Por Walson Sales
Uma visão de mundo é
algo que todos possuem e que ninguém pode viver sem uma, até mesmo aquelas
pessoas que afirmam que não as possuem ou até mesmo as que não sabem que as
possuem, o que é trágico. Uma visão de mundo guia toda uma vida, é como
enxergamos o mundo e por meio da qual tomamos decisões e apoiamos causas. Uma
visão de mundo é semelhante a um quadro por meio do qual enquadramos o mundo ao
nosso redor ou uma lente pelas quais podemos interpretar as dados da realidade
que nos rodeia.
Existem muitas visões
de mundo e elas exercem influência preponderante na vida (e morte, – pós-morte)
das pessoas. As pessoas devem ser inteligentes ao examinar o seu próprio estilo
de vida e valores pessoais – pelos quais elas vivem – e morrem. Ao compararmos
visões de mundo, estamos melhor preparados para avaliar as principais
afirmações sobre a realidade das coisas e do mundo, pois a vida exige uma
comparação inteligente na escolha de um estilo de vida. Se você começou a
leitura deste livro e se interessou por esta série, você é uma pessoa diferente
e sensível. Separamos onze visões de mundo e cinco religiões mundiais para
descrevermos sobre elas, fazermos comparações, críticas e avaliações de suas
principais alegações. Os volumes serão numerados conforme cada título for sendo
preparado e publicado. A leitura deste volume e desta série vai fazer uma
grande diferença em sua vida a medida que você considerar cuidadosamente todas
as opções e então decidir com cuidado e inteligência se a visão de mundo que
você defende agora faz mais sentido a luz dos dados internos e externos da
nossa realidade. Socrates disse certa vez que uma vida que não é examinada, não
é digna de ser vivida. C. S. Lewis, o ex-ateu e o maior apologista e pensador
Cristão do século dezenove, presidia o Socratic
Club e tinha uma linha de pensamento que lá os guiava nas reuniões e
debates, a saber: seguir as evidências até onde ela nos levar. Essa atitude o
fez abandonar o Ateísmo e se converter a fé Cristã. Coisa semelhante aconteceu
com o ex-ateu e hoje apologista Cristão Lee Strobel e com o ateu mais
importante dos últimos 100 anos, o Antony Flew que abandonou o ateísmo depois
de intensa investigação e defendeu a existência de Deus. Esse choque comparativo
entre cosmovisões pode virar uma pessoa de ponta a cabeça.
Já percebeu que as
vezes as pessoas olham para os mesmos dados e tiram conclusões completamente
diferentes? A resposta a isso é que as pessoas observam os mesmos dados com
lentes diferentes. Algumas lentes não irão colorir ou maquear o que as pessoas
veem, outras irão mostrar os dados com cores e se uma lente for vermelha, todos
os dados serão vistos vermelhos. Uma visão de mundo é a forma com que as
pessoas entendem e interpretam o mundo e a vida. Dependendo da forma diferente
com que essas pessoas enxergam e interpretam fica claro que o resultado final,
a práxis diária será completamente diferente. Por exemplo, um Judeu Ortodoxo
entende que o evento do Êxodo relatado no Pentateuco, ou seja, a saída do povo
de Israel do Egito, sob a liderança de Moisés, é um milagre divino, uma
intervenção real de Deus que preservou um povo e posteriormente formou uma
nação. Um naturalista, ateu ou materialista veria o mesmo evento (se é que para
estes esse evento realmente aconteceu) como uma anomalia da natureza (a
passagem do Mar Vermelho e os milagres de preservação nas batalhas que se
seguiram), ou seja, eventos incomuns puramente naturais. Ambos poderiam assumir
a existência dos mesmos fatos e chegar a uma conclusão completamente diferente
com respeito ao significado desses mesmos fatos.
Norman Geisler e
William D. Watkins (2003, p. 15, 16) mencionam que existem historicamente sete
visões de mundo principais. Todas com diferenças significativas, pois não é
possível defender mais de uma visão de mundo ao mesmo tempo, porque suas
premissas centrais se contradizem, o que significa que apenas uma visão de
mundo pode estar correta e as outras devem ser falsas. De acordo com eles, as
sete principais visões de mundo são Teísmo, Ateísmo, Panteísmo, Panenteísmo,
Deísmo, Deísmo Finito e Politeísmo. Nossa abordagem é um pouco mais ampla, pois
não iremos abordar o Deísmo Finito nem o Politeísmo e trabalharemos outros
temas que aprofundam características de cosmovisões irmãs e das Religiões
Mundiais que abraçam características especifícias de algumas cosmovisões, como
por exemplo, o Cristianismo, o Judaísmo e o Islamismo constam na categoria do
Teísmo Clássico e suas implicações. Então iremos abordar na nossa série tanto o
Teísmo, quanto as três religiões teístas. Observe a nossa lista no início deste
livro. O Deísmo Finito será contemplado no volume sobre o Deísmo e o Politeísmo
será contemplado no volume sobre o Hinduísmoque é tanto Panteísta quanto
politeísta.
As diferenças entre as
cosmovisões e religiões são cruciais. O Teísmo afirma que existe um Deus
infinito além e no universo, Transcendente e Imanente. O Teísmo defende que o
universo físico não é tudo o que existe. Defende também que um Deus infinito e
pessoal que está além do universo físico criou o universo do nada e o sustenta
e pode agir dentro do universo de forma sobrenatural. O Ateísmo afirma que não
existe nada além do universo físico e que o universo físico é tudo o que
existe, existiu e existirá. Defende que não existe Deus ou deuses nem no
universo nem além dele. Segundo esta visão, se o universo surgiu algum dia,
surgiu do nada, por nada e para nada. Não existe uma mente formadora, criadora
ou sustentadora do universo, ou seja, o universo existe por si mesmo, de si
mesmo e se sustenta sozinho. O Panteísmo defende que Deus é o universo. Para o
Panteísta não existe nenhum criador além do universo e independente do
universo. Para eles, criador e criatura são duas formas diferentes de ver uma
realidade. Deus é o universo (ou o todo) e o universo é Deus. O Panteísmo é
encontrado no Hinduísmo, Zen Budismo e outras formas de religião. O Panenteísmo
defende que Deus está no universo. Esta visão afirma que Deus é o universo como
uma mente em um corpo. O universo é o corpo de Deus, mas há outro pólo em Deus
que não é físico e este pólo representa seu potencial eterno e infinito que
está além do universo físico. O Deísmo afirma que Deus está além do universo,
mas não no universo. O Deísmo é semelhante ao Teísmo, mas sem os milagres. No
Deísmo, Deus transcende o universo e não age de forma sobrenatural no universo
nem no mundo. Apesar de ser uma espécie de visão naturalista do mundo, o Deísmo
sustenta que existe um criador ou originador do universo, apesar deste suposto
criador não ter nenhum interesse na criação nem nas criaturas, semelhante a um
relojoeiro que criou o sistema e o deixou a trabalhar sozinho.
Os temas que aparecem
como cosmovisões em nosso esquema, como o Naturalismo, Materialismo,
Evolucionismo, Humanismo, por exemplo, compartilham características comuns com
o Ateísmo e serão abordados a parte por exercerem forte influência nas
academias contra o Teísmo como um todo. Os outros temas que serão abordados
também desfrutam de posição semelhante e também merecem abordagem específica.
O tema do presente
volume é o Ateísmo, uma visão de mundo materialista e naturalista (também
evolucionista) que nega a existência de Deus. Abordaremos sobre a visão de
mundo ateísta e faremos uma apresentação de sua história e definições. Depois
trabalharemos os diferentes tipos de “ateísmos” com uma abordagem específica
sobre o fenômeno conhecido como o Novo Ateísmo, um tipo de ateísmo agressivo e
militante e por fim responderemos as acusações mais comuns dos ateus hoje contra
uma visão de mundo teísta e Cristã.
Esperamos que este
volume e esta série possam servir como um divisor de águas para clarear o nosso
pensamento e nos guiar nos nossos diálogos e no evangelismo pessoal, bem como
na nossa pregação. Um conhecimento panorâmico é útil para que possamos nos
fazer entender melhor e para termos uma facilidade de entendermos e traçarmos
uma crítica construtiva a uma visão de mundo oponente, de forma mais rápida e
eficaz. Por exemplo, Craig Hazen (2007) escreveu um artigo chamado “O
Cristianismo em um mundo de Religiões”,[1] um artigo comparativo de uma
experiência que ele teve em sala de aula como convidado em uma faculdade
comunitária. Nessa aula ele traçou quatro pontos que colocam a visão de mundo
Cristã em vantagem, em comparação as visões de mundo antagônicas, a saber, “O
Cristianismo pode ser averiguado” (há afirmações sobre Jesus - Sua vida, Seus
ensinamentos, Sua morte e Sua ressurreição - que podem ser averiguadas); “No
Cristianismo a salvação é um dom gratuito de Deus” (você não precisa se
esforçar heroicamente por muitas vidas para alcançar a salvação); “No
Cristianismo você percebe uma visão de mundo maravilhosa e coerente” (seria
extremamente útil saber quais das religiões apresentam uma imagem do mundo que se
aproxime mais de uma correspondência real com a forma com que o mundo realmente
é – observe por exemplo o problema do mal – existem visões de mundo que negam a
existência do mal e isso é totalmente contrário aos dados da realidade); “O
Cristianismo tem Jesus como o centro” (se Jesus é uma figura tão atraente que
as pessoas religiosas do mundo querem cooptá-Lo para suas próprias tradições,
faz todo o sentido dar uma atenção especial ao Cristianismo). Esse é um exemplo
bem prático da utilidade de uma conhecimento mais amplo sobre as religiões e
cosmovisões.
Uma palavra final nesta
introdução. Afirmações específicas falam muitas coisas sobre visões de mundo.
Sabemos que o Cristianismo é exclusivista, ou seja, o Cristianismo afirma que é
verdadeiro e que tudo o que se opõe a ele é falso. Podemos encontrar uma
afirmação assim, presente nos lábios de Jesus em João 14:6. Há um texto que
define bem a visão Cristã de mundo em muitos aspectos: João 3: 16. Vamos ao
texto:
Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho
unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida
eterna. (João 3:16)
João 3:16 é, junto com
o Salmo 23 e o Salmos 91, o texto mais conhecido da Bíblia. Muitos expositores
o consideram apenas um texto evangelístico e nada mais. Contudo, João 3: 16 é
um mini credo Cristão e uma poderosa defesa da Visão Cristã de mundo, e não
apenas isso, é um texto que expõe outras visões de mundo e as expõe por
negá-las. Observe que quando o texto diz: “Porque Deus” responde ao Ateísmo, que afirma que Deus não
existe. Quando o texto diz que Deus “amou”, responde ao Panteísmo e ao Deísmo
que são visões de mundo que afirmam que Deus é impessoal e não ama ninguém.
Quando o verso diz que Deus amou o “mundo”, responde as visões de mundo
nacionalistas, como o Judaísmo, que diz que Deus amou apenas um povo. Quando o
versículo afirma que Deus “Deu”, responde ao materialismo hodierno consumista
que diz que é melhor receber do que dar. Quando este singelo versículo afirma
que Deus deu o “seu Filho Unigênito”, responde ao Islamismo que afirma que Deus
não tem Filho. Responde também as visões unicistas, pois o termo grego
Unigênito (μονογενη) aponta para o
caráter substancial entre o Pai e o Filho, ou seja, ambos dividem a mesma
essência, substância e atributos. Quando o verso afirma “para que todo aquele
que nele crê”, responde as visões que negam a fé e responde as visões que
afirmam que nem todos podem crer. Quando este mesmo texto bíblico lança uma
advertência e um resultado prático dos que não creem, para que estes “não
pereçam”, respondem as visões de mundo que negam esta realidade espiritual que
é a condenação eterna. Responde também aos que defendem que no final ninguém
será condenado e que todos serão salvos, como o Universalismo. Quando este
mesmíssimo texto diz que estes que creem “tem a vida eterna”, também responde a
estes mesmos que negam uma vida após a morte e que negam uma realidade eterna
no céu. João 3:16 não é apenas um versículo evangelístico, mas é um texto que
apresenta o caráter, o amor e a misericórdia de Deus, a
condição errônea das cosmovisões conflitantes e a estrutura profunda da
realidade em que vivemos, uma realidade dual entre o que é material e
espiritual e entre o que é terreno e divino, celestial. Bons estudos e boa
leitura.
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Referências:
HAZEN, Craig J. Christianity
in a World of Religions.In
COPAN, Paul; CRAIG, William Lane (General Editors). Passionate Conviction:
Contemporary Discourses on Christian Apologetics. Nashville, Tennessee:
B&H ACADEMIC, 2007.
GEISLER, Norman L.; WATKINS,
William D. Worlds Apart: A Handbook on
World Views. Second Edition. Eugene, Oregon: Wipf and Stock Publishers,
2003
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Nota:
[1] Você
pode ler o texto completo aqui:
https://www.bomdiacomteologia.com/2020/06/o-cristianismo-em-um-mundo-de-religioes.html
_________________________
Observação: Se você leu este texto até aqui, vai
descobrir agora que este texto é a introdução de um novo livro de minha autoria
que faz parte de um projeto maior e mais amplo. Este livro é o primeiro de uma
série de 16 livros. O nome da série é a seguinte:
SÉRIE
COSMOVISÕES E RELIGIÕES MUNDIAIS COMPARADAS
E o volume I, cuja introdução você acabou de ler, chama-se:
A
VISÃO DE MUNDO ATEÍSTA
Segue abaixo a relação dos 16 temas que estão em fase de
pesquisa, catalogação de obras e desenvolvimento na escrita:
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Sobre cosmovisões -
1. Ateísmo – Walson Sales
2. Naturalismo
3. Panteísmo/Panenteísmo
4. Evolucionismo
5. Deísmo – em desenvolvimento...
6. Agnosticismo
7. Gnosticismo
8. Ceticismo
9. Humanismo
10. Materialismo
11. Teísmo – em desenvolvimento...
- Sobre Religiões Mundiais - Comparadas
1. Cristianismo
2. Judaísmo
3. Budismo
4. Islamismo – em desenvolvimento...
5. Hinduísmo – em desenvolvimento...
Agora que você sabe em primeira mão: Contamos
com as vossas orações.
Bela introdução....ansioso para lê.
ResponderExcluirLer***
ResponderExcluirMaravilha
ResponderExcluirExcelente. Vai ter grande utilidade.
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