Por Walson Sales
O fenômeno religioso é consenso geral. Em todas as culturas, perpassando todas as eras, a religião tem desenpenhado um papel de destaque na vida do ser humano, seja de forma negativa (como por exemplo, no sacrífico de seres humanos e outras tradições perniciosas), seja de forma positiva (como por exemplo, na valorização da vida humana na cultura Judaico-Cristã - que defende o valor da vida humana com base no fato de que fomos criados a imagem e semelhança de Deus) e isso é inegável. Vou apresentar a definição de um especialista em Religiões e a definição de filósofo sobre o Teísmo:
Teísmo: (1) Crença num único ser divino (“Deus”, mais do que um Deus) pessoal, ativamente relacionado com a realidade divinamente criada, que inclui a raça humana, mas distinto dela. Dessa maneira, o Teísmo adota não só a imanência (presença dentro do mundo e interação com ele), mas também a transcendência (“diversidade”, independência e separação do mundo) de Deus. Nisto, contrasta com o Panteísmo [ver capítulo sobre], de um lado e, de outro, com o Deísmo [ver capítulo sobre], que sustenta ser Deus o criador, mas sem atividade no que criou. (2) Mais especificamente, a visão mundial que é a conclusão putativa dos clássicos Argumentos em Prol da Existência de Deus, O Espírito Perfeito, existente por sí mesmo, do qual o mundo depende para existir, continuar, ter significado e propósito (HINNELLS, 1984, p. 258).
A definição do Teísmo Clássico não deixa espaço para visões naturalistas ou materialistas da realidade, pois o Teísmo Clássico trabalha com as implicações advindas de várias vertentes, como por exemplo, a natureza da realidade (o universo finito formado por matéria, tempo, espaço e energia), a teoria do conhecimento, a inferência da melhor explicação e dos argumentos dedutivos e indutivos da própria estrutura do mundo. Somando-se a tudo isso, as tradições teístas ainda apelam com esclusividade particular às suas revelações especiais, seja no Teísmo Judaico-Cristão (Antigo e Novo Testamento), seja no Teísmo Islâmico (Alcorão). De posse dessas áreas de avaliações, cabe ao pesquisador saber qual visão de mundo e/ou revelação se adequa melhor aos dados da natureza e da revelação especial dessas tradições. Outra definição, agora com uma crítica do Antony Flew, enquanto ainda era ateu (considerado o maior ateu dos últimos 100 anos), aborda não apenas a estrutura geral do Teísmo, mas trás uma avaliação negativa, pois ele não vê possibilidade do Teísmo ser coerente internamente:
Teísmo. Crença em Deus, onde Deus é entendido como o único criador onipotente e onisciente de tudo o mais que existe. Ele é considerado um Ser distinto de sua criação, embora se manifeste por meio dela, e também essencialmente pessoal, cuidando e se comunicando com a humanidade, e infinitamente digno da adoração e obediência humana. O teísmo, portanto, é claramente um elemento central em toda a tradição religiosa judaico-cristã. Os problemas filosóficos que o teísmo levanta são, em primeiro lugar, os de manter os vários elementos desta concepção de divindade em uma unidade coerente. Por exemplo, há o problema de fazer justiça à natureza ilimitada de Deus sem cair no panteísmo, ou negar a liberdade humana, ou a crença de que todos os conceitos emprestados do mundo finito - incluindo o da personalidade - são irremediavelmente inadequados e enganosos se aplicado a Deus. Por outro lado, há a dificuldade de fazer justiça à independência da criação, sem pensar em Deus simplesmente como uma Causa Primeira, que após o ato criativo inicial deixa o mundo inteiramente ao funcionamento das leis da natureza. Além disso, há o problema de reconciliar a benevolência e onipotência do criador com a presença do mal na criação. E, é claro, mesmo que a concepção se prove internamente coerente, há a questão de nossos fundamentos para afirmar que qualquer coisa realmente existe que corresponda a ela. Compare deísmo; panteísmo (FLEW 1985, 351, 352).
O Antony Flew dá uma concepção fiel do que implica o Teísmo e encerra apresentando os pretensos “problemas filosóficos” que supostamente o Teísmo levanta. Não quero minimizar as dificuldades que surgem em nossas mentes finitas ao meditarmos, por exemplo, em um ser que é espírito por definição (incorpóreo) e que domina sobre e interage com o mundo material. Falaremos em um tópico próprio sobre o problema específico, mas podemos adiantar duas coisas aqui. A primeira é a que decorre naturalmente da natureza da realidade do mundo. As implicações são claras, pois se a matéria não é eterna nem necessária, logo o que trouxe o mundo material a existência tem que ser imaterial (espírito incorpóreo) e extremamente poderoso. A segunda coisa que pode ser dita (apesar de já ter sido mostrado no capítulo sobre Ateísmo) é que o Antony Flew abandonou o ateísmo depois de se debruçar na filosofia de Aristóteles e ficar realmente impressionado com o Argumento da Sintonia Fina do Universo. Na verdade, os demais problemas filosóficos levantados por Flew nessa citação estão na categoria de se o Teísmo é coerente ou não. Como mencionei, é coerente postular que exista um ser sem corpo (mente incorpórea)?
O problema do Panteísmo e da suposta supressão da liberdade humana, caso seja incoerente o conceito Teísta, é abordado em capítulo próprio. Contudo, uma definição de Panteísmo aqui esclarece o motivo dessa suposição de Flew. Panteísmo é definido como:
Crença em que o conjunto da realidade é divino. O Panteísmo pode ser cósmico (afirmação do mundo), equiparando Deus à natureza, ou acósmico (negação do mundo), sustentando que a experiência dos sentidos é ilusória e apenas o divino é real. O primeiro semelha o Panenteísmo (como na Teologia do Processo), segundo o qual Deus inclui e impregna tudo o que é conhecido pela experiência dos sentidos, mas não é exaurido por ela (HINNELLS 1984, p. 200).
Perceba que no Panteísmo, Deus é tudo e tudo é Deus. De modo geral, caso essa visão de mundo seja verdadeira, seriamos apenas extensões de Deus com percepção ilusória do próprio ser (o Eu), da realidade e da liberdade. Temos que nos deter um pouco por aqui para não deixar sem resposta uma importante crítica do Antony Flew do tempo em que era ateu. Sendo assim, temos que postular duas possibilidades. A primeira é a da condição ilusória do panteísmo. A segunda é a que afirma que pelo fato de sermos seres pessoais (seres com emoções, intelecto, vontade, consciência, razão e liberdade), temos que ter sido criados por um ser pessoal e racional. Das duas opções, temos que escolher apenas uma: ou somos emanações ou extensões de um ser impessoal com a impressão ilusória de que somos seres pessoais com liberdade, ou somos seres pessoais racionais reais, criados por um ser real, racional, pessoal e distinto da criação. Não existem boas razões para pensarmos que tudo não passa de uma ilusão, logo não faz sentido postular essa opção. A crítica de Flew não se sustenta. Somando a essa falta de coerência interna do panteísmo, temos a revelação especial na tradição Judaico-Cristã que confirma as nossas impressões sobre nós mesmos e sobre a realidade, ou seja, a de que um Deus pessoal nos criou a Sua imagem e semelhança em um passado finito.
Apesar de não ser o tema em questão, ou seja, o panteísmo em sí, mas por ser um tema transversal, no que diz respeito a questão da liberdade, é importante destacar essa característica distintiva do Teísmo Cristão Clássico aqui. William Lane Craig ao criticar o conceito de Providência no Calvinismo (que corresponde ao determinismo rígido e portanto, nega a liberdade humana), no livro Four Views on Divine Providence, Craig apresenta, citando um Calvinista de peso, o D. A. Carson,[1] um panorama geral do que a revelação especial da cultura Judaico-Cristã afirma sobre a Soberania de Deus e a Liberdade Humana. É afirmado abertamente nas Escrituras que (1) Deus é o criador, governador e possuidor de todas as coisas; (2) Deus é a causa pessoal última de tudo o que acontece; (3) Deus elege o seu povo e (4) Deus é a Fonte não reconhecida de boa fortuna ou sucesso. Ninguém que leva essas passagens a sério pode abraçar o Teísmo Aberto (que é a visão de mundo que nega que Deus seja Onisciente), que nega a soberania de Deus sobre os eventos contingentes da história. Por outro lado, a convicção de que os seres humanos são agentes morais livres também permeia o modo Hebraico de pensar, como é evidente das passagens que Carson lista sob nove características: (1) as pessoas encaram múltiplas exortações e comandos divinos; (2) é dito as pessoas para obedecer, crer e escolher a Deus; (3) as pessoas pecam e se rebelam contra Deus; (4) os pecados das pessoas são julgados por Deus; (5) as pessoas são testadas por Deus; (6) as pessoas recebem recompensas divinas; (7) os eleitos são responsáveis por responder a iniciativa divina; (8) orações não são apenas meros exemplos roteirizados por Deus, e (9) Deus literalmente convida os pecadores para que se arrependam e sejam salvos. Estas passagens excluem um entendimento determinista da providência divina que se opõe a liberdade humana (CRAIG, 2011, p. 54).[2]
Agora, siga meu raciocínio: se o panteísmo é verdadeiro (1) Deus não é o criador, pois não existe criação. Deus se confunde com as coisas criadas, inclusive que estão sofrendo mudanças temporais e estruturais; (2) Deus é a causa pessoal de tudo o que acontece, pois tudo acontece em Deus; (3) Deus não elege ninguém, pois é impessoal; (4) Deus é a fonte primeira de tudo o que acontece, sejam coisas boas ou más; os demais itens da citação são impedidos de ter qualquer validade, inclusive da revelação especial, exatamente porque não existe essa revelação no panteísmo por Deus ser impessoal. No que diz respeito a crítica do Flew mais jovem acerca da linguagem do mundo finito aplicada a Deus, isso se refere a linguagem analógica, ou seja, uma forma de se referir ao transcendental de uma maneira que possamos entender, por meio dos fenômenos de nossa linguagem. Acerca do problema do mal, trataremos desse assunto em tópico próprio.
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Referências:
CRAIG, William Lane. Response to Paul Kjoss Helseth. Em GUNDRY, Stanley N; JOWERS, Dennis W. Four Views on Divine Providence. Grand Rapids, Michigan: Zondervan, 2011
FLEW, Antony (General Editor). A Dictionary of Philosophy. Cavaye Place, London: Pan Books Ltd and The Macmillan Press Ltd, 1985
HINNELLS, John R (Editor). Dicionário das Religiões (Tradução Octávio Mendes Cajado). São Paulo: Círculo do Livro, 1984
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Notas:
[1] CARSON, D.A. Divine Sovereignty and Human Responsibility: Biblical Perspectives in Tension, New Foundations Theological Library (Atlanta: John Knox, 1981), 24-35.
[2] No debate, o Calvinista Paul Kjoss Helseth acusa que ao se permitir que os seres humanos sejam dotados de Liberdade Libertária, eles são dotados como fontes de causalidade primária, pois segundo ele isso “revela uma tendência Maniqueísta que ...subverte os solas da Reforma, bem como os princípios essenciais da metafísica bíblica”. Ao que Craig rebate dizendo que a tentativa de impugnar o Molinismo/Arminianismo ao culpá-los por associação ao Maniqueísmo é apenas uma tentativa engraçada e indigna de um erudito sério. Pois pode-se facilmente também tentar impugnar a teoria de Helseth ao associá-la com o Spinozismo por causa de seu determinismo universal (CRAIG, 2011, p. 58). Todos sabem que Baruch Spinoza é o maior expoente e defensor do Panteísmo. Para o leitor ter uma ideia do que significa Liberdade Libertária, leia o excelente artigo do Molinista Evan Minton aqui: https://www.bomdiacomteologia.com/2020/03/5-argumentos-favor-da-existencia-do.html
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