A partir dos tempos do exílio babilônico (séc. VI a.C.) começou-se a verificar uma população cada vez maior de judeus que habitavam terras estrangeiras. Primeiramente, as maiores colônias judaicas concentraram-se na Mesopotâmia, como resultado direto da presença dos judeus deportados para aquele lugar.
Dois séculos antes de Cristo, numerosas comunidades judaicas já podiam ser encontradas através de toda a Pérsia, Síria, Ásia Menor, Península Itálica, ilhas mediterrâneas e norte da África. A descoberta dos papiros de Elefantina revelou que já no séc. V a.C. o Egito abrigara uma populosa colônia judaica na região de Assuã. Essa comunidade - que alcançou significativa prosperidade na prática do comércio — ousou edificar para si um templo, fato repetido pelos judeus do séc. II a.C, que habitavam o Delta do Nilo.
A cidade de Alexandria, no Egito, habitada por judeus desde sua fundação em 331 a.C. por Alexandre Magno, registrou uma população próxima de um milhão de judeus entre 30 a.C. e 50 A.D., número semelhante à soma de seus compatriotas que habitaram a Pérsia e a Ásia Menor no mesmo período. Na Itália e na Cirenaica somavam-se cerca de cem mil no primeiro século, muito embora já tivessem amargado a expulsão de Roma em 139 a.C, o que se repetiria mais tarde sob Cláudio Nero, em 50 A.D. (conf. At 18.2).
Portanto, é tão curioso quanto relevante constatarmos que, no período apostólico, havia mais judeus habitando as terras estrangeiras do que a própria Israel. Essa distribuição populacional acarretada pela Diáspora cumpriu um papel altamente estratégico para a rápida difusão do cristianismo através do mundo romano, naquele momento histórico.
Marcadamente distinto do judaísmo palestino pela adoção da língua grega, assim como pela influência dos costumes gentílicos, o judaísmo da Diáspora procurou manter fortes seus vínculos com a sagrada tradição judaica através do implemento de uma instituição que se tornou proeminente na difusão do cristianismo durante o período apostólico: a sinagoga.
Originada nos tempos de cativeiro babilônico, em função do afastamento do templo e visando manter viva a chama da fidelidade aos ensinamentos de Jeová, a sinagoga transformou-se, a partir de mais ou menos 200 a.C. numa organização desenvolvida, estruturada e solidamente infiltrada na cultura dos judeus, tanto dos que habitavam a Palestina como dos dispersos pela imensidão do mundo romano. Na sinagoga, não apenas se cultuava ao Deus de Israel, mas também instruía-se o povo na Lei e nos Profetas, através da leitura assídua e devocional dos manuscritos sagrados, ali cuidadosamente conservados. A sinagoga era também o baluarte de preservação da língua hebraica — então, em franco processo de extinção — e da análise das traduções escriturísticas para o aramaico e para o grego. Servia tanto de escola básica para a criança judia, quanto de tribunal para os transgressores, que ali recebiam não apenas sua sentença, mas também sua execução.
Tendo se espalhado pelos mais variados lugares onde se verificava a presença judaica, essa instituição tornou-se fonte de notável influência sobre o mundo gentílico — envolto na mais crassa idolatria — aproximando muitos de seus habitantes da mensagem mono teísta dos judeus, que trazia em seu bojo um sistema ético e moral muito superior ao conhecido e apregoado pela cultura paga. Nas sinagogas, os judeus da dispersão, assim como os prosélitos e simpatizantes dentre os gentios, disseminavam, com grande ardor, a esperança messiânica, colaborando para a familiarização do mundo greco- romano com a mensagem apostólica, que anunciava na pessoa de Jesus o prometido das nações.
A forte influência da sinagoga atingiu também o seio da Igreja primitiva, para a qual exportou alguns de seus elementos, perceptíveis tanto na estrutura organizacional, como na liturgia daquele período.
Como podemos verificar nas viagens missionárias de Paulo, narradas ao longo do livro de Atos, a sinagoga transformou-se numa parada obrigatória para os muitos cristãos primitivos de ascendência judaica, os quais, em suas missões evangelizadoras, se valeram dessa instituição para praticarem a regra de irem primeiro aos judeus e, então, aos gentios (conf. At 13.46).
O judaísmo da Diáspora, da mesma sorte, colaborou com a mensagem dos apóstolos ao estimular a produção das primeiras traduções das Escrituras para o grego, uma vez que grande parte dessa população havia perdido a familiaridade com o hebraico. Essas traduções viabilizaram a utilização do Velho Testamento num mundo de língua grega, dinamizando e enriquecendo a transmissão da mensagem evangélica. A Septuaginta, por exemplo, a mais antiga tradução bíblica de que se tem notícia, foi organizada em Alexandria, entre 200 e 100 a.C, vindo a consagrar-se como uma espécie de "versão autorizada" do cristianismo primitivo. A ela pertence a maior parte das citações veterotestamentárias encontradas nos escritos apostólicos. Seu reconhecimento por parte da Igreja cristã pode ser medido pelo fato de a Igreja Ortodoxa Grega adotá-la, até os dias atuais, como sua versão oficial do Velho Testamento.
Muitos estudiosos das traduções bíblicas acreditam que as colônias judaicas a leste da Palestina, especialmente as do norte da Mesopotâmia, traduziram o Velho Testamento - parcial ou integralmente - para o siríaco, uma variante do aramaico falada naquela região. Crê-se que tal tradução teria, posteriormente, prestado grande auxílio na evangelização daquela região, que se transformou, no período pós-apostólico, num distinto centro do cristianismo primitivo. Mais tarde, os cristãos daqueles termos, particularmente os de origem judaica, agregaram ao seu Velho Testamento siríaco uma tradução do Novo Testamento na mesma linguagem, cuja composição transformou-se na famosa versão siríaca da Bíblia, conhecida como Peshitta. Embora as cópias remanescentes dessa versão remontem ao século V, é provável que outras versões incompletas tenham surgido ainda no fim do período apostólico. Sabe-se, atualmente, que essas comunidades cristãs de língua siríaca dispunham de grande ardor missionário, sendo responsáveis por parte das correntes evangelizantes voltadas para o oriente, especialmente para a Armênia, a índia e regiões da Ásia Central, como a China. Diz-se que nessas campanhas chegou-se a traduzir diversas porções das Escrituras Sagradas - hoje perdidas - para os dialetos de muitas das tribos alcançadas, a partir das traduções siríacas. E possível, portanto, que apóstolos como Tomé, Judas Tadeu e Bartolomeu, cujas missões evangelísticas orientaram-se nessa direção, tenham se beneficiado com a contribuição das colônias judaicas de língua siríaca.
Fonte -BARROS, Aramis de. Doze homens e uma missão" pp. 23-25. Ed. Hagnos..
Compilado por
Edson Moraes
Nenhum comentário:
Postar um comentário