Por Ronald Nash
A principal concorrência para a cosmovisão cristã na parte do mundo normalmente tida como a cristandade é um sistema que muitas vezes se conhece pelo nome de naturalismo. A proposição pedra de toque, ou pressuposição básica, do naturalismo afirma: “Nada existe fora da ordem material, mecânica (isto é, sem propósito) e natural”. S. D. Gaede explica:
A cosmovisão naturalista repousa na crença de que o universo material é a soma total da realidade. Para colocar em termos negativos, o naturalismo sustenta a proposição de que o sobrenatural, em qualquer forma, não existe… A cosmovisão naturalista assume que a matéria ou substância que compõe o universo nunca foi criada, mas sempre existiu. Isso porque um ato de criação pressupõe a existência de alguma realidade fora de, ou maior que, a ordem mundial — incompatível com o princípio de que o universo material é a soma total da realidade. O naturalismo normalmente assume que a matéria sempre existente se desenvolveu por um processo casual cego e eterno no universo ordenado que vemos. O ser humano, como parte do universo natural, também é resultado de matéria, tempo e acaso. Dentro do contexto da cosmovisão naturalista, os milagres, como tais, não existem; são eventos naturais que ainda têm de ser explicados.[126]
Em seu livro Milagres, C. S. Lewis mostra de forma brilhante que a maioria dos ocidentais que se opõem à crença cristã nos milagres age assim porque fez um compromisso prévio com a cosmovisão naturalista. Nesse livro, Lewis diz o seguinte sobre o naturalismo:
O Naturalista acredita que o Fato definitivo, aquilo de que você não pode ir além, é um vasto processo no espaço e no tempo que se desenrola por conta própria. Dentro de todo esse sistema, cada acontecimento específico (como o ato de sentar e ler este livro) ocorre porque houve outro acontecimento; no final das contas, porque o Acontecimento Completo está ocorrendo. Cada elemento em particular (como esta página, por exemplo) é aquilo que é porque outras coisas são o que são — consequentemente, porque o sistema inteiro é o que é. Todos os fatos e acontecimentos estão interligados de tal forma que não podem exercer a mínima independência em relação ao “espetáculo completo”. Nenhum deles existe “por si mesmo” ou permanece “por iniciativa própria”, exceto no sentido de apresentar, em determinado tempo e espaço, “vida em si mesmo” ou “comportamento por conta própria”, os quais pertencem à “Natureza” (o grande acontecimento completo e interligado) como um todo. Por isso, nenhum Naturalista radical acredita em livre-arbítrio. Porque o livre-arbítrio significaria que os seres humanos têm poder para agir independentemente, para realizar algo além ou diferente daquilo que compõe a sequência total dos acontecimentos. O que o Naturalista nega é exatamente esse tipo de poder independente, o poder de dar origem aos acontecimentos. A espontaneidade, a originalidade e a ação “por iniciativa própria” são privilégios reservados ao “espetáculo completo”, que ele denomina Natureza.[127]
Para um naturalista, o universo é análogo a uma caixa. Tudo o que acontece dentro da caixa (a ordem natural) é causado por, ou explicado em termos de, outras coisas que existem dentro da caixa. Nada (incluindo Deus) existe fora da caixa; portanto, nada fora da caixa que chamamos de universo ou natureza pode ter qualquer efeito causal dentro da caixa. Uma ilustração representando o naturalismo ficaria assim:
NADA
É importante notar que a caixa (a ordem natural) está fechada. Mesmo se existisse alguma coisa fora da caixa, ela não poderia servir como a causa de qualquer coisa que acontece dentro da caixa. Tudo o que acontece dentro da natureza tem sua causa em outra coisa que existe dentro da caixa. Explica o filósofo William Halverson:
O naturalismo afirma… que o que acontece no mundo é teoricamente explicável, na sua totalidade, em termos das estruturas internas e relações externas dessas entidades materiais. O mundo é… como uma máquina gigante cujas partes são tão numerosas e cujos processos são tão complexos que temos sido capazes até agora de obter apenas uma compreensão muito parcial e fragmentada de como ele funciona. Em princípio, no entanto, tudo o que ocorre é em última análise explicável em termos das propriedades e relações das partículas de que a matéria é composta. Mais uma vez, pode-se afirmar o ponto em termos simples: o determinismo é verdadeiro.[128]
Um naturalista, então, é alguém que acredita (ou acreditaria se fosse consistente) nas seguintes proposições:
1. Só a natureza existe. Por natureza, quero dizer (seguindo Stephen Davis) “a soma total do que poderia, em princípio, ser observado pelos seres humanos ou estudado por métodos análogos aos utilizados nas ciências naturais”.[129] Para quem pensa em termos de uma cosmovisão naturalista, Deus não existe, visto que por definição, se alguma coisa existe, ela faz parte da caixa.
2. A natureza sempre existiu. Seria inconsistente qualquer naturalista acreditar na doutrina cristã da criação. Como explica Halverson, “O teísmo diz ‘No princípio, Deus’; o naturalismo diz ‘No princípio, a matéria’”.[130] Nunca houve um momento em que a ordem natural não existiu. A natureza não depende de qualquer coisa para a sua existência.
3. A natureza é caracterizada pela total uniformidade. A regularidade da natureza impede a ocorrência de qualquer coisa como um milagre. Os milagres são impossíveis porque não há nada fora da caixa que poderia trazer alguma ocorrência dentro da natureza. Mas os milagres também são impossíveis porque a regularidade e a uniformidade da ordem natural impedem a ocorrência de qualquer evento irregular.
4. A natureza é um sistema determinista. A crença no livre-arbítrio pressupõe uma teoria de ação humana pela qual seres humanos, agindo à parte de quaisquer causas totalmente determinantes, podem eles mesmos funcionar como causas na ordem natural. Esta crença é incompatível com as pressuposições do naturalismo.
5. A natureza é um sistema materialista. “O naturalismo afirma”, escreve Halverson, “que os constituintes primários da realidade são entidades materiais. Com isso não quero dizer que só entidades materiais existem; eu não estou negando a realidade — a existência real — de coisas tais como esperanças, planos, comportamento, linguagem, inferências lógicas, e assim por diante. O que estou afirmando, porém, é que qualquer coisa que é real, em última análise é explicável como uma entidade material ou como uma forma, função ou ação de uma entidade material”.[131] O que quer que tais coisas como pensamentos, crenças e inferências sejam, elas são ou coisas materiais, ou reduzíveis a, ou explicáveis em termos de coisas materiais, ou são causadas por algo material.
6. A natureza é um sistema autoexplicativo. Toda e qualquer coisa que acontece dentro da ordem natural deve, pelo menos em princípio, ser explicável em termos de outros elementos da ordem natural. Nunca é necessário buscar a explicação para qualquer evento dentro da natureza em algo além da ordem natural.
Visivelmente, qualquer pessoa sob o controle de pressuposições naturalistas não pode consistentemente acreditar no miraculoso. Para tal pessoa, a evidência de supostos milagres jamais pode ser persuasiva. Milagres, por definição, são impossíveis. Nenhum argumento em favor do miraculoso pode ser bem-sucedido com um naturalista. A única forma adequada de tratar dessa incredulidade é começar desafiando o naturalismo da pessoa.
Devemos observar mais uma coisa sobre o naturalismo. O cristão não deve permitir que o naturalista caia no autoengano de supor que os passos pelos quais ele veio a crer no naturalismo são de alguma forma superiores, ou, no caso, mesmo diferentes do modo pelo qual o cristão veio a adotar a cosmovisão teísta. Simplesmente não é verdade que a “Ciência” de alguma forma compele as pessoas de mente aberta, intelectualmente superiores, a se tornarem naturalistas. Não há mais “provas” para apoiar o naturalismo do que aquela que apoia o teísmo. É importante ajudar o naturalista a reconhecer que, num importante sentido, a sua escolha pelo naturalismo é um ato religioso, um ato do coração que se relaciona com as preocupações fundamentais do naturalista.
Quais são as formas mais importantes em que a cosmovisão cristã difere do naturalismo? A seguinte ilustração da cosmovisão cristã é um bom lugar para começar.
DEUS
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Esse diagrama ilustra três elementos importantes da cosmovisão cristã:
1. Deus existe fora da caixa.
2. Deus criou a caixa.
3. Deus age causalmente dentro da caixa.
O teísmo Cristão, então, rejeita a alegação naturalista de que nada, inclusive Deus, existe fora da ordem natural. Ele também nega a eternidade da natureza. Deus criou o mundo livremente e ex nihilo. O universo é contingente no sentido de que não poderia ter começado a existir sem o ato criativo de Deus e não poderia continuar a existir sem a atividade sustentadora de Deus.
É especialmente importante notar que, à parte do fato que a caixa está “aberta” a causas existentes fora da caixa, a compreensão científica cristã da ordem natural não precisa diferir de forma alguma da naturalista. Os cristãos creem que a natureza exibe padrões de ordem e regularidade. Claro, também creem que essa uniformidade resulta da livre decisão de Deus de criar o universo de uma maneira particular. O teísmo cristão reconhece a mesma ordem de causa e efeito dentro da ordem natural que o naturalista. Mas o cristão crê que a ordem natural depende de Deus tanto para a sua existência como para a sua ordem. Quando o cristão afirma que Deus é capaz de exercer influência causal dentro da ordem natural, ele não quer necessariamente dizer que tal ação divina resulta numa suspensão ou violação da ordem natural.[132] O ponto essencial é que o mundo não está fechado para a atividade causal de Deus.
Por fim, o teísmo cristão nega que a natureza é um sistema autoexplicativo. A própria existência do universo contingente requer que busquemos a causa de seu ser em um ser necessário, um ser que não depende de qualquer outra coisa para a sua existência. As leis que operam dentro da ordem natural devem sua existência à atividade criativa de Deus. E muitas coisas que acontecem dentro da ordem natural são afetadas, influenciadas ou ocasionadas por atos livres do Deus pessoal.
O ARGUMENTO CONTRA O NATURALISMO
Uma análise cuidadosa do naturalismo revela um problema tão sério que o naturalismo acaba falhando em um dos principais testes pelos quais homens e mulheres racionais esperam ver qualquer cosmovisão passar. Para ver como isso se dá, é necessário primeiro recordar que o naturalismo considera o universo um sistema autocontido e autoexplicativo. Não há nada fora da caixa, que chamamos de natureza, que pode explicar ou que é necessário para explicar qualquer coisa dentro da caixa. O naturalismo afirma que tudo pode ser explicado em termos de outra coisa dentro da ordem natural. Este dogma não é um aspecto acidental ou não essencial da posição naturalista. Tudo que é necessário para o naturalismo ser falso é a descoberta de alguma coisa que não pode ser explicada de forma naturalista. C. S. Lewis define esta linha de argumentação:
Se as exigências intelectuais nos forçarem a conceder a qualquer coisa algum grau de independência em relação ao Sistema Global — se ela demonstrar que existe por conta própria e que é mais que uma expressão do caráter da Natureza como um todo —, então teremos negado o Naturalismo. Uma vez que entendemos por Naturalismo a doutrina segundo a qual existe somente a Natureza — o sistema todo interligado. E se isso fosse verdade, cada coisa e evento seriam explicáveis como um produto necessário do sistema, sem sobras (sem restar nada).[133]
Com um pouco de esforço, podemos rapidamente ver que nenhum naturalista pensante pode ignorar ao menos uma coisa. Lewis explica:
Todo conhecimento possível depende então da validade do raciocínio. Se o sentimento de certeza denotado em expressões como deve ser, portanto e desde que representa uma percepção real de como as coisas fora de nossa mente, de fato, “devem” ser, então tudo bem. Se essa certeza, porém, se configura meramente um sentimento em nossa mente, e não uma percepção genuína das realidades além delas — se é uma simples representação da maneira pela qual nossa mente trabalha —, então não podemos obter conhecimento A menos que o raciocínio humano seja válido, nenhuma ciência pode ser verdadeira.[134]
A mente humana, como se sabe, tem o poder de compreender a verdade contingente, isto é, qualquer que seja o caso. Mas a mente humana também tem o poder de compreender as conexões necessárias, isto é, qual deve ser o caso. Este último poder, a capacidade de compreender as conexões necessárias, é o aspecto essencial do raciocínio humano. Se é verdade que todos os homens são mortais e se é verdade que Sócrates é um homem, então deve ser verdade que Sócrates é mortal.
Os naturalistas devem apelar a esse tipo de conexão necessária em seus argumentos para o naturalismo — na verdade, em seus raciocínios sobre tudo. Mas será que os naturalistas podem justificar esse elemento essencial do processo de raciocínio que utilizam em seus argumentos para a sua própria posição? Lewis acha que não. Como Lewis avalia, o naturalismo “menospreza nossos processos de raciocínio ou pelo menos reduz a credibilidade deles a um nível tão modesto que já não pode mais suportar o próprio Naturalismo”.[135] Lewis argumenta:
Consequentemente, nenhuma consideração do Universo pode ser verídica, a menos que leve em conta a possibilidade de o nosso pensamento ser uma percepção real. Uma teoria que explicasse tudo sobre o Universo, mas impossibilitasse a crença na validade de nosso pensamento, estaria fora de questão, pois teria sido construída por meio do pensamento e do raciocínio — e se o pensamento não fosse válido, com certeza cairia por terra. Destruiria as próprias credenciais. Seria um argumento provando que nenhum argumento é sólido, uma prova de que não existem provas — o que não faz sentido.[136]
Lewis tem o cuidado de salientar que seu argumento não é fundamentado na alegação de que o naturalismo afirma que cada julgamento humano (como cada evento no universo) tem uma causa. Ele sabe que, muito embora minha crença sobre um assunto possa ser causada por fatores não racionais, minha crença ainda pode ser verdadeira.[137] No argumento diante de nós, Lewis está falando de outra coisa, a saber, da conexão lógica entre uma crença e o fundamento dessa crença. Uma coisa é a crença ter uma causa não racional; outra é a crença ter uma razão ou fundamento. Os delírios de um louco podem ter uma causa, mas carece de qualquer fundamento justificativo. O raciocínio de um filósofo também pode ter uma causa, mas possui um fundamento justificativo.[138] O que o naturalismo faz, de acordo com Lewis, é dissociar o que deveria ser indissociável, a ligação entre conclusões e os fundamentos ou razões para essas conclusões. Como diz Lewis, “A não ser que seja o consequente lógico de um antecedente, nossa conclusão não terá valor algum [como exemplo de conclusão sólida], podendo ser verdadeira apenas acidentalmente”.[139] Portanto, o naturalismo “apresenta o que professa ser uma descrição completa de nosso comportamento mental, mas, ao ser examinada, essa descrição não deixa lugar para os atos de conhecimento ou de reflexão dos quais depende o valor de nosso pensamento como meio de chegar à verdade”.[140] No naturalismo, continua Lewis,
os atos de raciocínio não estão conectados à totalidade do sistema interligado da Natureza como os demais elementos que se acham conectados uns com os outros. Eles se associam a ela de um modo diferente, da mesma forma que a compreensão acerca de uma máquina certamente se acha ligada a ela, mas não da mesma maneira que suas peças se conectam umas com as outras. Conhecer uma coisa não é conhecer suas partes. Nesse sentido, algo além da Natureza opera sempre que raciocinamos.[141]
Neste último parágrafo, a ênfase do argumento de Lewis contra o naturalismo se torna clara. Por definição, o naturalismo exclui a possibilidade da existência de qualquer coisa além da natureza, fora da caixa. Mas o processo de raciocínio requer algo que ultrapassa os limites da natureza. Claro, a mesma situação se aplica no caso do raciocínio moral; as leis que governam a moralidade também devem existir fora da caixa.
Um dos grandes problemas do naturalismo é explicar como forças cegas dão origem a mentes, conhecimento, raciocínio sólido e princípios morais que realmente informam como os seres humanos devem se comportar. Não surpreendentemente, todos os naturalistas querem que o resto de nós pense que a sua cosmovisão, o seu naturalismo, é um produto do seu raciocínio sólido.
Tudo isso considerado, é difícil ver por que o naturalismo não seria autorreferencialmente absurdo. Antes de qualquer pessoa poder justificar sua aceitação do naturalismo sobre fundamentos racionais, é necessário que ela primeiro rejeite um princípio cardinal da posição naturalista. Em outras palavras, a única maneira de uma pessoa poder fornecer fundamentos racionais para acreditar no naturalismo é ela primeiro parar der ser naturalista.
Assim, o naturalismo tem grandes problemas como o primeiro teste pelo qual toda cosmovisão deve passar, o teste da razão. Ele tem dificuldades adicionais com o teste da experiência. Não levarei em conta a questão de se o naturalismo pode ou não justificar as inferências que seus adeptos tão prontamente extraem de nossas experiências do mundo exterior; seus problemas com as leis da lógica continuam também nesse caso. Estou mais interessado em saber como um naturalista consistente lida com nossa experiência humana comum do mundo interior. Qualquer cosmovisão que não pode fazer justiça ao que encontramos em nosso mundo interior acerca da obrigação e responsabilidade moral, sobre a culpa e sobre o amor, também deve assumir uma posição inferior em comparação com a cosmovisão cristã. Alguns naturalistas reconheceram o problema que têm a esse respeito e têm lutado para vir com alguma explicação que não traia a sua posição básica.
Por exemplo, alguns naturalistas têm apontado que uma pessoa pode ser moral sem acreditar em Deus. Embora isso seja verdade, a questão mais básica é se essa pessoa tem uma base para as suas convicções morais além de suas próprias preferências ou vontades. Todos nós preferimos ter vizinhos que acreditam na bondade, decência e honestidade. Mas se a conduta e as crenças morais do meu vizinho têm seu fundamento em nada mais que suas preferências, disposições ou atos da vontade, não há nada obviamente que impeça essas inclinações de o levarem a se comportar de uma maneira totalmente diferente amanhã. Como o filósofo britânico Hastings Rashdall apontou quase um século atrás,
Dizemos que a Lei Moral tem uma existência real, que existe tal coisa como uma Moralidade absoluta [i.e., objetiva], que existe algo de absolutamente verdadeiro ou falso em julgamentos éticos, quer nós ou qualquer quantidade de seres humanos em qualquer época realmente pensemos assim ou não… Devemos, portanto, enfrentar a questão de onde tal ideal existe e que tipo de existência lhe devemos atribuir.[142]
Rashdall rejeita a alegação de que um ideal pode existir inteira e completamente numa única consciência humana ou mesmo na soma total de todas as mentes humanas. Isso não funcionaria melhor para a lei moral do que para as leis da lógica ou matemática. “Somente”, Rashdall continua,
se acreditarmos na existência de uma Mente para a qual o verdadeiro ideal moral já é em algum sentido real, uma Mente que é a fonte de tudo o que é verdadeiro em nossos próprios julgamentos morais, é que poderemos racionalmente pensar no ideal moral como não menos real do que o mundo em si. Só então poderemos acreditar em um padrão absoluto de certo e errado que é tão independente das ideias e desejos reais deste ou daquele homem como os fatos da natureza material. A crença em Deus… é a pressuposição lógica de uma Moralidade “objetiva” ou absoluta. Uma ideia moral não pode existir em lugar algum, e de modo algum, que não seja em uma Mente; um ideal moral absoluto só pode existir em uma Mente da qual toda a Realidade é derivada. Nosso ideal moral só pode reivindicar validade objetiva enquanto puder ser racionalmente considerado como a revelação de um ideal moral eternamente existente na mente de Deus.[143]
Assim como o naturalismo não pode fazer justiça à nossa consciência moral, ele tem problemas em lidar satisfatoriamente com outros aspectos do nosso mundo interior. Os cristãos veem a culpa como o equivalente moral e espiritual da dor física. Assim como a dor corporal nos adverte de que algo está errado em nosso abdômen ou nas articulações, a culpa é uma pista para o fato de que estamos fora de sincronia com a ordem moral e espiritual. É logicamente impossível um naturalista tratar a culpa como outra coisa se não uma ilusão, desordem psíquica ou algum tipo de aberração. E o que um naturalista pode dizer da palavra grega para amor que aparece no Novo Testamento — agape? Eros (erotismo; amor físico) pode ser explicado sobre fundamentos naturalistas; mas o que dizer do tipo de amor altruísta (agape) que é uma das maiores glórias da vida? Os naturalistas não podem fazer justiça a questões como essas enquanto continuarem a pensar como naturalistas.
Nosso terceiro teste de cosmovisão é o teste da prática. Será que os naturalistas podem viver suas suposições naturalistas em seu cotidiano sem fazer violência ao que todos nós consideramos como aspectos essenciais da humanidade? Se as pessoas realmente fossem naturalistas consistentes e acreditassem que todas as coisas em seu mundo, incluindo seus pensamentos e valores, fossem apenas um produto de causas físicas determinantes, que tipo de vida seria esse?
Como alguns naturalistas observam, nada, em princípio, impede qualquer naturalista de escolher viver uma vida decente, honrável, virtuosa e amorosa. Mas não é isso que está em questão. A verdadeira questão é por que um naturalista deveria achar importante recomendar precisamente este tipo de vida. Será que nada teria, por exemplo, tornado as escolhas dos nazistas realmente erradas? Condenamos as pessoas que eclodiram o Holocausto apenas porque sentimos que o que elas fizeram foi horrível, mesmo sub-humano? Se faz alguma diferença como as pessoas vivem suas vidas — e faz —, existe alguma coisa dentro da cosmovisão naturalista capaz de explicar por que elas devem viver de uma forma e não de outra? Indubitavelmente parece que os naturalistas vivem sob uma constante tensão: sua teoria impede qualquer apelo aos tipos de valores que os cristãos acham centrais para uma existência verdadeiramente humana, mas sua prática mostra que eles fazem algo completamente diferente. Quem pode nos culpar quando concluímos que, quando se trata de vivência, os naturalistas trapaceiam e emprestam aspectos da cosmovisão cristã?
CONCLUSÃO
O naturalismo e a fé cristã são inimigos naturais no mundo das ideias. Se um deles é verdadeiro, o outro deve ser falso. Algumas pessoas rejeitam a fé cristã porque fazem um compromisso religioso com o naturalismo, e então acham logicamente impossível ter qualquer interesse adicional pelo cristianismo (note como a lógica continua se insinuando no cenário). Outras pessoas começam rejeitando o cristianismo por uma razão ou outra e então acabam naturalmente tendendo para o naturalismo.
Argumentei neste capítulo que é difícil ver como a escolha do naturalismo como cosmovisão pode ser um ato sábio ou racional. Mais parece um ato de fé cega por parte de pessoas que frequentemente parecem não ter a capacidade de traçar as implicações lógicas desse sistema de crença.
Mas ainda que o naturalismo seja uma cosmovisão inadequada, este fato por si só não prova a cosmovisão cristã. O mundo sustenta muitas outras opções. Neste livro, só temos tempo para examinar uma dessas alternativas, a saber, o chamado movimento da Nova Era que tem se tornado tão popular às pessoas no Ocidente que acham tanto o cristianismo como o naturalismo inadequados para o seu gosto. Examinaremos a seguir o pensamento da Nova Era.
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Fonte:
NASH, Ronald. Cosmovisões em conflito: escolhendo o Cristianismo em um mundo de ideias / Ronald H. Nash, tradução: Marcelo Herberts – Brasília, DF: Editora Monergismo, 2012.
Via Walson Sales
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Referências do capítulo:
126] S. D. Gaede, Where Gods May Dwell (Grand Rapids: Eerdmans, 1985), 35.
[127] C. S. Lewis, Milagres (São Paulo: Editora Vida, 2006), 17-18.
[128] William H. Halverson, A Concise Introduction to Philosophy, 3ª ed. (New York: Random House, 1976), 394.
[129] Stephen T. Davis, “Is It Possible To Know That Jesus Was Raised From the Dead?”, Faith and Philosophy (1984), 154.
[130] Halverson, A Concise Introduction to Philosophy, 394.
[131] Ibid.
[132] Isso se relaciona a uma questão complexa que eu não tenho tempo de abordar neste livro, a saber, se os milagres devem ser vistos como violações das leis da natureza. Em outro livro, opino que esta é uma posição insensata.
[133] Lewis, Milagres, 25-26. Os especialistas em Lewis irão notar que estou seguindo o argumento da segunda edição do livro dele. A primeira edição trazia um argumento contra o naturalismo que Lewis veio a perceber como sendo falacioso.
[134] Ibid., 28-29.
[135] Ibid., 30.
[136] Ibid., 29.
[137] O tipo de argumento que Lewis rejeita aqui é semelhante ao argumento falacioso que ele próprio tinha desenvolvido (e mais tarde rejeitado) na primeira edição de Milagres.
[138] Por exemplo, uma pessoa sofrendo de uma forma específica de doença mental pode crer em algo porque “ouve” uma voz interior. Nós tendemos a julgar tais pessoas como loucas quando suas conclusões carecem de qualquer fundamento justificativo. As crenças do filósofo que descrevo também podem ter uma causa, p. ex., algo que talvez tenha acontecido na infância do filósofo. Esperaríamos que uma pessoa aspirando ao título de filósofo fosse capaz de produzir fundamentos para suas crenças.
[139] Lewis, Milagres, 31.
[140] Ibid., 34-35.
[141] Ibid., 45.
[142] Hastings Rashdall, The Theory of Good and Evil (Oxford: Clarendon Press, 1907), 2:211.
[143] Ibid., 212
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