As atitudes contemporâneas em relação aos milagres abrangem dois extremos. Por um lado, os céticos seculares rejeitam completamente os milagres. A comunidade científica, por exemplo, foi dominada durante dois séculos por um anti-sobrenaturalismo incorrigível. Muitos insistem que a crença no sobrenatural é parte de uma visão de mundo antiquada que foi refutada pela pesquisa científica. Milagres bíblicos são classificados junto com a crença antiga agora desacreditada de que tornados, furacões, eclipses e terremotos eram milagrosos porque não podiam ser explicados cientificamente.
Típico da atitude científica em relação ao sobrenatural é a decisão do juiz William Overton no famoso julgamento de Scopes II em Little Rock, Arkansas: “Na verdade, a criação do mundo 'do nada' é a declaração religiosa definitiva porque Deus é o único agente (…) Tal conceito não é ciência porque depende de intervenção sobrenatural não guiada pela lei natural. Esse relato não é explicativo por não ter referência à lei natural, não ser testável e não ser falsificável.”[1] Um artigo recente do Smithsonian caracteriza a aversão científica pela visão sobrenatural das origens: “o axioma central de nosso épico é que o universo deve ter sido formado por leis naturais que ainda podem ser descobertas hoje.”[2]
O autor da Declaração de Independência, Thomas Jefferson, reflete a disposição anti-sobrenatural da mente moderna quando declara sobre o nascimento virginal que “Chegará o dia em que o relato do nascimento de Cristo, conforme aceito nas igrejas Trinitárias, será classificado como a fábula de Minerva surgindo do cérebro de Júpiter.”[3]
Alguns anti-sobrenaturalistas contemporâneos compartilham a visão de Sigmund Freud de que a crença no sobrenatural é uma forma de escapismo ou ilusão. A religião é descartada como uma neurose infantil que as pessoas usam para se proteger das horríveis realidades da vida. Ludwig Feuerbach afirma que a crença nos fluídos sobrenaturais precisava da energia humana deste mundo. Seu objetivo é “transformar os amigos de Deus em amigos do homem, crentes em pensadores, adoradores em trabalhadores, candidatos para o outro mundo em estudantes deste mundo, Cristãos, que em sua própria confissão são metade animais e metade anjos, em homens - homens completos.”[4]
No extremo oposto, há um renascimento atual do "sobrenaturalismo" oculto em curas da nova era, revelações, caminhadas pelo fogo e poderes do cristal. Muitos gurus, canalizadores, médiuns, xamãs e bruxas reivindicam o poder sobrenatural da Força. O famoso guru hindu Sai Baba se orgulha: “Meu poder é divino e não tem limites. Eu tenho o poder de transformar a terra em céu e o céu em terra ... Estou além de quaisquer obstáculos e não há nenhuma força, natural ou sobrenatural, que possa me impedir ou parar minha missão.”[5]
Um número crescente de evangélicos acredita que curas milagrosas e até ressurreições como as da Bíblia ainda ocorrem hoje [nota do tradutor: Geisler não crê que os milagres operados por Jesus no NT ocorram hoje]. Eles fazem afirmações como “Hoje vemos centenas de pessoas curadas todos os meses nos cultos da Sociedade Cristã de Vineyard. Muitos mais são curados quando oramos por eles em hospitais, nas ruas e em casas. O cego vê; o coxo anda; os surdos ouvem. O câncer está desaparecendo.”[6]
Qualquer que seja o resultado da disputa interna entre os Cristãos sobre o status dos milagres hoje,[7] toda a questão do sobrenatural tem um sério impacto sobre os Cristãos bíblicos de todas as matizes. Pois o cristianismo evangélico histórico está totalmente baseado nas Escrituras, que estão repletas de eventos milagrosos. Na verdade, a própria Bíblia não pode ser uma revelação sobrenatural, como afirma ser, a menos que haja atos sobrenaturais. Nem podemos confiar nos Evangelhos para fornecer informações confiáveis sobre Cristo, a figura central da fé Cristã, uma vez que estão repletos de eventos milagrosos repugnantes para a mente moderna.
Na verdade, uma vez que a credibilidade do Cristianismo repousa na ressurreição de Cristo (1 Coríntios. 15: 12-19), toda a fé Cristã ortodoxa desmorona se milagres não ocorrerem. Para que o Cristianismo bíblico histórico sobreviva e faça sentido para a mente moderna, é necessário fornecer uma explicação razoável do sobrenatural. Aparte da credibilidade do relato bíblico dos milagres, podemos nos despedir do Cristianismo ortodoxo. Esse é o desafio diante de nós.
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Fonte:
GEISLER, Norman L. Miracles and the modern mind: a defense of biblical miracles. NC: Baker Book House Company, 1992
Tradução Walson Sales
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Referências:
[1] Leia em Norman L. Geisler, The Creator in the Courtroom (Grand Rapids: Baker, 1982), pp. 174, 176.
[2] James S. Trefil, “Closing in on Creation,” Smithsonian 14/2 (May 1983): 33.
[3] Henry Wilder Foote, Thomas Jefferson (Boston: Beacon, 1947), p. 49.
[4] Citado por Karl Barth, “An Introductory Essay” to Ludwig Feuerbach, The Essence of Christianity (New York: Harper and Row, 1957), p. xi.
[5] Tal Brooke, The Lord of the Air (Eugene, Oreg.: Harvest House, 1990), p. 214.
[6] John Wimber, Power Evangelism (New York: Harper and Row, 1986), p. 44.
[7] Abordamos este assunto em outra obra. Leia Norman L. Geisler, Signs and Wonders (Wheaton: Tyndale, 1988).
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