Por Dyego Andrade
11) A importância da entrada na Terra Prometida
Os habitantes de Canaã tinham enraizados em suas vida
e cultura, ações que lhes impediam viver e conviver com os princípios esposados
na Lei de Moisés. Não somente isso, os tais de certa forma, iriam influenciar o
povo do Senhor às práticas deploráveis que praticavam. Ademais, o território de
Canaã foi dado por Deus para Abraão e seus descendentes, isso implica dizer que
Israel, conforme o plano divino, iria habitar onde os cananeus habitavam; a
forma como isso aconteceu merece ser tratado de forma especial. De fato, a
entrada na Terra prometida e o estabelecimento da nação de Israel nesse local,
geram muitas dúvidas e até indagações que intrigam a mente de muitos leitores.
Esse acontecimento ímpar para Israel traz consigo
grande polêmica, pois alguns leitores cristãos defendem a ideia pacifista, de
não poder haver guerra defendendo a preservação da vida, buscando evidenciar a
qualquer custo a dignidade e valor da vida humana. Esses irmãos ao lerem essa
narrativa se sentem incomodados em compartilha-lá, e consequentemente explicar
a mesma, se torna algo espinhoso para eles. Ainda há os leitores que buscam a
todo custo desconstruir os princípios judaico-cristãos, e ao lerem essa
passagem sentem conforto na alma, por observarem a visão de mundo que advoga
para si a maior e mais completa moralidade existente, se basear em
acontecimentos que para alguns são opostos aos seus ditos princípios.
Consequentemente, esses opositores revelam ser a conquista de Canaã um golpe
mortal na moralidade defendida pelo Judaísmo e Cristianismo.
Os relatos bíblicos que tratam sobre a entrada de
Israel em Canaã e o confronto com os cananeus, está em específico no livro
Josué 6-11, mas apenas essa passagem não é suficiente para tratar sobre esse
acontecimento. Há muito que se falar sobre, de maneira que é necessário alinhar
o que está escrito em Deuteronômio e Juízes aos relatos do livro de Josué,
sendo fator importante para compreender tal acontecimento. Pois é visto nesses
três livros que muitas orientações relacionadas a forma de Israel agir em
relação a Canaã revelam verdades fundamentais para a real interpretação e princípios
fundamentados na conquista da Terra Prometida. Também se faz necessário
observar o sentido de algumas palavras e seus respectivos desdobramentos que
são pontuais para o bom entendimento dessa narrativa.
11.1) Por que os ateus gostam desse acontecimento?
Ao ler o relato da entrada de Israel na Terra
prometida e suas consequências no que diz respeito aos cananeus, é visto nas
passagens bíblicas que a nação santa “destruiu totalmente os cananeus”. Muitos
intitulam tal evento como um genocídio, ou limpeza étnica; englobando mulheres
e crianças. Textos bíblicos que fazem referência a isso são: Js 6.21-24; 8.24;
10.1,28 e também em Dt 20.17.
A expressão que denota destruição, extermínio e matar;
ora externadas nos textos acima são e foram apreciados por muitos leitores da bíblia.
Ao se depararem com esses textos são formadas muitas opiniões, que trazem
polêmicas consigo. Os ateus buscam se amparar nessa narrativa, com a finalidade
de pôr Yahweh em descrédito. Sam Harris ao debater com William Lane Craig sobre
a moralidade, disse que Deus não é uma referência moral por ter exterminado
crianças e mulheres como consta na bíblia, segundo ele. Para o ateu Richard
Dawkins citado por Paul Copan (2016, p. 23):
O
Deus do Antigo Testamento é talvez o personagem mais desagradável de toda a
ficção: ciumento e com orgulho; mesquinho, injusto e intransigente; genocida
étnico e vingativo, sedento de sangue; perseguidor misógino, homofóbico,
racista, infanticida, genocida, filicida, pestilento, megalomaníaco,
sadomasoquista, malévolo caprichoso.
As
citações em evidência se propõem a caracterizar o Deus do Antigo Testamento. Isso
engloba os acontecimentos de Yahweh ora realizados na Antiga Aliança, que podem
ser pontuados a partir do livro de Gênesis seguindo até os relatos do profeta
Malaquias. Em muitos relatos veterotestamentários é visto nações e pessoas
terem um tratamento severo por parte de Deus, citando alguns; o dilúvio de Noé,
a destruição de Sodoma e Gomorra, As pragas do Egito, destruição dos
amalequitas, execução dos midianitas, sobre o cativeiro babilônico, os
cananeus, dentre outros que podem ser citados. Com base nesses registros, as
qualificações sobre Deus são essencialmente depreciativas.
Dawkins e
Harris buscam mostrar Deus como um ser que se coloca acima de todos
desordenadamente, maltratando aqueles que se opõem a Ele. Tal visão quer
solidificar Deus como um ser que não ama os seres humanos, que não quer o
desenvolvimento dos tais, também o mostra como um ser emocionalmente deformado,
desprovido de valor moral; matador crianças e mulheres. Ainda para Dawkins e
Harris, é inadmissível também destruir por completo uma civilização, é
deplorável e evidencia Deus como um ser racista, mostrando a superioridade de
Israel às demais nações. Consequentemente, eles querem mostrar que o
Cristianismo não é a religião que diz ser, não tendo razão para defender algo
que o próprio Deus que é adorado não faz.
As duas visões citadas acima, que
para seus defensores definem o caráter de Deus, estão biblicamente
fundamentadas com mais veemência na conquista de Canaã. Ainda que existam no
Antigo Testamento muitas outras situações relacionadas a isso, a guerra contra
os cananeus é emblemática, preferida e muito bem requerida para fundamentarem
suas visões sobre Deus. Com isso os ateus defendem, ser esse episódio um
“genocídio” intencional e satisfatório da parte de Deus. Os estudiosos da
Bíblia buscam a forma mais correta possível para fundamentar essa narrativa,
alinhando-a com a natureza perfeita de Yahweh.
12) Um pouco sobre
o Marcionismo
A
entrada e estabelecimento de Israel na Terra Prometida foi um acontecimento
marcante para o povo de Deus; a nação santa teve que guerrear com aqueles
estavam habitando na terra para que os mesmos saíssem, acarretando mortes. É
bem verdade que no Antigo Testamento há várias ocorrências em que foi
necessário haver combates que ceifaram vidas. Assim, a posse da Terra Prometida
foi algo de impacto imensurável para Israel e para os cananeus; aqueles
experienciaram o cumprimento da promessa do Senhor, já estes viveram o que
escolheram para si, a saber, parte da manifestação da Ira de Deus, evidenciada
em uma guerra lembrada até hoje nas igrejas e círculos acadêmicos. A grande
questão gira em torno de como falar sobre esse acontecimento. Sem dúvida, esse
é um dos temas das Escrituras mais difíceis de se tratar.
Muitos
cristãos se veem com dificuldades para associar o Deus do Antigo Testamento com
o Deus do Novo Testamento, na ótica de alguns estudiosos das Escrituras
Sagradas essa diferença é pontual. Salomão disse que “não há nada novo debaixo
do sol”. Essa ideia sobre a confusão do ser de Deus nos dois testamentos é
antiga; já no período dos Pais da Igreja pessoas defenderam essa visão, dentre
elas se destacou a pessoa de Marcião. A doutrina que ficou conhecida como
Marcionismo, defendia a ideia de que o Deus do Antigo Testamento não era o Deus
do Novo Testamento. O respeitado historiador Justo Gonzales (2004, p. 136)
registrou:
A Teologia de Marcião é dualista.... Nesse
mundo material, reinam a lei e a justiça. Em oposição a isto, a graça é o
centro do Evangelho cristão, o evangelho do Deus cujo amor perdoa até mesmo o
pior dos pecadores. Portanto, o Evangelho é a palavra de um deus que pode ser
melhor descrito como o “outro”, ou o “deus distante”, que é radicalmente
diferente do deus que governa este mundo.
O deus que governa este mundo é o mesmo que
os judeus adoram. É este deus que fez todas as coisas “e viu que eram boas; que
requer sacrifícios sangrentos; que conduz seu povo em batalhas; que ordena que
populações inteiras sejam massacradas; ...
Muito
acima desse deus vingativo, há um outro, o “deus desconhecido” que é amor. Este
deus não se relaciona com esse mundo, mas antes é um “deus distante”. Enquanto
o Criador é justo, violento e belicoso, este deus supremo é amoroso, pacífico e
infinitamente bom. É provável que Marcião tenha afirmado inicialmente que o
Criador era um deus mau, e que mais tarde - talvez por causa da influência do
gnóstico Cerdo - ele passou a descrever o Criador como um deus justo. Assim, o
contraste que se estabelece não é tanto aquele que existe entre o bem e o mal,
mas entre o amor e a justiça.
Os
parágrafos acima trazem informações dignas de apreciação para se entender o
Marcionismo. Nesse sentido, para Marcião o deus dos judeus era um, e o deus do
evangelho era outro diferente, não havendo ligação entre os tais. Nisso é visto
o dualismo dessa teologia, explicando a diferença entre o deus do evangelho e o
deus dos judeus através da forma que eles agiam.
O
deus dos judeus é o Deus do Antigo Testamento que para o Marcionismo se
comportava de forma extremista, colocando seu povo em guerras e orientando os
tais a massacrarem populações. Esse Deus é vingativo, e o fazia através de
sacrifícios que a ele eram satisfatórios. Em consequência disso o Antigo
Testamento também foi descartado como Palavra de Deus pelos seguidores de Marcião,
pois tratava supostamente das atrocidades do deus que governa o mundo e que
todas as citações do Antigo no Novo Testamento foram acréscimo e não estavam
nos textos originais.
Quanto ao deus do evangelho, esse tinha
características boas, amáveis, cuidando sempre da sua criatura; seus atributos
eram os melhores possíveis, pois nele há um amor sem igual capaz e intencional
de perdoar o pecador mais intransigente possível, isso fazia dele um ser
supremo. Esse deus é visto como distante e pacífico, distante por não governar
um mundo cheio de guerras e desentendimentos latentes. O caos nas relações
sociais e entre nações mostram que ele está longe da humanidade; e pacífico por
ser contra guerras e buscar de forma inequívoca a paz, orientando a se ter boas
relações em todas as esferas humanas.
O Marcionismo em seus dias foi um grande desafio para
a igreja, perdurando até o século 3, quando começou a perder força como todo
falso ensinamento. A força dessa doutrina esteve no fato de que não foi
defendida através de uma escola de pensamento, antes gerou mais impacto em
razão de Marcião haver criado uma igreja e ao difundir suas doutrinas, ganhar
seguidores, fato executado somente por ele.
Nas igrejas atualmente há pessoas que semelhante a
Marcião tem em suas compreensões uma ideia errada sobre Deus. Muitos acham que
Deus mudou a forma de ser de uma aliança para outra, pois Jesus no Novo
Testamento, proferiu ensinamentos que vão ao encontro de uma visão de mundo que
busca a paz acima de tudo. Por fim, há a ideia de que Deus não muda sua
essência e permanece o mesmo, essa última opinião e seus desdobramentos serão evidenciados
a seguir.
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REFERÊNCIAS
Copan,
Paul. Deus é um monstro moral?
Entendendo Deus no contexto do Antigo Testamento. (Tradução Walson Sales).
Maceió: Editora Sal Cultural, 2016.
Gonzales,
Justo L. . Uma história do pensamento
cristão (Tradução Paulo Arantes, Vanuza Helena Freire de Matos) Vol. 1. São
Paulo: Cultura Cristã, 2004.
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