segunda-feira, 23 de agosto de 2021

A Proclamação Universal do Evangelho

 A Proclamação Universal do Evangelho

 

John Bunyan

 

Reprobation Asserted, Vol. 2, Cap. X, pp. 348-349

 

Deus quer verdadeiramente que o Evangelho, com a graça que o segue, seja oferecido àqueles que ele sujeitou à Eterna Reprovação?

 A esta pergunta irei responder:

 Primeiro, na linguagem de nosso Senhor, ‘Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura’ (Mc 16.15), e novamente, ‘Olhai para mim, e sereis salvos, vós, todos os termos da terra’ (Is 45.22). ‘E quem quiser, tome de graça da água da vida’ (Ap 22.17). E a razão é, porque Cristo morreu por todos, ‘provou a morte por todos’ (2Co 5.15; Hb 2.9), é ‘o Salvador do mundo’ (1Jo 4.14) e a propiciação pelos pecados de todo o mundo.

 Segundo, infiro isto das muitas censuras sob as quais estão todos aqueles que não recebem a Cristo, quando oferecido nas propostas gerais do Evangelho, ‘Quem não crer será condenado’ (Mc 16.16). ‘Quem a Deus não crê mentiroso o fez, porquanto não creu no testemunho que Deus de seu Filho deu’ (1Jo 5.10), e, ai de ti Cafarnaum, ‘Ai de ti, Corazim! ai de ti, Betsaida!’ com muitas outras declarações, cujas palavras, e muitas outras do mesmo tipo, carregam em si um argumento muito importante para este mesmo propósito, pois se aqueles que perecem nos dias do Evangelho terão, pelo menos, sua condenação aumentada, porque negligenciaram e recusaram receber o Evangelho, é necessário que o Evangelho tenha sido oferecido a eles com toda sinceridade, o que não poderia ser, a menos que a morte de Cristo se estendesse a eles (Jo 3.16; Hb 2.3), pois a oferta do Evangelho não pode, com a permissão de Deus, ser oferecida além de onde vai a morte de Cristo, porque se isso for eliminado, não há de fato nenhum Evangelho, nenhuma graça a ser estendida. Além disso, se por toda criatura, e expressões semelhantes, devemos entender somente os eleitos, então todas as persuasões do Evangelho são completamente inúteis, pois, ainda, os não convertidos, que aqui são condenados por recusá-lo, responderão rapidamente: Não sei se sou eleito, e portanto não ouso ir a Jesus Cristo, pois se a morte de Jesus Cristo, e da mesma forma a oferta geral do Evangelho, diz respeito aos eleitos somente, eu, não sabendo ser um deles, me encontro em sérias dificuldades, não sabendo se é maior pecado crer ou entrar em desespero, pois, repito, se Cristo morreu somente pelos eleitos, etc., então, não sabendo se sou um deles, não ouso crer no Evangelho, que oferece seu sangue para me salvar; não apenas isso mas penso seguramente que não posso, até que eu primeiramente saiba ser um dos eleitos de Deus e destinado a isso.

 Terceiro, Deus Pai e Jesus Cristo seu Filho querem que todos os homens indiscriminadamente sejam convidados pelo Evangelho a tomar posse da vida através de Cristo, quer eleitos ou reprovados, pois embora seja verdadeiro que haja tal coisa como eleição e reprovação, todavia Deus, através das ofertas do Evangelho no ministério de sua palavra, considera os homens de outra forma, a saber, como pecadores, e como pecadores os convida a crer, tomar posse e seguir o mesmo. Ele não disse aos seus ministros, ‘Vão pregar aos eleitos porque eles são eleitos, e exclua os outros porque eles não são eleitos’. Mas, ‘Vão pregar o Evangelho aos pecadores como pecadores, e visto que são pecadores, ordene-os que venham a mim e vivam’. E isso deve necessariamente ser assim, de outra forma o pregador não poderia falar com confiança, nem as pessoas ouvirem com confiança. Em primeiro lugar, o pregador não poderia falar com confiança, porque ele não tem como distinguir os eleitos dos reprovados, nem eles, outra vez, ouvem com confiança, porque, como não convertidos, eles sempre seriam ignorantes disso também. Então, nem sabendo o ministro a quem deve oferecer vida, nem sabendo as pessoas quais delas devem recebê-la, como a palavra poderia agora ser pregada com confiança e poder? E como poderiam as pessoas crer e abraçá-la? Mas oferecendo o pregador misericórdia no Evangelho aos pecadores, visto que eles são pecadores, o caminho se abre para a palavra ser falada com confiança, pois seus ouvintes são pecadores, sim, e encorajamento também para as pessoas receberem e concordarem, tendo em vista que eles entendem que são pecadores: ‘Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores’ (1Tm 1.15; Lc 24.46, 47).

 Quarto, o Evangelho deve ser pregado aos pecadores visto que eles são pecadores, sem distinção de eleitos ou reprovados, porque, nenhum dos dois, quando considerados sob estes fatos simples, são sujeitos adequados a abraçar o Evangelho, pois nem um nem outro fato faz de cada um deles pecadores, mas o Evangelho deve ser oferecido aos homens visto que eles são pecadores, e pessoalmente sob a maldição de Deus por causa do pecado. Portanto, ofertar a graça aos eleitos porque eles são eleitos é ofertar graça e misericórdia não os considerando como pecadores. E, digo, negá-la aos reprovados porque eles não são eleitos não é somente uma negação da graça àqueles que não têm necessidade dela, mas também antes que ocasião é dada de sua parte, para tal dispensa. E repito, portanto, que oferecer Cristo e graça aos homens eleitos, simplesmente como assim considerados, não lhes dá nenhum conforto, não sendo eles pecadores, e assim eles não entregam seus corações a Jesus Cristo, pois isso só tem efeito se eles forem pecadores. Sim, negar o evangelho também aos reprovados porque eles não são eleitos, não irá perturbá-lo nem um pouco, pois ele diz, ‘Então eu não sou um pecador, e assim não preciso de um Salvador’. Mas agora, porque os eleitos não têm necessidade da graça em Cristo pelo Evangelho, senão enquanto pecadores, nem os reprovados irão recusá-la, senão enquanto pecadores, por isso Cristo, pela palavra do Evangelho, deve ser oferecido a ambos, sem considerá-los como eleitos ou reprovados, ainda que eles sejam pecadores. ‘Os sãos não necessitam de médico, mas, sim, os que estão doentes; eu não vim chamar os justos, mas, sim, os pecadores ao arrependimento’ (Mc 2.17; 2Co 5.14, 15; Lc 7.47).

 Dessa forma, vocês notam que o Evangelho deve ser oferecido a todos em geral, tanto aos reprovados como aos eleitos, AOS PECADORES COMO PECADORES, e ASSIM eles devem recebê-lo e concordarem com suas ofertas.[1]

 

Tradução: Paulo Cesar Antunes

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[1]  Ninguém é excluído do benefício da grande e preciosa salvação assegurada e finalizada pelo Senhor Jesus Cristo, senão aqueles que, por perversidade, incredulidade e impenitência excluem-se a si mesmos. Pecadores – pecadores miseráveis, impotentes e perdidos são os objetos desta salvação: quem quer que seja capacitado a ver, à luz do Espírito de Deus, seu estado desprezível e desesperançado, sentir sua necessidade de Cristo como um Salvador apropriado, e arrepender-se e abandonar seus pecados, encontrará misericórdia, pois ‘Deus não faz acepção de pessoas’, At 10.34 –  Ryland e Mason.

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