Série de verbetes: Pequenos textos, grandes insights - Canaã, Cananeus.
Canaã,
Cananeus (kay'nuhn, kay'nuh-nits), o antigo nome de um território e
seus habitantes que incluíam partes do que hoje é Israel (com territórios
ocupados) e o Líbano. A origem e etimologia do nome "Canaã"
permanecem obscuras. Presumivelmente é um termo Semítico, mas o esforço para
ligar Canaã à palavra Acadiana kinahhu,
referindo-se à vermelhidão de uma tintura de lã, é problemático. A palavra
"cananeu" já ocorre no terceiro milênio a.C. nos textos de Ebla.
Esfera
de influência: No uso adequado, o termo "Canaã"
parece ter se referido a uma região discreta cujos limites precisos não podem
ser determinados no momento. Em Ugarit, na costa Síria do Mar Mediterrâneo,
Canaã era considerada uma região situada ao sul. As cartas do final da Idade do
Bronze dos arquivos de Amarna frequentemente se referem a Canaã e às vezes dão
a impressão de um uso discriminatório do termo. Rib-Addi, um rei de Biblos, afirmou
que Biblos era em Canaã. Os assuntos de Sidon e Hazor foram considerados
assuntos Cananeus. Em outras ocasiões, no entanto, as cartas de Amarna usam a
palavra "Canaã" de forma ampla, e assim uma carta de Tiro implica que
Ugarit era uma cidade Cananéia, contradizendo a visão nativa da própria Ugarit.
O uso da palavra "Canaã" na Bíblia reflete tanto a precisão quanto a imprecisão
do termo. A "Tabela das Nações" de Gênesis estabelece os limites de
Canaã da seguinte maneira: de Sidon a Gerar, perto de Gaza, e do leste, até
Sodoma, Gomorra, Admah e Zeboim até Lasha (Gênesis 10:19). A Bíblia em outro
lugar fala de Canaã com um referente menos preciso em vista.
A distinção do termo "Canaã" foi
obscurecida nos escritos modernos. "Cananeu" agora serve como um
adjetivo para qualquer aspecto da cultura Semita pré-israelita da Terra Santa. Assim,
as línguas Cananéias incluem não apenas os dialetos de Canaã propriamente
ditos, mas por extensão todos os membros de uma família de línguas intimamente
relacionadas com o Fenício e o Hebraico, uma família que às vezes se diz
incluir o Ugarítico. Visto que a cultura cananéia se misturou com a cultura das
regiões circunvizinhas, a civilização Cananéia é estudada não apenas a partir
dos registros e evidências de Canaã propriamente dita, mas também das
evidências (mais abundantes) do mundo Siro-Palestino mais amplo.
Sociedade
e religião: Antes do surgimento de Israel (final do século
XIII a.C.), Canaã era politicamente organizada em pequenos principados
centralizados em torno das principais cidades da Palestina. A correspondência
de Amarna entre os faraós Egípcios e os reis dos estados Cananeus apresenta um esboço
vívido de conflitos mesquinhos e intrigas políticas na terra. A ação combinada
dos governantes de Canaã era rara, o que deixou o campo vulnerável à invasão
dos Filisteus e permitiu no final o desenvolvimento do antigo estado de Israel.
Existem histórias na Bíblia sobre alianças Cananéias contra Israel (Js 9: 1-2;
10: 1-5), mas tais incidentes devem ter sido excepcionais. A extensão do
problema da fragmentação cananéia é sugerida pela lista de reis e reinos que
caíram diante de Josué (Josué 12: 7-24): trinta e um governantes e principados
são contabilizados nesta pequena região.
As principais cidades de Canaã localizavam-se
em sua maior parte em regiões agrícolas, especialmente nas planícies férteis do
interior. Os Cananeus gozavam da reputação de serem comerciantes e os Fenícios
e outros habitantes costeiros de serem marinheiros. A própria palavra "Cananeu"
passou a significar "comerciante" (Zacarias 14:21). No entanto, a
agricultura era uma preocupação vital de Canaã.
As festas religiosas de Canaã eram, na medida
em que são conhecidas ou deduzidas, devotadas aos interesses do fazendeiro e do
vinicultor. Israel provavelmente herdou seu ciclo de festivais de colheitas da
população Cananéia da Palestina (Êxodo 23: 14-17). A religião Cananéia parece
ter colocado ênfase da fertilidade no mundo natural. A sexualidade do culto,
uma característica da religião Cananéia desprezada por Israel, pode ter sido
ligada à tarefa de manter a fecundidade das lavouras e dos rebanhos. Os deuses
dos Cananeus estavam de várias maneiras envolvidos nos ciclos de vida da
natureza. O poderoso deus da tempestade Baal era quem doava a chuva. Seu
adversário, Mot, era um deus da morte e da esterilidade. A habilidade dos
deuses e deusas de se acasalar e sua posição no cosmos estavam diretamente
ligados ao destino dos seres humanos e de suas colheitas e animais. A
agricultura Palestina dependia da chuva e, portanto, a qualidade das chuvas de
outono e inverno era uma preocupação religiosa central dos Cananeus.
A sociedade Cananéia era estratificada. Ficamos
com a impressão de uma pequena classe favorecida cercada por uma população
maior sujeita a vários controles e sob o peso de uma variedade de impostos e
outras imposições. A descrição de Samuel dos direitos de um rei (1 Sm. 8:
11-18) é geralmente considerada como um bom relato do padrão da realeza Cananéia,
embora sua inspiração fosse a realeza em Israel.
Canaã
e os Israelitas Bíblicos: Na Bíblia, Canaã é filho de Cam e neto de
Noé. Ele aparece pela primeira vez na história da embriaguez de Noé (Gênesis 9:
18-27). Aqui, o pai de Canaã, Cam, incita a ira de Noé ao "olhar para a
nudez" do bêbado Noé, e em retribuição por esta conduta imprópria, Noé
amaldiçoa o filho de Cam, Canaã. Canaã deve ser escravo, uma maldição que pode
refletir no destino de alguns elementos da população Cananéia em Israel (Juízes
1:28). Visto que "olhar para a nudez" de alguém sugere uma ofensa
sexual, a história pode expressar o desdém de Israel pela moralidade sexual do
mundo Cananeu.
Canaã aparece em seguida na "Tabela das
Nações" (Gênesis 10: 6; 15-20) como irmão de Pute (Líbia), Cushe (Etiópia)
e Egito. Ele é considerado o pai de Sidon, Heth, dos Jebuseus e de uma multidão
de outros povos que viviam na terra de Israel. Isso expressa na forma de
genealogia a geografia humana do antigo Israel: os Cananeus foram os habitantes
mais recentes de grande parte da terra que se tornou Israel. Este fato é
expresso de mais de uma maneira no AT. O nome de Canaã junto com os nomes de
alguns de seus "filhos" podem ser combinados no que tem sido chamado
de "fórmula de nome Deuteronomista" (Deuteronômio 7: 1) para denotar
a população nativa da terra. O Yahwista chama os habitantes nativos da terra
simplesmente de "Cananeus" (Gênesis 12: 6), enquanto o Eloísta
prefere o termo "Amorreus" (Números 21:13).
Israel era hostil a Canaã. Israel detestava
muito do que estava associado à religião Cananéia e considerava os modos de
vida dos Cananeus abomináveis. A literatura de Israel clama pela erradicação da
religião Cananéia junto com o povo Cananeu (Deuteronômio 20: 16-18). No
entanto, pode-se reconhecer que Israel deve muito ao legado de Canaã. Os
enclaves Cananeus foram incorporados à população de Israel. A linguagem e o
pensamento religioso Cananeu influenciaram a religião de Israel. Esses lados
positivos da relação entre Israel e Canaã precisam ser apreciados juntamente
com o reconhecimento do conflito entre as culturas Cananéia e Israelita.
Bibliografia:
Gray, John. The Legacy of Canaan.
Leiden: E. J. Brill, 1957.
R.M.G.
Fonte:
ACHTEMEIER, Paul J. (GENERAL
EDITOR) The HarperCollins Bible
Dictionary (Revised Edition). New York, NY: Society of Biblical Literature,
1985
Tradução Walson Sales
Nenhum comentário:
Postar um comentário