*POR Dr. ARMAND M. NICHOLI JR. *–
Trad. GABRIELE GREGGERSEN.
Todos nós possuímos uma visão de mundo, não importa se estamos consciente disso ou não. Alguns anos depois do nosso nascimento, todos começamos a gradualmente formular nossa filosofia de vida. A maioria de nós parte de um dos dois pressupostos básico: vemos o universo como o resultado de eventos aleatórios e a vida neste planeta como o um produto do acaso; ou pressupomos uma inteligência além do universo que lhe confere ordem e sentido vital. Nossa visão de mundo norteia a nossa vida pessoal, social e política. Ela influencia a forma como nos percebemos a nós mesmos, como nos relacionamos com os outros; como nos adaptamos a situações adversas; e o que entendemos ser o propósito da nossa existência. Nossa visão de mundo nos ajuda a determinar nossos valores, nossa ética, e nossa capacidade de ser felizes. Ela nos auxilia a entender de onde viemos , nossa herança: quem nós somos, nossa identidade; porque existimos neste planeta, nosso propósito; o que nos impulsiona, nossa motivação; e para onde estamos indo, nosso destino. Alguns historiadores da ciência, como Thomas Kuhn, destacam que até a visão de mundo do cientista influencia não apenas o que ele investiga, mas também como ele interpreta o que ele investiga. Nossa visão de mundo nos diz mais sobre nós, quem sabe até, do que qualquer outro aspecto da nossa história pessoal.
Tanto a visão de Freud quanto a de Lewis já existiam desde as origens da história de que se tem registro – a visão de mundo espiritual que tem suas raízes originárias no Israel antigo, com sua ênfase na verdade moral e na conduta certa, e seu lema “Assim disse o Senhor”; e a visão de mundo materialista ou “científica”, que tem suas raízes na Grécia antiga, com sua ênfase na razão e aquisição de conhecimento, e seu lema: “O que é que diz a natureza”?. Todos nós abraçamos alguma forma de visão de mundo : a de Freud ou a de Lewis. Se aceitarmos o materialismo de Freud, podemos declarar-nos ateus, agnósticos ou céticos. Semelhantemente, há várias expressões da visão de mundo de Lewis. Consideraremos as formas específicas da visão de mundo espiritual que Lewis abraçava, e com ele, segundo o senso do Instituto Gallup, mais de 80% dos americanos.
Porque Freud e Lewis? Por diversas razões. Primeiro, ambos escrevem abundantemente a respeito de suas visões de mundo específicas e o fazem com grande profundidade, clareza e consciência. Freud conquistou o prêmio Goethe para literatura, e Lewis, uma cadeira de literatura, tornando-se um crítico literário respeitado, e autor prolífico, amplamente lido. Além disso, ambos escreveram autobiografias e milhares de cartas que nos permitem obter uma perspectiva razoavelmente boa d como eles viam suas vidas. Freud e Lewis fornecem lentes particularmente claras, através das quais podemos analisar as dus visões.
Serão as duas visões de mundo meras especulações sem respostas positiva ou negativa? Não. Uma começa com a premissa básica de que Deus não existe; a outra, com a premissa de que Ele existe. Portanto, eles são mutuamente exclusivos - se um está certo, o outro necessariamente estar errado. E que diferença faz saber quem estar com a razão? Tanto Freud quanto Lewis achavam que fazia diferença, sim. Eles empenharam boa parte de suas vidas explorando esses tremas, perguntando-se repetidamente: “Será isso verdade”?
Freud preocupava-se com a questão, se Deus existia ou não. Em uma das coleções de cartas que escreveu a um colega, estudante da Universidade de Viena, a questão da existência de Deus surgia constantemente. Ela se estende de maneira contínua por todos os seus escritos filosóficos, inclusive a sua última obra de monta, Moisés e o Monoteísmo. Em “The Questiono of a Weltanschauung” [A questão da Visão de Mundo], Freud argumenta contra a existência de Deus. Ele aponta para o problema do sofrimento e desenvolve o argumento psicológico de que todo conceito não passa da projeção de um desejo infantil de proteção dos pais contra as vicissitudes e sofrimentos da existência humana. Ele também argumenta contra a objeção daqueles que sustentam uma visão de mundo espiritual e afirmam que a fé “é a origem divina que nos foi dada como uma revelação pelo Espírito, que o espírito humano não pode compreender”. Freud diz que essa “é uma situação clara [que aponta para] a origem do problema”, e acrescenta o comentário: “A questão real levantada aqui é se existe um espírito divino e uma revelação por meio dele, e essa questão não deve ser levantada”.
Lewis concorda com Freud que essa é, de fato, a mais importante de todas as questões. Ele escreve que: “Aqui está a porta, por trás da qual, de acordo com certas pessoas, esconde-se o segredo do universo a seu aguardo. Não importa, se for verdade ou não. Se não for, então o que a porta está de fato ocultando não passa meramente de mais uma grande fraude...das que já se conhecem”. Já que tantas pessoas abraçam a argumentação de Lewis – um censo recente do Instituto Gallup registra que a grande maioria dos americanos adultos acredita em Deus -, Lewis deve estar certo; se não for verdade, então a visão de mundo espiritual não é apenas uma fraude, mas também o mais cruel dos trotes já cometidos em toda a história da espécie humana. E a única alternativa que resta é seguir a recomendação de Freud, de crescer e encarar a dura realidade de que estamos sós no universo. Ele diz que poderemos encontrar menos consolo, mas a verdade, dura como ela é, acabará nos libertando de esperanças falsas e expectativas pouco realistas. Mas se a visão espiritual for verdadeira, então todas as outras verdades perdem seu significado. Nada terá mais e mais abrangentes implicações para as nossas vidas.
Se tanto Freud quanto Lewis consideravam a questão da existência de Deus a mais importante de vida, como chegaram a conclusões conflitantes? Nós vamos ver sobre isso. E vamos ver as suas biografias. A forma como eles realmente levaram suas vidas, reforçam ou enfraquecem seus argumentos, dizendo-nos mais do que as suas palavras podem nos transmitir. [...] como no caso de Freud, Lewis associava a visão de mundo espiritual com o pai, que o encorajava a ir á Igreja e se tornar uma pessoa de fé. Depois de ter se tornado ateu no início da adolescência, ele não apenas evitava informar o seu pai; em pelo menos uma ocasião, ele fez de conta que era crente. Em sua autobiografia, ele confessa que “minhas relações com meu pai ajudam a explicar um dos piores atos da minha vida”. Apesar de ateu, ele frequentou aulas de confirmação e participou da sua primeira comunhão “na mais completa incredulidade”. Ele também afirma: “A covardia me levou á hipocrisia e a hipocrisia a blasfêmia... eu estava vivendo uma mentira.... parecia impossível contar as minhas verdadeiras visões a meu pai.
Lewis parecia estar ciente de alguma relação entre o seu ateísmo e os sentimentos negativos que nutria contra o pai. Ele nã apenas associava a visão de mundo espiritual com o pai, mas sabia que o fato de abraçar o ateísmo representaria um desafio ao pai, que certamente seria preocupante para ele. Quando o seu pai morreu, Lewis expressou remorso por ter se sentido tão alienado , tão enfurecido e tão impaciente com ele.
Tanto Freud quanto Lewis, quando adultos, experimentaram grande dificuldade com a autoridade, não apenas a Autoridade Última, mas com toda a autoridade. Na autobiografia de Freud, ele fala sobre como ele lutava para se livrar do último fragmento da “fé inocente na autoridade de que eu não estava ainda livre”. Ele menciona, como trabalhava bem, tendo pessoas sob o seu comando, mas como tinha dificuldade com “aqueles que estavam acima de mim”, ou eram, em certo sentido, meus superiores”. Lewis também escreve de um “ódio profundamente assentado da autoridade” que ele sentia enquanto ateu. Assim, quem sabe esses sentimentos da infância intensamente negativos de Freud e Lewis em relação á primeira autoridade nas suas vidas causassem resistência em relação a qualquer noção de Autoridade Última. O argumento de Freud, entretanto, não pode explicar as mudanças de visão com facilidade. Como Lewis superou a sua resistência em relação á fé? Ele conseguiu e Freud, não. Freud não pôde nos dizer por quê.
A vida pregressa de Lewis lembra muito a de Freud em sentidos bastante importante. Tanto Freud quanto Lewis receberam instrução religiosa na infância. Entretanto, ambos se tornaram ateus quando adolescentes. Algo aconteceu nas mentes de Freud e Lewis, como adolescentes altamente inteligentes que eram, que os levou a repudiar a sua formação religiosa e a abraçar uma visão de mundo ateísta.... Até que ponto eles examinaram com cuidado as evidências da sua fé, e as consideravam intelectualmente inconsistente? Ambos enfrentaram influências conscientes específicas em seus meios acadêmicos e sentimentos ambíguos menos conscientes em relação a seus pais e á autoridade em geral.
Para entendermos melhor o que aconteceu, talvez fosse útil apelar para a classificação de fé religiosa elaborada por Gordon W. Allport [psicólogo americano e docente. Lecionou psicologia em Haward. Foi um dos pioneiros a estudar sobre a personalidade. Tem vários títulos publicados, dentre eles: Becoming, Pattern and Growth in Personality e The Individual and his Religion]. Ele usava duas categorias: religiosidade extrínseca e intrínseca: pessoas de religiosidade extrínseca são aquelas cuja expressão de fé são motivadas por uma necessidade de obter status ou de serem aceitas pelos outros. Usualmente segundo Allport a fé de uma criança, motivada pela necessidade de agradar aos pais, recai nessa categoria. Pessoas intrinsicamente religiosas são aquelas que internalizam a sua fé de modo que ela se torna a influência motivadora primária das suas vidas. Muitos integrantes desse grupo relatam experiências vividas em determinado momento das suas vidas. em que abraçaram a fé; alguns se referem a essas experiências como uma espécie de renascimento. A pesquisa médica moderna mostrou que a religiosidade extrínseca pode ter um efeito negativo sobre a saúde física e emocional, enquanto que a fé intrínseca muitas vezes tem resultados positivos cientificamente demonstráveis.
Tanto no caso de Freud quanto de Lewis, a religiosidade da infância, motivada pelo desejo de agradar a seus pais, podia ser considerada extrínseca e facilmente desgastada por influências externas. Como vimos, a rejeição dessa fé nominal ou extrínseca da infância também foi motivada por fatores externos: Ambos rejeitaram a sua fé nominal depois de terem deixado o lar, no caso de Lewis, para o internato, e de Freud para a faculdade. Eles já não estavam sob a autoridade dos pais. Na análise de seus pacientes (e talvez na sua própria análise), Freud notou que os jovens perdem as suas crenças religiosas “assim que a autoridade dos seus pais se rompe”.
As obras filosóficas de Freud não são caracterizadas pelo tom objetivo, livre de paixão, do médico clínico ou cientista. Ao contrário, eles exibem um tom intenso, emocional, argumentativo e por vezes, desesperado e apelativo. Obviamente Freud tem sentimentos intensos acerca desses assuntos. Ele parece estar determinado a destruir qualquer razão possível para aceitar a visão de mundo espiritual. Ás vezes os ataques de Freud tornam-se deterministas e contraditórios. Por exemplo, ele faz a afirmação categórica de que os crentes simplesmente não são muito inteligentes, sofrendo de um “intelecto fraco”. Com certeza, Freud tinha uma opinião bastante negativa das pessoas em geral, considerando-as preguiçosas, influenciadas, não pela razão, mas pelas paixões. Ele escreve: “Pois as massas são preguiçosas e pouco inteligentes... o ser humano não gosta espontaneamente de trabalho e... os argumentos não adiantam nada contra as suas paixões.
Lewis defende precisamente o contrário. Ele observa que a visão de mundo Bíblica tem certas características que imitam nosso universo físico – é extremamente complexo e diferente do que nós esperaríamos que fosse. Ele destaca, por exemplo, que uma mesa não é simplesmente uma mesa – ela é composta de átomos, elétrons, etc. logo, o universo não é simplesmente a soma de suas partes físicas . leis acredita que qualquer pessoa que se empenha em entender e viver de acordo com a suas visões “terá a sua inteligência aguçada... Eis por que um crente de pouco estudo como Bunyan foi capaz de escrever um livro que deixou o mundo pasmo”.
Criticar a retórica freudiana quanto a espiritualidade não significa subestimar as contribuições de Freud . Lewis nos lembra que “as teorias médicas e técnicas da psicanálise” não entraram em conflito com “a visão de mundo espiritual. O conflito só ocorre com a visão filosófica geral do mundo que Freud e alguns outros resolveram levar ainda mais adiante que esta”. Lewis acrescenta que “quando Freud está falando sobre como curar um neuróticos, ele está falando como um especialista no seu próprio campo, mas quando ele passa a falar da filosofia geral, ele fala como um amador...Tive a impressão de que, quando ele saí do seu próprio campo e passa para um campo do qual eu entendo um pouco... ele se mostra bastante ignorante.
Em suma. Os argumentos de Freud e Lewis podem ser sujeitos a testes de evidências e plausibilidade. É preciso entender os seus argumentos e tentar descobrir até que ponto eles estão baseados em evidências, e até que ponto, em emoções que os levaram a distorcer associou a realidade. Freud associou o antissemitismo veementemente que ele viu crescendo ao seu redor com a visão de mundo espiritual, e isso indubitavelmente contribuiu para o seu desejo intenso de desacreditá-la e destruí-la. Além disso, Freud aparentemente tratava muitos pacientes cuja fé era baseada na necessidade neurótica ou cujos sintomas psicóticos eram de conteúdo religiosos, por exemplos, pacientes cuja fé refletia um quadro patológico. Oskar Pfister lembrou Freud de que ele só havia visto formas patológicas de fé religiosa. Pfister escreveu a Freud: “Nossa diferença vem essencialmente do fato de você ter se desenvolvido de formas patológicas da religião e se refere a elas como “religião”. Paa darmos continuidade ao nosso exame dos argumentos proferidos por Freud e Lewis , precisamos nos perguntar quais correspondem melhor á realidade da forma como nós a experimentamos. E precisamos continuar a observar em que medida as suas vidas reforçam ou enfraquecem os seus argumentos.... Enfim, comparando sinteticamente as visões de mundo espiritual entre Freud e C. S. Lewis, percebemos que os argumentos freudianos carregam em sí a visão materialista, cética e ateísta própria dos descrentes e dos cientistas quando se trata da fé sobrenatural em Deus.
Concluindo, a resposta á questão de Deus e suas influências na visão de mundo espiritual derramada sobre a humanidade, tem implicações profundas sobre nossas vidas aqui na terra. Freud e Lewis concordam nisso. Então temos o dever diante de nós mesmos, de examinar as evidências, quem sabe começando pelo Antigo e Novo Testamento. Lewis também nos lembra por outro lado, das evidências que se encontram por toda parte ao nosso redor. “Podemos até ignorar, mas não temos como escapar para lugar algum da presença de Deus. O mundo está repleto dele. Ele anda incógnito por todo lugar. E o incógnito nem sempre fácil de penetrar. Nossa luta real é contra nos esquecermos de nos preocupar com isso. E por acordarmos de verdade[para isso]. Mais ainda, por continuarmos acordados.
FONTE.
1. JR. NICHOLI, Armand. Deus em questão. C. S. Lewis e Freud – Debatem Deus, Amor, Sexo e o Sentido da Vida. Trad. G. Greggersen. Minas Gerais/Varginha. 2005. Editora Ultimato. 284 pg.
VIA LEONARDO MELO.
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