quinta-feira, 29 de julho de 2021

Interpretando a Palavra Acuradamente 2Tm 2.15

 

Vic Reasoner

 

Pergunta:  Tenho lido alguns artigos no Índice da Revista Arminiana e os achei inspiradores e biblicamente saudáveis. Só estou confuso sobre um assunto, “A Segunda Bênção da Santidade”. Em termos simples, você pode explicar o que isto significa?

 

Embora aqueles que realmente nasceram de novo começam a viver uma vida santa, o novo nascimento é somente o ponto de partida da caminhada cristã. Sem querer diminuir a graça transformadora da regeneração, nós não ganhamos tudo o que Deus tem para nós quando somos salvos. Portanto, alguns têm referido a uma obra mais profunda da graça de Deus como “uma segunda bênção”.

 

As Escrituras não usam esse termo “segunda bênção”. A frase “uma segunda graça” em 2Co 1.15 se refere simplesmente a uma segunda visita de Paulo a Colossos. Em sua  Explicação Clara da Perfeição Cristã, Wesley avisou, “Evitai nisto o uso de palavras pomposas, não necessitais de lhe dar um nome específico como ‘perfeição’, ‘santificação’, ‘segunda bênção’”.[1]  Todavia, mesmo Wesley usou a frase “segunda bênção” esparsamente num total de cinco vezes, e sempre em correspondências. Ele escreveu uma carta para Jane Hilton (que foi conhecida posteriormente por seu nome de casada, Jane Barton), “É extremamente certo que Deus te deu a segunda bênção, propriamente dita. Ele te livrou da raiz de amargura, tanto do pecado nato como atual. E nesse momento tu fostes capacitada a dar a Ele todo o teu coração; para regozijar ainda mais e orar sem cessar” [8 de outubro de 1774; veja também essa frase usada na carta para Sarah Crosby em 14 de fevereiro de 1761; em uma carta para Thomas Olivers em 24 de março de 1757; em uma carta para Jane Salkeld em 9 de agosto de 1772]. Ele escreveu para Samuel Bardsley, “Exija de todos os crentes que eles caminhem para a perfeição. Insista em toda parte que a segunda bênção é recebida num exato momento, e pode ser recebida agora, pela simples fé” [3 de abril de 1772].

 

Todavia, há algo ambíguo na frase “segunda bênção”. Como ela não é uma frase que está nas Escrituras, nós não podemos ficar contenciosos sobre ela. Alguns têm pensado, se há uma segunda bênção, porque não uma terceira ou uma quarta? Isso tende a fragmentar a graça de Deus e criar um sistema de castas dentro da igreja. Aqueles que usam o termo “segunda bênção” querem dizer com isso particularmente que o pecado tem dois aspectos em sua natureza, ele é tanto uma expressão externa quanto uma atitude interior. Assim, a salvação também tem dois aspectos. O novo nascimento capacita a pessoa a viver de maneira santa nas suas expressões exteriores, mas embora a velha natureza do pecado já não reine mais, ela ainda permanece.

 

Em uma carta a Joseph Benson ele escreveu sobre uma “segunda mudança, pela qual eles hão de ser salvos de todo o pecado e aperfeiçoados em amor” [28 de dezembro de 1770]. Em um sermão, “O Arrependimento dos Crentes”, Wesley disse do Senhor falando “a nossos corações, falar pela segunda vez: ‘Sê limpo’”. Em uma carta para Jane Hilton, Wesley se referiu a um “segundo livramento” [1 de março de 1769]. Assim, há uma “segunda obra” da graça aperfeiçoadora de Deus que lida com aquelas atitudes interiores.

 

Pergunta:  Um amigo meu ouviu de seu pastor do movimento de santidade moderno que os discípulos nasceram de novo antes de Pentecostes porque o Cordeiro foi morto desde a fundação do mundo.  Eu não entendi o raciocínio desse pastor.

 

Ap 13.8 declara que o Cordeiro, Jesus Cristo, foi morto desde a fundação do mundo. Isto significa que antes de Deus ter criado este mundo, ele sabia que o pecado entraria nele. Quando o pecado entrou neste mundo através de Adão, Deus não foi pego despreparado. O preço da expiação seria o sacrifício de seu próprio Filho. Assim, Deus não somente previu o pecado original de Adão, mas também tinha predestinado o plano de salvação.

 

Portanto, me parece que este pastor concluiu logicamente que se a salvação foi potencialmente planejada desde a criação, então todo crente obediente desde o tempo da criação tem gozado de todos os benefícios dessa salvação. É verdade que todos os que foram salvos sob a antiga aliança foram salvos pela provisão da expiação de Cristo, mas não é correto supor que eles gozaram de todos os benefícios da expiação de Cristo. A tese principal do livro de Hebreus é que a nova aliança é “melhor” ou superior em privilégios. Pedro escreveu que realmente Cristo foi escolhido desde antes da fundação do mundo, mas que ele não foi revelado até “esses últimos tempos” (1Pe 1.20).

 

Diferentemente de Deus, nós vivemos sob as restrições do tempo. Ainda restam benefícios da expiação que são futuros, os quais nós ainda não temos percebido. No final, as provisões da expiação restaurarão o paraíso e os céus abertos, mas nós ainda não estamos lá. O perigo oposto é falhar em se apropriar de toda a graça que está presentemente disponível a nós.

 

A sua questão se preocupa com quanta graça estava disponível aos discípulos antes da obra expiatória de Cristo estar completa, antes dele ascender novamente à destra do Pai, e antes dele derramar o Espírito Santo. Como eles poderiam ser justificados livremente pela fé no seu sangue (Rm 3.24-25) antes desse sangue ter sido derramado? Como eles poderiam ser regenerados pela obra do Espírito antes do Espírito ter sido dado (Jo 7.39)? Como eles poderiam entrar no reino de Deus (Jo 3.5) antes desse reino ter sido estabelecido (Mt 11.11)?

 

Se vamos desconsiderar quaisquer distinções entre os benefícios da expiação passados, presentes e futuros, usando a lógica desse pastor, nós poderíamos argumentar que já estamos no céu – já que a glorificação e o céu são benefícios futuros da expiação.

 

Tradução: Thiago D. M. Silvino

Nenhum comentário:

Postar um comentário