A pesar da diversidade das correntes e seitas, o gnosticismo tem em comum o dualismo da matéria e do espírito como oposição eterna. Este dualismo se traduz na concepção da ordem cósmica e moral, na luta do bem contra o mal, na queda da alma no corpo. Em resumo, dois problemas intimamente ligados preocupam os gnósticos: a criação e o mal. Se Deus é bom, como criou o mundo, de onde vem o mal? Se principais questões que a gnose pretendia resolver eram: 1. De onde procede o mal do mundo? 2. Como se originou a matéria? 3. Como se unem, no homem, matéria e espírito? 4. Como se liberta o espírito da matéria (problema da redenção) e volta para Deus?
Para responder a estas questões, criaram sistemas “audaciosos” e complicadíssimos. De maneira breve e simples, pode-se dizer o seguinte: há um reino de luz, que é o Deus bom e o das trevas que é o da Matéria eterna. Entre o Deus-Abismo e o organizador da Matéria, o Demiurgo, há um número incalculável de graduações, que chamam de Eões. Estes, por sua vez, são as emanações superiores que participam dos atributos da essência divina, distribuídos em classes, A união dos Eões formava o Pleroma ou plenitude da Inteligência. A emanação última, mais imperfeita, foi criadora. Em outras palavras, o Demiurgo, criador deste nosso Deus-Abismo, ou o Demônio que arrebatara uma centelha mundo material era o último dos Eões, o mais afasta de 30 da Plenitude divina para com ela animar a matéria. Tal é a origem do mundo, o que explica também a diversidade dos homens. Estes, segundo os gnósticos, estão divididos três classes ou categorias: os hílicos, são os pagãos, os materiais. Estes serão eliminados com a matéria; os psíquicos ou anímicos, são os cristãos ordinários, em quem a Matéria e o Espírito estão equilibrados mais ou menos. Estes gozarão uma felicidade de segunda classe, intermediária; por fim, OS espirituais ou gnósticos, os instruídos, em quem a matéria é dominada totalmente pelo Espírito de Deus.
Aplicando o próprio sistema à fé cristã, os gnósticos fazem de Cristo um Eão superior, um Nõus (Inteligência-Logos) enviado por Deus para revelar aos homens o Deus supremo e verdadeiro até então desconhecido e lhes ensinar como superar a matéria. Esse Eão apoderou-se de Jesus de Nazaré no momento em que foi batizado no Jordão. Daí por diante sua mente se iluminou e compreendeu que sua missão era levar aos homens a verdadeira gnose, isto é, o verdadeiro conhecimento que é o Evangelho, para libertar os homens da matéria. Assim, operou a redenção. Quando o Evangelho completar sua obra na terra, todas as parcelas do espírito divino, aprisionadas na matéria, voltarão à Plenitude do Deus-Pleroma.
Os gnósticos distinguem, portanto, nitidamente, dois mundos: o mundo material, mau, e o mundo espiritual, bom. Os homens possuem um elemento material, o corpo, a carne, e um elemento espiritual, a alma, que constitui o homem verdadeiro, autêntico. Só este recebe o apelo para a salvação, ou seja, só o espírito é elemento de salvação. A redenção consiste em sair deste mundo material, mau, à destruição, e voltar ao mundo espiritual do Pai. Portanto, a salvação está assegurada somente aos “espirituais” gnósticos, aqueles que têm, em si mesmos, a centelha divina originária. Esta centelha é despertada por um processo de conhecimento através da revelação feita ao espírito, através do qual a alma do gnóstico toma consciência da sua verdadeira natureza: sufocada pela matéria, aspira libertar-se dos liames do corpo e do mundo material.
Esta concepção de redenção parece conter uma contradição com o princípio escatológico por eles mesmos assentado, segundo o qual, tudo há de terminar com uma reconciliação geral de tudo (apocatástase panton), isto é, com o retorno todas as coisas ao lugar correspondente à sua natureza, ou devolução das coisas a seus estados primitivos. Assim, negavam a ressurreição da carne; o inferno e o céu deixavam de ser lugares de recompensa ou castigo.
Ireneu de Lião esforçar-se-á em dizer que a salvação não consiste em fazer os homens saírem deste mundo para atingir um mundo espiritual, mas na vinda de Deus a este mundo para habitar entre os homens.
O gnosticismo é, portanto, uma doutrina religioso-filosófica marcada por um dualismo acentuado em que a matéria é desprezível. Quanto a isso, deve muito de sua fundamentação filosófica ao platonismo. Em Enéade I,8.14, Plotino escreve que a “matéria é a causa da debilidade da alma e de sua disposição viciosa. Ela é o mal, ou melhor, o mal original” (protonkakon). Afasta, o quanto possível, o Deus supremo, bom, do contato com a matéria. Entre o mundo visível, material, e o Deus supremo imaginam intermediários numerosíssimos, por meio dos quais chega até nós a ação divina, descendo de grau em grau. Do mesmo modo, por seu meio, a alma pode, de grau em grau, se elevar até o Deus supremo.
Não admitindo que o espírito divino se una à matéria, gnosticismo nega toda a possibilidade de encarnação. A humanidade de Cristo-Logos é uma humanidade tomada às pressas, sobre a qual desce em forma de pomba no momento do batismo do homem Jesus de Nazaré e abandonando-a antes da paixão.
Resumindo: a gnose é uma revelação e uma doutrina de salvação. Ela ensina a alma a se libertar do mundo material, onde está prisioneira, e a sair para o mundo espiritual e luminoso, de onde caiu. Esta libertação se efetuará por meio de uma revelação (conhecimento) celeste acompanhada, frequentemente, por fórmulas e ritos mágicos. Nem todos podem participar da gnose. Ela é reservada só aos iniciados, e aí parecia residir sua fortíssima atração.
Extraído do Livro: Histórias das Heresias (séculos I-VII) de Roque Frangiotti, pp. 33-36.
Por Nivaldo Gomes.
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