Russell P. Shedd
Lucas
relata que Jesus, depois de ressuscitar, reuniu seus discípulos e falou-lhes
duas coisas. A primeira foi que o Antigo Testamento ensinava claramente que o
Messias tinha de morrer e ressuscitar. Em seguida, acrescentou que o evangelho
seria pregado a todas as nações.
O
ensino que Jesus transmitiu aos discípulos após a ressurreição deve ter sido
uma novidade para eles, mas estava claramente expresso no texto sagrado. Veja
como Jesus falou: “Está escrito que o Cristo havia de padecer e ressuscitar
dentre os mortos no terceiro dia e que em seu nome se pregasse arrependimento
para remissão de pecados a todas as nações, começando de Jerusalém” (Lc 24.46,
47).
A
ordem de fazer missões é muito clara no Novo Testamento, porém Jesus buscou no
Antigo Testamento a base para essa declaração. Se lermos a Bíblia toda sem
observar sua ênfase sobre missões, provavelmente a estamos lendo
superficialmente, como eu lia o Antigo Testamento, sem notar a centralidade do
plano de Deus para as nações. Agora penso de modo diferente. Foi uma mudança de
paradigma para mim!
Leiamos
alguns textos que Jesus poderia ter usado para comprovar que a tarefa de levar
o evangelho a todas as criaturas, nações, línguas e povos não era uma novidade
do primeiro século. Ela começou no coração de Deus e foi anunciada inicialmente
no Antigo Testamento.
A finalidade da criação
O
Antigo Testamento começa com a criação de tudo que existe. No centro de seu
plano, Deus criou o homem – e todos nós – à sua imagem, por várias razões. O
próprio Universo não existiu eternamente. Deus o criou com um propósito. O
Universo teve início num momento da História – “no princípio” – e terminará no
fim da História, após a segunda vinda de Cristo. Por que Deus decidiu fazer
tudo que fez? Os cientistas ateus pesquisam a criação. Descobrem os segredos da
natureza e como funcionam os processos e leis naturais, mas lamentam não saber
a razão por que existe qualquer coisa, porém nós, cristãos, sabemos os motivos de
o Universo e o homem existirem. Citaremos apenas cinco deles.
Primeiro motivo da criação
O
primeiro motivo da criação foi o desejo de Deus de ter pessoas com quem pudesse
desfrutar comunhão. Deus é social. Ele ama pessoas como nós – gente. Gente que
conversa com ele. Ele queria alguém com quem pudesse conversar e de quem
recebesse adoração. Por isso, criou-nos à sua imagem, para ter um
relacionamento amoroso conosco. Isso se encaixa estreitamente na tarefa
missionária. O propósito das missões tem seu fundamento nesse desejo de Deus.
Cada pessoa que se converte hoje terá comunhão com ele eternamente.
Segundo motivo da criação
Deus
é um Deus feliz. Deduzimos isso de uma frase de 1Tm 1.11, “o evangelho da
glória do Deus bendito”. A palavra “bendito” (makârios, no grego) quer
dizer “feliz” (compare com as bem-aventuranças). Ele queria compartilhar sua
felicidade com o ser humano. As pessoas mais felizes da terra devem ser os
missionários. Com certeza, divulgar as boas novas, obedecer à última ordem de Cristo,
levar pessoas a conhecê-lo e, por conseguinte, poder entrar no gozo do Senhor é
um trabalho glorioso e tem relação direta com o motivo de Deus ter criado a
humanidade.
Terceiro motivo da criação
Deus
nos criou para mostrar seu amor. Ele já amava o Filho, e o Filho amava o Pai,
mas queriam um povo para demonstrar seu amor. Ele multiplicou a população da
terra para revelar seu infinito amor. Ele derramou seu amor em nosso coração
para que possamos também amar aqueles que Deus ama. Se você não é missionário,
no sentido mais lato da palavra, talvez o amor de Deus tenha sido sufocado em
sua vida. Não entrou na sua veia nem nas suas artérias, por isso não circula em
seu coração o desejo de alcançar os perdidos. Deus criou homens e mulheres para
compartilhar sua felicidade e demonstrar seu amor. Devemos responder e
corresponder ao seu amor com grata obediência.
Quarto motivo da criação
Deus
criou o mundo para ser glorificado por meio dele. Ele criou o ser humano à sua
imagem para que este pudesse glorificá-lo por causa de sua graça. Ef 1.6 é uma
passagem fundamental das Escrituras porque explica o motivo pelo qual Deus nos
criou. Considere seriamente que, tanto a eleição antes da fundação do mundo quanto
a predestinação para sermos filhos adotivos, aconteceu, segundo esse texto,
“para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no
Amado”. Não é possível negar, à luz dessa passagem, que o propósito original no
plano da criação foi que pessoas inteligentes e dotadas de emoção louvassem a
graça gloriosa de Deus. Esse é o principal motivo das missões. Paulo escreveu
aos coríntios: “Todas as coisas [os sofrimentos] existem por amor de vós, para
que a graça, multiplicando-se, torne abundantes as ações de graças por meio de
muitos, para glória de Deus” (2Co 4.15).
Quinto motivo da criação
Deus
criou o homem para compartilhar com ele sua santidade. “Sereis santos, porque
eu sou santo” (Lv 11.44). Ele não admitirá pecadores rebeldes no lar celestial.
Por isso, nos manda aumentar a santidade no mundo e multiplicar o número de
“santos” na terra. Um dos títulos do povo de Deus é “nação santa” (Êx 19.6),
confirmando que, se Deus tem filhos na terra inseridos em sua Igreja, eles
serão marcados pela santidade do “Pai” celestial.
O coração missionário de Deus revelado
no Antigo Testamento
Examinemos
alguns textos-chave da Bíblia para buscar as bases para missões e o propósito
divino para a humanidade.
Gn 12.1-3
Esta
passagem central no Antigo Testamento apresenta a chamada de Abraão, nosso pai
na fé e tem importantes implicações para a obra missionária:
Disse o Senhor a Abrão: Sai da tua
terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te
mostrarei; de ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o
nome. Sê tu uma bênção! Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que
te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da terra.
Nesta
passagem, que Jesus deve ter mencionado aos seus discípulos, temos uma dupla
ordem: “Sai da tua terra” e “Sê tu uma bênção”. Abraão deveria sair para ser
uma bênção e ser abençoado. Nele o mundo inteiro – todos os lugares, tribos,
povos e nações – seriam abençoados. Cremos na Palavra de Deus e que essa promessa,
ainda não concretizada inteiramente, irá se cumprir.
Existe
algo mais interessante nesse texto. Qualquer contador, ou pessoa que trabalha
com números, sabe que a soma de todas aquelas fileiras de cifras depende dos
números que estão em cima. Ele sabe que se houver um erro em alguma dessas
cifras, haverá um resultado errado na última linha. Esse princípio da
matemática pode ilustrar e explicar por que o compromisso das igrejas com as
missões é tão fraco.
O
Brasil evangélico, até agora, enviou um número quase inexpressivo de
missionários. Há menos de um missionário para cada 10 mil crentes. Estou
convencido de que essa desproporção tem uma explicação razoável. Vejamos como
se aplica à tarefa missionária. Como já vimos, se escrevemos números errados
nas linhas de cima, a soma estará errada.
A
passagem de Gênesis contém a promessa de que Deus há de abençoar a Abraão.
Todos querem as bênçãos de Deus. Corresponde à linha de cima o “abençoarei”,
mas se entendemos mal a linha de cima, a linha de baixo – “Sê tu uma bênção”
para todas as nações (famílias) da terra – sairá errada. A bênção da promessa
está diretamente ligada à obediência à ordem de ser uma bênção. Não dá certo
buscar a bênção sem querer ser uma bênção. Todas as nações receberão as bênçãos
prometidas a Abraão. A Palavra de Deus não pode falhar, mas primeiro é
essencial que Abraão e seus descendentes pela fé sejam uma bênção. É inútil
reivindicar bênçãos se não estamos abençoando os perdidos com a oferta do
evangelho.
Receber
benefícios da parte de Deus corresponde à linha de cima. Transmitir esses
benefícios para os que não têm acesso à bênção abraâmica está diretamente
vinculado às bênçãos recebidas. A bênção da salvação, a linha de cima, implica
a responsabilidade de ser uma bênção, de compartilhar essa salvação com os que
não têm acesso ao evangelho.
Gn 50.15-21
A
história de José, em Gênesis 50, revela o mesmo princípio. Seus irmãos estavam
preocupados com o fato de que José, agora exaltado com plenos poderes no Egito,
retribuísse o mal que sofreu.
Vendo os irmãos de José que seu pai já
era morto, disseram: É o caso de José nos perseguir e nos retribuir certamente
o mal todo que lhe fizemos. Portanto, mandaram dizer a José: Teu pai ordenou,
antes da sua morte, dizendo: Assim direis a José: Perdoa, pois, a transgressão
de teus irmãos e o seu pecado, porque te fizeram mal; agora, pois, te rogamos
que perdoes a transgressão dos servos do Deus de teu pai. José chorou enquanto
lhe falavam. Depois, vieram também seus irmãos, prostraram-se diante dele e
disseram: Eis-nos aqui por teus servos. Respondeu-lhes José: Não temais; acaso,
estou eu em lugar de Deus? Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém
Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente
em vida. Não temais, pois; eu vos sustentarei a vós outros e a vossos filhos.
Assim, os consolou e lhes falou ao coração.
Está
bem claro no texto que a bênção na vida de José, depois de muitas maldições,
não deveria ser limitada a ele próprio. A grande bênção que recebeu (a linha de
cima) teria de implicar a bênção de sua família e muitos milhares de vidas
salvas. A revelação que José recebeu sobre os anos de prosperidade e sobre a
fome no Egito mostrou que Deus tinha um propósito central para sua vida. Deus o
abençoou para que ele pudesse abençoar outras pessoas. A linha de cima – os
benefícios recebidos – implica a linha de baixo – a concessão de benefícios aos
que não os possuem. Deus nos revelou algo muito mais precioso, uma revelação
mais importante que a recebida por José. A questão é: por que Deus tem
abençoado a sua vida? A razão bíblica é a preservação de vidas para a
eternidade na gloriosa presença de Deus. Se nos interessamos apenas em receber
a bênção da salvação, sem passá-la adiante, estamos contrariando o propósito de
Deus. Desprezamos a prioridade divina.
Dt 4.5-8
Aqui
Moisés mostra também as duas linhas, as bênçãos decorrentes de ser o povo
escolhido e a responsabilidade de abençoar as nações:
Eis que vos tenho ensinado estatutos e juízos,
como me mandou o Senhor, meu Deus, para que assim façais no meio da terra que
passais a possuir. Guardai-os, pois, e cumpri-os, porque isto será a vossa
sabedoria e o vosso entendimento perante os olhos dos povos que, ouvindo todos
estes estatutos, dirão: Certamente, este grande povo é gente sábia e
inteligente. Pois que grande nação há que tenha deuses tão chegados a si como o
Senhor, nosso Deus, todas as vezes que o invocamos? E que grande nação há que
tenha estatutos e juízos tão justos como toda esta lei que eu hoje vos
proponho?
Imagine
se o Brasil estivesse na posição de Israel prevista nesse momento histórico. Se
as leis escritas e assinadas pelo presidente fossem leis criadas na mente de
Deus e passadas diretamente aos deputados em Brasília, como o país estaria bem!
Imagine se o Brasil, como o Israel antigo, em vez de pensar em problemas e
dívidas internacionais, pudesse dobrar os joelhos e usufruir a bênção notável
de empregos para todos, de estarem os meninos de rua recebendo o devido cuidado.
Imagine a bênção de saber que os órfãos estão sendo nutridos com as verdades de
Deus. Imagine um Brasil que não precisasse cuidar de suas fronteiras nem
combater o tráfico de drogas. Pense em ter Deus tão próximo a proteger a nação:
não seria preciso gastar dinheiro com o Exército e nem com policiais. Leis
falhas e interesseiras, feitas por homens, seriam substituídas por leis divinas
e perfeitas. Beneficiado por essas leis e pela proteção divina nas crises, em
resposta às orações do povo de Deus, o Brasil seria um país invejável. Foram
essas bênçãos, segundo o texto de Deuteronômio, que Deus ofereceu a Israel.
Qual
seria o efeito dessas bênçãos (a linha de cima) sobre os países vizinhos? O
próprio texto responde. Seria um forte efeito missionário com seus benefícios.
As nações vizinhas buscariam ao Senhor e seguiriam suas leis (a linha de
baixo). Aprenderiam a viver bem imitando o Brasil e obedecendo às leis criadas
no céu. Buscariam ao Deus único e ao seu Reino para obter as bênçãos
desfrutadas pelo Brasil.
Vejo
um país que tem grande interesse em ser um país evangélico. Existem até
previsões de que em poucos anos o Brasil será do Senhor, mesmo antes de sua
vinda. Não sei se podemos realmente esperar uma bênção tão grandiosa, mas se
acontecer não será surpresa se os países vizinhos vierem buscar a mesma bênção
(a linha de baixo).
Houve
uma época em que um país foi extraordinariamente abençoado. Esse país foi
fundado no século XVII. Os fundadores fugiram da Inglaterra para estabelecer
uma nação em que Deus seria honrado e haveria liberdade de consciência. As
bênçãos de Deus caíram sobre os Estados Unidos. Houve um tempo em que as
crianças podiam sair de casa sem perigo. Não havia meninos de rua. As chaves
ficavam dentro do carro, sem que fosse preciso trancar as portas.
As
casas ficavam abertas sem muros ou sistemas de alarme. Não se pensava em
violência nem se falava em drogas. Homicídio era uma raridade. Hoje não é mais
assim. Esse país mudou, depois que abandonou a maioria dos princípios que garantem
a bênção. A preocupação com a evangelização de todos os povos diminuiu.
Quando
Jimmy Carter estava na presidência, um amigo foi convidado para falar num
congresso de missões nos Estados Unidos da América. Cerca de 4 mil pessoas
esperavam atentas a palavra do pastor Greg Livingstone (hoje diretor de uma
missão no norte da África).
Concederam-lhe
um minuto para falar. Ele foi à frente e fez a seguinte pergunta: “Quantos de
vocês estão orando pela libertação dos 52 americanos sequestrados no Irã?”. Os
mais velhos lembram-se da grande preocupação causada pelo sequestro daqueles
americanos. Quase todas as mãos se levantaram no auditório, indicando a
preocupação generalizada. Em seguida, fez outra pergunta: “Quantos estão orando
pela libertação de 52 milhões de iranianos das algemas de Satanás?”. Os braços
foram abaixando até não restar mais que um ou dois em toda aquela multidão. Meu
amigo sentou-se, sem utilizar todo o seu minuto, dizendo: “Percebo que vocês
são mais americanos que cristãos!”. Ficou claro que ele falava das duas linhas.
Aqueles
milhares de pessoas preocupavam-se apenas com a linha de cima. Sabiam de quem e
em que nome podiam pedir a libertação dos sequestrados, mas não tiveram a
preocupação de pedir a libertação de 52 milhões de seres humanos algemados
espiritualmente.
Quero
deixar assentado, primeiramente em meu coração, depois no do leitor, que a
linha de baixo depende de entendermos a razão pela qual Deus abençoa nossa
vida. Se não recebi bênção alguma, tudo bem. Se não ganhei nada de Deus, ele
não cobrará nada de mim. No entanto, se Deus tem nos abençoado de alguma
maneira especial e se ele nos tem dado conhecimento da verdade de sua Palavra,
com o resultado de que podemos viver e morrer felizes, temos de levar a sério a
linha de baixo.
Sl 67.1, 2
Mais
um texto confirma a tese desta mensagem. O salmo 67 mostra as duas linhas de
maneira notável. Quantos se esqueceram de orar hoje? Quantos têm coragem de
admitir isso? Provavelmente, a maioria orou. E quem não pediu qualquer bênção?
Sabemos que é raríssimo orar sem pedir pelo menos uma bênção.
Animou-me
bastante notar que em Sl 67.1,2, Deus não condena a prática de pedir bênçãos.
Esse salmo fala de bênçãos, mas não exatamente de prosperidade:
Seja Deus gracioso para conosco, e nos
abençoe, e faça resplandecer sobre nós o rosto; para que se conheça na terra o
teu caminho e, em todas as nações, a tua salvação.
Meditando,
perguntei para mim mesmo o que teria acontecido se a nação israelita, receptora
original dessas palavras inspiradas, tivesse dado prioridade a esse texto. Como
seria diferente a história da humanidade se Israel tivesse dado valor à linha
de baixo e estabelecido como o mais importante alvo de sua existência abençoar
a todos os árabes! O mundo tem mais de um bilhão de muçulmanos. Israel é apenas
uma pequena ilha num oceano inimigo de muçulmanos. Se, em vez de se preocupar
com a própria segurança, Israel tivesse pedido a bênção de Deus para os
muçulmanos, a fim de que conhecessem os caminhos do Senhor, como seria diferente
a história atual! Provavelmente, milhares de pessoas estariam vivas, e famílias
inteiras, ainda unidas. As torres gêmeas não teriam caído em Nova York,
soterrando quase 3 mil pessoas.
Quase
todos os dias morrem vítimas do ódio em Israel. Parece que Israel formou sua
nação para buscar a própria segurança, em vez de abençoar os povos vizinhos.
Não é meu propósito lançar críticas contra ninguém, mas esse salmo não deixa
dúvidas quanto ao propósito de Deus. Paremos um instante para refletir. Qual é
minha preocupação maior na vida? A resposta de todos nós é a mesma. Ser
abençoado por Deus. Quero que ele abençoe minha família, os filhos, os netos, a
esposa, o trabalho, a situação financeira. É isso o que mais importa. E Deus
não despreza tais petições, porém não estaremos glorificando a Deus se dermos
prioridade à linha de cima e ignorarmos a linha de baixo.
Jesus,
pouco antes de sua exaltação, declarou aos discípulos que a bênção de os povos
gentios conhecerem os caminhos do Senhor deve ser o foco de seu ministério. Em
Jerusalém, na Judeia, em Samaria e até os confins da terra, eles seriam
testemunhas da graça de Deus que salva. Quero encerrar afirmando algo sobre
nossa nação. Os irmãos sabem que a teologia predominante no Brasil é a chamada
“teologia da prosperidade”. É quase certo que o pregador que conseguir
convencer brasileiros – evangélicos, católicos, espíritas e mesmo pessoas sem
religião – de que possui poder para liberar bênçãos como saúde, emprego,
salário maior e paz na família será “bem-sucedido”. Quem promete abençoar o
povo material e socialmente está fadado ao “sucesso”. Contudo, quero enfatizar
que é uma distorção do evangelho, pois não há interesse prioritário na linha de
baixo. As promessas da antiga aliança, que abençoaram Israel materialmente,
tinham o propósito de persuadir os povos a adorar e obedecer a Deus na
totalidade de sua existência.
Quais
são as promessas da nova aliança? Cristo voltará quando todas as nações tiverem
ouvido que Cristo é o único caminho para Deus. Ele é o único Salvador. O
descaso para com a obrigação missionária, em razão do interesse voltado para
esta vida, demonstra pouco compromisso com a vida vindoura. Não se fala muito
sobre o investimento no destino final.
A
busca pelo poder do Espírito como forma de obter alívio, conforto e bem-estar,
em vez de testemunho e proclamação, está em desacordo com o propósito central
de Deus. A teologia da prosperidade destaca o ter, e não o ser. A lei da nova
aliança deve ser interna. “Esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel,
depois daqueles dias, diz o Senhor: Na mente, lhes imprimirei as minhas leis,
também no coração lhas inscreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu
povo” (Jr 31.33). Não é a vontade de Deus que busquemos os benefícios do Reino
de Deus sem dar prioridade ao próprio Reino. Os benefícios ilimitados de Deus
virão no Milênio, mas poucos querem esperar um futuro distante e pouco
almejado.
O
resultado dessa distorção pode ser percebido no desinteresse em conhecer a
Palavra de Deus. Há também quase nenhum interesse pela exegese, pela
hermenêutica, pelo discipulado e pelo estudo da Palavra. Busca-se a
experiência, e não o Senhor das experiências. Parece uma diferença sutil, mas é
importante. O Espírito Santo é apresentado mais como fonte de poder que como
pessoa divina que glorifica ao Senhor Jesus (Jo 14.13). A ênfase exagerada
sobre o indivíduo desvia nossa atenção da comunhão e da responsabilidade mútua
da igreja (1Pe 2.9, 10).
Não
é certo omitir a ênfase sobre a obrigação e destacar apenas a motivação do amor
que produz a alegria no Senhor (1Co 13.1, 4, 5).
É
muito comum omitir-se a proclamação da teologia bíblica acerca do sofrimento.
Nesse caso, onde se encaixaria a cruz de Cristo ou as condições do discipulado?
“Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz
[diariamente] e siga-me” são palavras pouco ouvidas, mas foram pronunciadas por
Jesus. Buscar os dons e manifestações do poder de Deus em benefício próprio, e
não em benefício do Corpo de Cristo é mais um desvio do propósito bíblico
revelado na Palavra. Todas essas aberrações e distorções, até o ponto em que
caracterizem a igreja brasileira, mostram preocupação com a linha de cima, e
não com a de baixo. Para o Brasil se tornar um verdadeiro celeiro de missões, é
necessário que haja uma mudança de paradigma. Como Israel, no período do Antigo
Testamento, teve a oportunidade de influenciar o mundo ao seu redor em prol do
Deus único, cumprindo suas leis e demonstrando um amor profundo pelo Senhor,
temos o desafio de realinhar nossas prioridades. Se genuinamente nos
preocuparmos com a linha de baixo, isto é, que o evangelho seja proclamado e
vivido entre todos os povos, a bênção gloriosa cairá sobre nós. Paulo assim se
refere a esse futuro: “Para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo
presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós. A ardente
expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus [...] para a
liberdade da glória dos filhos de Deus” (Rm 8.18, 19, 21).
Fonte:
Artigo extraído do livro Perspectivas no Movimento Cristão Mundial
http://www.vidanova.com.br/teologiadet.asp?codigo=134
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