Por Dyego Andrade
O
problema da relação de Israel com Canaã se tomou constitutivo para toda a
história pré-exílica e a história da religião de Israel. (Herbert Donner)
1-
Introdução
Muitos
povos e nações citados na Bíblia Sagrada atraem a atenção dos leitores. Apesar
de Israel ser a nação que Deus escolheu para realizar sua obra, outros povos e
nações estão presentes em situações quer positivas ou negativas, o que lhes
renderam notoriedade na narrativa bíblica, dentre estes se pode citar o povo
cananeu. Tal citação não é aleatória, visto que esse povo no decorrer das
Escrituras traz consigo muitos acontecimentos que devem ser evidenciados. A
presença dos Cananeus na Bíblia é tão impactante que desde o primeiro livro do
Antigo Testamento está escrito eventos singulares relacionando os cananeus, o
povo de Deus e o próprio Deus. Nesse sentido, o presente artigo tem a
finalidade de tratar sobre a relação entre os cananeus e Deus e o seu povo e
suas consequências.
2)
A maldição de Canaã e as raízes cananeias
No
Livro Sagrado o primeiro relato sobre Canaã é visto em Gn 9.20-27, nesse trecho
o patriarca Noé fica bêbado após ingerir vinho e tira sua roupa, ao ver essa
situação Cam, pai de Canaã, informa o fato a seus irmãos Sem e Jafé que cobrem
a nudez do que era motivo de vergonha para seu Pai. Após a restauração das faculdades
mentais, Noé amaldiçoa Canaã ao dizer que ele seria servo de Sem e Jafé. Essas
palavras de Noé sobre Canaã têm importância distinta para que se possa compreender
os relatos bíblicos envolvendo Canaã futuramente. Não se sabe ao certo o motivo
de Noé ter proferido maldições sobre o filho de Cam e não sobre o próprio Cam;
apesar de muitas especulações sobre o texto, o comentário de John Walton (2003,
p. 39) merece evidência:
No
contexto bíblico, a benção patriarcal geralmente dizia respeito ao destino dos
filhos sobre a fertilidade da terra, da família e ao relacionamento entre seus
membros..., não devemos ficar incomodados com o fato de que Canaã aparentemente
foi escolhido sem motivo. Podemos muito bem presumir que a declaração de Noé
tenha sido muito abrangente, incluindo algumas afirmações desfavoráveis também
a respeito de Cam. O escritor bíblico não tem a preocupação de preservar o
todo- ele simplesmente seleciona as partes que são pertinentes ao que quer
mostrar e que são relevantes para seus leitores, visto que os cananeus eram
camitas, com quem Israel tinha muita familiaridade. Em último lugar, não
devemos entender essas profecias como vindo de Deus. Não aparece nenhuma
expressão “ e disse o Senhor...”. São palavras do patriarca não de Deus....
Ainda assim, elas foram entendidas seriamente e considerada capazes de ter
influência no desenrolar da história e no destino da pessoa.
A
partir dessa citação, é visível que as conjecturas e especulações devem ser
recusadas, isso pelo fato de que não há clareza no relato sobre muitas ideias
que já foram ditas por alguns estudiosos e por não haver uma importância
considerável para a narrativa bíblica. O que é claro e indiscutível é que Canaã
foi amaldiçoado e que por consequência disso, Cam viu seu(s)descendente(s)
ter(em) seu futuro comprometido com um erro dele. Tal maldição foi proferida
por Noé, que por ser o patriarca era autoridade delegada por Deus naquela
família, isso indica que sua palavra tinha peso naqueles dias, até então só
Deus havia amaldiçoado alguém, o primeiro ser humano a fazê-lo foi Noé. Vale
ressaltar que tal maldição não foi dita diretamente por Deus e sim por seu
representante, o que significa dizer quetal ato poderia ser revogado quando a
autoridade suprema assim desejasse.
Em
Gênesis 10a tabela das nações éapresentada de forma sistematizada, o texto diz
serem as gerações de Noé. A exposição da genealogia dos descendentes dele é importante
para que se conheça mais sobre as raízes cananeias, a mesma consta em Gn
10.15-19 estando escrito que Canaã teve 11 filhos que consequentemente geraram
povos, a saber, Sidom, seu primogênito, e
Hete, e os jebuseus, amorreus e girgaseus,heveus, arqueus, sineus, arvadeus,
zamareus e hamateus, que logo se espalharam por vários lugares,
o quenão é possível expressar um local fixo em que eles habitavam, mas que
haviam fixadotermos territoriais pertencentes aos mesmose suas respectivas
fronteiras.
3) A
promessa da Terra de Canaã a Abraão
Os habitantes de Canaã enquanto grupo social
já eram desenvolvidos, como também conviviam com outros povos, um deles era Israel,
esses dois povos já tinham proximidade antes mesmo da nação de Israel ser
chamada Israel. Desde o patriarca Abraão a quem se pode chamar Pai da nação
israelita, os cananeus já eram citados, bem como a terra de Canaã. Em Gênesis
12.1-7, Deus chama Abraão e lhe faz promessas, o Senhor fala sobre “uma terra
que te mostrarei” (v. 1), Abraão, sua família e seus criados “saíram para irem
à terra de Canaã; e vieram à terra de Canaã (v.5), ao chegar “estavam, então,
os cananeus na terra.”(v.6) e por fim Deus diz: “À tua semente darei esta terra”
(v.7).A expressiva importância dos textos citados mostram que daí em diante
haverá, de uma forma ou outra, uma atenção de Deus e de Israel direcionada aterra
de Canaã, afinal de contas Deus iria mostrar a terra, Abraão ao chegar na terra
viu que estava habitada e Deus disse ao mesmo, que daria a semente de Abraão a
referida terra.T. Desmond Alexander (2010, p. 74) especialista em Antigo Testamento,
escreve:
Embora não seja
especificamente mencionado que Abraão possuirá essa terra, a promessa que ele
se tornará um ‘grande povo”, implica que os seus descendentes a possuirão; o
termo hebraico gôy, “nação”, denota o
povo habitante de uma localização geográfica específica e que forma uma unidade
política. Assim, quando Abraão chega a Canaã pela primeira vez o Senhor
promete: “À sua descendência [semente] darei essa terra” (12.7). Mais
tarde, depois da separação entre Ló e Abraão, Deus repete essa promessa,
enfatizando a extensão da terra a ser possuída pelos descendentes de Abraão
(13.14-17).
A citação em apreço mostra que os
descendentes de Abraão iriam possuir a terra, como seria essa possessão até o
momento da narrativa não se sabia. A descrição de algumas características da
terra é feita através da investigação gramatical do hebraico bíblico, de forma
que havia um território geográfico e consequentemente era uma unidade política.
O fato de ter uma extensão territorial e forma de governo, indica que os
cananeus já estavam bem desenvolvidos enquanto grupo social, tendo costumes e cultura
formada; Deus manda Abraão percorrer o local para reconhecimento, pois naquele
local uma nação seria reconhecida por servir a Deus através da sua cultura,
economia, religião, forma de governo e muitas outras características que seriam
maturadas através do tempo. Por fim Deus reforça dizendo a Abraão que daria a
terra a ele e sua semente e acrescenta dizendo que sua semente seria numerosa
como o pó da terra.
No capítulo 14 de Gênesis é relatado o
encontro entre Abraão e Melquisedeque, um cananeu misterioso que posteriormente
será tratado sobre, em seguida no capítulo 15, há um diálogo entre Deus e Abraão
em que nos versículos 2 e 3, Abraão fala sobre sua dúvida em receber a terra
prometida por não ter filhos e suas posses ficarem com seu mordomo. Deus,
magistralmente no versículo 5 diz que a descendência de Abraão será tão vasta e
difícil de se contar como as estrelas do céu e faz uma aliança unilateral com
Abraão, nos versículos 11-12 e 16-21, Deus manda Abraão armar o cerimonial referente
a aliança que iria ocorrer e realiza a aliança consigo mesmo, passando entre os
animais para que não houvesse dúvida sobre o cumprimento da mesma e afirmaque a
quarta geração do patriarca retornaria para aquela terra. Sobre a aliança desse
capítulo o erudito Victor P. Hamilton (2017, pág. 104-105) afirma:
A peculiaridade do capítulo
15 é a ratificação oficial dessa aliança, depois que Abraão dispôs os animais
sacrificados em duas colunas, lado a lado, e o próprio Deus passou entre as
colunas em forma de fogo. A intenção do ritual dificilmente poderia ser mais
ousada. Deus, de forma unilateral, compromete-se com Abraão e sua descendência
a ponto de se colocar sob uma potencial maldição. Caso aquele Deus de promessas
não cumprisse sua palavra,seu destino seria ser desmembrado, tal como os
animais (sobre o significado de cortar um animal em dois, como parte de um
ritual de aliança, leia Jr 34.18).
Ainda, T. Desmond Alexander (2010, p. 76)
tece comentários dignos de evidência em relação a aliança do referido capítulo:
...Em segundo lugar,
o Senhor estabelece a aliança com Abraão de acordo com a qual sua “semente”
possuirá a terra de Canaã. Isso assinala o ápice das promessas divinas
anteriores quanto à terra e aos descendentes em 12.7 e 13.14-17. Vários
aspectos dessa aliança são dignos de nota. a) Ela garante incondicionalmente o
que o senhor prometeu a Abraão. Em lugar nenhum se diz que seu cumprimento
depende das ações de Abraão e seus descendentes; Deus se compromete sem
reservas a cumprir a promessa de que os descendentes de Abraão possuirão a
terra de Canaã. Por isso que ela pode ser chamada aliança promissiva
incondicional. b) A estrutura do capítulo sugere haver uma ligação entre a
realização da aliança promissiva nos versículos 18-21 e o comentário de que
Abraão creu em Deus no versículo 6. ...
As duas
citações mostram que a aliança que Deus fez está baseada em uma atitude sem par
por parte do Senhor, uma aliança incondicional. Ele mesmo passou pelas partes e
deixou claro que o cumprimento da aliança estava total e exclusivamente
dependendo de Si, Deus ratificou o que já tinha falado em capítulos anteriores.
É óbvio que Abraão creu (Gn 15.6), entretanto Deus disse que daquele momento em
diante o que antes Ele havia prometido a Abraão seria realizado sem parte dele
e dos seus descendentes, era uma questão de honra para Deus fazer a
descendência de Abraão habitar na terra prometida. Isso em relação aos cananeus
fica claro que seu território em determinado momento seria entregue a nação de
Israel, independente dos mesmos cananeus concordarem ou não, mesmo habitando no
local ou não. Deus jamais será amaldiçoado e despedaçado como uma ave por
quebrar uma aliança.
Continua...
Referências
ALEXANDER, T.
Desmond. Do paraíso à terra prometida:
uma introdução aos temas principais do pentateuco. (Tradução Valdemar Kroker).
2ª ed. São Paulo: Sheed Publicações, 2010.
HAMILTON, Victor P.. Manual do Pentateuco. (Tradução James
Monteiro dos Reis). Rio de Janeiro: Cpad,2017.
WALTON, John H.; MATTHEWS,
Víctor H.; CHAVALAS, Mark W.. Comentário
bíblico Atos: Antigo Testamento. (Tradução Noemi Valéria Altoé). Belo
horizonte: Editora Atos, 2003.
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