A Arqueologia e a Bíblia
Por Steven M. Ortiz
Introdução
A relação entre a arqueologia e a Bíblia tem uma longa história. Hoje, o termo arqueologia bíblica pode se referir a qualquer uma das três abordagens diferentes para a interseção da arqueologia e da Bíblia. A primeira é uma abordagem em que o objetivo é apologético, onde a arqueologia é usada para tentar “provar” a Bíblia. Essa é a visão comumente retratada na mídia ou em relatos populares. Geralmente é praticada por indivíduos com pouco preparo e inclui a busca de lugares ou “achados” mencionados na Bíblia.
A segunda abordagem, popular ao longo da segunda metade do século XX, vê a arqueologia como uma “serva dos estudos bíblicos”. A arqueologia é um dos muitos métodos usados pelos estudiosos da Bíblia para estudar a Bíblia. Livros didáticos sobre interpretação bíblica a listam ao lado de abordagens gramaticais, culturais e teológicas. Mas essa abordagem tende a subordinar a arqueologia às necessidades e à agenda dos estudos bíblicos.
A terceira abordagem vê a arqueologia bíblica como separada da disciplina de estudos bíblicos, mas não sem relação. Deste ponto de vista, a arqueologia bíblica é considerada parte da disciplina maior da arqueologia do antigo Oriente Próximo ou, mais especificamente, a arqueologia do Levante Sul (Israel / Palestina / Jordânia, etc.). Ainda mais especificamente, a arqueologia bíblica é um subconjunto da arqueologia Siro-Palestina. Essa terceira visão é a abordagem preferida neste capítulo.
Arqueologia é a recuperação e análise sistemática multidisciplinar dos objetos materiais sobreviventes da sociedade humana e do contexto ambiental da atividade humana. A arqueologia bíblica é o uso de empreendimentos arqueológicos para esclarecer e iluminar o texto bíblico e o contexto histórico do texto. Portanto, a arqueologia é uma disciplina separada dos estudos bíblicos, mas pode informar e ser muito útil para os estudos bíblicos. No entanto, a arqueologia tem sua própria agenda de pesquisa, métodos e fundamentos teóricos. O ponto de intersecção é que tanto a arqueologia quanto os estudos bíblicos tentam reconstruir o passado. O arqueólogo se concentra na história da cultura, enquanto o estudioso dos estudos bíblicos se concentra na história bíblica. Um arqueólogo bíblico secular não pode desconsiderar o texto bíblico, uma vez que contém muitos dados relativos à história cultural; um estudioso da Bíblia não pode desconsiderar os dados arqueológicos porque eles contêm muitos dados para reconstruir a história bíblica. Este ensaio se concentrará exclusivamente na disciplina da arqueologia.
O Processo Arqueológico
A arqueologia é multidisciplinar. É considerada uma disciplina científica, uma disciplina histórica e, especialmente, um subconjunto da antropologia. Há um debate entre os teóricos sobre se a arqueologia é uma disciplina pertencente às ciências empíricas ou às humanidades. Os arqueólogos trabalham na reconstrução do passado usando os restos materiais do comportamento humano do passado. Assim, o empreendimento arqueológico aborda e usa métodos e teorias das ciências sociais.
História da Disciplina
A arqueologia era inicialmente vista como histórico-cultural, com ênfase na reconstrução de períodos históricos. Na década de 1960, um programa teórico denominado “nova arqueologia” (arqueologia processual) começou a dominar a disciplina. Esse novo foco de pesquisa era ver a cultura como um sistema com vários processos. O processo principal via a cultura como uma adaptação ao seu ambiente externo. A teoria arqueológica tentou definir as leis gerais do comportamento humano em contraste com o particularismo histórico da abordagem histórico-cultural. Pressuposta a esta arqueologia orientada para o processo (processual) estava uma abordagem científica estrita aos dados arqueológicos e um modelo evolucionário implícito. Em reação a esse modelo processual, a década de 1980 produziu uma crítica “pós-processual”. A principal crítica era que a arqueologia processual não enfatizava o ator humano como um participante racional. Relacionado a isso estava o reconhecimento da incapacidade dos arqueólogos de desenvolver leis gerais do comportamento humano. As mudanças teóricas incluíram: (1) ver a arqueologia como uma história de longo prazo; (2) estudar ideologia e como ela influencia o comportamento humano; (3) desenvolver estruturas de significado conforme evidenciado na cultura material; e (4) autocrítica da relação entre a interpretação dos dados e o intérprete. O resultado é que os arqueólogos precisam estudar cada dado arqueológico dentro de seu contexto (geográfico, cronológico, cultural, etc.) e colocar o indivíduo de volta na análise do passado.
Hoje, o método e a teoria arqueológica operam na tensão das abordagens processual e pós-processual. Os teóricos reconhecem o seguinte: (1) o meio ambiente e a ecologia são mais restritivos do que causadores de mudanças; (2) os arqueólogos devem abordar questões históricas e antropológicas; (3) o registro arqueológico resulta dos comportamentos cumulativos de indivíduos e também de sociedades; (4) as esferas cognitivas e físicas do comportamento humano modelam o registro; e (5) interpretações contextuais ao invés de modelos preditivos e leis abrangentes devem ser enfatizadas.
Fonte:
Ortiz, Steven M. Archaeology and the Bible. In HAYS, J. Daniel; DUVALL, J. Scott (ed.). The Baker Illustrated Bible Handbook. Grand Rapids, MI: Baker Books, 2011
Tradução Walson Sales
[Nota do tradutor: a tradução deste capítulo tem a intenção precípua de buscar editoras interessadas em comprar os direitos autorais e publicar a obra completa em português. Os demais objetivos são para informar os amantes de Teologia e Filosofia sobre assuntos correlatos diversos.]
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