quinta-feira, 28 de outubro de 2021

A RELAÇÃO ENTRE OS CANANEUS E ISRAEL [PARTE 5]

 Por Dyego Andrade

 

11) A importância da entrada na Terra Prometida

 

Os habitantes de Canaã tinham enraizados em suas vida e cultura, ações que lhes impediam viver e conviver com os princípios esposados na Lei de Moisés. Não somente isso, os tais de certa forma, iriam influenciar o povo do Senhor às práticas deploráveis que praticavam. Ademais, o território de Canaã foi dado por Deus para Abraão e seus descendentes, isso implica dizer que Israel, conforme o plano divino, iria habitar onde os cananeus habitavam; a forma como isso aconteceu merece ser tratado de forma especial. De fato, a entrada na Terra prometida e o estabelecimento da nação de Israel nesse local, geram muitas dúvidas e até indagações que intrigam a mente de muitos leitores.

Esse acontecimento ímpar para Israel traz consigo grande polêmica, pois alguns leitores cristãos defendem a ideia pacifista, de não poder haver guerra defendendo a preservação da vida, buscando evidenciar a qualquer custo a dignidade e valor da vida humana. Esses irmãos ao lerem essa narrativa se sentem incomodados em compartilha-lá, e consequentemente explicar a mesma, se torna algo espinhoso para eles. Ainda há os leitores que buscam a todo custo desconstruir os princípios judaico-cristãos, e ao lerem essa passagem sentem conforto na alma, por observarem a visão de mundo que advoga para si a maior e mais completa moralidade existente, se basear em acontecimentos que para alguns são opostos aos seus ditos princípios. Consequentemente, esses opositores revelam ser a conquista de Canaã um golpe mortal na moralidade defendida pelo Judaísmo e Cristianismo.

Os relatos bíblicos que tratam sobre a entrada de Israel em Canaã e o confronto com os cananeus, está em específico no livro Josué 6-11, mas apenas essa passagem não é suficiente para tratar sobre esse acontecimento. Há muito que se falar sobre, de maneira que é necessário alinhar o que está escrito em Deuteronômio e Juízes aos relatos do livro de Josué, sendo fator importante para compreender tal acontecimento. Pois é visto nesses três livros que muitas orientações relacionadas a forma de Israel agir em relação a Canaã revelam verdades fundamentais para a real interpretação e princípios fundamentados na conquista da Terra Prometida. Também se faz necessário observar o sentido de algumas palavras e seus respectivos desdobramentos que são pontuais para o bom entendimento dessa narrativa.

 

11.1)  Por que os ateus gostam desse acontecimento?

 

Ao ler o relato da entrada de Israel na Terra prometida e suas consequências no que diz respeito aos cananeus, é visto nas passagens bíblicas que a nação santa “destruiu totalmente os cananeus”. Muitos intitulam tal evento como um genocídio, ou limpeza étnica; englobando mulheres e crianças. Textos bíblicos que fazem referência a isso são: Js 6.21-24; 8.24; 10.1,28 e também em Dt 20.17.

A expressão que denota destruição, extermínio e matar; ora externadas nos textos acima são e foram apreciados por muitos leitores da bíblia. Ao se depararem com esses textos são formadas muitas opiniões, que trazem polêmicas consigo. Os ateus buscam se amparar nessa narrativa, com a finalidade de pôr Yahweh em descrédito. Sam Harris ao debater com William Lane Craig sobre a moralidade, disse que Deus não é uma referência moral por ter exterminado crianças e mulheres como consta na bíblia, segundo ele. Para o ateu Richard Dawkins citado por Paul Copan (2016, p. 23):

 

O Deus do Antigo Testamento é talvez o personagem mais desagradável de toda a ficção: ciumento e com orgulho; mesquinho, injusto e intransigente; genocida étnico e vingativo, sedento de sangue; perseguidor misógino, homofóbico, racista, infanticida, genocida, filicida, pestilento, megalomaníaco, sadomasoquista, malévolo caprichoso.

 

            As citações em evidência se propõem a caracterizar o Deus do Antigo Testamento. Isso engloba os acontecimentos de Yahweh ora realizados na Antiga Aliança, que podem ser pontuados a partir do livro de Gênesis seguindo até os relatos do profeta Malaquias. Em muitos relatos veterotestamentários é visto nações e pessoas terem um tratamento severo por parte de Deus, citando alguns; o dilúvio de Noé, a destruição de Sodoma e Gomorra, As pragas do Egito, destruição dos amalequitas, execução dos midianitas, sobre o cativeiro babilônico, os cananeus, dentre outros que podem ser citados. Com base nesses registros, as qualificações sobre Deus são essencialmente depreciativas.

 Dawkins e Harris buscam mostrar Deus como um ser que se coloca acima de todos desordenadamente, maltratando aqueles que se opõem a Ele. Tal visão quer solidificar Deus como um ser que não ama os seres humanos, que não quer o desenvolvimento dos tais, também o mostra como um ser emocionalmente deformado, desprovido de valor moral; matador crianças e mulheres. Ainda para Dawkins e Harris, é inadmissível também destruir por completo uma civilização, é deplorável e evidencia Deus como um ser racista, mostrando a superioridade de Israel às demais nações. Consequentemente, eles querem mostrar que o Cristianismo não é a religião que diz ser, não tendo razão para defender algo que o próprio Deus que é adorado não faz.

            As duas visões citadas acima, que para seus defensores definem o caráter de Deus, estão biblicamente fundamentadas com mais veemência na conquista de Canaã. Ainda que existam no Antigo Testamento muitas outras situações relacionadas a isso, a guerra contra os cananeus é emblemática, preferida e muito bem requerida para fundamentarem suas visões sobre Deus. Com isso os ateus defendem, ser esse episódio um “genocídio” intencional e satisfatório da parte de Deus. Os estudiosos da Bíblia buscam a forma mais correta possível para fundamentar essa narrativa, alinhando-a com a natureza perfeita de Yahweh.

 

12) Um pouco sobre o Marcionismo

 

            A entrada e estabelecimento de Israel na Terra Prometida foi um acontecimento marcante para o povo de Deus; a nação santa teve que guerrear com aqueles estavam habitando na terra para que os mesmos saíssem, acarretando mortes. É bem verdade que no Antigo Testamento há várias ocorrências em que foi necessário haver combates que ceifaram vidas. Assim, a posse da Terra Prometida foi algo de impacto imensurável para Israel e para os cananeus; aqueles experienciaram o cumprimento da promessa do Senhor, já estes viveram o que escolheram para si, a saber, parte da manifestação da Ira de Deus, evidenciada em uma guerra lembrada até hoje nas igrejas e círculos acadêmicos. A grande questão gira em torno de como falar sobre esse acontecimento. Sem dúvida, esse é um dos temas das Escrituras mais difíceis de se tratar.

            Muitos cristãos se veem com dificuldades para associar o Deus do Antigo Testamento com o Deus do Novo Testamento, na ótica de alguns estudiosos das Escrituras Sagradas essa diferença é pontual. Salomão disse que “não há nada novo debaixo do sol”. Essa ideia sobre a confusão do ser de Deus nos dois testamentos é antiga; já no período dos Pais da Igreja pessoas defenderam essa visão, dentre elas se destacou a pessoa de Marcião. A doutrina que ficou conhecida como Marcionismo, defendia a ideia de que o Deus do Antigo Testamento não era o Deus do Novo Testamento. O respeitado historiador Justo Gonzales (2004, p. 136) registrou:

 

     A Teologia de Marcião é dualista.... Nesse mundo material, reinam a lei e a justiça. Em oposição a isto, a graça é o centro do Evangelho cristão, o evangelho do Deus cujo amor perdoa até mesmo o pior dos pecadores. Portanto, o Evangelho é a palavra de um deus que pode ser melhor descrito como o “outro”, ou o “deus distante”, que é radicalmente diferente do deus que governa este mundo.

     O deus que governa este mundo é o mesmo que os judeus adoram. É este deus que fez todas as coisas “e viu que eram boas; que requer sacrifícios sangrentos; que conduz seu povo em batalhas; que ordena que populações inteiras sejam massacradas; ...

     Muito acima desse deus vingativo, há um outro, o “deus desconhecido” que é amor. Este deus não se relaciona com esse mundo, mas antes é um “deus distante”. Enquanto o Criador é justo, violento e belicoso, este deus supremo é amoroso, pacífico e infinitamente bom. É provável que Marcião tenha afirmado inicialmente que o Criador era um deus mau, e que mais tarde - talvez por causa da influência do gnóstico Cerdo - ele passou a descrever o Criador como um deus justo. Assim, o contraste que se estabelece não é tanto aquele que existe entre o bem e o mal, mas entre o amor e a justiça.

 

            Os parágrafos acima trazem informações dignas de apreciação para se entender o Marcionismo. Nesse sentido, para Marcião o deus dos judeus era um, e o deus do evangelho era outro diferente, não havendo ligação entre os tais. Nisso é visto o dualismo dessa teologia, explicando a diferença entre o deus do evangelho e o deus dos judeus através da forma que eles agiam.

            O deus dos judeus é o Deus do Antigo Testamento que para o Marcionismo se comportava de forma extremista, colocando seu povo em guerras e orientando os tais a massacrarem populações. Esse Deus é vingativo, e o fazia através de sacrifícios que a ele eram satisfatórios. Em consequência disso o Antigo Testamento também foi descartado como Palavra de Deus pelos seguidores de Marcião, pois tratava supostamente das atrocidades do deus que governa o mundo e que todas as citações do Antigo no Novo Testamento foram acréscimo e não estavam nos textos originais.

Quanto ao deus do evangelho, esse tinha características boas, amáveis, cuidando sempre da sua criatura; seus atributos eram os melhores possíveis, pois nele há um amor sem igual capaz e intencional de perdoar o pecador mais intransigente possível, isso fazia dele um ser supremo. Esse deus é visto como distante e pacífico, distante por não governar um mundo cheio de guerras e desentendimentos latentes. O caos nas relações sociais e entre nações mostram que ele está longe da humanidade; e pacífico por ser contra guerras e buscar de forma inequívoca a paz, orientando a se ter boas relações em todas as esferas humanas.

O Marcionismo em seus dias foi um grande desafio para a igreja, perdurando até o século 3, quando começou a perder força como todo falso ensinamento. A força dessa doutrina esteve no fato de que não foi defendida através de uma escola de pensamento, antes gerou mais impacto em razão de Marcião haver criado uma igreja e ao difundir suas doutrinas, ganhar seguidores, fato executado somente por ele.

Nas igrejas atualmente há pessoas que semelhante a Marcião tem em suas compreensões uma ideia errada sobre Deus. Muitos acham que Deus mudou a forma de ser de uma aliança para outra, pois Jesus no Novo Testamento, proferiu ensinamentos que vão ao encontro de uma visão de mundo que busca a paz acima de tudo. Por fim, há a ideia de que Deus não muda sua essência e permanece o mesmo, essa última opinião e seus desdobramentos serão evidenciados a seguir.

 

­­­­­­­­­­______________________

 

REFERÊNCIAS

 

Copan, Paul. Deus é um monstro moral? Entendendo Deus no contexto do Antigo Testamento. (Tradução Walson Sales). Maceió: Editora Sal Cultural, 2016.

 

Gonzales, Justo L. . Uma história do pensamento cristão (Tradução Paulo Arantes, Vanuza Helena Freire de Matos) Vol. 1. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.

 

 

 

.

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário