William M. Greathouse - A Questão da Fé, Romanos 9.1-5
O apóstolo vai abordar um tema que ele evita anunciar diretamente. A forte afirmação que encontramos nos versículos 1-2 indicam tanto a seriedade dos seus próprios sentimentos e da sua convicção, quanto o conhecimento de que os seus companheiros podem duvidar da sua sinceridade. Com muito tato e delicadeza, ele aborda o assunto. Em Cristo (en Christo, “como alguém unido a Cristo”; cf. 2 Co 2.17; 12.19) digo a verdade, não minto (dando-me testemunho a minha consciência no Espírito Santo): tenho grande tristeza e contínua dor no meu coração (1-2).
O grito de alegria de Paulo tornou-se um soluço de compaixão. Porque eu mesmo poderia desejar ser separado de Cristo, por amor de meus irmãos, que são meus parentes segundo a carne (3). É um paradoxo da experiência cristã o fato de que “um alto grau de tristeza espiritual e de alegria espiritual possam existir conjuntamente”.[1] Ao declarar a sua tristeza pelos seus parentes sem fé, Paulo iria dissuadir as suas mentes de estar falando com algum preconceito. Ele está sofrendo no Espírito (cf. 8.26-27) pela salvação deles (cf. Mt 9.36). Paulo emprega o enfático eu mesmo (autos ego) para enfatizar a sua disposição para o sacrifício pessoal. Estas palavras adquirem ainda mais força quando nos lembramos de que ele acabou de afirmar que nada no céu ou na terra pode “nos separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus” (8.39).
Ele diz: Porque eu mesmo poderia desejar ser separado (anathema, “destinado à destruição”; cf. 1 Co 16.22; Gl 1.8-9) de Cristo, por amor de meus irmãos, que são meus parentes segundo a carne (kata sarka). Esta oração é similar à de Moisés: “Agora, pois, perdoa o seu pecado; se não, risca-me, peço-te, do teu livro” (Êx 32.32). Esta é a linguagem de agape (cf. 5.8), mas é uma oração impossível de ser respondida a homens finitos. Somente o Infinito e Santo poderia realmente se tornar maldição por nós, e portanto efetivar a nossa salvação (Gl 3.13-14). Mas agape no coração do cristão faz com que ele “cumpra” as aflições de Cristo (cf. 2 Co 5.18-21; Cl 1.24).
Paulo fornece duas razões para a sua profunda compaixão. A primeira: estes são os seus parentes segundo a carne. O apóstolo nunca perdeu o seu sentimento de identidade com os seus irmãos israelitas. Ele sofria interiormente “o conflito entre a condição espiritual atual de Israel e a sua história divina”.[2]
O segundo motivo para a compaixão de Paulo consiste nos privilégios divinamente concedidos que foram dados ao povo escolhido (cf. 3.1-3). Eles são os israelitas (4), os participantes das promessas feitas a Jacó, a quem foi dado o nome “Israel”. Nos capítulos 1 a 8 Paulo fala dos “judeus”; mas nos capítulos 9 a 11, ele fala de “Israel”. Os israelitas são o povo de Deus, “o povo que fazia parte de sua aliança, e que fora chamado para a salvação de Deus”.[3] “Pois Israel é uma nação santa para Deus, uma nação de herança do seu Deus, uma nação de sacerdócio e realeza, e uma possessão” (Livro dos Jubileus 33.18; cf. Dt 7.6-9; 1 Rs 8.51, 53).
Deles é a adoção (huiothesia, “a condição de um filho adotado”; cf. 8.15, com comentários). Aqui a palavra implica no relacionamento com Deus descrito em Êxodo 4.22; Deuteronômio 32.6; Jeremias 31.9; Oséias 11.1.
Deles é a glória (he doxa), “a presença visível de Deus no meio do seu povo”, o Shekinah. “Nenhuma outra nação jamais foi tão favorecida”.[4]
Deles são os concertos (hai diathekai). O plural não se refere aos concertos antigo e novo, mas provavelmente aos concertos com os patriarcas e com Moisés (Gn 6.18; 9.9; 15.18; 17.2, 7, 9; Êx 2.24; 19.5; etc.), frequentemente repetidos e que os unia como o povo de Deus. Alguns manuscritos apresentam a forma singular, “concerto”, que neste caso faria referência ao concerto feito no Monte Sinai.
Deles é a lei (he nomothesia), o que significa “a dignidade e a glória de ter uma lei comunicada pela revelação expressa, e em circunstâncias tão cheias de assombro e esplendor”.[5]
Deles é o culto a Deus (he latreia, “o serviço no templo”, NASB), e também são as promessas (hai epangeliai, as promessas do Messias no Antigo Testamento).
Deles são os pais (5; hoi pateres, “os patriarcas”; cf. At 3.13, 32), que, como santos ancestrais, deixaram uma herança sagrada para Israel.
Finalmente, o supremo privilégio deles é que, através dos seus pais e segundo a carne veio Cristo, o qual é sobre todos, Deus bendito eternamente. Amém! O texto grego apresenta: Kai ex hon ho Christos to kata sarka (“de quem é o Cristo segundo a carne”), ho on epi panton (“Aquele que está sobre todos”), theos eulogetos eis tous aionas, amen (“Deus bendito por todos os tempos. Amém”). Sanday e Headlam fornecem um extenso resumo da interpretação do versículo 5, um versículo que “provavelmente foi mais comentado do que qualquer outro do Novo Testamento”. Eles vêem quatro possíveis interpretações:[6]
a) A colocação de uma vírgula depois de sarka, o que faz de Cristo a referência de toda a passagem (ERV, Phillips, RSV).
b) A colocação de um ponto final depois de sarka, e a tradução “Aquele que é Deus sobre todos seja bendito para sempre”, ou “é bendito para sempre” (ASV, RSV, NEB, Moffatt).
c) Com a mesma pontuação, traduzir: “Aquele que é sobre todos é Deus bendito para sempre” (ASV, marg.).
d) A colocação de uma vírgula depois de sarka, e um ponto final depois de panton, “que é sobre todos. Deus seja (ou é) bendito para sempre” (ASV, marg.).
É difícil escolher uma destas possibilidades. Os manuscritos originais não apresentam nenhum tipo de pontuação. Pode ser significativo que “uma imensa maioria dos escritores cristãos dos oito primeiros séculos opine que esta passagem se refere a Cristo”[7] embora não exista nenhuma evidência de que eles tenham chegado a esta conclusão com alguma base dogmática; o versículo raramente é citado em controvérsias. A linguagem da passagem aparentemente indicava este significado.
A evidência gramatical parece favorecer a possibilidade (a),[8] a menos que as palavras ho on epi panton theos contenham em si mesmas um contraste muito vivo com a frase anterior. Se adotarmos esta interpretação, a frase to kata sarka contrastada com theos corresponde a um paralelo com o contraste em 1.3-4, entre kata sarka e katapneuma hagiasunes (veja os comentários). O rumo do discurso de Paulo levou-o a enfatizar o nascimento humano de Cristo como um israelita; esta ênfase unilateral deve ser corrigida. To kata sarka nos leva a esperar uma antítese, e nós encontramos exatamente o que esperamos em ho on epi panton theos. No entanto, embora Paulo considere Cristo como estando sobre toda a criação (1 Co 11.3; 15.25; Fp 2.5-11; Cl 1.13-20), ele normalmente prefere se referir a Ele como “Senhor”, e não como Deus (1 Co 8.6; Ef 4.5-6; 1 Tm 1.1-2; 5.21; Tt 1.4; mas cf. Tt 2.13, NASB, RSV). Não obstante, aqui Paulo pode ter optado por theos porque ele “deseja dizer que Cristo era, em termos humanos, um judeu; mas, na realidade, Ele é Deus”.[9] Paulo assim estaria dizendo “‘Segundo a carne’, kata sarka, Cristo pertence a Israel; mas ‘segundo o Espírito’, kata pneuma, Ele é ‘Deus, o qual é sobre todos, bendito eternamente’”.[10]
Fonte: Comentário Bíblico Beacon, Vol. 8, pp. 135-137
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[1] Wesley, Explanatory Notes upon the New Testament, p. 554.
[2] Brunner, op. cit., p. 83.
[3] Goppelt, op. cit., p. 135. “‘Judeu’ é o homem de sangue judeu, sujeito à Lei. Como este é o sinal essencial do judeu, Paulo já não pode mais se referir a si mesmo como um judeu, depois da sua conversão, sem um esclarecimento; ele é somente um ‘judeu por natureza’ – ou nascimento (Gl 2.15). Ele pode se tornar ‘como judeu’ para os judeus, ou seja, ‘para os que estão debaixo da lei – como se estivera debaixo da lei’ (1 Co 9.20). No entanto, mesmo como um cristão ele ainda pode continuar a dizer que é um ‘hebreu’ (Fp 3.5; 2 Co 11.22), como filho de uma família judaico-palestina, e um ‘israelita’ (2 Co 11.22; Rm 11.1; cf. Fp 3.5), como um membro da nação que faz parte do concerto de Deus, e chamada para a salvação de Deus” (ibid.).
[4] Clarke, op. cit., p. 109.
[5] Vaughn; citado por ICC, “Romans”, p. 231.
[6] ICC, “Romans”, p. 233. Como a versão KJV, a NASB também deixa a questão da interpretação sem uma conclusão.
[7] Ibid., p. 234. Entre aqueles que propuseram esta interpretação estavam Irineu, Hipólito, Novaciano, Atanásio, Epifânio, Basílio, Gregório de Nissa, Crisóstomo, Teodoreto, Agostinho, Hilário, Ambrósio, Jerônimo, Cirilo de Alexandria e Orígenes.
[8] Veja Barrett, The Epistle to the Romans, pp. 178-79, além de ICC, “Romans”, p. 233-38.
[9] Barrett, ibid.
[10] Nygren, op. cit., p. 356.
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