segunda-feira, 2 de agosto de 2021

A Palavra de Deus e o Povo de Deus: Romanos 9.1-13


Paul J. Achtemeier

 

“Não que a palavra de Deus haja faltado” (v. 6) é o ponto que Paulo pretende abordar nestes versículos e a conclusão que ele deve demonstrar. Não obstante, o próprio Paulo não mostra indiferença nesta discussão. Percebemos isso do modo como ele inicia a discussão nos versículos 1 a 3. De fato, a angústia pessoal que Paulo expressa lá tem levado alguns equivocadamente a pensar que a discussão nos capítulos 9-11 tem importância apenas por causa da experiência pessoal de Paulo como judeu e tem pouco a contribuir para um mais amplo propósito de sua carta. Ficará evidente conforme seguirmos Paulo que esse não é o caso, mas isto de modo algum diminui a intensidade emocional da aflição de Paulo pela descrença de seus “parentes segundo a carne” (v. 3). Mas essa não é a maior preocupação de Paulo e ele passa de sua própria dor (vv. 1-3) para a incredibilidade histórica de tal rejeição por Israel do plano de Deus em Cristo (vv. 4-5). Ao passar para esse ponto, Paulo retoma a lógica e os temas de uma discussão anterior da infidelidade de Israel ao plano de Deus para ela (3.1-8). Aqui somos informados com maiores detalhes, por exemplo, quais eram as vantagens que os judeus desfrutavam. Em 3.1-2, Paulo mencionou apenas sua posse dos “oráculos de Deus”. Aqui temos relacionada toda a extensão dos elementos redentores que são seus por direito anterior como povo eleito de Deus: adoção, alianças, lei, culto, promessas, patriarcas – e até mesmo Jesus. Se o povo em posição tão privilegiada rejeitou o plano de Deus, isto pode significar outra coisa senão que o plano de Deus que envolvia Israel como povo eleito fracassou?

 

Para responder essa pergunta, Paulo retoma um segundo tema que tinha também discutido anteriormente (2.28-29): A existência de um verdadeiro Israel não é questão de descendência racial como se, sendo biológica, estivesse fora das mãos de Deus. Antes, a existência de um verdadeiro Israel é questão de constante eleição graciosa de Deus. A história de Israel não é, dessa forma, a história de uma raça, é a história de uma escolha, uma escolha feita por Deus que inclui sua intenção de um dia ser gracioso com toda a humanidade através de Israel. Desse modo, ser membro do povo eleito não é questão de biologia ou parentesco (vv. 7-8a), mas de constante promessa graciosa de Deus (8b). É por isso que a linhagem de Abraão continuou através de Isaque, o filho da promessa, antes que através de Ismael, o primogênito de Abraão segundo a carne (vv. 7-8; veja Gn 21.1-18).

 

Essa também é a lógica por trás do uso de Paulo dos filhos de Rebeca nos versículos 10-13. Mais uma vez, o mesmo ponto é enfatizado: A linhagem do verdadeiro Israel é pela escolha de Deus, não pela necessidade biológica. Aqui é particularmente claro porque estamos lidando com gêmeos! Ambos compartilham de uma mesma herança biológica (“de um, de Isaque, nosso pai”, v. 10b). Certamente se o verdadeiro Israel fosse questão de descendência física, a linhagem teria que seguir através de Esaú, porque, novamente, ele era o primogênito. Todavia a linhagem seguiu através de Jacó, pela escolha de Deus, e foi claramente uma escolha feita somente por Deus, visto que ela foi feita antes dos gêmeos terem nascido ou feito algo que merecessem tal tratamento (vv. 11-13). A inferência é clara, como Lutero observou: “Segue irrefutavelmente: ninguém se torna filho de Deus e herdeiro da promessa por descendência mas pela graciosa eleição de Deus” (p. 266).

 

Esse é o ponto que Paulo está fazendo. Paulo está mostrando que o propósito de Deus de abençoar toda a humanidade através de um povo eleito não pode ser frustrado quando alguns que pertencem fisicamente a esse povo rejeitam esse propósito. O curso e destino do povo eleito é questão de eleição de Deus, não de descendência biológica, e de forma que o destino permanece nas mãos de Deus, e não na dele. O que isso implica Paulo irá explicar melhor na próxima passagem.

 

O pregador irá encontrar na mudança do desespero diante do aparente fracasso de Deus para a certeza que ele irá cumprir seus propósitos redentores (cf. 9.13 com 9.6) um tema que regularmente ressoa através da Bíblia. Quão apropriado era a Paulo iniciar uma discussão sobre o destino do povo eleito de Deus desta maneira pode ser ilustrado vendo reflexos desse tema na história do povo de Deus. Ver esses reflexos irá por sua vez nos ajudar a ter perspectiva do problema que Paulo levanta nesta parte de sua carta aos cristãos em Roma.

 

Há o temor dos israelitas diante do aparente fracasso de Deus de libertá-los da perseguição dos exércitos de Faraó (Êx 14.5-12). Esse temor se opõe à segurança de Moisés que Deus não os abandonou e que eles serão ainda libertos (v. 13). Essa segurança torna-se realidade quando eles atravessam o mar e os exércitos que os perseguiam são destruídos (vv. 14-31).

 

Há o desespero de um desamparado Elias no Monte Horebe, perseguido pela rainha má Jezebel, e caçado pelos sacerdotes de Baal (1Re 19.1-10). O restante de Israel abandonou Deus e desistiu da aliança, Elias apenas é deixado, e sua vida está quase no fim. Pode ainda haver esperança? Será que o povo eleito abandonou Deus, ou, mais importante do que isso, Deus abandonou sua tentativa de ter um povo eleito? No meio de tal agonia Elias, sustentado pelo cuidado de Deus (vv. 5-8!), recebe a garantia de que Deus não abandonou sua promessa de manter o seu povo eleito (vv. 11-18).

 

Esse mesmo tema é disposto em forma de história no relato de Jonas, desesperado em sua tentativa de esquivar-se do chamado de Deus. Da barriga de um peixe, um lugar que Jonas compara ao reino dos mortos, ele todavia canta em um salmo sua certeza de que o Deus que o persegue ainda irá resgatá-lo (Jn 2.1-9). É uma certeza que é imediatamente confirmada (v. 10)!

 

As histórias nos Evangelhos falam repetidas vezes do fracasso dos discípulos: fracasso para entender e fracasso para agir. Podemos tomar como ilustrativo deles toda a história em Mateus que diz dos discípulos sozinhos em uma tempestade e Pedro afundando no mar enquanto tenta alcançar Jesus (Mt 14.22-33). Pedro abandonou Jesus, ou mais importante do que isso, Jesus abandonou seus discípulos enquanto eles enfrentavam a tempestade e Pedro afundava no mar? E estes fracassos não são simplesmente uma antecipação, para os seguidores de Jesus, daquele fracasso final da missão de Jesus, quando ele morre em desgraça em uma cruz?

 

Todavia Pedro, apesar de sua falta de fé, é salvo no momento crítico para continuar sua vida de discipulado, enquanto Elias e Jonas são enviados de volta mais uma vez para seus chamados proféticos. O que estas histórias já implicam será mostrado conclusivamente ser o caso quando Jesus levanta da sepultura: o poder de Deus é tal que nenhum fracasso, não importa quão desesperador seja, pode frustrar o seu plano redentor.

 

É nesse contexto que estes versículos de Romanos devem ser compreendidos. Eles nos mostram um pouco do desespero de Paulo diante da incredulidade de Israel, o povo eleito de Deus. Ele prontamente sofreria a condenação que eles merecem se ele pudesse apenas trocar seu destino. Todavia seu desespero, também, é superado pela convicção de que Deus não pode ser derrotado. Desse modo, todas estas passagens giram sobre o tema do Deus que resgatou, e irá resgatar, seu povo do meio do desespero e destruição potencial. Esse tema é útil para soar no meio do povo de Deus que vive num mundo ameaçado por uma destruição atômica total e repentina. Deus permanece no controle e irá todavia cumprir seus propósitos redentores.

 

O professor irá encontrar nestas passagens dicas para o modo como Paulo entende a natureza do “povo eleito” e por conseguinte como Paulo entende a história do Antigo Testamento. A escolha permanece nas mãos de Deus e não é deixada, uma vez feita, às vicissitudes da história ou aos acidentes da biologia. Deus permanece no controle de seu plano, guiando-o, não importa qual possa ser nossa resposta, ao objetivo que estabeleceu para ele.

 

Uma boa ilustração deste ponto será encontrado em Mt 3.7-10, onde João Batista confronta algumas autoridades religiosas. João anuncia que eles também enfrentarão destruição no juízo final se não se arrependerem, e no versículo 9, João antecipa uma afirmação que aquelas autoridades podiam fazer para contrapor o argumento. Eles podiam alegar “Temos por pai a Abraão”, sendo a implicação que, visto que somos filhos de Abraão a quem Deus prometeu a bênção, Deus não pode nos destruir ou ele não terá ninguém com quem cumprir essa promessa. Destruir os filhos de Abraão em julgamento significaria, desse modo, que a promessa de Deus, sua palavra, falharia.  A conclusão: Deus precisa de Israel para cumprir seus propósitos e por isso não pode condená-la no juízo final, tendo ela se arrependido ou não.  A resposta de João: Deus não é dependente dos descendentes físicos de Abraão, uma vez que “mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão”. Porque Deus criou Israel, ele pode recriá-la e não é, dessa forma, dependente dos descendentes biológicos de Israel.

 

Esse é o próprio ponto que Paulo está fazendo sobre a verdadeira natureza e realidade de Israel como povo eleito. Essa realidade continua a ser determinada pela escolha de Deus, não pela herança biológica de Israel. Deus não deu origem ao seu povo eleito com Abraão e então o abandonou às vicissitudes da história. Antes, seus graciosos propósitos continuam em operação por toda a história de Israel. Por essa razão Paulo pode ver uma continuidade entre Israel, que devia sua existência ao propósito gracioso de Deus, e os seguidores de Cristo, que são também constituídos  uma comunidade pela graciosa escolha de Deus. Dessa forma, o plano de Deus envolve uma continuidade entre Israel como povo eleito e a escolha de Deus de Cristo como o instrumento da redenção de sua criação caída.

 

Fonte:  Romans, 155-159

 

Tradução: Paulo Cesar Antunes 

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