sábado, 24 de julho de 2021

HADES, O QUE ELE É?[1]


Por Jack Cottrell[2]


PERGUNTA: Eu tenho visto a palavra "Hades" no Novo Testamento várias vezes, mas eu não estou certo quanto ao que significa. Você pode explicar isso?


RESPOSTA: Eu posso tentar. Primeiro, o equivalente a Hades no Velho Testamento é Sheol, que aparece cerca de 65 vezes nos escritos do Antigo Testamento. O Velho Testamento Grego (a Septuaginta) traduz essa palavra com Hades quase o tempo todo. O Novo Testamento usa Hades dez vezes (ou 11 se 1 Coríntios 15:55 for contada). A principal coisa a lembrar é que essas palavras estão sempre conectadas à morte. Elas são o lugar ou a localização dos mortos. Para esta conexão veja Salmo 18:5; Provérbios 5:5, Isaías 28:15, Apocalipse 1:18, 6:8.


Para entender adequadamente estes termos, devemos antes de tudo aceitar a inspiração completa de toda a Bíblia, bem como a unidade e a coerência dos conteúdos de seu ensino. Em segundo lugar, temos de aceitar o ensinamento bíblico de que os seres humanos consistem em duas partes, o corpo físico e o espírito ou alma. Estas estão destinadas a existir em conjunto, mas são separadas no momento de morte física. Finalmente, devemos aceitar o fato de que existem três aspectos da morte que se abateu sobre a raça humana como resultado do pecado: a morte física do corpo, a morte espiritual da alma (Ef 2:1, 5); e a morte eterna no inferno, o lago de fogo, que é a "segunda morte" (Ap 20:14; 21:8).


Grande parte da confusão sobre a natureza do Hades (inferno) é o resultado da negação da realidade da alma ou espírito como um aspecto real e separado da natureza humana. Tal negação é central na teologia das Testemunhas de Jeová e Adventistas do Sétimo Dia, por exemplo. A existência da alma também está se tornando cada vez mais questionada até mesmo nos círculos evangélicos. Aqueles que assim vêem os seres humanos, como corpos somente, nunca irão entender adequadamente a natureza do Hades. (Sobre a natureza dualista do homem, ver meu livro, The Faith Once for All - A Fé de Uma Vez por Todas, páginas 134-147.)

Como, então, devemos entender Hades, o lugar e o poder da morte? Primeiro de tudo, temos de ver que, às vezes Sheol no Antigo Testamento e Hades no Novo Testamento se referem à sepultura, à qual, engole os corpos dos que morrem, justos e injustos. Aqueles que negam a existência da alma, muitas vezes dizem que Sheol e Hades sempre se referem à sepultura, mas eles estão errados. Alguns (como Robert Morey) dizem que essas palavras nunca se referem à sepultura, mas isso também     está errado.

Por um lado (contra Morey), em alguns textos Sheol/Hades significam claramente o túmulo. Em seu sentido de "lugar dos mortos", Sheol/Hades é o lugar abaixo da superfície da terra, onde os cadáveres estão enterrados. Como tal, tanto o justo quanto o ímpio entram no Sheol/Hades, o inimigo que captura e devora todos os membros da raça de Adão. Desta forma, até mesmo para o justo, a morte parece ser vitoriosa, uma vez que nos engole a todos e torna nossos corpos de volta em pó (veja Salmo 89:48;. 116:3; 141:7; Isa 38:10 ). Neste sentido Sheol/Hades é algo a ser receado e temido; algo do qual todos nós por muito tempo somos entregues e redimidos (Salmo 49:14-15; 86:13; Oseias 13:14). Esta é a luz na qual o Salmo 16:10 deve ser entendido: "Pois não deixarás a minha alma no Sheol, nem permitirás que o teu Santo veja a corrupção". (Aqui a palavra "alma" tem o sentido de "a própria pessoa"; "minha alma" significa "eu, eu mesmo") Em Atos 2:27,31 Pedro cita isso como uma profecia da ressurreição do corpo de Jesus a partir do túmulo, em que "Ele não foi abandonado no Hades, nem a sua carne viu a corrupção." Isso se refere apenas ao corpo de Cristo como enterrado e no qual se levantou da sepultura (Sheol/Hades), não ao estado ou a atividade de seu espírito entre sua morte e ressurreição.

Por outro lado (contra aqueles que negam a existência da alma), em alguns textos em que Sheol/Hades se refere a um local específico, este não se refere à sepultura como o receptáculo do corpo, mas ao lugar para onde os espíritos de alguns dos mortos são levados; onde irão existir em seu estado intermédiário (sem corpo, em consciência) até o retorno de Cristo. Desde que Sheol/Hades é o lugar dos mortos, apenas as almas dos ímpios são colocados no Sheol/Hades, no sentido de um lugar esperando por almas desencarnadas (ver Jó 24:19, Sal 09:17; 31:17; 55:15; Prov 9:18; 23:14, Isaías 14:13-15;. Mat.11:23). As almas dos justos não entram no Sheol/Hades, desde que suas almas não se encontram em um estado de morte espiritual, mas foram vivificadas pelo poder da ressurreição de Deus (Ef 2:5-6; Col. 2:12-13). Portanto, não devemos pensar que Sheol/Hades seja ocupado pelas almas dos justos e dos injustos (Sl 49:14-15; 86:13; Prov 15:24).


Como o lugar onde os ímpios permanecem até o julgamento, Sheol/Hades é visto como um inimigo ou sequestrador em todo o seu terror. Na história do homem rico e Lázaro, contada por Jesus, é dito que só o homem rico (personificando os ímpios em geral) está em tormento "no Hades" (Lucas 16:23).


Em ambos os seus significados específicos, (1) a sepultura, a qual é o recipiente dos corpos de todos os homens e (2) o lugar de habitação intermediária para as almas ímpias, Sheol/Hades é o inimigo da humanidade, uma sórdida força conquistada pela obra redentora do Cristo crucificado e ressuscitado (Ap 1:18) e da qual, encontramos refúgio na igreja (Mt 16:18). No final, será finalmente destruída no lago de fogo (Apocalipse 20:14).


Pra onde, então, as almas dos justos vão quando separadas do corpo após a morte? Seu destino nunca é chamado Sheol ou Hades. Elas são descritas como estando no seio de Abraão (Lucas 16:23); no Paraíso (Lucas 23:43); "em casa com o Senhor" (2 Coríntios 5:8.); e sob o altar celestial (Apocalipse 6: 9). Podemos nos referir a isto simplesmente como Paraíso (ver 2 Coríntios. 12:4), o qual não deve ser considerado apenas como uma seção do Hades. As almas dos justos foram "aperfeiçoadas" (Hebreus 12:23) e isso inclui, ser plenamente vivificada em um sentido espiritual. Elas não têm mais o odor e a pena de morte espiritual sobre elas e, portanto, não são cidadãs adequadas do Hades, o qual é lugar de morte. Os justos estão "no Hades" apenas no sentido de que seus corpos estão na sepultura.


Onde estão localizados o Paraíso e o Sheol/Hades? O Paraíso, como o lugar onde as almas dos justos mortos existem em seu estado intermediário, é equivalente ou, pelo menos, adjacente à sala do trono celestial, uma parte do universo invisível, criado para a raça angelical eleita. Essa conclusão se baseia em dois fatos: Primeiro, João viu as almas de, pelo menos, alguns dos mortos justos, sob o altar deste céu (Ap. 6:9). Em segundo lugar, quando morremos nossa alma estará na presença de Cristo (2 Cor 5:8; Fil. 1:23) e o próprio Cristo, em sua existência humana glorificada, está atualmente nesta sala do trono celestial (Atos 7:55, Apo. 3:21; 5:6, 13). Quando morremos, nossas almas despertarão em consciente êxtase naquele lugar abençoado.


Mas onde está o Sheol/Hades, o lugar para o qual as almas dos ímpios são conduzidas após a morte? Nós podemos apenas especular sobre isso. Mas, com base no acima exposto, eu deduzo que esta é também uma parte do universo invisível; uma região distante ou inferior, longe da presença de Deus e do Cristo glorificado; talvez adjacente ao lugar chamado Tártaro, ocupado por alguns anjos caídos (2 Pe . 2:4). É um lugar de trevas (Jó 17:13); tristeza e sofrimento; sem luz e sem esperança. É o lugar onde os seres humanos perdidos aguardam o julgamento final e seu envio para o inferno eterno.


(Para estes e outros detalhes sobre a vida após a morte, ver o meu livro, The Faith Once for All- A Fé de Uma Vez por Todas, capítulo 29, sobre "O Estado Intermediário.")


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Notas:


[1] Nota do tradutor: Este artigo foi publicado por Jack Cottrell no dia 04 de julho de 2012, na sua página do Facebook, na aba NOTES (NOTAS), aonde ele, de forma fraterna, responde a várias perguntas relacionadas à vida cristã e também às dificuldades bíblicas por parte daqueles que visitam a sua página e se interessam pela sua opinião nos assuntos abordados.


[2] Nota do tradutor: Jack Warren Cottrell é um autor e teólogo cristão associado às Igrejas Cristãs Independentes / Igrejas de Cristo, às quais, fazem parte do Movimento de Restauração Stone-Campbell. Ele tem sido professor de Teologia na Universidade Cristã de Cincinnati desde 1967. Ele é autor de numerosos livros sobre a Doutrina e Teologia cristã. Jack Cottrell nasceu em Kentucky e foi criado em Stamping Ground, Kentucky. Casou-se com sua esposa, Barbara, em 1958. Cottrell ganhou um Bacharel em Artes (B.A.) da Universidade Cristã de Cincinnati em 1959. Em seguida, ele ganhou um Mestrado em Divindade (Mdiv) do Seminário Teológico de Westminster e o doutorado em Filosofia (PhD) do Seminário Teológico de Princeton. Cottrell retornou à Universidade Cristã de Cincinnati em 1967 como professor de Bíblia e Teologia. Desde então, escreveu mais de 20 livros sobre Doutrina e Teologia Cristã. Os tópicos freqüentes abordados por ele incluem a graça, fé, batismo, exatidão bíblica, bem como a natureza de Deus. Ele também já abordou questões como liderança e teologia feminista no cristianismo. Cottrell tem adicionalmente escrito diversos comentários bíblicos. As visões teológicas de Cottrell são semelhantes à opinião majoritária das Igrejas Cristãs Independentes / Igrejas de Cristo. Ele crer na inerrância da Bíblia. Ele também crer que o batismo por imersão é o momento no qual os pecados individuais são perdoados. Devido à sua formação dentro dos círculos reformados, Jack Cottrell tem sido um crítico convicto do Calvinismo. Cottrell está casado com sua bela esposa Barbara por mais de 50 anos. Eles ministram na Igreja Cristã da cidade de Bright, no estado de Indiana, nos EUA, e vive na cidade de Lawrenceburg, Indiana. Ele e Bárbara têm três filhos e quatro netos (fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Jack_Cottrell)

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