Jesus
nasceu numa estrebaria. Uma estrebaria, uma verdadeira estrebaria, não é o
bonito quadro que alguns artistas cristãos antigos e modernos tem pintado sobre
o nascimento do Filho de Davi, quase envergonhados de que o seu Deus tenha
nascido em um lugar cercado de miséria e de imundície. Não é também o presépio
mimoso e encantador, cheio de cores graciosas, com a manjedoura ornamentada e
linda, o jumentinho quieto e o boi de olhar lacrimoso, os anjos no teto com as
suas asas esvoaçantes, os fantoches dos reis magos com seus mantos de púrpura, e
os pastores com os capuzes, de joelhos, em ambos os lados do berço. Isto pode
ser o sonho dos fantasistas, o luxo das beatas, o brinquedo das crianças, mas
não é, na verdade, a estrebaria onde Jesus nasceu.
Uma
estrebaria, uma verdadeira estrebaria, é a casa dos animais, a prisão dos
animais que trabalham para os homens. A antiga, a humilde estrebaria dos países
antigos, dos países pobres, do país de Jesus, não tem portas ornamentadas com
pilastras e capitéis, nem é aquela choupana elegante que costumamos ver nos
cartões de Natal que nos enviam em dezembro. A estrebaria são quatro paredes
grosseiras, um piso sujo e um teto de varas e palhas. A verdadeira estrebaria é
escura, imunda e fétida. Só tem de limpo a manjedoura, onde o homem encarregado
de cuidar dos animais prepara o feno e a alfafa.
Os
prados primaveris, frescos nas manhãs serenas, ondeantes ao vento, úmidos,
foram decepados. As ervas verdes, as folhas altas e finas, as próprias flores
semiabertas foram cortadas com facão. Tudo murchou, secou, adquiriu a cor
pálida do feno.
Ora,
aquelas ervas e flores, ervas áridas e flores sempre perfumosas, agora jazem na
manjedoura para saciar a fome dos escravos do homem. Os animais abocanham-nas
devagar, com os grandes lábios pretos, e mais tarde o prado florido se ilumina
de novo, renascendo do solo transformado em húmido estrume.
Esta
é a verdadeira estrebaria onde Jesus viu a luz. O lugar mais sujo do mundo foi
o berço do único homem puro entre os nascido de mulher. O Filho do Homem, que
devia ser morto pelos animais que se chamam homens, teve como berço a
manjedoura onde os brutos ruminam as flores milagrosas da primavera.
Fonte:
Giovanni Papini – Quando Jesus viveu entre os homens – Biblioteca de
Conhecimentos Cristológicos – Editora Alfalit Brasil - 2000
Compilado
por Walson Sales.
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