segunda-feira, 2 de agosto de 2021

A Origem da Adoração de Imagens entre os Cristãos


John Wesley - As Obras de John Wesley Vol. V



A ORIGEM DA ADORAÇÃO DE IMAGENS ENTRE OS CRISTÃOS


Quando o Cristianismo foi primeiramente pregado no mundo, ele foi apoiado pela assistência miraculosa do Poder Divino, de modo que foi preciso pouco ou nenhum auxílio humano para a sua propagação. Não apenas os apóstolos, que primeiramente o pregaram, mas até os crentes leigos foram suficientemente instruídos em todos os artigos de fé, e insuflados com o poder de operar milagres, e com o dom de falar em línguas que antes lhes eram desconhecidas.

Mas quando o Evangelho foi difundido, e se estabelecido em todo o mundo, quando os reis e príncipes se tornaram cristãos, e quando templos foram construídos e magnificamente adornados para adoração cristã, então o zelo de alguns cristãos bem-intencionados trouxe pinturas para as Igrejas, não somente para adorná-las, mas também para instruir os ignorantes, e, conseqüentemente, elas foram chamadas de  libri laicorum, – “os livros do povo.” Dessa forma, as paredes das Igrejas foram cobertas de pinturas, representando tudo aquilo que mencionamos. E aqueles que não entendiam uma letra sequer de um livro sabiam como dar um bom relato do Evangelho, sendo ensinados a entender algumas de suas passagens nas pinturas da Igreja. Assim, como os hieróglifos foram o primeiro meio de propagar o conhecimento, antes da escrita por cartas e palavras ter sido inventada, da mesma forma os mais ignorantes eram concisamente ensinados pelas pinturas, o que, caso contrário, pela escassez de professores, eles não teriam oportunidade de ser completamente instruídos.

Mas estas coisas, que foram inicialmente planejadas para o bem, tornaram-se, pela sutileza do diabo, numa cilada para as almas dos cristãos. Pois quando os príncipes cristãos, e os ricos e grandes, disputaram entre si, quem devia ornamentar os templos com a maior magnificência, as pinturas sobre as paredes foram transformadas em imagens ostentosas sobre os altares, e as pessoas sendo enganadas pela aparência exterior dos sacerdotes curvando-se e ajoelhando-se (diantes dessas imagens), conforme as diferentes partes de sua consagração os levavam, elas imaginaram que aqueles gestos serviam para prestar honras às imagens, diante das quais elas eram feitas (o que indubitavelmente não eram), e assim, de admirá-las, o povo começou a adorá-las. Dessa forma, o que foram inicialmente destinados como monumentos de edificação, tornaram-se instrumentos de superstição. Sendo este um descuido fatal do clero, que no início negligenciou ou fingiu não notar, aos poucos (como todos os erros que se infiltraram na Igreja) ganhou força, de forma que, de ser no início o desvario do povo comum, o veneno infectou os de posições mais altas, e, por sua influência e apoio, converteu alguns dos sacerdotes à sua opinião, ou, antes, esses sacerdotes foram a causa do engano dos ricos e poderosos, especialmente os do sexo feminino, para fins não muito honrados ou apropriados à integridade de suas profissão. Mas assim foi que, o que os sacerdotes inicialmente fingiram não notar, eles depois deram sua aprovação, e o que uma vez aprovaram, eles julgaram-se obrigados por uma questão de honra defender, até que, finalmente, a superstição veio a ser pregada dos púlpitos, e a terrível idolatria impôs-se sobre o povo no lugar da verdadeira devoção.

É verdade que havia muitos da ordem religiosa, cujos corações sadios e cabeças sóbrias eram muito avessos à esta inovação, que pregavam e escreviam contra a adoração de imagens, mostrando que seria tanto imoral quanto insensato. Mas a doença estava tão espalhada, e o veneno tão arraigado, que a conseqüência da oposição foi a divisão da Igrejas em facções e cismas, e finalmente prosseguiu para sangue e matança.

N. B. Não é extraordinário que o que era tão despretensioso no começo se degenerasse em tamanha idolatria como dificilmente é encontrada no mundo pagão? Enquanto este, e vários outros erros igualmente contrários à Escritura e à razão, forem encontrados na Igreja, juntos com as vidas abomináveis de multidões que se dizem cristãos, o próprio nome do Cristianismo continuará sendo intolerável aos muçulmanos, judeus e pagãos.


Tradução: Paulo Cesar Antunes

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