Por Claudionor de Andrade
Que teólogo não gosta de um gabinete confortável? Uma sala soberbamente recoberta de títulos, diplomas, loas acadêmicas e, forrando as paredes, muitos livros antigos e alguns cheios de peçonhas pós-modernas. No conforto do ar condicionado, especulamos, devaneamos e, mui raramente, meditamos na Palavra de Deus. Entretemo-nos com nós mesmos. Adoramo-nos. Idolatramo-nos. E, fatalmente, eis-nos deuses.
Além dessas olimpianas fronteiras, contudo, há um mundo real, onde campeiam a dor, a aflição, a desesperança e a própria morte.
É neste mundo realístico e cru, querido obreiro, que o Senhor Jesus nos intima a fazer teologia. Nesta seara de angústia e pesares, seremos provados de todas as formas, sem formalidade alguma; em todas as instâncias, você e eu seremos implacavelmente provados. Por essa razão, enviou o Mestre Divino os seus discípulos a evangelizar de dois em dois; assim, puderam os nazarenos resistir às provas e as provanças, que o semeador enfrenta em suas idas e vindas, quer na cidade quer no campo.
No mundo real, temos de jungir fé e boas obras. Se o fizermos, o Pai Celeste será glorificado, em nosso labor teológico. Logo, não as encaremos de forma dialética e contraditória, como se fossem mutuamente destrutivas. Entre ambas, não há dualismo algum; nelas, impera uma dicotomia perfeitíssima, como pondera Tiago: “Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma. Mas dirá alguém: Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras” (Tg 2:17,18).
Ao deixar o aconchego do gabinete, o teólogo mui rapidamente conscientiza-se de que não passa de um simplório e mísero filho de Adão e Eva. Nessa condição, terá de fazer a teologia do cotidiano. O dia a dia é traumático; nivela a todos na dor, nas afeições e no consolo.
Nas instâncias de um assalto, ou de um atropelamento, o laureado teólogo falará de Cristo a homens e a mulheres, que, em nada, o estimularão intelectualmente. Misturar-se-á, numa fila de banco, a clientes revoltados, que jamais se preocuparão com as diferenças entre arminianos e calvinistas. E, nesse burburinho todo, a única coisa que logrará dizer, a um idoso desesperançado, será: “Jesus o ama”. Mas, ao dizê-lo, fará a mais alta, sublime e bela teologia, pois o que ganha almas sábio é (Pv 11:30).
Na sala de espera de uma emergência hospitalar, onde o socorro nem sempre é pronto, tamanha a legião de enfermos e feridos, ver-se-á constrangido a esquecer a própria dor, a fim de suavizar incômodos alheios, com a mensagem de Jesus Cristo, o Médico dos médicos. Sabe ele que, nessas horas, não deverá receitar nem o supralapsarianismo nem o infralapsarianismo. Tais remédios são inúteis nesses momentos; placebos de nossas altercações. Então, recorre ao maior doador de sangue de todos os tempos – Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus. Doador universal, somente o seu sangue purifica a todos de todos os pecados (1 Jo 1:7).
E, caso esteja numa lanchonete, a saborear uma deliciosa refeição, num momento que é exclusivamente seu, poderá ser abordado por um faminto, rogando-lhe uma migalha de sua atenção. Contrariado, você olha para o sanduíche, já pela metade, e o para o pedinte, ainda inteiro à sua frente. O que fazer? Multiplicar o pão? Ou dividir o tempo com aquele Lázaro fora de hora. Nesses improvisos, que teologia buscar? A dos “pais” da Igreja? Nessas reais provações e angústias, somente o Pai Celeste poderá assistir-nos.
A verdadeira teologia é impossível sem as boas obras. Não me refiro à Apologia de Tertuliano, às Confissões de Agostinho ou à Teologia Sistemática de Stanley Horton. Todos esses livros são possíveis numa loja física ou, virtualmente, adquiridos. As boas obras, a que a Bíblia Sagrada se refere, têm de ser cultivadas fora dos gabinetes e mui distante das cátedras. Não foi o que fez o Semeador do Evangelho?
Ao anunciar as Boas Novas, fez teologia entre as pedras, em meio aos espinhos, junto as aves e frente aos homens maus. Só na última etapa de seu labor, veio a encontrar boa terra; abundante foi-lhe a sementeira.
Querido obreiro, é claro que não fomos salvos pelas boas obras. Mas não ignoremos este artigo de fé tão basilar: Jesus, em sua imerecida graça, ao salvar-nos, instigou-nos à prática das obras boas, redentoras e meritórias; realizadas pela fé, em seu nome, jamais deixarão de glorificar a Deus e ceifar milhões de almas (Ef 2:10; Tg 2:14-18). Que o teólogo, então, jamais se esqueça das obrigações comuns a todos os crentes: participar dos santos cultos, ser aluno da Escola Dominical, sustentar a Obra do Mestre com os seus dízimos e ofertas, orar por seu pastor e manter a comunhão dos santos. Sem as boas obras, de que vale a teologia?
O teólogo não é um anjo; é apenas um homem de Deus e, como tal, não pode ignorar suas fraquezas, nem descumprir suas obrigações. Entremos, pois, em nosso gabinete. Imploremos a presença de Deus. Choremos todas as lágrimas. Derramando-as aos pés de Jesus, não deixaremos de ser consolados.
Via Nivaldo Gomes.
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