Paulo Brabo
O ser humano está predestinado a discutir incessantemente sobre o
livre-arbítrio. Somos realmente livres para escolher o nosso destino, ou está
tudo escrito nas estrelas, nos genes ou nos dutos elétricos do sistema nervoso?
Durante milênios a discussão permaneceu, no ocidente cristão,
essencialmente teológica. O livre-arbítrio era em geral considerado uma
impossibilidade ou uma heresia porque implicava num descuido da divindade. Um
Deus realmente soberano, argumentam ainda hoje os calvinistas, não poderia
deixar brecha alguma no seu plano. Na opinião dos teólogos reformados tudo está
determinado: não há espaço para improviso no controle que Deus exerce sobre o
universo, por isso o livre-arbítrio que parece caracterizar a nossa experiência
no mundo é ilusão, mero truque de espelhos para nos distrair da dura verdade da
predestinação.
Em meados do século XIX, com a ascensão do movimento libertário na
política, o livre-arbítrio passou a ser festejado e explorado como discurso em
diversos níveis. Cem anos depois o livre-arbítrio alcançava a glorificação
final no conceito inescapável de amor-livre, que apenas transferia para o campo
da conduta sexual as noções já consagradas de liberdade individual, decisão
consensual e auto-determinação.
Porém, justamente quando se havia libertado das amarras da teologia e
encontrado consagração na sociedade, o conceito de livre-arbítrio passou a
receber impiedosos ataques, e do mais inesperado dos adversários: a ciência. O
determinismo teológico foi substituído pelo determinismo científico.
O primeiro baque veio da pena singela de Freud, que ousou opinar que o
livre-arbítrio, se existe, é exercido inconscientemente – ou seja, não é para
todos os efeitos livre-arbítrio algum. Os verdadeiros golpes, no entanto,
vieram dos campos da neurologia e da física, que apenas confirmaram as
suspeitas mecanicistas de Julien Offray de La Mettrie em O Homem como Máquina.
Grande parte dos cientistas contemporâneos (dos envolvidos diretamente
com o assunto, a maior parte) desconfia da noção do livre-arbítrio com a mesma
austera convicção com que os reformados duvidavam dele – mas por motivos
inteiramente diferentes, quase opostos. A posição oficial sobre o novo
determinismo está bem resumida na sentença do biólogo evolucionário Richard
Dawkins: “Como cientistas cremos que os cérebros humanos, embora talvez não
funcionem como computadores feitos pelo homem, são tão certamente quanto eles
governados pelas leis da física”. A implicação é clara: num sentido muito
profundo, somos tão capazes de auto-determinação quanto um palmtop.
Thomas Metzinger, presidente da Sociedade Científica Alemã de Ciência
Cognitiva, coloca a coisa nos seguintes termos:
Para objetos de tamanho médio a meros 37° centígrados,
tais como o cérebro humano e o corpo humano, o determinismo é obviamente
verdadeiro. O estado seguinte do universo físico é sempre determinado pelo
estado anterior. Dados um determinado estado cerebral e um determinado
ambiente, você não teria como ter agido de outra forma; uma assombrosa maioria
de especialistas aceita isso como evidente no atual debate sobre o
livre-arbítrio. Embora o seu futuro esteja em aberto, isso provavelmente
significa também que para cada pensamento que você tiver e para cada decisão
que fizer, é verdadeiro que esses terão sido determinados pelo estado anterior
do seu cérebro.
Em alguma página de Borges está escrito que para a divindade (ou para
algum ser suficientemente semelhante ao que concebemos como divindade) bastaria
o acesso a um único instante de tempo para intuir a partir dele toda a história
anterior e posterior do universo. Cada momento está prenhe de todo o passado e
de todo o futuro; nesse sentido paradoxal, sou eu no presente que determino o
futuro final do planeta e sou determinado por ele. Sou vítima e algoz, escravo
e livre. Acho a ideia suficientemente bela para ser verdadeira.
(retirado do site A Bacia das Almas, de Paulo Brabo)
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