segunda-feira, 16 de novembro de 2020

A Importância de uma Visão de Mundo

 Por Walson Sales

 

Uma visão de mundo é algo que todos possuem e que ninguém pode viver sem uma, até mesmo aquelas pessoas que afirmam que não as possuem ou até mesmo as que não sabem que as possuem, o que é trágico. Uma visão de mundo guia toda uma vida, é como enxergamos o mundo e por meio da qual tomamos decisões e apoiamos causas. Uma visão de mundo é semelhante a um quadro por meio do qual enquadramos o mundo ao nosso redor ou uma lente pelas quais podemos interpretar as dados da realidade que nos rodeia.

Existem muitas visões de mundo e elas exercem influência preponderante na vida (e morte, – pós-morte) das pessoas. As pessoas devem ser inteligentes ao examinar o seu próprio estilo de vida e valores pessoais – pelos quais elas vivem – e morrem. Ao compararmos visões de mundo, estamos melhor preparados para avaliar as principais afirmações sobre a realidade das coisas e do mundo, pois a vida exige uma comparação inteligente na escolha de um estilo de vida. Se você começou a leitura deste livro e se interessou por esta série, você é uma pessoa diferente e sensível. Separamos onze visões de mundo e cinco religiões mundiais para descrevermos sobre elas, fazermos comparações, críticas e avaliações de suas principais alegações. Os volumes serão numerados conforme cada título for sendo preparado e publicado. A leitura deste volume e desta série vai fazer uma grande diferença em sua vida a medida que você considerar cuidadosamente todas as opções e então decidir com cuidado e inteligência se a visão de mundo que você defende agora faz mais sentido a luz dos dados internos e externos da nossa realidade. Socrates disse certa vez que uma vida que não é examinada, não é digna de ser vivida. C. S. Lewis, o ex-ateu e o maior apologista e pensador Cristão do século dezenove, presidia o Socratic Club e tinha uma linha de pensamento que lá os guiava nas reuniões e debates, a saber: seguir as evidências até onde ela nos levar. Essa atitude o fez abandonar o Ateísmo e se converter a fé Cristã. Coisa semelhante aconteceu com o ex-ateu e hoje apologista Cristão Lee Strobel e com o ateu mais importante dos últimos 100 anos, o Antony Flew que abandonou o ateísmo depois de intensa investigação e defendeu a existência de Deus. Esse choque comparativo entre cosmovisões pode virar uma pessoa de ponta a cabeça.

Já percebeu que as vezes as pessoas olham para os mesmos dados e tiram conclusões completamente diferentes? A resposta a isso é que as pessoas observam os mesmos dados com lentes diferentes. Algumas lentes não irão colorir ou maquear o que as pessoas veem, outras irão mostrar os dados com cores e se uma lente for vermelha, todos os dados serão vistos vermelhos. Uma visão de mundo é a forma com que as pessoas entendem e interpretam o mundo e a vida. Dependendo da forma diferente com que essas pessoas enxergam e interpretam fica claro que o resultado final, a práxis diária será completamente diferente. Por exemplo, um Judeu Ortodoxo entende que o evento do Êxodo relatado no Pentateuco, ou seja, a saída do povo de Israel do Egito, sob a liderança de Moisés, é um milagre divino, uma intervenção real de Deus que preservou um povo e posteriormente formou uma nação. Um naturalista, ateu ou materialista veria o mesmo evento (se é que para estes esse evento realmente aconteceu) como uma anomalia da natureza (a passagem do Mar Vermelho e os milagres de preservação nas batalhas que se seguiram), ou seja, eventos incomuns puramente naturais. Ambos poderiam assumir a existência dos mesmos fatos e chegar a uma conclusão completamente diferente com respeito ao significado desses mesmos fatos.

Norman Geisler e William D. Watkins (2003, p. 15, 16) mencionam que existem historicamente sete visões de mundo principais. Todas com diferenças significativas, pois não é possível defender mais de uma visão de mundo ao mesmo tempo, porque suas premissas centrais se contradizem, o que significa que apenas uma visão de mundo pode estar correta e as outras devem ser falsas. De acordo com eles, as sete principais visões de mundo são Teísmo, Ateísmo, Panteísmo, Panenteísmo, Deísmo, Deísmo Finito e Politeísmo. Nossa abordagem é um pouco mais ampla, pois não iremos abordar o Deísmo Finito nem o Politeísmo e trabalharemos outros temas que aprofundam características de cosmovisões irmãs e das Religiões Mundiais que abraçam características especifícias de algumas cosmovisões, como por exemplo, o Cristianismo, o Judaísmo e o Islamismo constam na categoria do Teísmo Clássico e suas implicações. Então iremos abordar na nossa série tanto o Teísmo, quanto as três religiões teístas. Observe a nossa lista no início deste livro. O Deísmo Finito será contemplado no volume sobre o Deísmo e o Politeísmo será contemplado no volume sobre o Hinduísmoque é tanto Panteísta quanto politeísta.

As diferenças entre as cosmovisões e religiões são cruciais. O Teísmo afirma que existe um Deus infinito além e no universo, Transcendente e Imanente. O Teísmo defende que o universo físico não é tudo o que existe. Defende também que um Deus infinito e pessoal que está além do universo físico criou o universo do nada e o sustenta e pode agir dentro do universo de forma sobrenatural. O Ateísmo afirma que não existe nada além do universo físico e que o universo físico é tudo o que existe, existiu e existirá. Defende que não existe Deus ou deuses nem no universo nem além dele. Segundo esta visão, se o universo surgiu algum dia, surgiu do nada, por nada e para nada. Não existe uma mente formadora, criadora ou sustentadora do universo, ou seja, o universo existe por si mesmo, de si mesmo e se sustenta sozinho. O Panteísmo defende que Deus é o universo. Para o Panteísta não existe nenhum criador além do universo e independente do universo. Para eles, criador e criatura são duas formas diferentes de ver uma realidade. Deus é o universo (ou o todo) e o universo é Deus. O Panteísmo é encontrado no Hinduísmo, Zen Budismo e outras formas de religião. O Panenteísmo defende que Deus está no universo. Esta visão afirma que Deus é o universo como uma mente em um corpo. O universo é o corpo de Deus, mas há outro pólo em Deus que não é físico e este pólo representa seu potencial eterno e infinito que está além do universo físico. O Deísmo afirma que Deus está além do universo, mas não no universo. O Deísmo é semelhante ao Teísmo, mas sem os milagres. No Deísmo, Deus transcende o universo e não age de forma sobrenatural no universo nem no mundo. Apesar de ser uma espécie de visão naturalista do mundo, o Deísmo sustenta que existe um criador ou originador do universo, apesar deste suposto criador não ter nenhum interesse na criação nem nas criaturas, semelhante a um relojoeiro que criou o sistema e o deixou a trabalhar sozinho.

Os temas que aparecem como cosmovisões em nosso esquema, como o Naturalismo, Materialismo, Evolucionismo, Humanismo, por exemplo, compartilham características comuns com o Ateísmo e serão abordados a parte por exercerem forte influência nas academias contra o Teísmo como um todo. Os outros temas que serão abordados também desfrutam de posição semelhante e também merecem abordagem específica.

O tema do presente volume é o Ateísmo, uma visão de mundo materialista e naturalista (também evolucionista) que nega a existência de Deus. Abordaremos sobre a visão de mundo ateísta e faremos uma apresentação de sua história e definições. Depois trabalharemos os diferentes tipos de “ateísmos” com uma abordagem específica sobre o fenômeno conhecido como o Novo Ateísmo, um tipo de ateísmo agressivo e militante e por fim responderemos as acusações mais comuns dos ateus hoje contra uma visão de mundo teísta e Cristã.

Esperamos que este volume e esta série possam servir como um divisor de águas para clarear o nosso pensamento e nos guiar nos nossos diálogos e no evangelismo pessoal, bem como na nossa pregação. Um conhecimento panorâmico é útil para que possamos nos fazer entender melhor e para termos uma facilidade de entendermos e traçarmos uma crítica construtiva a uma visão de mundo oponente, de forma mais rápida e eficaz. Por exemplo, Craig Hazen (2007) escreveu um artigo chamado “O Cristianismo em um mundo de Religiões”,[1] um artigo comparativo de uma experiência que ele teve em sala de aula como convidado em uma faculdade comunitária. Nessa aula ele traçou quatro pontos que colocam a visão de mundo Cristã em vantagem, em comparação as visões de mundo antagônicas, a saber, “O Cristianismo pode ser averiguado” (há afirmações sobre Jesus - Sua vida, Seus ensinamentos, Sua morte e Sua ressurreição - que podem ser averiguadas); “No Cristianismo a salvação é um dom gratuito de Deus” (você não precisa se esforçar heroicamente por muitas vidas para alcançar a salvação); “No Cristianismo você percebe uma visão de mundo maravilhosa e coerente” (seria extremamente útil saber quais das religiões apresentam uma imagem do mundo que se aproxime mais de uma correspondência real com a forma com que o mundo realmente é – observe por exemplo o problema do mal – existem visões de mundo que negam a existência do mal e isso é totalmente contrário aos dados da realidade); “O Cristianismo tem Jesus como o centro” (se Jesus é uma figura tão atraente que as pessoas religiosas do mundo querem cooptá-Lo para suas próprias tradições, faz todo o sentido dar uma atenção especial ao Cristianismo). Esse é um exemplo bem prático da utilidade de uma conhecimento mais amplo sobre as religiões e cosmovisões.

Uma palavra final nesta introdução. Afirmações específicas falam muitas coisas sobre visões de mundo. Sabemos que o Cristianismo é exclusivista, ou seja, o Cristianismo afirma que é verdadeiro e que tudo o que se opõe a ele é falso. Podemos encontrar uma afirmação assim, presente nos lábios de Jesus em João 14:6. Há um texto que define bem a visão Cristã de mundo em muitos aspectos: João 3: 16. Vamos ao texto:

 

Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. (João 3:16)

 

João 3:16 é, junto com o Salmo 23 e o Salmos 91, o texto mais conhecido da Bíblia. Muitos expositores o consideram apenas um texto evangelístico e nada mais. Contudo, João 3: 16 é um mini credo Cristão e uma poderosa defesa da Visão Cristã de mundo, e não apenas isso, é um texto que expõe outras visões de mundo e as expõe por negá-las. Observe que quando o texto diz: “Porque Deus” responde ao Ateísmo, que afirma que Deus não existe. Quando o texto diz que Deus “amou”, responde ao Panteísmo e ao Deísmo que são visões de mundo que afirmam que Deus é impessoal e não ama ninguém. Quando o verso diz que Deus amou o “mundo”, responde as visões de mundo nacionalistas, como o Judaísmo, que diz que Deus amou apenas um povo. Quando o versículo afirma que Deus “Deu”, responde ao materialismo hodierno consumista que diz que é melhor receber do que dar. Quando este singelo versículo afirma que Deus deu o “seu Filho Unigênito”, responde ao Islamismo que afirma que Deus não tem Filho. Responde também as visões unicistas, pois o termo grego Unigênito (μονογενη) aponta para o caráter substancial entre o Pai e o Filho, ou seja, ambos dividem a mesma essência, substância e atributos. Quando o verso afirma “para que todo aquele que nele crê”, responde as visões que negam a fé e responde as visões que afirmam que nem todos podem crer. Quando este mesmo texto bíblico lança uma advertência e um resultado prático dos que não creem, para que estes “não pereçam”, respondem as visões de mundo que negam esta realidade espiritual que é a condenação eterna. Responde também aos que defendem que no final ninguém será condenado e que todos serão salvos, como o Universalismo. Quando este mesmíssimo texto diz que estes que creem “tem a vida eterna”, também responde a estes mesmos que negam uma vida após a morte e que negam uma realidade eterna no céu. João 3:16 não é apenas um versículo evangelístico, mas é um texto que apresenta o caráter, o amor e a misericórdia de Deus, a condição errônea das cosmovisões conflitantes e a estrutura profunda da realidade em que vivemos, uma realidade dual entre o que é material e espiritual e entre o que é terreno e divino, celestial. Bons estudos e boa leitura.

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Referências:

 

HAZEN, Craig J. Christianity in a World of Religions.In COPAN, Paul; CRAIG, William Lane (General Editors). Passionate Conviction: Contemporary Discourses on Christian Apologetics. Nashville, Tennessee: B&H ACADEMIC, 2007.

GEISLER, Norman L.; WATKINS, William D. Worlds Apart: A Handbook on World Views. Second Edition. Eugene, Oregon: Wipf and Stock Publishers, 2003

 

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Nota:

[1] Você pode ler o texto completo aqui: https://www.bomdiacomteologia.com/2020/06/o-cristianismo-em-um-mundo-de-religioes.html

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Observação: Se você leu este texto até aqui, vai descobrir agora que este texto é a introdução de um novo livro de minha autoria que faz parte de um projeto maior e mais amplo. Este livro é o primeiro de uma série de 16 livros. O nome da série é a seguinte:

SÉRIE COSMOVISÕES E RELIGIÕES MUNDIAIS COMPARADAS

E o volume I, cuja introdução você acabou de ler, chama-se:

A VISÃO DE MUNDO ATEÍSTA

Segue abaixo a relação dos 16 temas que estão em fase de pesquisa, catalogação de obras e desenvolvimento na escrita:

- Sobre cosmovisões -

1. Ateísmo – Walson Sales

2. Naturalismo

3. Panteísmo/Panenteísmo

4. Evolucionismo

5. Deísmo – em desenvolvimento...

6. Agnosticismo

7. Gnosticismo

8. Ceticismo

9. Humanismo

10. Materialismo

11. Teísmo – em desenvolvimento...

 

 - Sobre Religiões Mundiais - Comparadas

1. Cristianismo

2. Judaísmo

3. Budismo

4. Islamismo – em desenvolvimento...

5. Hinduísmo – em desenvolvimento...

 

Agora que você sabe em primeira mão: Contamos com as vossas orações.

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