Por Silas Daniel
De uns anos para cá, alguns teólogos avessos ao pentecostalismo passaram a querer forçar uma ligação entre o pai da teologia liberal, o reformado Friedrich Schleiermacher (1768-1834), e o pentecostalismo. Bem, qual seria a tal ligação? Em linhas gerais, o fato de Schleiermacher defender que é o “sentimento religioso” que dá significado à realidade divina na vida das pessoas, de maneira que “não podemos conhecer Deus fora de nossa experiência religiosa”; e que, em consequência disso, a experiência religiosa seria o elemento central da religião e o fundamento da própria hermenêutica, o que supostamente o pentecostalismo também esposaria.
Ora, tal afirmação é desconhecer ambos – Schleiermacher e o pentecostalismo clássico.
O que Schleiermacher chamava de “experiência” ou “sentimento religioso” NÃO É A MESMA COISA que os pentecostais clássicos falam quando se referem às experiências na vida cristã, posto que estas, para o pentecostal clássico, decorrem de sua interação com as Escrituras, de seu entendimento e aplicação do texto sagrado para as suas vidas. É uma relação viva com Deus guiada pelas Escrituras. Já a experiência de que fala Schleiermacher é independente das Escrituras. Trata-se de uma mera intuição subjetiva do infinito, uma consciência e sentimento totalmente subjetivos de dependência do divino, que ele designou mais completamente como “Gefühl der schlechthinnigen Abhängigkeit” (“sentimento de dependência absoluta”).
Schleiermacher afirmava, inclusive, que “a Bíblia contém a verdade somente quando corresponde ao que nossa consciência religiosa nos diz que é verdade; quando ambas discordam, a Bíblia está errada” (MCDERMOTT, Gerald, “Grandes Teólogos – Uma Síntese do Pensamento Teológico em 21 Séculos de Igreja”, São Paulo: Vida Nova, 2013, p. 153). O teólogo alemão acreditava que a salvação se encontrava “na experiência existencial” e não em alguma “compreensão e formulação teológica correta” a partir da Bíblia (REDEKER, Martin, “Schleiermacher: Life and Though”, Philadelphia: Fortress, 1973, p. 40). Aliás, Schleiermacher sequer acreditava na deidade de Cristo e no sacrifício vicário de Jesus por nós.
Escreveu o teólogo alemão: “Não posso acreditar que Ele, que se autodenominou Filho do Homem, era o verdadeiro Deus eterno; não posso acreditar que Sua morte foi uma expiação vicária, porque Ele nunca o disse expressamente; e não posso acreditar que tenha sido necessário, porque Deus, que evidentemente não criou os homens para a perfeição, mas para a busca dela, não pode tender a puni-los eternamente, porque eles não a alcançaram” (SCHLEIERMACHER, Friedrich, “The Life of Friedrich Schleiermacher, As Unfolded in His Autobiography and Letters”, volume 1, Londres: Smith & Elder, 1860, p. 46).
Em outras palavras, o teólogo alemão simplesmente colocava o tal “sentimento religioso” acima da própria Bíblia, quando o pentecostalismo clássico faz exatamente o contrário: ele tem na Bíblia a fonte de suas crenças e a fonte e o guia de suas experiências.
Para o pentecostal, a experiência é importante hermeneuticamente como corroboradora do texto bíblico e não como o fundamento hermenêutico da existência. O pentecostal não vai para Bíblia para buscar validação para a sua experiência; ao contrário, é da sua relação com a Palavra de Deus que ele extrai as experiências que devem nortear a sua vida. Nas palavras do falecido teólogo pentecostal William Menzies, “se uma verdade bíblica pode ser promulgada, então ela deve ser demonstrada em vida”.
Enfim, para o pentecostal clássico, a experiência é correta quando ela decorre daquilo que afirma e ensina a própria Bíblia; quando ela é fruto exatamente da aplicação literal em nossa vida daquilo que diz a Bíblia. “Nós, pentecostais, nunca vimos o abismo que separa o nosso mundo do mundo do texto [bíblico] em sentido geral” (MENZIES, Robert, “Pentecostes: Essa História é a Nossa História”, Rio de Janeiro: CPAD, 2016, p. 21). Além disso, enquanto Schleiermacher deixava em segundo plano os aspectos éticos e morais da religião, resumindo a religião apenas a um “gosto pelo infinito”, a um “sentir-se absolutamente dependente de Deus, e não à adesão a pensamentos ou regras de ação” (SCHLEIERMACHER, Friedrich, “Christian Faith”, (Louisville: Westminster John Knox, 2016, p. 68), o pentecostalismo clássico leva a sério – e valoriza muito – as prescrições bíblicas.
“Ah, mas já vi teólogos pentecostais dizendo que a experiência está acima da teologia”. Sim, e eles não estão errados. Quando eles dizem isso provocativamente, não estão dizendo que a experiência está acima da Bíblia. Aliás, a perspicácia dessa afirmação está justamente no fato de que ela, em um primeiro momento, leva os irmãos mais desatentos a combaterem o que acham ser um atentado contra o princípio inamovível da Bíblia como nossa única regra de fé e prática, para depois, ao verem realmente do que se trata, perceberem que estavam enredados em uma confusão para a qual não tinham atentado ainda: a confusão entre teologia e Bíblia. Simplesmente, passava-lhes despercebida a distinção entre teologia bíblica e sistema teológico.
Uma coisa é a Bíblia, outra são sistemas teológicos (como o calvinismo, por exemplo), que não podem ser confundidos com a própria Bíblia, que não podem ser vistos como sendo o Cristianismo em sua totalidade (Tipo quando alguém afirma “O calvinismo é o evangelho”).
Sistematizações teológicas não são ruins – ao contrário, são importantes para organizar panoramicamente o ensino bíblico como um todo para fins didáticos. Entretanto, é importante frisar que as sistematizações teológicas estão mais próximas da verdade apenas quanto mais próximas estão da Bíblia.
Há vários sistemas teológicos no meio protestante, e o que nos une como irmãos em Cristo, apesar dessas diferenças, é justamente o fato de que todas as igrejas genuinamente evangélicas, independente de suas diferenças doutrinárias, independente de seus sistemas teológicos adotados, creem naquilo que chamamos de “espinha dorsal da fé cristã”, aqueles pontos bíblico doutrinários fundamentais sem os quais ninguém pode ser salvo.
E quanto aos pontos secundários? Ora, cada cristão, pelo livre exame das Escrituras, nossa única regra de fé e prática, deve buscar entendê-los melhor e formar, assim, o seu entendimento teológico em relação a eles. Isso tem sido feito? De forma geral, sim. Ademais, nunca tivemos uma época em que a Bíblia e obras teológicas de peso, produzidas por várias correntes, estiveram tão acessíveis aos cristãos como agora; e, nesse contexto, a maioria dos evangélicos do mundo tem feito a sua avaliação e optado por um entendimento, à luz do texto bíblico, diferente dos pressupostos calvinistas, divorciado do cessacionismo e apartado do amilenismo, por exemplo.
“Ok, mas já vi teólogos pentecostais também defendendo um rompimento com todos os métodos tradicionais de interpretação da Bíblia”. Ora, não se pode confundir um movimento muitíssimo recente (surgido no início do século XXI) e minoritário dentro da teologia pentecostal com o que o pentecostalismo sempre defendeu e é. Isso é só mais um caso, como tantos outros na história da teologia cristã, de teólogos influenciados por filosofias do “zeitgeist” de sua época. Basta dizer que tal pensamento não é adotado pela maioria esmagadora dos teólogos pentecostais e muito menos pelo pentecostalismo em geral.
Enfim, tratar uma corrente minoritária dentro de um movimento como se representasse o todo desse movimento é uma atitude não só incoerente e desonesta como também uma aparente demonstração de desespero por parte de quem usa esse tipo de argumento como forma de combater o avanço do pentecostalismo, que ocorre simultaneamente ao decréscimo constante do protestantismo tradicional no mundo. Aliás, já faz décadas que o protestantismo cresce no mundo às custas do Movimento Pentecostal (Não estou querendo aqui ofender os irmãos tradicionais, mas apenas constatando um fato estatístico e histórico).
Por fim, a única ligação que poderia ser encontrada entre Schleiermacher e o pentecostalismo é um elo fraquíssimo, frágil demais: ambos têm alguma relação com o pietismo. Ora, há três problemas monumentais em estabelecer uma relação a partir disso:
1) O pentecostalismo não é um filho direto do pietismo, mas o pietismo é apenas uma das muitas influências históricas na formação dos movimentos renovacionistas, dos quais descende o pentecostalismo;
2) Schleiermacher faz um caminho totalmente diverso dos movimentos renovacionistas a partir do pietismo. Seu “ponto de partida” pode ter sido semelhante, mas os direcionamentos são absolutamente opostos, o que é admitido mesmo por autores que tentam fazer uma ligação entre Schleiermacher e o renovacionismo e, consequentemente, entre o liberalismo e o pentecostalismo (Veja, por exemplo, a obra “Schleiermacher & Palmer”, de Justin A. Davis. O autor vai chegar até a colocar a neo-ortodoxia e o fundamentalismo no mesmo pacote. Haja elasticidade!).
Forçar uma ligação teológica entre Schleiermacher e o pentecostalismo porque ambos têm alguma relação com o pietismo e porque ambos falam de experiencia não faz o menor sentido. É – para usar uma analogia com um fenômeno recente – o mesmo que dizer que o movimento nacionalista do século XXI, que é antiestatista e antiglobalista, é a mesma coisa do movimento nacionalista do início do século XX, que confundia nação com estado e era imperialista. Não apenas aquele odeia este, se opondo frontalmente a ele, como suas raízes doutrinárias não são as mesmas (Aos interessados no assunto, uma obra acessível em português que explica bem essa diferença é “A Virtude do Nacionalismo”, do judeu Yoram Hazony). O fato de ambos usarem o termo “nacionalismo” não significa que estão falando da mesma coisa.
Para usar outra analogia, tanto o Cristianismo quanto o Islamismo creem em Deus, em Abraão e em Jesus, não obstante suas interpretações sobre esses três serem totalmente diferentes. Isso os torna “gêmeos siameses”? Claro que não.
3) Na construção de seu pensamento, Schleiermacher rompeu com o pietismo, uma vez que este, segundo ele, estava preso a visões tradicionalistas as quais ele agora rejeitava, tais como a necessidade do sacrifício vicário de Cristo e boa parte das afirmações dos credos, as quais ele considerava antiquadas, sem sentido e infrutíferas, como são os casos dos dogmas da dupla natureza de Cristo e da Trindade (GERRISH, B. A., “A Prince of the Church”, Philadelphia: Fortress Press, 1984, pp. 36-40).
Enfim, não há ligação histórica alguma entre o pensamento de Schleiermacher e o desenvolvimento do pensamento e da teologia pentecostal. E nem poderia haver, pelas razões acima apresentadas. As raízes teológicas do Movimento Pentecostal são outras, razão pela qual ele é exatamente o oposto do liberalismo teológico. Aliás, quando ele surgiu, ele era, entre outras coisas, uma reação exatamente ao liberalismo teológico que grassava as igrejas protestantes no final do século XIX e início do século XX, e que têm sua gênese em Schleiermacher.
Em suma, Schleiermacher não é o “pai do pentecostalismo”, mas exatamente o pai de tudo aquilo contra o qual o Movimento Pentecostal se insurgiu e se insurge ainda hoje. Logo, ligá-lo ao pentecostalismo não é uma simples temeridade, mas um erro colossal.
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