segunda-feira, 2 de agosto de 2021

A teologia como defesa da fé e como ponte até os não crentes


Desde datas bem antigas, viu-se a necessidade de defender a fé diante de quem a criticava, assim como de preparar o caminho para que os não crentes pudessem aproximar-se do evangelho. Assim, por exemplo, quando a igreja cristã começou sua pregação no meio do Império Romano e de sua cultura greco-romana, havia quem zombasse dos cristãos porque não tinham deuses visíveis. Alguns até os chamavam de “ateus”, por essa mesma razão. Diante de tais críticas e acusações, alguns líderes intelectuais do cristianismo começaram a buscar pontes entre sua fé e cultura circundante. Uma dessas pontes foi encontrada no que alguns dos mais distintos filósofos da antiguidade - especialmente Platão - haviam dito sobre o Ser Supremo. Segundo esses filósofos, sobre todos os seres visíveis deve haver um primeiro Ser, infinito e imutável, do qual a existência de todos os demais seres é derivada. Unindo essa antiga afirmação filosófica com a doutrina cristã, esses antigos teólogos cristãos - personagens como Justino, Clemente de Alexandria e Orígenes - afirmaram que o mesmo Ser a quem os cristãos chamavam “Deus” ou “Pai” era aquele que os antigos filósofos haviam chamado de Ser Supremo, Beleza Suprema, Bondade Suprema, Primeiro Motor etc. Desse modo, mostravam que a fé cristã não era tão irracional como diziam e que os cristãos, longe de serem “ateus”, adoravam a um Ser que estava acima do todos os supostos deuses pagãos. Isto é o que se conhece como a “função apologética” da teologia. Nesse contexto, “apologia” quer dizer “defesa”. Por isso, aqueles primeiros autores, que escreveram obras desse tipo, recebem o nome de “Apologistas” ou “Apologetas”. E, por causa deles, a teologia que se dedica a esse tipo de tarefa recebe o nome de “Teologia Apologética” ou simplesmente “Apologética”. Indubitavelmente, essa tarefa é importante e valiosa. Por exemplo, se não fosse por causa daqueles primeiros apologistas do segundo século, e por quem continuou sua tarefa no século terceiro e quarto, o cristianismo não poderia ter entrado em diálogo com a cultura circundante. Certamente, no livro de Atos vemos primeiro a Pedro, logo a Estevão e por último a Paulo, todos judeus, defendendo a fé cristã em presença de outros judeus que não a aceitavam. No dia de hoje, visto que existem tantos argumentos contra a fé cristã, é necessário refutá-los, se não essencialmente para provar a verdade dessa fé, ao menos para remover os obstáculos falsos que se colocam no caminho dela. Assim, por exemplo, a teologia em sua função apologética pode ajudar-nos a refutar os argumentos dos ateus, que afirmam ser impossível crer em Deus. Por outro lado, contudo, a teologia como apologética apresenta também seus perigos. Sobre isso voltaremos em outro capítulo ao tratar sobre as “provas” da existência de Deus. Em todo caso, parte do perigo está em que o argumento apologético é como uma ponte em tráfico, flui nas duas direções: não somente serve para convencer os não crentes, mas também pode convencer os crentes, torcendo o conteúdo de sua fé. O exemplo mais claro disso vemos nos argumentos dos “apologistas” do segundo século, a quem já nos referimos, e no modo em que seus pensamentos têm impactado a doutrina de Deus. Quando esses apologistas enfrentaram a cultura greco-romana, viram-se na necessidade de defender sua fé em um Deus único e invisível, quando nessa cultura os deuses eram muitos e também vistos nas estátuas que se colocavam nos templos. Para responder a essas críticas, os apologistas recorreram aos escritos de Platão que falavam de um Ser Supremo, e disseram que esse era o Deus dos cristãos. O grande valor de tal argumento estava em conseguir, para a proclamação da fé, o apoio de um dos mais respeitados pensadores da antiguidade, Platão. O grande perigo estava em que os cristãos chegassem a pensar - como de fato fizeram - que a maneira que Platão fala do Ser Supremo é melhor e mais exata que a maneira que a Bíblia fala de Deus. Como conseqüência disso, boa parte da teologia cristã começou a conceber Deus como um ser impessoal, impassível, afastado das realidades humanas e, portanto, muito distinto do Deus de Israel e de Jesus Cristo, que se envolve na história humana, sofre com aqueles que sofrem, responde as orações etc.


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A oposição entre ambas às disciplinas


Existiram, na antiguidade - como existem hoje muitos que pensavam que a única coisa que a filosofia podia proporcionar para a vida da Igreja era o erro.O mais notável entre aqueles que sustentaram essa opinião foi Tertuliano, que viveu no norte da África, no fim do século II e principio do III. Tertuliano estava preocupado com as muitas doutrinas que circulavam em seu tempo, particularmente as dos gnósticos e as de Marcião, que contradiziam aspectos essenciais do Evangelho. Havia quem sustentasse que somente a realidade espiritual era boa e, portanto, Deus não era o criador do mundo físico. Havia quem negava a realidade do corpo físico de Jesus. Havia quem dizia que o amor de Deus era tal que Ele nunca julga nem castiga. Tertuliano estava convencido de que a origem de todos os erros estava na filosofia. Portanto, referindo-se a Atenas e a sua Academia como símbolos da filosofia, Tertuliano declarava: “O que tem a ver Atenas com Jerusalém? O que a Academia com a Igreja?”. Em outras épocas, outros teólogos sustentaram posições semelhantes. No século XX, Karl Barth, quem já mencionamos, rejeitou o uso da filosofia na teologia. Isto foi devido em parte porque, nas gerações imediatamente anteriores vários pensadores alemães haviam produzido sistemas nos quais a teologia e a filosofia se confundiam. E foi devido também porque, em vista de seu entendimento da teologia e sua função, Barth pensava que a teologia devia ser uma disciplina autônoma, que em nada dependia da filosofia ou de qualquer outra disciplina.


Fonte:

GONZALEZ, Justo L.; PÉREZ, Zaida M.; Introdução á Teologia Cristã. (Tradução Silvana Perrella Brito). Santo André, SP: Editora Academia Cristã, 2006. 

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