domingo, 1 de agosto de 2021

2 Pe 2.20, 21


Paulo Cesar Antunes

 

Porquanto se, depois de terem escapado das corrupções do mundo, pelo conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo, forem outra vez envolvidos nelas e vencidos, tornou-se-lhes o último estado pior do que o primeiro. Porque melhor lhes fora não conhecerem o caminho da justiça, do que, conhecendo-o, desviarem-se do santo mandamento que lhes fora dado.  2 Pe 2.20, 21

 

Para estabelecer o significado destas palavras, precisamos descobrir se as pessoas aqui descritas foram de fato crentes. Aqueles que aderem à doutrina da Perseverança dos Santos têm, obviamente, afirmado que o apóstolo está falando de pessoas que nunca foram regeneradas, sendo no máximo beneficiadas externamente pelo Evangelho. Eles dizem:

 

Estas palavras descrevem homens que foram melhorados em sua conduta pela influência do evangelho, mas sem uma mudança completa no coração.[1]

 

Estamos aqui de novo considerando pessoas que tiveram algum conhecimento de Cristo e do caminho da justiça, mas se enredam de novo na corrupção do mundo e voltaram suas costas à lei de Deus – tanto que, diz Pedro, tornaram-se piores do que antes.[2]

 

No entanto, o fato dessas pessoas terem  escapado das corrupções do mundo pelo conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo  pesa contra esta interpretação. Pedro, usando expressões similares em outro lugar nesta mesma epístola, diz:

 

Graça e paz vos sejam multiplicadas, pelo conhecimento de Deus, e de Jesus nosso Senhor; visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade,  pelo conhecimento daquele  que nos chamou pela sua glória e virtude; pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que por elas fiqueis participantes da natureza divina,  havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no mundo. 2Pe 1.2-4

 

A linguagem é semelhante àquela usada em 2Pe 2.20. Aqui definitivamente estão descritos crentes genuínos, pois o próprio apóstolo se inclui entre eles. Portanto, na linguagem do apóstolo, “escapar da corrupção do mundo pelo conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo” diz respeito aos que verdadeiramente foram regenerados. Os adeptos da Perseverança dos Santos não podem, com propriedade, se beneficar das expressões usadas pelo apóstolo. Elas se opõem às suas convicções pessoais.

 

Além disso, a palavra “conhecimento” (gr.  epignosis) usada em 2Pe 2.20 não significa ‘um conhecimento superficial’ ou, como diz Hoekema, ‘algum conhecimento’. A palavra tem o sentido de um ‘conhecimento preciso e correto’, de um ‘completo discernimento’, e é traduzida em outras passagens como ‘pleno conhecimento’ (Ef 1.7; 4.13; Cl 3.10; 1Tm 2.4; Hb 10.26; 2Pe 1.8; Tt 1.1; etc.).

 

Contudo, acrescentam:

 

Este versículo também fala de cristãos  professos  (mas falsos) que nunca foram verdadeiramente convertidos, negaram “o Soberano que os resgatou” (v. 1); tinha “conhecido o caminho da justiça” (v. 21), porém não o tinham seguido, mas, como um “cão” (não um cordeiro), mostravam que eram na verdade “escravos da corrupção” (v. 19) e não uma “nova criação” de Deus (2Co 5.17).[3]

 

O ponto aqui é que eles eram cães e não cordeiros; se fossem cordeiros, teriam seguido seu mestre. Esta opinião está baseado nos versículos que seguem:

 

Deste modo sobreveio-lhes o que por um verdadeiro provérbio se diz: O cão voltou ao seu próprio vômito, e a porca lavada ao espojadouro de lama. 2Pe 2.22

 

É preciso dizer que um provérbio é uma base muito frágil para uma doutrina. Um provérbio expressa uma verdade geral e seus detalhes servem apenas para apoiar o ponto principal. Pedro o utiliza para reforçar sua argumentação, de que escapar da corrupção do mundo e voltar para ela é tornar seu estado pior do que o primeiro. O animal utilizado no provérbio (cão e porca mas não cordeiro) é totalmente irrelevante. Pedro não quer que nos concentremos no  animal  mas na  mensagem  que ele quer transmitir.

 

Sendo assim, não há nenhuma razão para crer que as pessoas que estão em vista em 2Pe 2.20 foram apenas melhoradas pela influência do evangelho, mas sem uma mudança completa no coração, e tiveram apenas algum conhecimento de Cristo. Elas tiveram um pleno conhecimento de Cristo e, através desse conhecimento, foram, exatamente como os destinatários da carta de Pedro e como as expressões sugerem, totalmente transformados.



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[1]  John L. Dagg,  Manual de Teologia, 235.

[2]  Anthony Hoekema,  Salvos pela Graça, 242.

[3]  Norman Geisler,  Eleitos mas Livres, 140, 141.

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