domingo, 25 de julho de 2021

Batismo de Crianças


James D. G. Dunn



A Teologia do Apóstolo Paulo, p. 523.


Entre as dificuldades que a teologia de Paulo apresenta para a tradição posterior está o fato de que ela parece dar pouco ou nenhum espaço para o batismo de crianças. Em certa perspectiva isso era quase inevitável. Pois Paulo era missionário e fundador de igrejas. Na sua experiência, o batismo era ato evangelístico mais do que pastoral. Para ele o batismo era tipicamente a iniciação de novos adultos que abraçaram a fé em igrejas recentemente formadas.

A questão de batismos de famílias permanece ambígua. Pode ter havido crianças pequenas pelo menos em algumas famílias batizadas. Mas a menção de “família” ou casa em si não tinha esta implicação. Normalmente se entendia que uma família incluía todos os escravos ou residentes.[1]  E no único caso aplicável nas cartas paulinas – a família de Estéfanas (1Cor 1,16) – Paulo explicitamente observa mais tarde que a família  “se devotou ao serviço dos santos”  (16,15).[2]

Do ponto de vista de princípio teológico, o precedente óbvio seria que o batismo (nova aliança) havia tomado o lugar da circuncisão (antiga aliança). Mas isso supõe um paralelismo direto entre as duas alianças. E é exatamente neste ponto, conforme vimos, que Paulo parece pensar que a nova aliança funciona em plano diferente: a realização da significação espiritual da circuncisão no dom do Espírito, pertença ao povo aceito por Deus não mais garantida por nascimento, mas pela fé. Além disso, é importante lembrar que a circuncisão não funcionava como meio para entrar no povo da aliança. A pessoa se tornava membro pelo nascimento. A circuncisão era, antes, o primeiro ato de observância da lei de novo membro.

Argumento mais indireto pode ser construído sobre 1Cor 7,14:


O marido não cristão é santificado pela esposa e a esposa não cristã é santificada pelo irmão.[3]  Se não fosse assim os vossos filhos seriam impuros, quando na realidade são santos.


O argumento tem a finalidade de mostrar que a criança faz parte da família de fé (ainda que apenas um dos cônjuges tenha abraçado a fé), e assim a criança deve ser batizada com base na fé do cônjuge crente. Todavia a linha do argumento é confusa. Por um lado mantém a suposição não-paulina de que o batismo tomou o lugar da circuncisão.[4]  Mas, por outro, há a outra suposição de que o batismo é de alguma maneira necessário para assegurar o status da criança na família que abraçou a fé.[5]  Em contraste com isso, o texto em si parece implicar que o status da criança já é seguro em virtude de ser filho de crente.

Portanto, o corolário que segue diretamente de 1Cor 7,14 é que Paulo  não  considerava necessário o batismo para garantir tal status da criança. A criança já era santa. E no caso do batismo de uma família o corolário mais óbvio é que a fé da conversão e o batismo de adultos valia também para todos os filhos menores que faziam parte da família.[6]  Isto é, tanto a fé  como  o batismo do progenitor crente incluía a criança. Quando eram batizadas famílias as crianças não eram batizadas.[7]

Em nossa perspectiva posterior naturalmente perguntamos a respeito das crianças que depois de crescerem se afastaram da fé dos seus pais e depois podem ter sido convertidas pessoalmente. Presumivelmente seriam batizadas naquela ocasião. Mas esta era um situação com a qual Paulo não se preocupou. Neste, como em outros aspectos da teologia sacramental de Paulo, passara muito pouco tempo para surgirem novas questões que estimulassem desenvolvimento ulterior da sua teologia.


______________

[1]  Ver, p. ex., P. Weigandt,  EDNT 2.502.

[2]  Ridderbos acha que a menção do batismo de família  “aponta claramente para o batismo de crianças”  (Paul  413); este não é mencionado porque era  “evidente por si mesmo”  (414).

[3]  O “irmão” é presumivelmente o marido da mulher – “irmão” como membro da igreja.

[4]  Sobre a teologia mais elaborada em termos de continuidade da aliança da graça, ver P. C. Marcel,  The Biblical Doctrine of Infant Baptism  (Londres: James Clarke, 1953).

[5] O fato de que o parceiro não-crente também é “santificado” dificilmente reforça a sugestão de que se trata do batismo.

[6] Cf. Beasley-Murray, Baptism 192-99. Sobre o debate a respeito do início do batismo de crianças, ver J. Jeremias, Infant Baptism in the First Four Centuries (Londres: SCM, 1960); K. Aland, Did the Early Church Baptize Infants? (Londres: SCM, 1963); Beasley-Murray, Baptism 306-86; e novamente Jeremias, The Origins of Infant Baptism (Londres: SCM/Naperville: Allenson, 1963).

[7] Com estilo característico Schmithals, Theologiegeschichte des Urchristentums 198-205, avança demais neste ponto. A lógica do seu argumento parece ser que após o batismo do chefe de família da primeira geração não seriam mais necessários outros batismos para tal família nas gerações seguintes.

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