sexta-feira, 9 de abril de 2021

A RELAÇÃO ENTRE OS CANANEUS E ISRAEL [Parte 1]


 

Por Dyego Andrade

 

O problema da relação de Israel com Canaã se tomou constitutivo para toda a história pré-exílica e a história da religião de Israel. (Herbert Donner)

 

1- Introdução

 

Muitos povos e nações citados na Bíblia Sagrada atraem a atenção dos leitores. Apesar de Israel ser a nação que Deus escolheu para realizar sua obra, outros povos e nações estão presentes em situações quer positivas ou negativas, o que lhes renderam notoriedade na narrativa bíblica, dentre estes se pode citar o povo cananeu. Tal citação não é aleatória, visto que esse povo no decorrer das Escrituras traz consigo muitos acontecimentos que devem ser evidenciados. A presença dos Cananeus na Bíblia é tão impactante que desde o primeiro livro do Antigo Testamento está escrito eventos singulares relacionando os cananeus, o povo de Deus e o próprio Deus. Nesse sentido, o presente artigo tem a finalidade de tratar sobre a relação entre os cananeus e Deus e o seu povo e suas consequências.

 

2) A maldição de Canaã e as raízes cananeias

 

No Livro Sagrado o primeiro relato sobre Canaã é visto em Gn 9.20-27, nesse trecho o patriarca Noé fica bêbado após ingerir vinho e tira sua roupa, ao ver essa situação Cam, pai de Canaã, informa o fato a seus irmãos Sem e Jafé que cobrem a nudez do que era motivo de vergonha para seu Pai. Após a restauração das faculdades mentais, Noé amaldiçoa Canaã ao dizer que ele seria servo de Sem e Jafé. Essas palavras de Noé sobre Canaã têm importância distinta para que se possa compreender os relatos bíblicos envolvendo Canaã futuramente. Não se sabe ao certo o motivo de Noé ter proferido maldições sobre o filho de Cam e não sobre o próprio Cam; apesar de muitas especulações sobre o texto, o comentário de John Walton (2003, p. 39) merece evidência:

 

No contexto bíblico, a benção patriarcal geralmente dizia respeito ao destino dos filhos sobre a fertilidade da terra, da família e ao relacionamento entre seus membros..., não devemos ficar incomodados com o fato de que Canaã aparentemente foi escolhido sem motivo. Podemos muito bem presumir que a declaração de Noé tenha sido muito abrangente, incluindo algumas afirmações desfavoráveis também a respeito de Cam. O escritor bíblico não tem a preocupação de preservar o todo- ele simplesmente seleciona as partes que são pertinentes ao que quer mostrar e que são relevantes para seus leitores, visto que os cananeus eram camitas, com quem Israel tinha muita familiaridade. Em último lugar, não devemos entender essas profecias como vindo de Deus. Não aparece nenhuma expressão “ e disse o Senhor...”. São palavras do patriarca não de Deus.... Ainda assim, elas foram entendidas seriamente e considerada capazes de ter influência no desenrolar da história e no destino da pessoa.

 

A partir dessa citação, é visível que as conjecturas e especulações devem ser recusadas, isso pelo fato de que não há clareza no relato sobre muitas ideias que já foram ditas por alguns estudiosos e por não haver uma importância considerável para a narrativa bíblica. O que é claro e indiscutível é que Canaã foi amaldiçoado e que por consequência disso, Cam viu seu(s)descendente(s) ter(em) seu futuro comprometido com um erro dele. Tal maldição foi proferida por Noé, que por ser o patriarca era autoridade delegada por Deus naquela família, isso indica que sua palavra tinha peso naqueles dias, até então só Deus havia amaldiçoado alguém, o primeiro ser humano a fazê-lo foi Noé. Vale ressaltar que tal maldição não foi dita diretamente por Deus e sim por seu representante, o que significa dizer quetal ato poderia ser revogado quando a autoridade suprema assim desejasse.

            Em Gênesis 10a tabela das nações éapresentada de forma sistematizada, o texto diz serem as gerações de Noé. A exposição da genealogia dos descendentes dele é importante para que se conheça mais sobre as raízes cananeias, a mesma consta em Gn 10.15-19 estando escrito que Canaã teve 11 filhos que consequentemente geraram povos, a saber, Sidom, seu primogênito, e Hete, e os jebuseus, amorreus e girgaseus,heveus, arqueus, sineus, arvadeus, zamareus e hamateus, que logo se espalharam por vários lugares, o quenão é possível expressar um local fixo em que eles habitavam, mas que haviam fixadotermos territoriais pertencentes aos mesmose suas respectivas fronteiras.

 

3) A promessa da Terra de Canaã a Abraão

 

Os habitantes de Canaã enquanto grupo social já eram desenvolvidos, como também conviviam com outros povos, um deles era Israel, esses dois povos já tinham proximidade antes mesmo da nação de Israel ser chamada Israel. Desde o patriarca Abraão a quem se pode chamar Pai da nação israelita, os cananeus já eram citados, bem como a terra de Canaã. Em Gênesis 12.1-7, Deus chama Abraão e lhe faz promessas, o Senhor fala sobre “uma terra que te mostrarei” (v. 1), Abraão, sua família e seus criados “saíram para irem à terra de Canaã; e vieram à terra de Canaã (v.5), ao chegar “estavam, então, os cananeus na terra.”(v.6) e por fim Deus diz: “À tua semente darei esta terra” (v.7).A expressiva importância dos textos citados mostram que daí em diante haverá, de uma forma ou outra, uma atenção de Deus e de Israel direcionada aterra de Canaã, afinal de contas Deus iria mostrar a terra, Abraão ao chegar na terra viu que estava habitada e Deus disse ao mesmo, que daria a semente de Abraão a referida terra.T. Desmond Alexander (2010, p. 74) especialista em Antigo Testamento, escreve:

 

Embora não seja especificamente mencionado que Abraão possuirá essa terra, a promessa que ele se tornará um ‘grande povo”, implica que os seus descendentes a possuirão; o termo hebraico gôy, “nação”, denota o povo habitante de uma localização geográfica específica e que forma uma unidade política. Assim, quando Abraão chega a Canaã pela primeira vez o Senhor promete: “À sua descendência [semente] darei essa terra” (12.7). Mais tarde, depois da separação entre Ló e Abraão, Deus repete essa promessa, enfatizando a extensão da terra a ser possuída pelos descendentes de Abraão (13.14-17).

 

A citação em apreço mostra que os descendentes de Abraão iriam possuir a terra, como seria essa possessão até o momento da narrativa não se sabia. A descrição de algumas características da terra é feita através da investigação gramatical do hebraico bíblico, de forma que havia um território geográfico e consequentemente era uma unidade política. O fato de ter uma extensão territorial e forma de governo, indica que os cananeus já estavam bem desenvolvidos enquanto grupo social, tendo costumes e cultura formada; Deus manda Abraão percorrer o local para reconhecimento, pois naquele local uma nação seria reconhecida por servir a Deus através da sua cultura, economia, religião, forma de governo e muitas outras características que seriam maturadas através do tempo. Por fim Deus reforça dizendo a Abraão que daria a terra a ele e sua semente e acrescenta dizendo que sua semente seria numerosa como o pó da terra.

No capítulo 14 de Gênesis é relatado o encontro entre Abraão e Melquisedeque, um cananeu misterioso que posteriormente será tratado sobre, em seguida no capítulo 15, há um diálogo entre Deus e Abraão em que nos versículos 2 e 3, Abraão fala sobre sua dúvida em receber a terra prometida por não ter filhos e suas posses ficarem com seu mordomo. Deus, magistralmente no versículo 5 diz que a descendência de Abraão será tão vasta e difícil de se contar como as estrelas do céu e faz uma aliança unilateral com Abraão, nos versículos 11-12 e 16-21, Deus manda Abraão armar o cerimonial referente a aliança que iria ocorrer e realiza a aliança consigo mesmo, passando entre os animais para que não houvesse dúvida sobre o cumprimento da mesma e afirmaque a quarta geração do patriarca retornaria para aquela terra. Sobre a aliança desse capítulo o erudito Victor P. Hamilton (2017, pág. 104-105) afirma:

 

A peculiaridade do capítulo 15 é a ratificação oficial dessa aliança, depois que Abraão dispôs os animais sacrificados em duas colunas, lado a lado, e o próprio Deus passou entre as colunas em forma de fogo. A intenção do ritual dificilmente poderia ser mais ousada. Deus, de forma unilateral, compromete-se com Abraão e sua descendência a ponto de se colocar sob uma potencial maldição. Caso aquele Deus de promessas não cumprisse sua palavra,seu destino seria ser desmembrado, tal como os animais (sobre o significado de cortar um animal em dois, como parte de um ritual de aliança, leia Jr 34.18).

 

Ainda, T. Desmond Alexander (2010, p. 76) tece comentários dignos de evidência em relação a aliança do referido capítulo:

 

...Em segundo lugar, o Senhor estabelece a aliança com Abraão de acordo com a qual sua “semente” possuirá a terra de Canaã. Isso assinala o ápice das promessas divinas anteriores quanto à terra e aos descendentes em 12.7 e 13.14-17. Vários aspectos dessa aliança são dignos de nota. a) Ela garante incondicionalmente o que o senhor prometeu a Abraão. Em lugar nenhum se diz que seu cumprimento depende das ações de Abraão e seus descendentes; Deus se compromete sem reservas a cumprir a promessa de que os descendentes de Abraão possuirão a terra de Canaã. Por isso que ela pode ser chamada aliança promissiva incondicional. b) A estrutura do capítulo sugere haver uma ligação entre a realização da aliança promissiva nos versículos 18-21 e o comentário de que Abraão creu em Deus no versículo 6. ...

 

            As duas citações mostram que a aliança que Deus fez está baseada em uma atitude sem par por parte do Senhor, uma aliança incondicional. Ele mesmo passou pelas partes e deixou claro que o cumprimento da aliança estava total e exclusivamente dependendo de Si, Deus ratificou o que já tinha falado em capítulos anteriores. É óbvio que Abraão creu (Gn 15.6), entretanto Deus disse que daquele momento em diante o que antes Ele havia prometido a Abraão seria realizado sem parte dele e dos seus descendentes, era uma questão de honra para Deus fazer a descendência de Abraão habitar na terra prometida. Isso em relação aos cananeus fica claro que seu território em determinado momento seria entregue a nação de Israel, independente dos mesmos cananeus concordarem ou não, mesmo habitando no local ou não. Deus jamais será amaldiçoado e despedaçado como uma ave por quebrar uma aliança.

 

Continua...

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Referências

 

ALEXANDER, T. Desmond. Do paraíso à terra prometida: uma introdução aos temas principais do pentateuco. (Tradução Valdemar Kroker). 2ª ed. São Paulo: Sheed Publicações, 2010.

 

HAMILTON, Victor P.. Manual do Pentateuco. (Tradução James Monteiro dos Reis). Rio de Janeiro: Cpad,2017.

 

WALTON, John H.; MATTHEWS, Víctor H.; CHAVALAS, Mark W.. Comentário bíblico Atos: Antigo Testamento. (Tradução Noemi Valéria Altoé). Belo horizonte: Editora Atos, 2003.

 

 

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