Por Walson Sales
Por esse tempo, a matéria de Charles era a
matemática, mas ele queria combinar o melhor dos dois mundos e considerava
aquilo uma “expedição entomo-matemática”, embora tivesse esperança de que
“pelas bençãos da Providência, a ciência”
(insetos) não “expulse a Matemática da minha pobre cachola”. Essa era uma
confissão tácita de que sua matemática era sofrível. Depois
de dois trimestres de aulas particulares, Darwin ainda estava confuso com os elementos
básicos da álgebra. O binômio de Newton estava além de seu alcance e ele
não conseguia ver razão em números irracionais. No final de julho, ele
havia desistido da matemática (DESMOND & MOORE, 2001, p. 81).
Darwin confessa que tinha dificuldades não
apenas em matemática, mas também em metafísica e que tinha outras dificuldades
no aprendizado. Ele deixa
claro em sua Autobiografia que
Nos três
anos que passei em Cambridge, meu tempo foi tão completamente desperdiçado, no
que diz respeito aos estudos acadêmicos, quanto em Edimburgo e na escola.
Experimentei a matemática e, durante o verão de 1828, cheguei a ir a Barmouth
com um preceptor particular, um homem muito maçante, mas meus progressos foram
lentos. O trabalho me repugnava, principalmente por eu não conseguir perceber
nenhum sentido nos primeiros passos da álgebra. Essa impaciência foi uma grande
tolice. Em anos posteriores, lamentei não ter seguido adiante, pelo menos o
suficiente para compreender um pouco os princípios centrais da matemática, pois
os homens assim dotados parecem ter um sentido a mais. Entretanto, não creio
que conseguisse ultrapassar um grau muito baixo. No que diz respeito aos
clássicos, eu apenas freqüentava algumas aulas obrigatórias da faculdade, e a
freqüência era quase nominal. Em meu segundo ano, tive que trabalhar um ou dois
meses para ser aprovado no exame preliminar, o que não me custou grande
dificuldade. (DARWIN, 2000, p. 50).
Não
tenho a grande rapidez de apreensão ou de espírito que é tão notável em alguns
homens inteligentes, como Huxley, por exemplo. Assim, sou um crítico precário:
um artigo ou um livro, quando lidos pela primeira vez, geralmente despertam
minha admiração. Só depois de uma reflexão considerável percebo seus pontos
fracos. Minha capacidade de acompanhar um cadeia de ideias longa e puramente
abstrata é muito limitada; além disso, eu nunca teria obtido sucesso na
metafísica ou na matemática. Minha memória é ampla, mas vaga: é
suficiente para me tornar cauteloso, dizendo-me vagamente que observei ou li
alguma coisa que se opõe à conclusão que tirei, ou que, por outro lado, é
favorável a ela; em geral, depois de algum tempo, consigo lembrar onde procurar
minha fonte. Sob certo aspecto, minha memória é tão precária que nunca consegui
decorar por mais de alguns dias uma data isolada ou um verso de um poema.
(DARWIN, 2000, p. 122).
Era lidando com as borboletas e com besouros e a
natureza era onde ele se sentia mais à vontade.
O Christ’s College era agora sua casa. Não era
uma das faculdades mais antigas, existia há apenas três séculos, nem estava
entre as maiores, com apenas uns centros e poucos membros residentes. Contudo,
era totalmente moderada, tranquila, tinha uma proporção alta de nobres em
relação aos pensionistas (que custeavam seus estudos trabalhando para a
universidade), o que a tornava um lugar conveniente para homens com dinheiro
pra gastar. A atmosfera religiosa era conforme a tradição. Grandes personagens
havia estudado ali. O poeta John Milton e os teólogos Ralph Cudworth e Henry
More faziam parte da relação. No elegante pátio frontal da faculdade, coberto
de pedras, no lado sul, subindo as escadas para o primeiro andar, ficavam os
comodos tradicionalmente habitados pelo teólogo mais conhecido pelos
estudantes, autor dos textos estabelecidos para o curso, Evidences of Christianity e The
Principles of Moral and Political Philosophy, o reverendo William Paley.
Com a chegada de um novo inquilino aos quartos de Paley, a placa exibia o nome
“Charles Darwin”. Por esta época, os Plinianos estavam florescendo mais
vigorosamente do que nunca sob o mesmo médico maluco, William Browne. (DESMOND
& MOORE, 2001, p. 82, 83). Ele achava seus estudos em Cambridge pouco
inspiradores, exceto (ironicamente, em vista de desenvolvimentos posteriores) o
trabalho de William Paley, em cuja Teologia natural, com sua famosa analogia do
relojoeiro, Darwin encontrou um modelo de raciocínio ordenado e um pensamento
correto sobre a religião (GUNDLACH, 2018).
Fontes
citadas:
DARWIN, Charles. Autobiografia:
1809-1882 (Tradução Vera Ribeiro). Rio de Janeiro: CONTRAPONTO EDITORA
LTDA, 2000.
DESMOND, Adrian; MOORE,
James. Darwin: A Vida de um Evolucionista Atormentado (Tradução Cyntia
Azevedo). 4ª edição revisada e ampliada. São Paulo:
Geração Editorial, 2001
GUNDLACH, Bradley J. Charles
Darwin. In COPAN, Paul [et
all] (organizadores). Dicionário de cristianismo e ciência: obra
de referência definitiva para a interseção entre fé cristã e ciência
contemporânea. (tradução Paulo Sartor Jr). 1. ed. - Rio de Janeiro:
Thomas Nelson Brasil, 2018.
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Próximos
textos:
✔
A Teoria da Evolução sob Escrutínio
- Parte 8 - Darwin e a Igreja Anglicana – contexto político
✔
A Teoria da Evolução sob Escrutínio
- Parte 9 - Darwin Seguindo Para o Encerramento do Curso
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