domingo, 11 de outubro de 2020

OS TEMPOS DO FIM


Os seguidores de Jesus que o viram subir ao céu receberam a garantia da sua volta (At 1.11). Quando, então, o Evangelho veio aos gentios "em poder e no Espírito Santro, e em muita certeza", muitas pessoas "dos ídolos se converteram a Deus, para servir ao Deus vivo e verdadeiro, e esperar dos céus a seu Filho, a quem ressuscitou dos mortos, a saber, Jesus, que nos livra da ira futura" (1 Ts 1.5,9,10). Embora muitos sofressem a perseguição, acreditavam que "se sofrermos, também com ele reinaremos" (2 Tm 2.12). Em seguida, a visões de João na ilha de Patmos (registradas no Apocalipse) ofereceram um quadro da vitória ulterior de Cristo, e acrescentaram a garantia do reino milenar antes do derradeiro juízo e dos novos céus e nova terra profetizados por Isaías (65.17; 66.22). A partir da Ásia Menor, portanto, os conceitos premilenistas espalharam-se rapidamente. 44 Até aos meados do século II, a maioria dos cristãos mantinham a esperança de que Cristo voltaria para então reinarem com Ele durante mil anos. Em seguida, a preocupação com a definição da Cristologia desviou a atenção da esperança futura. Orígenes (c. de 185 - c. de 254), influenciado pela filosofia grega, popularizou um método alegórico que levou à espiritualização do reino futuro. Já no século V, o Reino de Deus e a igreja hierárquica eram identificados entre si, e a igreja pronunciava os juízos. Como resultado, o Reino futuro e o Juízo Final já não eram enfatizados. Em seguida, na parte posterior da Idade Média, a Igreja Romana passou a acreditar que estava edificando a Cidade Eterna de Deus aqui na terra. A maioria fechava os olhos diante do mal que grassava, e não deu evidências de acreditar que Deus tem um plano ou que Ele estabelecerá o Reino futuro pelo seu próprio ato. 


Só ocasionalmente é que brotava a crença num Milênio futuro, usualmente em protesto contra a autoridade hierárquica. 45 A Reforma trouxe renovada ênfase à autoridade da Bíblia e à atividade de Deus na História. Contudo, no tocante às últimas coisas, a atenção era dedicada à glorificação dos crentes, e havia poucas alusões à consumação da era e ao estado final. 46 Na Inglaterra do século XVII, a crença num milênio tornou-se mais popular, especialmente entre os puritanos treinados por Joseph Measde, embora muitos ainda acreditassem que o Milênio já era cumprido na História da Igreja. Aqueles que pregavam a Segunda Vinda de Cristo para inaugurar o Milênio, lesavam a sua própria causa ao fazer cálculos que colocavam a sua volta entre 1640 e 1660. 47 Já no começo do século XVIII, Daniel Whitby popularizou a ideia de que Cristo não voltaria a não ser depois que um milênio de progresso houvesse colocado o mundo sob a autoridade do Evangelho. 48 Esse conceito passou a predominar na América do Norte no século XIX, porque se encaixava nas filosofias do progresso automático então vigentes. Já no fim do século, conferências bíblicas disseminavam novamente a esperança de um milênio futuro. Juntamente com ( isso, veio a propagação do dispensacionalismo, cuja interpretação literal da profecia forma um extremo contraste com as interpretações figuradas dos pós-milenistas e dos amilenistas, e com aquelas dos liberais e existencialistas. 49 Os liberais, que realmente eram anti-sobrenaturalistas, influenciados por Kant, Ritschl, Hegel e Schleiermacher, apagavam qualquer intervenção divina futura do Evangelho que pregavam. Para eles, o Reino de Deus era algo que os seres humanos podiam criar mediante a sua própria sabedoria, sem nenhum socorro do alto. Esse anti-sobrenaturalismo atingiu seu auge com Albert Schweitzer e Rudolf Bultmann. Schweitzer diminuiu a apresentação bíblica de Jesus ao mínimo, fazendo dEle um mero homem que pensava erroneamente que o fim viria já naqueles dias. Schweitzwer tomava "liberdades extraordinárias com as evidências históricas". Assim também fez Bultmann quando excluiu da Bíblia os milagres; interessava-se somente pela existência presente, rejeitava o conceito linear da História oferecido pela Bíblia, e tratava a esperança bíblica como mera especulação. 31 Também na Europa, o existencialismo, mediante o seu enfoque sobre o aspecto humano, desconsiderava "as dimensões cósmicas das Escrituras", e oferecia uma fuga de qualquer preocupação com o passado ou com o futuro. Entre eles, os neo-otodoxos procuravam recuperar doutrinas ortodoxas ao passo que, ao mesmo tempo, tratavam a Bíblia como um mero registro humano. Na Inglaterra, C. H. Dodd popularizou a ideia de que o Reino de Deus tinha chegado plenamente "de uma vez por todas" no ministério de Jesus, e que os escritores do Novo Testamento haviam entendido mal os seus ensinos e, por isso, desenvolveram a expectativa de que Ele voltaria. Uma modificação, chamada "escatologia inaugurada" por R. P. Fuller, ensinava que Jesus olhava para trás, em direção à vinda do Reino, diluindo em falsas explicações o registro no Novo Testamento, demonstrando que Ele antegozava um reino futuro. 


 Tem havido várias reações contra Bultmann. Uma das mais destacadas tem sido a teologia da esperança de Jurgen Moltmann. Enfatizava que o "cristianismo... é esperança, que olha para o futuro e avança para frente, e assim também revoluciona e transforma o presente". 33 Juntamente com a teologia política do católico romano John Baptist Metz, ela inspirou o desenvolvimento da Teologia da Libertação, que entende que o Reino de Deus é uma metáfora, e busca levar a efeito mudanças políticas e sociais radicais no presente. 54 Embora os cristãos tenham a responsabilidade de fazer o que puderem em favor do próximo, da maneira mais abnegada, não existe nenhuma base bíblica para os crentes neotestamentários se envolverem em mudanças políticas mediante a revolução armada. Nenhuma utopia política é possível por semelhantes meios. O Reino milenar não virá através dos esforços humanos. A Bíblia demonstra que a nossa única esperança é que Deus intervirá, pronunciará o seu juízo contra o presente sistema mundial, e enviará Jesus de volta à terra para estabelecer o seu governo e tornar eterno o trono de Davi. O fato de que Jesus virá de novo à terra está mais que claro nas Escrituras. Os evangélicos em geral aceitam Atos 1.11 como garantia de sua volta pessoal e visível. Várias teorias têm surgido na tentativa de inventar explicações que cancelariam esse fato. Alguns dizem que Cristo voltou na pessoa do Espírito Santo no Dia de Pentecostes. Foi, no entanto, o próprio Cristo glorificado que derramou o Espírito Santo naquela ocasião (At 2.32,33). Outros dizem que a segunda vinda de Cristo ocorre quando Ele entra no coração do crente por ocasião da conversão deste (Ap 3.20 é usualmente citado), mas as Escrituras ensinam que aqueles que o recebem esperam a sua vinda (Fp 3.20; 1 Ts 1.10). 55 Ainda outros dizem que a sua vinda é cumprida quando Ele vem buscar o crente que morre. Os mortos e os vivos juntos, porém, serão "arrebatados juntamente" na sua vinda (1 Ts 4.17). As Testemunhas de Jeová dizem que Ele voltou invisivelmente em 1874. Outros dizem que Ele voltou invisivelmente no juízo quando Jerusalém foi destruída em 70 d.C. Outros tiram do contexto a frase "a manifestação dos filhos de Deus" (Rm 8.19), e alegam que são eles mesmos os filhos manifestados. Dizem que a Segunda Vinda de Cristo está cumprida neles como seus filhos amadurecidos, que estão amadurecendo a Igreja para que esta assuma o domínio sobre os reinos deste mundo. Rejeitam o arrebatamento, 56 e alegam que eles o estão cumprindo ao serem "arrebatados" na maturidade espiritual. Alegam, também, que eles já são a Nova Jerusalém, e que também são as "nuvens" de poder e glória, e que Cristo já está aparecendo no meio deles, e que é através deles que Cristo reinará na terra. 57 Um grupo semelhante adota o nome de teonomistas, e quer introduzir o Reino por meio de sujeitar o mundo inteiro à lei de Deus, tratando-se especificamente de parte da Lei Mosaica ou da totalidade dela, ainda que isso leve vinte mil anos. Esses grupos tomam grandes liberdades na espiritualização de de- clarações bíblicas claras, e se esquecem de que ainda não possuímos a nossa esperança, mas "com paciência a esperamos" (Rm 8.25). A volta pessoal de Jesus Cristo à terra é a única maneira de recebermos a plenitude da esperança que estamos aguardando.


Extraído da obra: Teologia sistemática, Stanley Horton. pp. 340-342.


Compilado por

Edson Moraes

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