. São elos intermediários entre a era apostólica , ou seja entre os escritos neotestamentários e as obras cristãs ulteriores”.

A necessidade de se fazer uma  apologia cristã foi consequência do surgimento de filosofias e heresias anticristãs. É factual que as polêmicas acerca de alguns dogmas defendidos pela Igreja surgiram tanto de dentro da Igreja quanto da parte externa. Os ataques as doutrinas apostólicas praticamente viam de todos os lados. É nesse pano de fundo que Deus irá levantar os pais apologistas. O próprio Senhor da Igreja já alertava aos seus discípulos acerca do surgimento desses apóstolos fraudulentos e pastores no seio da Igreja, assim como surgiriam homens que se oporiam as verdades cristãs e iriam desferir ataques usando a literatura filosófica, religiosa e política como armas. Jesus, João, Paulo, Pedro, Judas também já denunciavam em seus escritos esse perigo eminente que a comunidade cristã teria que conviver. A tentativa de quebrar a unidade da Igreja era uma realidade. “Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores”, Mateus 7.15; “E também houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição”, II Pedro 2.1. Judas alerta para defendermos nossa fé: “Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos, e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos, Jd.3.

O homem em sí por causa do pecado tornou-se  autônomo,. É este estado de autonomia que o homem se encontra que o leva a não se submeter a vontade de Deus, e portanto, passa a rejeitar tudo o que é relacionado á Deus. Essa rebelião leva o homem a construir sua própria religião, filosofia e a se apoiar em conceitos científicos para rejeitar a existência de Deus e questionar as doutrinas cristãs. É nesse caldo religioso-filosófico dos séculos primevo que vão surgindo as heresias, e os conceitos filosóficos anticristãos. E, em meio a todo esse cenário de guerra religiosa pela verdade surgem os grandes homens de DEUS, a fim de refutar as mentiras ensinadas pelos hereges e filósofos contrários a fé cristã. Segundo, (BRAATEN & JENSON. 2005. Pg 50) “A raiz mais antiga da dogmática pode ser encontrada  nas apologias escritas por alguns dos pais orientais. Os apologistas escreviam com o objetivo de defender a fé cristã diante do mundo pagão exterior. Seu tema apologético fundamental era a apresentação do Cristianismo como o cumprimento da busca filosófica da verdade e a confirmação da filosofia grega como preparação para o Evangelho. Justino Mártir usava o conceito de Logos como principal termo de comparação entre o Cristianismo e a filosofia. A implicação disso é que conceitos filosóficos são capazes de expressar a essência do Cristianismo. Os apologistas foram acusados falsamente de terem traído a o Evangelho cristão entregando-o nas mãso da filosofia pagã. Eles criam firmemente que o significado de Jesus Cristo pode ser expresso em categorias comuns tanto á Bíblia quanto á filosofia”.

Segundo a obra Patrística, traduzida para o português dos escritos antigos, que em seus 46 volumes irão descrever a história primeva da Igreja. Dentre os principais apologistas que surgiram nos primeiros séculos da Igreja temos: Quadrato(Carta á Diogneto), Justino Mártir, Aristides de Atenas; Taciano, o sírio; Atenágoras de Atenas; Teófilo de Antioquia e Hermas, o filósofo.

1. CARTA A DIOGNETO.

Quem é, afinal, o autor deste discurso ou apologia? Após séculos de discussões, permanece, ainda hoje uma grande incógnita. Há pelo menos, um consenso  entre os especialistas: não é obra de Justino mártir.Já no século XVII, Tillemont negava esta autoria, atribuindo-a a um dos apóstolos. A partir daí, as hipóteses se multiplicaram: para uns, seria obra de Apolo, discípulo de Paulo ou de Clemente  romano, para outros, de Aristides ou de Hipólito de Roma. Há outros que pensam que este escrito é uma falsificação , uma ficção literária produzida nos séculos  XII e XIII, ou mesmo invenção do seu autor, Henrique Stephanus, do século XVI.[...] EM 1938, P. A. Casamassa concluía que o autor da Carta a Diogneto continua até agora desconhecido, porém, foi a partir de 1946 quando Paul Andriessen publicou sua tese de que a Carta a Diogneto não é outra coisa que a apologia de Quadrato apresentou ao imperador Adriano e dada por perdida que surgiu nova polêmica. Segundo a tradição dos pesquisadores, Quadrato foi de fato, um dos primeiros apologista.

Estrutura e conteúdo.

1. Exórdio; 2. Refutação da idolatria; 3. Refutação do culto judaico; 4.ritualismo judaico; 5. O mistério cristão; 6. A alma do mundo; 7. Origem divina do Cristianismo; 8. A encarnação; 9.A economia divina; 10. A essência da nova religião; 11. O discípulo do Verbo e A verdadeira ciência.

Esta apologia, muito rica doutrinal e espiritualmente é também muito breve. Seu conteúdo denso pode ser dividido em quatro partes: 1. o Exórdio, que claramente enuncia as questões que o interlocutor Diogneto-Adriano levanta aos cristãos, onde o autor abre o discurso   e elenca as questões ás quais pretende responder; O autor refuta a idolatria e a prática ritualística dos judeus. Positivamente mostra a superioridade do Cristianismo  em ralaçãoao paganismo e ao judaísmo; 3. Na segunda parte da carta, encontra-se a parte positiva dos mistérios cristãos. Aqui se descreve a vida concreta dos cristãso, o testemunho de amor, o papel deles no mundo, como reagem as provocações ao désdem; 4. O autor expõem a origem divina da fé cristã, a transcendência á revelação, a economia da salvação incluindo a encarnação do Verbo e seu sacrifício redentor. Esta terceira parte é propriamente uma catequese sobre a essência da verdadeira religião; 4. E a última parte desenvolve o discurso sobre o Verbo, e como o homem pode tronar-se discípulo deste Verbo adquirindo a verdadeira ciência (gnose).

um pagão culto, desejoso de conhecer melhor a nova religião que se espalhava pelas províncias  do império romano, impressionado pela maneira como os cristãos desprezavam o mundo, a morte e os deuses pagãos, pelo amor com que se amavam, queria saber ; que Deus era aquele em que confiavam e que gênero de culto lhe prestavam; de onde vinha aquela raça nova e por que razões aparecera na história tão tarde.

2. ARISTIDES DE ATENAS.

Além das referências do historiador Eusébio de Cesaréia e de São Jerônimo, fundada esta na de Eusébio, não há praticamente mais nada sobre a vida deste apologista. Somente Eusébio de Cesaréia se constitui em fonte segura. Depois de mencionar a existência da apologia de Quadrato, Eusébio afirma que Aristides também ele, que era um fiel seguidor de nossa religião, deixou como Quadrato, em favor da fé, até o presente  entre um grande número . nada se sabe sobre aus família, sua formação intelctua, data de nascimento  ou se sua morte. Nem o mesmo o título de filósofo pode ser levado a sério, advertem os críticos atuais que, a julgar pelo texto de sua apologia, o título é exagerado.
Estrutura e conteúdo.
1. A idolatria entre os caldeus;
2. A Ideia de Deus entre os gregos;
3. O Culto idolátrico entre os egípcios;
4. Crítica a fé judaica;
5. A verdadeira religião;

O motivo que levou Aristides a escrever esta apologia parece ter sido uma perseguição local movida contra os cristãos. De fato, se ele escreveu e entregou uma apologia ao imperador Adriano, ao mesmo tempo que Quadrato, este por sua vez compôs  e remeteu ao mesmo imperador romano uma apologia. Porque “alguns homens maus empenhavam-se em perturbar os nossos”. A razão que moveu Aristides a compor uma apologia em favor dos cristãos parece ter sido a mesma ou alguma coisa ainda mais grave.

Composta em 17 breves capítulos, mais parecidos a parágrafos, utilizando conceitos platônicos, aristotélicos, estoicos, tem a obra como objetivo mostrar a corrupção, os erros e desvios  a que levou a religião pagã e, em oposição, mostrar a sublimidade da religião cristã. A apologia começa com uma evocação verdadeiramente filosófica: a contemplação do mundo visível leva o autor á admiração da ordem; á observação do movimento que o conduz até á noção de Deus, primeiro motor de tudo(noção aristotélica), á ordem do mundo(noção platônica), e que “por providência” veio ao mundo(noção estoíca).

A partir daí, a apologia estabelece o verdadeiro conhecimento de Deus: Eterno, Perfeito, Imortal, Ominisciente, Pai dos homens e autossuficiente. Este conhecimento nem os bárbaros, nem os gregos, nem os judeus o possuíram, mas só os cristãos. O autor se delonga especialmente em demonstrar a absurdidade das religiões “das três raças” (bárbaros, gregos e judeus) e em contraste, a santidade da vida cristã(quarta raça). [...] o estilo é simples, direto, franco, o que nos faz compreender, sem dificuldades, a linha de argumentação do autor. [...] a refutação do paganismo é feita de modo esquemático, direto, duro, monótono, repetitivo. A crítica tem sido severa com Aristides por estender-se mais longamente em acusar,  e apontar os erros, os vícios dos pagãos que sobre a doutrina cristã, como o fará loo a seguir com Justino. Assim a obra vale  pelo que revela do clima, do embate da vida cristã em torno da primeira metade do século II.

3. TACIANO, O SÍRIO.

Taciano, o sírio, nasceu provavelmente por volta do ano 120, em terra dos assírios, de família pagã.. educado primorosamente  nas culturas gregas, pesquisador inquieto, estudou várias religiões e se iniciou nos mistérios. mais tarde por volta de 152, conheceu as Escrituras cristãs e se converteu ao Cristianismo, provavelmente em Roma. Foi em Roma que Taciano encontrou  Justino Mártir, frequentou sua escola e se destacou como aluno brilhante. Em seu discurso aos gregos Taciano denuncia-os: “Exponho-vos tudo isso, não porque soube de outros, mas porque percorri muitas terras, professei como mestre  vossas próprias doutrinas, pude examinar  muitas artes e ideias,  e  por fim vivendo em Roma, puder contemplar detidamente  a variedade de estátuas que para lá vós exportastes [...] dando adeus á altivez dos romanos, ao frio palavrório dos atenienses e aos contraditórios sistemas de vossa filosofia, aderi finalmente á nossa filosofia bárbara(As Sagradas Escrituras). Taciano, após a morte do seu mestre Justino Mártir por volta de 165, começou a se afastar da Igreja. inclinando-se para a filosofia encratita( ou continente). Esta heresia acentua o pessimismo quanto á queda do homem, despreza a matéria, tem o matrimônio como fornicação e prega a abstinência  da carne e do vinho. Seu rigorismo na observância  desta abstinência levou-o a substituir o vinho pela água na celebração da eucaristia. Esse costume levou-o a seus seguidores a receberem o apelido de “aquáticos”. Taciano morreu, provavelmente, por volta do ano 180 em lugar ignorado.

Estrutura e Conteúdo.

Suas principais obras foram: Discurso contra os gregos e O Diatéssaron. Segundo testemunhas da antiguidade, Taciano teria escrito várias obras. No cap. 15 de seu próprio Discurso contra os gregos, ele menciona um tratado Sobre os animais que, apesar do nome, deveria ser um tratado de antropologia natural. No cap. 16 afirma ter escrito um trabalho  sobre os demônios. Clemente de Alexandria cita um texto de uma obra  de Taciano sobre a perfeição segundo os preceitos do Salvador, em Stromata. Tratar-se-ia de uma obra ascética encrática, de caráter gnóstico.

Eusébio de Cesaréia nos fala de Taciano em conexão com a heresia encratista: “Esta heresia estava então começando a brotar, introduzindo na vida uma falsa doutrina  estranha e corrupta. Deste desvio, é tradição que seu autor foi Taciano. Conforme informações de Epifânio, Taciano teria retorno ao Oriente, onde difundiu suas concepções encráticas de Antioquia até a Psídia:”Sucedendo a estes (aos severianos rigoristas) se levantou tal Taciano [...] A princípio, como quem vinha dos gregos  e pertencia á cultura helênica, foi companheiro de Justino Mártir, levou boa conduta, e se manteve na fé; mas, assim que morreu Justino, como cego levado pela mão e abandonado de seu guia  se precipita no abismo por sua cegueira e não para até dar-se a morte, assim também Taciano [...] e foi assim que passando depois da morte de Justino á região do Oriente e estabelecendo-se ali, caindo em perversas ideias, também ele introduziu segundo os contos de Valentim, certos eões e princípios e emissores. A maior parte de suas pregação se estendeu desde  Antioquia de Dafne até as partes da Cílicia e, sobretudo á Psídia. Infelizmente, morreu Taciano desviado da fé genuína, ainda que a defendeu como verdadeiro apologista cristão.

4. ATENÁGORAS, DE ATENAS.

Deste apologista cristão sabe-se tão somente  que era de Atenas e filósofo. Nem Eusébio de Cesaréia, nem Jerônimo o menciona. Dele se encontra uma menção no tratado sobre a ressurreição de Metódio de Olimpo (séc. II-IV). Traços de sua vida e de suas obras desapareceram completamente  da literatura cristã até que o bispo Aretas de Cesaréia manda copiar, em 914, para o seu Corpus apologetarum, a apologia  e o tratado sobre a ressurreição dos mortos de Atenágoras. Sua identificação com o Atenágoras ao qual o filósofo grego Boeto dedicou um escrito Sobre algumas expressões difíceis em Platão, carece de fundamento. Dessa forma, local e data de seu nascimento, sua formação intelectual, suas origens, local e data de sua morte nos escapam. Suas obras, contudo, revelam uma pessoa de boa cultura, alguém que frequentou cursos de retórica. Seu estilo é moderado, bem mais sóbrio que o de Taciano, mais ordenado que o de Justino. Como Justino, é simpático á filosofia  e á cultura gregas. É hábil em ordenar o material, mais preciso na linguagem que seus predecessores. J. Lebreton e J. Zeilleer escrevem dele: “É uma alegria para quem acaba de ler as invectivas de Taciano, encontrar-se aqui em contato com uma alma verdadeiramente cristã, pacífica e pura”.

Estrutura e conteúdo.

O salto, em termos de qualidade, que se dá de Taciano para Atenágoras é enorme. Ele compreende o valor da sobriedade, da claridade e da ordem; desdenha os efeitos demasiadamente ruidosos ou as cores demasiado vivas, as maneiras vulgares [...] Se a tradição que faz de Atenágoras um atenienese é verdade, sem dúvida há uma relação entre sua origem, e o mmeio em que se formou, e sua cultura mais afinada que a dos escritores cristã  anteriores. Atenágoras escreveu, ao que se sabe uma Petição em favor dos cristãos e um Tratado  sobre a Ressurreição dos mortos.

Na petição em favor dos cristãos, o objetivo é refutar as acusações dirigidas contra os cristãos. De maneira metódica, o autor distribui a matéria de sua apologia a partir das três acusações básicas. Depois de uma introdução na qual se dirige  aos imperadores Marco Aurélio e Lúcio Aurélio Cômodo, expondo as razões de sua petição, responde a acuação de ateísmo; de incesto e de antropofagia. O que realmente preocupa o apologista é que estas acusações são levadas a sério pelas autoridades. Com isso, o nome cristão é difamado e digno de morte sem nenhum exame mais acuarado dosbre a vida real dos acusados. Na introdução, Atenágoras deixa claro  esta intenção: “Quanto a nós, que somos chamados cristãos, [...] comportando-nos de modo mais piedoso  e justo do que ninguém, não só diante da divindade, mas também em relação ao vosso império, permitis que sejamos acusados. Maltratados e perseguidos, sem outro motivo, para que o vulgo nos combata, a não ser apenas o nosso nome [...] vos suplicamos que também cesse a degolação a que nos submetem  os caluniadores”.

Estão aí as razões que levaram Atenágoras a compor e endereçar uma súplica em favor dos cristãos aos imperadores Marco Aurélio e Cômodo, por volta provavelmente, do ano 177.

5. TEÓFILO DE ANTIOQUIA.

Estamos diante do último apologista de renome do século II e o único deles elevado ao episcopado. EusébIo de Cesareia nos informa que “da Igreja de Antioquia, Teófilo é conhecido como o sexto  bispo depois dos apóstolos. Seus dados biográficos são poucos conhecidos. É em sua obra “A Autólico “ que podemos respingar  algumas informações . originário da Síria ou Assíria, sua terra natal, situa-se entre os rios Tigres e Eufrates. Falando dos rios que nasciam  ou passavam pelo Éden, diz: “Quanto aos outros dois rios , os chamados Tigre e Eufrates, são bem conhecidos  entre nós, pois correm  perto de nossas regiões”. Sua cultura revela que recebera excelente educação grega. Sua família era pagã, converteu-se ao Cristianismo já adulto, através da leitura dos profetas. exortando seu interlocutor Autólico a crer, revela Teófilo o processo de sua conversão. “Eu também não acreditava que isso existisse, mas agora, depois de refletir muito, eu creio,; ao mesmo tempo, li as Sagradas Escrituras dos santos profetas, os quais inspirados pelo Espírito de Deus, predisseram o passado como aconteceu,  o presente tal como acontece e o futuro tal como se cumprirá. Por isso, tendo a prova das coisas acontecidas depois de terem sido preditas  não sou incrédulo, mas creio e obedeço a Deus”. Nada sabemos de sua morte ou de outras circunstâncias de sua vida. Sabemos apenas que por volta de 169-170, já era bispo de Antioquia.

Estrutura e conteúdo.

Temos de Teófilo apenas os três livros. A Autólico. Mas, sua produção literária parece, ter sido bem mais vasta a dar crédito aos testemunhos da antiguidade. Eusébio de Cesareia, por exemplo, afirma de Teófilo que citamos como bispo de Antioquia, possuímos três livros elementares A Autólico e outro intitulado Contra a heresia de Hermógenes, no qual utiliza testemunho  tirados do Apocalipse de João. Os historiadores desse período costumam invocar, entre outros, também, o testemunho de S. Jerônimo. De fato, no seu De viris illustribus 25, acrescenta algumas informações além das de Eusébio  que merecem  ser explicitadas aqui: “Teófilo, sexto bispo da Igreja de Antioquia, compôs sob o imperador Marco Aurélio Vero um livro contra Marcião, que até hoje existe. Correm, também seus três volumes A Autólico e um livro contra a heresia de Hermógenes, e outros breves e elegantes tratados que edificam a Igreja [...] além disso, parece ter escrito uma obra apologética sobre as origens da humanidade segundo a Bíblia e a mitologia. Teófilo de Antioquia não é consenso entre os críticos, alguns acham ele simplesmente limitado intelectualmente, medíocre, um mero copista, como declara o historiador francês Aimé Puech (1860-1940):“A obra de Teófilo não tem senão um valor medíocre, e se julgou quase sempre, quando se tratava de seus antecessores, que os juízos de Geffeken precisavam de uma contrapartida, não sinto tentação alguma de defender contra ele este charlatão superficial em quem o estilo e o vocabulário  rivalizam em pobreza  com o pensamento”.

Independente do posicionamento de alguns estudiosos que criticaram severamente as obras de Teófilo, importa sim o momento em que ele levantou a sua voz em defesa da fé, e do  Cristianismo.

6. HÉRMIAS, O FILÓSOFO.

Deste apologista, sabemos apenas que é o autor de uma Sátira dos filósofos gregos. No estado atual da pesquisa, torna-se impossível determinar  quer a data de seu nascimento, quer a data da composição da sua obra. As opiniões variam entre o final do século II até o século VI. A julgar pelo texto, pela temática, por sua semelhança com alguns apologistas do séc. II, como Traciano, por exemplo, contrários  á filosofia grega, parece mais provável situá-lo pelo final do século II. Porém, identifica-lo com Hérmias Sozomeno ou com o  Hérmias recordado por Filóstrio de Bréscia e por Agostinho, é tarefa praticamente abandonada hoje.

Estrutura e conteúdo.

Sátira dos filósofos gregos trata-se uma obra de curto fôlego. Ao longo dos dez capítulos, Hérmias procura mostrar a nulidade da filosofia pagã, indicando as contradições de seus ensinamentos sobre a essência de Deus, do mundo e da alma. Sente-se pelo texto que não é filósofo de profissão. Mais que filósofo, revela-se um retórico hábil, de estilo vivaz e cheio de ironia. Lança o ridículo sobre seus adversários  tanto sobre Platão como sobre Aristóteles. Mas sua crítica é muito superficial, contentando-se em revelar as contradições dos vários filósofos sem enfrentar a crítica interna dos sistemas filosóficos. Sua obra é portanto, interessante mas sem grande valor, quanto ao fundo da questão.

É uma apologia no sentido amplo, enquanto seu ceticismo a respeito dos filósofos pagãos  não é senão  um aspecto de sua própria fé. Assim   a obra não apresenta nenhuma ideia original  a não ser  que a filosofia  teve sua origem da apostasia dos anjos.

7. JUSTINO MÁRTIR.

Justino, filósofo e mártir, alcunhado assim primeiramente por Tertuliano, é tido como o mais insigne apologista do século II. Descendia de família greco-pagã de “Flavia Neapolis, a antiga Siquém, na Palestina. Justino mesmo narra como, em sua juventude, inquieto e ávido de saber, entrou em contato com um mestre da filosofia estóica, passando logo após para um peripatético e, finalmente a um pitagórico. Todavia, esses sistemas filosóficos e as personalidades dos próprios mestres  desiludiram-no. Um filósofo platônico fê-lo penetrar  mais profundamente  no mundo das idéias de Platão. Por fim, um venerável anciã, a quem conhecera  por acaso em Éfeso[como se supõe] demonstrou-lhe a insuficiência  das tentativas filosóficas  de perscrutar a doutrina da essência e da imortalidade da alma, despertou seu interesse  para o estudo dos profetas e através deles, do Cristianismo, advertindo-o de que somente a oração  perseverante abrir-lhe-ia caminho para Deus e para Cristo.

Estrutura e conteúdo.

Eusébio informa que, Justino redigiu duas apologias, uma das quais foi apresentada ao imperador Antonino Pio, a outra a seus sucessores Marco Aurélio e Lúcio Vera. Possuímos, na realidade duas apologias de Justino: a mais extensa [66 cap.] é dirigida a Antonino Pio; a mais breve [13 cap.] ao Senado romano. A crítica mais recente  procura com frequência, demonstrar que ambas as apologias foram dirigidas, a Antonino Pio. Na primeira Apologia, redigida cerca de 150-155 de caráter peculiarmente negativo, refuta as acusações lançadas contra os cristãos; a segunda mais positiva  e extensa, apresenta  e justifica a doutrina da religião cristã; a parte mais longa é consagrada a divindade de Cristo.

Já na apologia, “O Diálogo com Trifão” consta de conversa de dois dias, entre Justino e um douto judeu que pode ser provavelmente identificado como o celébre rabino Tarfão, contemporâneo de Justino. A introdução descreve a evolução intelectual de Justino. A primeira parte[9-47]  demonstra que as leis cerimoniais judaicas  tinham valor meramente transitório; a segunda parte [48-108] procura provar que a adoração de  Jesus não repugna ao monoteísmo. Na terceira  parte [109-142] afirma que também  os pagãos são chamados  a integrar  a Igreja de Cristo. Conforme Justino e outros apologistas, Deus não tem nome, nem origem. Negam sua onipresença substancial no universo. Deus habita em regiões supracelestes, não pode deixar seu lugar e, portanto, tampouco aparecer no mundo.... Deus se chama Pai pela principal razão de ser: “patér tou pânton”.  Com sua teoria do Lógos, Justino lança uma ponte entre a filosofia antiga e o Cristianismo. Em Cristo, o Lógos divino apareceu em toda a sua plenitude, mas cada homem possui, em seu intelecto um germe do Lógos. Quanto á relação entre o Lógos  e o Pai, Justino é subordinacionista.

OBSERVAÇÃO.

Mesmo dentre os pais apologistas, há em suas obras influências heréticas, como por exemplo em obras de  Taciano, o Sírio e Justino Mártir, porém não diminuem sua importância e valor de seus escritos para a época e para a Igreja cristã como documento.

FONTE.

1. FRANGIOTTI, Roque.  Patrística – Padres Apologistas. Trad. Ivo Storniolo & Euclides M. Balancinj. S. Paulo. 1995. Editora Paulus. Volume 2. 316 pg.

2. ALTANER, Berthold. & STUIBER, Alfred. Patrologia. Trad. Monjas Beneditinas. S. Paulo. 1988. Editora Paulus.  545 pg.

VIA LEONARDO MELO.

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