Duvide dos Pessimistas
Philip Yancey
(Christianity Today, maio de 2004, vol. 48, no. 5, página 88)
Graças a Deus, nem tudo que eles dizem é verdade
Em 1980, atualizei o livro Fearfully and Wonderfully Made [Criado de modo especial e admirável] para uma edição de tributo ao recentemente falecido dr. Paul Brand, co-autor da obra. Durante esse processo, revi com grande dificuldade uma passagem sobre a grande distância entre países desenvolvidos e o mundo em desenvolvimento. Recentemente, li uma mensagem de e-mail anônima, que circulava pela Internet, a qual mostrava que pouco havia mudado desde 1980. Ali, lia-se que 80% das pessoas do mundo vivem em moradias abaixo do padrão, 70% são analfabetas e 50% sofrem de desnutrição.
Isso despertou minha curiosidade. Assim, gastei muitos dias atrás de estatísticas oriundas de fontes oficiais, apenas para descobrir que aquele e-mail estava totalmente errado. Na verdade, o mundo teve importantes avanços nas últimas décadas.
De acordo com as melhores estimativas, 25% – não 80% – da população mundial vive em moradias abaixo do padrão. Há trinta anos o índice de alfabetização era de 53%; agora apenas 20% dos adultos são analfabetos. O percentual de pessoas que sofre de desnutrição caiu para 20%, mais da metade. Três de cada quatro pessoas não tinham acesso à água potável; agora três de quatro pessoas têm água potável.
Talvez, a mais importante mudança seja em relação ao crescimento da população. Em 1968, Paul R. Ehrlich, em The Population Bomb [A bomba populacional], predisse que uma grande escassez ocorreria nas décadas de 1970 e 1980, em que centenas de milhões de pessoas morreriam de fome. Isso simplesmente não aconteceu.
Certa vez, os especialistas em desenvolvimento populacional previram que a população mundial atingiria mais de vinte bilhões, causando uma intolerável compressão nos recursos da terra. Essa previsão caiu para quinze bilhões, depois para onze bilhões e a seguir para nove bilhões. Alguns especialistas prevêem que, por volta de 2050, o número pode alcançar seu pico ou, talvez, até mesmo diminuir.
A taxa de nascimento caiu tão dramaticamente que os especialistas da Europa Ocidental, Rússia e Japão alertam agora para as terríveis conseqüências de uma geração envelhecida não ser substituída por uma mais nova. Em todo o mundo, as mulheres costumavam ter em média seis filhos; agora elas têm três. Embora os países desenvolvidos tenham melhorado economicamente, a taxa de nascimento diminuiu.
Há trinta anos, uma em cada oito crianças morria em seu primeiro ano de vida; agora metade delas morre. (Apenas um século atrás, quatro em cada cinco crianças morriam de alguma doença antes de alcançar os cinco anos.) Atualmente, a presença da AIDS é o maior desafio para a saúde, em especial na África, mas, mesmo assim, não ousaríamos minimizar os triunfos na área de saúde: a varíola, uma doença que no século 19 matou quinhentos milhões de pessoas, foi erradicada. A temida poliomielite praticamente desapareceu, e a lepra teve grande declínio, graças, em parte, aos dedicados trabalhadores cristãos como o dr. Brand.
Ainda há uma grande distância entre o mundo desenvolvido e os países em desenvolvimento. Metade da população mundial ainda recebe menos que dois dólares por dia. Mesmo o Banco Mundial estima que o percentual de pessoas que vivem em absoluta pobreza diminuiu quase pela metade, e a renda per capita cresceu 60%. Dez milhões de empresários melhoraram de vida por causa de empréstimos para microempresas.
De acordo com as Nações Unidas, em toda parte, as condições de desenvolvimento do mundo melhoraram mais na segunda metade do século 20 que nos quinhentos anos anteriores. Os regimes repressivos dominam os noticiários. Entretanto, de acordo com a Freedom House [Casa da Liberdade], em anos recentes, setenta e uma ou mais nações tornaram-se livres ou parcialmente livres.
Políticos e pregadores falam contra a decadência da moralidade sexual nos Estados Unidos. Mas os Centers for Disease Control and Prevention [Centros para Controle e Prevenção de Doenças] relatam que, na última década, houve um declínio de 30% na taxa de gravidez de adolescentes, enquanto a taxa de aborto caiu, pelo menos, para a metade. Muitos levantamentos mostram que, em relação ao sexo, os adolescentes são mais conservadores que seus pais.
Boas notícias como essas raramente chamam a atenção da mídia que continua a mostrar o mundo à beira do desastre. Isso também não provoca ação ou efeito nas agências que já aprenderam que os doadores respondem melhor a apelos de crises.
Eu, jornalista que faz freqüentes viagens internacionais, estou bem ciente a respeito dos maiores problemas que nosso planeta enfrenta: aquecimento global, disparidade salarial, terrorismo e guerras, SARS, AIDS e outras doenças. Ao mesmo tempo, acho genuinamente agradável ver o progresso conquistado durante minha vida.
Há um século, os liberais teológicos, com razão, reclamavam que os cristãos conservadores cuidavam da alma, mas não do corpo. Os liberais encabeçaram o caminho para a reforma social. Agora, as agências evangélicas, como as ONGs Visão Mundial, a World Concern e Opportunity International, estão entre as mais proeminentes e efetivas distribuidoras de “graça comum” para o mundo necessitado.
Após vários dias de pesquisa, parei para agradecer por esse notável progresso. Aprendi a não acreditar em tudo que leio na Internet nem em tudo que escuto os pessimistas dizerem.
Tradução: Lena Aranha
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