O feto possui espírito? Lucas relata que o feto de 6 meses que Isabel carregava (João Batista) estremeceu de alegria com a saudação de Maria, que tinha Jesus no ventre (Lc 1.41). Aí está um ser com todas suas potencialidades. Outro argumento neotestamentário que sustenta a validade e a inviolabilidade da vida embrionária é fornecido pelo médico e evangelista Lucas ao afirmar que Jesus “será cheio do Espírito Santo, já do ventre materno” ou “já desde o ventre materno” (Lc 1.15).
Na teologia sistemática, fala-se de três escolas clássicas para definir a questão do início da presença da alma no indivíduo: o pré-existencialismo, defendido por Platão, Filo e Orígenes, que alega que a alma já existia na eternidade, na mente de Deus, antes de sua fecundação; o traducionismo, defendido por Tertuliano, Agostinho e outros pais da igreja antiga, que alega que a alma é transmitida pelo sêmen humano; e o criacionismo, defendido pela maioria dos teólogos católicos e calvinistas, que alega que a alma é criada individualmente e ajuntada ao corpo humano pela fecundação, ou entre a fecundação e o nascimento. [68] O autor dá sua preferência à posição criacionista, embora respeite a posição traducionista como uma hipótese. O que nos interessa na ética cristã não é a origem da alma no indivíduo, mas o início físico da vida humana.
Do ponto de vista bíblico, evidentemente, é impossível diferenciar entre vida em formação (situação pré-natal) e vida pós-natal. Deus considera que a vida é dom inviolável e não diferencia entre a que merece ser favorecida e a que deve ser menos valorizada. Mas se Deus não faz acepção de pessoas, seus direitos como criaturas divinas são iguais (G13.28). Como já vimos no parágrafo anterior, a Bíblia considera o embrião como um ser humano, com identidade própria, formada e planejada sabiamente (SI 139.13-16).
Desde a antiguidade, o cristianismo histórico considera que o embrião é uma vida. A Igreja Católica Romana defende que a vida se inicia quando ocorre a fecundação. Num seminário realizado em 12 de março de 1988 na Universidade Federal de Zurique, médicos, cientistas e juristas solicitaram das autoridades suíças uma melhor definição quanto à honra da pessoa embrionária. Argumentaram que o embrião é uma vida e que, com a fecundação, é dada toda a disposição genética do ser humano. O Dr. Samuel Stutz, autor do bestseller Embriohandel (“Comércio de Embriões”), Berna, 1987, enfatizou que “hoje o embrião humano se tornou mero objeto, arrancado do útero feminino, isolado do cordão umbilical psicológico de seus pais, vítima de nosso tempo destrutivo”. [69] No mesmo seminário, o Dr. Josef Rickenbacher, da Universidade de Zurique, afirmou que o embrião novo já é vida antes de seu desenvolvimento orgânico, já é indivíduo e é homo sapiens. [70]
Concluímos que a vida começa com a fecundação (SI 51.5; Mt 1.20; SI 139.13-16) e, portanto, merece nossa proteção, amor e respeito.
[68] - Para uma discussão mais completa, veja L. Berkhof, Teologia Sistemática, Jenison, 1988, pp. 231-237; A. H. Strong, Systematic Theology, Valley Forge, 1979, pp. 488-497. [69] – Idea, p. 5.
[70] - Ibid., p. 3
Extraído do livro “A Ética dos Dez Mandamentos – UM MODELO DE ÉTICA PARA OS NOSSOS DIAS” do autor HANS ULRICH REIFLER, pp. 135-136.
Por Nivaldo Gomes
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