quinta-feira, 3 de setembro de 2020

A Teoria da Evolução sob Escrutínio Parte 7 - Darwin, O Erudito “Exemplar” no Curso de Artes (Teologia)


Por Walson Sales

 

Por esse tempo, a matéria de Charles era a matemática, mas ele queria combinar o melhor dos dois mundos e considerava aquilo uma “expedição entomo-matemática”, embora tivesse esperança de que “pelas bençãos da Providência, a ciência” (insetos) não “expulse a Matemática da minha pobre cachola”. Essa era uma confissão tácita de que sua matemática era sofrível. Depois de dois trimestres de aulas particulares, Darwin ainda estava confuso com os elementos básicos da álgebra. O binômio de Newton estava além de seu alcance e ele não conseguia ver razão em números irracionais. No final de julho, ele havia desistido da matemática (DESMOND & MOORE, 2001, p. 81).

Darwin confessa que tinha dificuldades não apenas em matemática, mas também em metafísica e que tinha outras dificuldades no aprendizado. Ele deixa claro em sua Autobiografia que

Nos três anos que passei em Cambridge, meu tempo foi tão completamente desperdiçado, no que diz respeito aos estudos acadêmicos, quanto em Edimburgo e na escola. Experimentei a matemática e, durante o verão de 1828, cheguei a ir a Barmouth com um preceptor particular, um homem muito maçante, mas meus progressos foram lentos. O trabalho me repugnava, principalmente por eu não conseguir perceber nenhum sentido nos primeiros passos da álgebra. Essa impaciência foi uma grande tolice. Em anos posteriores, lamentei não ter seguido adiante, pelo menos o suficiente para compreender um pouco os princípios centrais da matemática, pois os homens assim dotados parecem ter um sentido a mais. Entretanto, não creio que conseguisse ultrapassar um grau muito baixo. No que diz respeito aos clássicos, eu apenas freqüentava algumas aulas obrigatórias da faculdade, e a freqüência era quase nominal. Em meu segundo ano, tive que trabalhar um ou dois meses para ser aprovado no exame preliminar, o que não me custou grande dificuldade. (DARWIN, 2000, p. 50).

Não tenho a grande rapidez de apreensão ou de espírito que é tão notável em alguns homens inteligentes, como Huxley, por exemplo. Assim, sou um crítico precário: um artigo ou um livro, quando lidos pela primeira vez, geralmente despertam minha admiração. Só depois de uma reflexão considerável percebo seus pontos fracos. Minha capacidade de acompanhar um cadeia de ideias longa e puramente abstrata é muito limitada; além disso, eu nunca teria obtido sucesso na metafísica ou na matemática. Minha memória é ampla, mas vaga: é suficiente para me tornar cauteloso, dizendo-me vagamente que observei ou li alguma coisa que se opõe à conclusão que tirei, ou que, por outro lado, é favorável a ela; em geral, depois de algum tempo, consigo lembrar onde procurar minha fonte. Sob certo aspecto, minha memória é tão precária que nunca consegui decorar por mais de alguns dias uma data isolada ou um verso de um poema. (DARWIN, 2000, p. 122).

Era lidando com as borboletas e com besouros e a natureza era onde ele se sentia mais à vontade.

O Christ’s College era agora sua casa. Não era uma das faculdades mais antigas, existia há apenas três séculos, nem estava entre as maiores, com apenas uns centros e poucos membros residentes. Contudo, era totalmente moderada, tranquila, tinha uma proporção alta de nobres em relação aos pensionistas (que custeavam seus estudos trabalhando para a universidade), o que a tornava um lugar conveniente para homens com dinheiro pra gastar. A atmosfera religiosa era conforme a tradição. Grandes personagens havia estudado ali. O poeta John Milton e os teólogos Ralph Cudworth e Henry More faziam parte da relação. No elegante pátio frontal da faculdade, coberto de pedras, no lado sul, subindo as escadas para o primeiro andar, ficavam os comodos tradicionalmente habitados pelo teólogo mais conhecido pelos estudantes, autor dos textos estabelecidos para o curso, Evidences of Christianity e The Principles of Moral and Political Philosophy, o reverendo William Paley. Com a chegada de um novo inquilino aos quartos de Paley, a placa exibia o nome “Charles Darwin”. Por esta época, os Plinianos estavam florescendo mais vigorosamente do que nunca sob o mesmo médico maluco, William Browne. (DESMOND & MOORE, 2001, p. 82, 83). Ele achava seus estudos em Cambridge pouco inspiradores, exceto (ironicamente, em vista de desenvolvimentos posteriores) o trabalho de William Paley, em cuja Teologia natural, com sua famosa analogia do relojoeiro, Darwin encontrou um modelo de raciocínio ordenado e um pensamento correto sobre a religião (GUNDLACH, 2018).

 

Fontes citadas:

DARWIN, Charles. Autobiografia: 1809-1882 (Tradução Vera Ribeiro). Rio de Janeiro: CONTRAPONTO EDITORA LTDA, 2000.

DESMOND, Adrian; MOORE, James. Darwin: A Vida de um Evolucionista Atormentado (Tradução Cyntia Azevedo). 4ª edição revisada e ampliada. São Paulo: Geração Editorial, 2001

GUNDLACH, Bradley J. Charles Darwin. In COPAN, Paul [et all] (organizadores). Dicionário de cristianismo e ciência: obra de referência definitiva para a interseção entre fé cristã e ciência contemporânea. (tradução Paulo Sartor Jr). 1. ed. - Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2018.

 

       Próximos textos:

 

      A Teoria da Evolução sob Escrutínio - Parte 8 - Darwin e a Igreja Anglicana – contexto político

 

      A Teoria da Evolução sob Escrutínio - Parte 9 - Darwin Seguindo Para o Encerramento do Curso

 

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