domingo, 11 de outubro de 2020

ATANÁSIO CONTRA O MUNDO, EM DEFESA DA SÃ DOUTRINA


Por Claudionor de Andrade


INTRODUÇÃO


Se não lermos com atenção a História da Igreja Cristã, seremos induzidos a pensar que o Primeiro Concílio de Nicéia, ocorrido em 325, solucionou, rápida e definitivamente, uma das crises mais agudas já enfrentadas pela ortodoxia cristã: o arianismo. É bem provável que os 318 bispos que participaram do encontro, convocado pelo imperador Constantino, o Grande, hajam tido a mesma impressão.


Os debates centraram-se entre o diácono Atanásio e o falso presbítero Ário. Embora não fossem bispos, fizeram-se protagonistas.


Se o primeiro defendia, com ardor e fervor, a cristologia autenticamente bíblica, afirmando ser Jesus Cristo Verdadeiro Homem e Verdadeiro Deus; o segundo argumentava, com astúcia e fina sutileza, que o Filho, apesar de suas primazias e excelências, não trazia a mesma substância do Pai, não sendo, portanto, nem eterno nem divino.


Encerrados os confrontos, parecia que a ortodoxia havia exterminado a virulenta heresia. Afinal, os conciliares levariam às suas igrejas, um credo que se eternizaria por sua biblicidade, concisão e beleza. Mas, conforme veremos no transcorrer desta matéria, nenhum erro doutrinário pode ser debelado apenas por uma declaração de fé ou por uma ordenança imperial. A preservação da Sã Doutrina, querido irmão, exige igualmente vigilância, santidade, oração e um amor incontido pela Bíblia Sagrada. Que esta lição de história inspire-nos a zelar pelas autênticas verdades bíblicas e pentecostais.


I. O DIA EM QUE O MUNDO CRISTÃO ACORDOU ARIANO


No dia 13 de junho do ano de 313, o Cristianismo recebeu o benefício imperial da tolerância. Segundo o Edito de Milão, decretado por Constantino (272-337), a partir daquela data, ninguém mais poderia ser perseguido em virtude de sua fé. Embora o imperador se declarasse religiosamente neutro, politicamente achou oportuno convocar o primeiro concílio ecumênico da cristandade, com o real intuito de preservar a unidade do Império Romano, que já vinha sofrendo com as incursões bárbaras.


1. O Primeiro Concílio de Niceia. Constituído nos moldes do Sinédrio Judaico e do Senado Romano, o Primeiro Concílio de Niceia, como já vimos, veio a declarar, formal e oficialmente, a vitória da ortodoxia cristã sobre o arianismo. Tal heresia sustentava, entre outras blasfêmias, que o Senhor Jesus, conquanto superior aos anjos e aos homens, era inferior a Deus; logo, não podia ser considerado um ser divino como o Pai Celeste. Por causa desse perigoso desvio bíblico-doutrinário, os conciliares, após condenarem o falso presbítero Ário, confiou à Igreja Cristã este formosíssimo e substancioso credo:


“Creio em um Deus, Pai Todo-poderoso, Criador do céu e da terra, e de todas as coisas visíveis e invisíveis; e em um Senhor Jesus Cristo, o unigênito Filho de Deus, gerado pelo Pai antes de todos os séculos, Deus de Deus, Luz da Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado não feito, de uma só substância com o Pai; pelo qual todas as coisas foram feitas; o qual por nós homens e por nossa salvação, desceu dos céus, foi feito carne pelo Espírito Santo da Virgem Maria, e foi feito homem; e foi crucificado por nós sob o poder de Pôncio Pilatos. Ele padeceu e foi sepultado; e no terceiro dia ressuscitou conforme as Escrituras; e subiu ao céu e assentou-se à direita do Pai, e de novo há de vir com glória para julgar os vivos e os mortos, e seu reino não terá fim. E no Espírito Santo, Senhor e Vivificador, que procede do Pai e do Filho, que com o Pai e o Filho conjuntamente é adorado e glorificado, que falou através dos profetas. Creio na Igreja una, universal e apostólica, reconheço um só batismo para remissão dos pecados; e aguardo a ressurreição dos mortos e da vida do mundo vindouro”. 


2. O arianismo reage e ameaça a Igreja de Cristo. Não obstante a firmeza bíblica, ortodoxa e eclesiástica do Credo Niceno, os discípulos de Ário não se curvaram às decisões conciliares, nem se prostraram ante a soberania das Sagradas Escrituras. O que parecia o epílogo de uma peleja era, agora, apenas o prelúdio de uma longa e renhida batalha pela santíssima fé.

 

Com a morte de Constantino, em 337, os arianos tornam-se ainda mais insolentes, enfatuados e blasfemos. Perseguem a Atanásio, cooptam bispos e tomam igrejas. Segundo escreveria, mais tarde, Jerônimo (347-420), o mundo dormiu cristão e acordou ariano.


3. Uma heresia teimosa. O arianismo daria ocasião, ainda, ao Concílio de Constantinopla, convocado por Teodósio I, o imperador que, finalmente, oficializou o Cristianismo como a religião oficial de Roma. Realizado em 381, essa assembleia veio, enfim, a consolidar o cristianismo bíblico, conhecido também como niceno ou ortodoxo. Não pensemos, todavia, que os decretos niceno-constantinopolitanos foram suficientes para conservar a Sã Doutrina. A História da Igreja Cristã garante-nos, tanto ontem quanto hoje, que as verdades bíblicas só hão de ser preservadas através de um avivamento contínuo, perseverante e genuinamente bíblico.


II. SOMENTE UM AVIVAMENTO CONTÍNUO PRESERVARÁ A LEGÍTIMA FÉ PENTECOSTAL


Em nossa luta contra a heresia, só viremos a ser bem-sucedidos se nos mantivermos avivados, conforme os padrões da Bíblia Sagrada. Por essa razão, voltemo-nos à Palavra de Deus, à vida de oração, à santidade de vida e à conquista de almas para Cristo.  Que a evangelização e a obra missionária sejam a nossa prioridade máxima.


1. A volta à Palavra de Deus. As crônicas do povo de Deus não registram avivamento algum, que haja começado sem o retorno imediato, consciente e incondicional à Bíblia Sagrada, a inspirada e inerrante Palavra de Deus. Sigamos, pois, o exemplo da Igreja Apostólica: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações” (At 2:42).  Se não estivermos fundamentados nos santos profetas e nos apóstolos de Nosso Senhor, jamais seremos avivados pelo Espírito Santo.


2. A volta à oração. A Igreja Apostólica era forte na oração, porque era poderosa na Palavra Deus. Seus clamores e intercessões eram irresistíveis, segundo o registro do irmão Lucas: “E, tendo orado, moveu-se o lugar em que estavam reunidos; e todos foram cheios do Espírito Santo, e anunciavam com ousadia a palavra de Deus” (At 4:31).


3. A volta à santificação. Os irmãos apostólicos sabiam muito bem que a santificação não era simples doutrina ou mera teologia; antes, constitui-se num ensinamento divino, a ser colocado em prática no cotidiano de cada homem e mulher, que professa o nome de Cristo. Doutra forma, ninguém estará apto a tomar parte no arrebatamento dos santos, conforme a exortação apostólica: “Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12:14).


4. A volta ao serviço de evangelização e missões. Uma igreja bíblica, orante, intercessora e santa, jamais haverá de descurar da evangelização e da obra missionária. Aliás, uma igreja avivada e autenticamente pentecostal, proclama o Evangelho a tempo e fora de tempo. Eis o que nos ordena o Senhor Jesus: “Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra” (At 1:8).


Além de buscarmos o avivamento pentecostal, estejamos vigilantes quanto às ameaças contra a fé que nos foi legada por nossos pais-fundadores – Daniel Berg e Gunnar Vingren.


III. AS AMEAÇAS CONTRA O MOVIMENTO PENTECOSTAL


O Movimento Pentecostal é constrangido a viver atualmente com, pelo menos, quatro estratificações teológicas. Essa diversidade, às vezes tão decantada, vem arruinando a Sã Doutrina e drenando as forças de uma igreja, que, até há poucas décadas, era inimitável em sua evangelização, obra missionária e vida cristã prática.


1. A doutrina oficial das Assembleias de Deus. Com muito temor e reverência, ouso declarar que a doutrina de minha igreja é perfeita e plenamente bíblica, porquanto não rejeita a atualidade do batismo com o Espírito Santo, dos dons espirituais e ministeriais e da operação do sobrenatural.


Em nosso escopo doutrinário-teológico, jamais deixamos de ter a Bíblia Sagrada como a nossa autoridade máxima e irrecorrível, porquanto ela é a inspirada, inerrante, infalível, absoluta, completa e eterna Palavra de Deus.


2. O misticismo pentecostal. Infelizmente, vem espraiando-se, em nossos arrais, um misticismo carnal, extravagante e totalmente contrário à Bíblia Sagrada. Imitando dons espirituais, forjando profecias e pretextando sonhos e visões, logra desviar a muitos do caminho do Senhor.  Os que ainda não conhecem o verdadeiro pentecostalismo são levados a pensar, que a Assembleia de Deus, por exemplo, é um movimento exótico e antibíblico. Essa ameaça, se não for prontamente debelada, levar-nos-á à ruína doutrinária, teológica, eclesiástica e institucional.


3. O academicismo pentecostal. Desde o início deste século, vem se cristalizando, em nosso meio, o chamado academicismo pentecostal. Tornando a academia um fim em si mesma, e já tendo ressuscitado o método histórico crítico, esse academicismo rançoso busca rejeitar, por completo, a Bíblia Sagrada como a inspirada e inerrante Palavra de Deus.


Que os nossos acadêmicos jamais se esqueçam deste pressuposto áureo: só existe segurança doutrinário-teológica, quando a doutrina e a teologia são elaboradas no âmbito da Igreja de Cristo, pois todas as nossas declarações de fé e prática têm de vir acompanhadas, necessariamente, deste selo apostólico: “Na verdade pareceu bem ao Espírito Santo e a nós” (At 15:28).


4. O ecumenismo pentecostal. O ecumenismo que, a princípio, era denominacional e evangélico e, logo depois “cristão”, algemando católicos e protestantes, evoluiria para o monoteístico e abraãmico, incluindo o Judaísmo e o Islamismo, nivelando-os ao Cristianismo. Agora, já não disfarça suas pretensões pan-religiosas. A esse ecumenismo, vem aderindo partes consideráveis da pentecostalidade acadêmica brasileira e mundial. Um ecumenismo, aliás, esquerdista, ecológico e anticristão.


Se não vigiarmos, os compromissos inter-religiosos impedir-nos-ão de levar o Evangelho de Cristo até aos confins da terra. Somos contra as guerras e os entreveros religiosos. No entanto, não podemos deixar de proclamar o Evangelho de Cristo a todas as nações. Que jamais nos submetamos aos caprichos do globalismo, do pós-modernismo e da agenda do Anticristo.


Há outros movimentos antibíblicos que, conquanto incipientes, vêm tomando vulto em nosso meio. Já ouvi falar, por exemplo, em teologia de gênero, feminismo pentecostal e outras desolações, que, paulatina e habilmente, vêm Satanás a semear em nosso meio. Ante tantas ameaças, como preservar a Sã Doutrina e a Santíssima Fé;


IV. COMO PRESERVAR E MANTER A SÃ DOUTRINA


Nestes dias finais e trabalhosos, empreguemos todos os esforços, recursos e lágrimas, com o firme e inamovível propósito de conservar incólume a fé que o Senhor Jesus Cristo nos confiou. Portanto, sempre com a ajuda de Deus, tomemos as seguintes providências:


1. Voltemos ao ensino Sistemático da Bíblia Sagrada. Que a liturgia pentecostal seja bíblica, ordeira e decente, a fim de que a exposição da Bíblia Sagrada seja a prioridade das prioridades em nossos púlpitos. Reservemos mais tempo aos sermões e aos estudos bíblicos. Voltemos aos cultos de doutrina e não destruamos a Escola Bíblica Dominical. Que a Bíblia Sagrada não desapareça de nossas reuniões, porque ela, e tão somente ela, é a inspirada e inerrante Palavra de Deus.


2. Incentivemos a leitura da Bíblia, a oração e a disciplina espiritual. Instruamos o povo de Deus a ler e a estudar a Palavra de Deus e a falar com o Deus da Palavra. Que a Bíblia Sagrada, a oração, o jejum e a prática das boas obras sejam as nossas mais altas urgências.


3. Observemos os critérios bíblicos na consagração de novos membros ao Santo Ministério. Sejamos criteriosos na ordenação de novos pastores, evangelistas, presbíteros e diáconos. Que estes homens sejam comprovadamente piedosos, batizados com o Espírito Santo, aptos a ensinar e que não paire dúvida alguma quanto à sua chamada divina.


A Igreja de Cristo requer homens santos, valorosos e que se entreguem incondicionalmente ao Cordeiro de Deus.


4. Mantenhamos nossos seminários e institutos bíblicos livres dos tentáculos oficiais. Que os nossos seminários e institutos bíblicos não se atrelem aos órgãos governamentais, cobiçando reconhecimentos e titulações. Mas, fiéis à Bíblia Sagrada, ao nosso Credo e à nossa Declaração de Fé, que se firmem como postos avançados do Reino de Deus e que jamais deixem de fazer a apologia do Santo Evangelho. E que na interpretação bíblica, utilizem o método canônico de interpretação – a Escritura é suficiente para interpretar a Escritura, pois o Espírito Santo, que está conosco e em nós, é o real intérprete da Palavra de Deus.


Não misturemos, portanto, os supremos interesses do Reino de Deus com os negócios do presente século.


5. Proclamemos as verdades pentecostais conforme as encontramos na Bíblia Sagrada. Abominando o liberalismo teológico, a pós-modernidade eclesiástica e as investidas ecumênicas, sempre nocivas e deletérias à Noiva do Cordeiro, apregoemos com autoridade e singeleza de coração, as grandes verdades pentecostais.


Antes de tudo, professemos que a Bíblia é, de fato, a inspirada e a inerrante Palavra de Deus. E, assim, ousemos proclamar que Jesus Cristo salva, batiza com o Espírito Santo, cura as enfermidades, opera sinais e maravilhas e, em breve, haverá de arrebatar a sua Igreja.


6. Não tomemos as formas do mundo. Que jamais nos conformemos com o presente século e que nunca venhamos a adotar a agenda pós-moderna, cujo objetivo é descaracterizar o ser humano como imagem e semelhança de Deus. Por conseguinte, estejamos sempre aptos, com a ajuda do Todo-Poderoso, a defender a vida: somos contra o aborto e a eutanásia; estejamos, aqui, a defender, também, o casamento genuinamente bíblico: a união entre um homem e uma mulher, no âmbito do matrimônio, conforme prescreve a Bíblia Sagrada; aqui, estejamos a defender, ainda. com o mesmo ímpeto santo, todas as reivindicações e demandas da Ética Cristã.


Nessa luta, querido irmão, só viremos a ser vitoriosos se estivermos revestidos do poder do Espírito Santo.


7. Esperemos, em ordem santa, o retorno de Nosso Senhor. O arrebatamento da Igreja de Cristo é iminente. Não nos dispersemos. Olhemos. Vigiemos. E oremos. Santifiquemo-nos. Ergamos nossos olhos para o alto, pois o Rei já está voltando.


CONCLUSÃO


Quando o mundo dormiu cristão e acordou ariano, o corajoso Atanásio não se deixou tomar pelo medo. Ergueu-se como homem de Deus. Desafiou o irresistível e fingido Ário, e não temeu a fúria de poderosos imperadores, que, seduzidos pela heresia, buscavam, agora, destruir a Santíssima Fé. Em seus 46 anos de bispado, em Alexandria, sofreu cinco exílios; todavia, foi até o fim.


Atanásio não temeu erguer-se contra o mundo. Sem a sua luta, o arianismo teria prevalecido em todo o orbe cristão, destruindo fundamentalmente a Soteriologia cristã.


No dia 18 de janeiro de 373, o grande herói e pai da Igreja Cristã morreu na paz do Senhor Jesus. Hoje, em virtude de sua batalha pela santíssima fé, recebe ele estes títulos: Pai da Ortodoxia e Pai do Cânon Sagrado.


Portanto, queridos irmãos, é chegado o momento de batalharmos com mais bravura contra as apostasias e erros doutrinários. Sejamos valentes e sustentemos o testemunho cristão. Se for necessário, ergamo-nos contra o mundo.   


Extraído de: http://www.cpadnews.com.br/blog/claudionorandrade/posts/141/atanasio-contra-o-mundo-em-defesa-da-sa-doutrina.html


Via Nivaldo Gomes.

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