quinta-feira, 6 de agosto de 2020

O sistema de castas no Hinduísmo - Parte 2

Os grupos das Castas

O sistema de castas do Hinduísmo o torna uma religião extremamente heterogênea e contraditória, dentro de seu próprio sistema religioso. A palavra Casta vem do sânscrito, cujo significado é Varna, que literalmente está associado a cor. Uma das muitas teorias quanto ao surgimento do sistema de castas é de que ela esteja relacionada a um produto da raça, pelo fato de que os Arianos possuíam a cor da pele clara, logo o propósito das castas era de distinguir os Arianos, dos não-arianos, um método racista que perdura hoje, visto que os que são da elite hindu, os Bramânes, todos possuem a pele clara e são da linhagem pura dos Arianos. 

A teoria que é mais aceita e difundida entre os hÍndus, quanto a procedência desse sistema deu-se da seguinte forma: O deus Brahma criou o primeiro ser humano chamado Manu. Deste homem procederam quatro categorias distintas de pessoas, com as seguintes divisões: Da parte superior, a cabeça, surgiram os Bramanes, o povo mais excelente e considerado o mais santo. Dos braços de Manu, vieram os Xátrias, grupo dos governantes e guerreiros, já das coxas de Manu, procederam os Vaixias, o grupo dos artesãos, último grupo “nobre” das castas. Por fim, dos membros inferiores, os pés, saíram o resto do povo, uma classe de nível inferior, chamado de Sudras. Portanto, é por esta razão, que os Hindus, atribuem o sistema de castas aos deuses, dessa forma respeitam e cumprem as exigências que competem a cada casta. Vejamos um pouco mais sobre estas castas.

Os Bramânes

Este grupo representa os que estão no topo da hierarquia, considerada como a única casta que possui originalmente a essência religiosa. Por estarem no cume possuem diversos privilégios, em detrimento as demais castas. De acordo com Lemaítre: “Quando o Bramâne aparecia na corte, o soberano prostrava-se aos pés dele, com o maior respeito, por causa de sua casta superior e também porque “a sabedoria” gozava da maior consideração” (LEMAÍTRE, 1958, p.108).
De acordo com o código de Manu, que é parte de uma coletânea de livros Bramânicos diz que: “O nascimento de um Bramâne é a encarnação eterna da Lei”. Dessa forma, nitidamente percebe-se o status que este grupo desfruta, dentro da religião Hindu e conseqüentemente na sociedade em que o individuo está inserido, uma vez que o sistema não afeta apenas a vida do sujeito no campo religioso, mas, sobretudo no tocante á sua vida social.

A casta dos Brâmanes é composta da elite intelectual do povo, aqueles que possuem maiores capacidades concernentes ao conhecimento, são eles: escritores, filósofos, que são os responsáveis por examinar os Textos Sagrados, bem como examinarem escritos sobre a lei e a ciência, sendo ainda os responsáveis pelos sacrifícios. A principal tarefa de um Brâmane é de ensinar o povo o conteúdo dos Vedas, Escritura Sagrada para os Hindus, exercendo dessa forma a função sacerdotal, inclusive só poderia chegar ao sacerdócio àquele que nasceu na casta dos Bramânes. Como estão inteiramente dedicados á observância e ensino dos Vedas, recebem do governo todo o amparo necessário para sua sobrevivência.

Há algumas peculiaridades que um Bramâne possui, no tocante ás suas obrigações, segundo Lemaítre: “Entre as obrigações do Bramâne há a obrigação ritual de se banhar duas vezes por dia em água corrente. Ele deve ser vegetariano e naturalmente trazer o cordão sagrado, símbolo de sua casta” (LEMAÍTRE, 1958, p.108). Este cordão é concedido aos doze anos de idade, numa celebração chamada de Upanayana ou Iniciação, onde os membros das três primeiras castas recebem seu cordão sagrado, porém o Bramâne naturalmente se sobressai, possuindo dessa forma um cordão superior as demais castas. Este procedimento ocorre no momento em que o jovem é consagrado na comunidade Bramânica, apenas os membros das três primeiras podem participar deste ato, por esse motivo são chamados de “nascidos duas vezes” ou Dvija.
Diariamente o Bramâne medita num trecho de um hino védico, conhecido como mantra, logo após o exercício de suas cerimônias ritualísticas. É de uma honraria singular, a possibilidade de recitar um trecho de um hino inserido nos vedas, apenas as três primeiras castas poderiam realizar tal façanha.
Uma curiosidade acerca de um Bramâne, que é o que ocupa o mais alto posto de pureza, as coisas materiais ou corporais são os meios pelos quais ele poderá contaminar-se, como por exemplo, a morte, o sexo ou mesmo o contato com algum individuo sem casta. Uma vez impuro este deverá purificar-se por meio das águas do Rio Ganges, que é considerado sagrado no Hinduísmo. 
 
Os Xátrias

O segundo grupo da classe de castas é composto de guerreiros e príncipes, que possuem a tarefa de defenderem o direito e proteger os desfavorecidos, fazendo uso da violência. De acordo com Lemaítre: “O papel do xátria é encarnar a honra (esta classe representa a nobreza) pela fidelidade à sua palavra até a morte. Obedecendo a deveres tão numerosos como os Bramânes, embora diferentes em certos pontos, os xátrias devem respeito aos Brâmanes” (LEMAITRE, 1958, p. 109).

Este grupo embora honrado, de respeitada posição social dentro da cultura hindu, o segundo na escala elitizada indiana, ainda assim não está no mesmo patamar dos Brâmanes, não tendo os mesmos privilégios que aquele.

Os vaixias

Esta é a terceira classe das castas tradicionais no Hinduísmo, sendo ela a menor das que “nascem duas vezes”. Sua composição basicamente é formada por fazendeiros, criadores de gado, comerciantes, cultivadores, agricultores e operários da indústria. São eles os responsáveis pelo gerenciamento dos suprimentos do comércio interno e externo indiano. Dentro do contexto social e financeiro, são considerados o grupo mais importante da nação, formam a burguesia indiana, pois eles.

Os Sudras

Esta classe é considerada como a classe dos servos, sua existência é necessária para servirem as castas superiores, visto que exercem tarefas manuais, algumas até destinada aos Párias. Destacando que os Sudras jamais estiveram na condição de escravos, por essa razão podem deixar suas funções livremente. A grande massa é que compõem esta casta, por essa razão abrange as mais diversas profissões, tais como: Servos, jardineiros, operários, entre outros. Se por um lado os Bramânes são os da raça pura dos arianos, os Sudras são os da raça mista. Em suma, a tarefa dos Sudras é a de servir as três castas superiores.
Infelizmente esta casta não tem acesso aos vedas, por essa razão não podem estudá-lo. Dessa forma dedicam-se ao estudo dos Puranas, que são textos antigos do Hinduísmo, que veneram os deuses hindus, sobretudo ao trimuti.

Os Párias

Estes são os denominados Pachanas. Os que compõem este grupo são considerados como os sem casta, sendo um grupo muito numeroso, estes são os que vivem á margem da sociedade, excluídos dos pilares do sistema religioso Hindu, assim são denominados como Dalít, sendo considerados como os impuros pelo próprio sistema. Este grupo que vive totalmente desprezado pela sociedade, eram chamados de “intocáveis”; sendo chamados por Gandhi, como filhos de Deus. Acerca das precárias condições sociais que viviam, escreveu Hawkins: “Os intocáveis só podiam exercer as profissões mais vis, como limpar a rua ou curtir couro. Eram proibidos de comer com pessoas de outras castas, de entrar em templos ou de tirar água dos poços da aldeia” (HAWKINS, 2018, P.141). Tais profissões jamais poderão ser desenvolvidas pelos de casta nobre, assim os Párias ajudam os de castas superiores a manterem sua pureza. Dessa forma podemos observar como é sofrível a condição de um individuo, vivendo sob estas condições humilhantes, dentro de uma sociedade tão desigual, sem ao menos a possibilidade de viver com esperança de mudança, nem pra si ou ainda para seus descendentes, que herdarão esta mesma condição social, pelo fato da hereditariedade das castas.
Os que não aderiram á filosofia religiosa imposta pelo Hinduísmo, como os judeus e os muçulmanos também não estão fora do sistema de castas, de igual modo, vivendo á margem da sociedade. É totalmente proibido um estrangeiro ser inserido ao sistema de castas do Hinduismo.

Com a finalidade de banir as descriminações impostas pelo sistema de castas, o governo indiano, vigorou no ano de 1947 em sua constituição, procedimentos que visavam a inclusão dos desfavorecidos aos privilégios dos poderosos, no entanto, é necessário muito mais que leis para transformar a mente das pessoas, que sempre viveram e ensinaram aos seus filhos a sua superioridade em relação ao mais humilde, dessa forma, ainda hoje o sistema de castas está em vigor na Índia, sobretudo nas aldeias, o que se percebe em meio a tudo isto, é que para minimizar o efeito do sistema de castas  sobre a sociedade não é impor leis, mas antes mudar  a compreensão religiosa do Hinduísmo, que é algo surreal, pois acredita-se que tal sistema procede de ordem divina e o homem jamais poderá alterá-lo.
Inserido dentro das castas dos Párias, está o grupo, classificados pelo governo como castas programadas, são pessoas que vivem uma situação de miséria social, sem terra, ou sob exploração, vivendo de forma sub-humana, sendo necessário o amparo por parte do poder público, que lhes proporcionam privilégios que visam minimizar sua forma de vida precária todavia para o sistema de casta hindu, os tais ainda permanecem na condição de párias. 

Por 
Edson Moraes

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