5 –
O Homem Natural
A
Escritura representa o estado do homem natural como o do sono. A voz de Deus
para ele é: “Desperta, tu que dormes”. A sua alma está num profundo sono; os
seus sentidos espirituais não estão acordados; eles não discernem o bem
espiritual do mal. Os olhos do seu entendimento estão fechados, estão selados e
não veem. As nuvens e as trevas estão continuamente sobre ele, pois está no
vale da sombra da morte. Daí não haver entrada para o conhecimento das coisas
espirituais; estando fechadas todas as avenidas da sua alma, ele está numa
ignorância grosseira e estúpida de tudo aquilo que deve conhecer. É totalmente
ignorante a respeito de Deus, nada sabendo daquilo que devia conhecer. É
totalmente estranho à lei de Deus, bem como ao seu sentido espiritual,
verdadeiro e interno. Não tem concepção da santidade evangélica sem a qual
nenhum homem verá o Senhor, nem da felicidade que somente aqueles que têm “a sua
vida escondida com Cristo em Deus” podem possuir.
Porque
está num sono profundo, está, de certo modo, descansado. Porque é cego, tem
também um certo senso de segurança, pois diz: “nenhum mal me acontecerá”! As
trevas que o cobrem por todos os lados mantêm-no numa espécie de paz, até onde
a paz possa consistir nas obras do diabo e numa mente terrena e diabólica. Ele
não vê que está à beira do abismo, portanto não o teme. Não pode tremer por
causa do perigo que não conhece. Não tem entendimento suficiente para temer.
Por que não tem ele medo de Deus? Porque o desconhece totalmente, e ainda bem
se não diz no seu coração: “Não há Deus” ou “Que Ele se assenta no céu e não se
humilha em ver as coisas praticadas na terra”, ou satisfazendo-se em todos os
seus intentos e propósitos epicuristas, dizendo: “Deus é misericordioso”,
confundindo e mergulhando imediatamente toda a sua santidade e o seu ódio
essencial do pecado naquela enorme ideia de misericórdia; toda a sua justiça,
sabedoria e verdade. Não teme a vingança anunciada contra aqueles que não
obedecem à abençoada lei de Deus porque não a entende. Ele imagina que o ponto
principal é o fazer deste modo, ser externamente sem culpa e não vê que ela se
estende a todos os sentimentos, desejos, pensamentos e movimentos do coração.
Ou então pensa que a obrigação cessa aqui; que Cristo veio para “destruir a Lei
e os Profetas”; para salvar o seu povo nos seus pecados e não salvá-lo deles;
para levá-lo ao céu sem santidade, apesar das suas próprias palavras: “Nem um jota
nem um til da lei passarão até que todas as coisas sejam cumpridas”, e “nem
todos os que me dizem – Senhor, Senhor, entrarão no reino dos céus, mas todo
aquele que fizer a vontade de meu Pai que está no céu”.
Sente-se
seguro, porque desconhece a si mesmo totalmente. Daí o falar de “arrependimento
mais tarde”, sem saber, na verdade, exatamente quando, mas numa ocasião ou
outra antes de morrer, tomando por garantia que está bem forte, pois que é que
o impediria de fazê-lo se quiser? Se ele apenas tomar uma resolução, não há o
que temer, ele a realizará!
Mas
este tipo de ignorância nunca brilha tanto como nos homens chamados cultos. Se
um homem natural for um destes, ele poderá falar abundantemente de suas
faculdades racionais, da sua vontade livre e da absoluta necessidade de tal
liberdade para que o homem seja um agente moral. Lê, argumenta e prova por
demonstração que todos os homens podem agir como quiserem, podem inclinar o seu
coração para o mal ou para o bem, como parecer melhor aos seus olhos. Assim o
deus deste mundo estende um duplo véu de cegueira sobre seu coração, a menos
que, por um meio qualquer, “a luz do evangelho glorioso de Cristo brilhe sobre
ele”.
Da
mesma ignorância de si mesmo e de Deus, às vezes, pode surgir no homem natural
uma espécie de alegria em congratular-se consigo mesmo por sua sabedoria e
bondade, e pode frequentemente possuir o que o mundo chama de alegria. Pode
sentir várias espécies de prazeres, dando vazão aos desejos da carne, dos olhos
ou ao orgulho da vida, particularmente se tem riquezas; então pode “vestir-se
de púrpura e de linho fino e viver suntuosamente todos os dias”. E enquanto
assim fizer bem a si mesmo, os homens, sem dúvida, falarão bem dele. Dirão: “É
um homem feliz”. Pois esta é realmente a soma da felicidade do mundo:
vestir-se, visitar, conversar, comer, beber e levantar-se para brincar.
Não
é de surpreender que alguém em circunstâncias como estas, recebendo doses do
ópio da bajulação e do pecado, imagine, entre outros dos seus sonhos acordado,
que possui grande liberdade. Quão facilmente pode ele persuadir-se de que está
livre de todos os erros vulgares e dos preconceitos da educação, julgando
retamente e guardando-se de todos os extremos. “Eu sou livre, pode dizer, com
todo o entusiasmo das almas fracas e estreitas; da superstição – a doença dos
tolos e covardes, e da obstinação comum àqueles que não gozam de meio livre e
generoso de pensamento”. E é muito certo que está livre, também, da “sabedoria
que vem de cima”, da santidade, da religião do coração, de toda a mente que
houve em Cristo.
Durante
todo este tempo, é servo do pecado. Comete pecado, mais ou menos, todos os
dias. Contudo não se perturba; “não está preso” como alguns dizem, não sente a
condenação. Contenta-se, embora confesse crer que a Revelação Cristã é de Deus,
com o dizer que “o homem é fraco, que todos têm as suas fraquezas”. Talvez cite
as Escrituras: “Por que, não diz Salomão, o justo cai em pecado sete vezes por
dia? Sem dúvida aqueles que pretendem ser melhores do que os seus vizinhos são
hipócritas ou entusiastas”. Se em qualquer época um pensamento sério lhe vem,
ele o enxota o mais cedo possível com isto: “Por que devo temer, se Deus é
misericordioso e Cristo morreu pelos pecadores?” Deste modo permanece como
servo voluntário do pecado, contente com as amarras da corrupção, impuro
interna e externamente, satisfeito com isto, não somente não conquistando o
pecado, mas não se esforçando por consegui-lo, particularmente aquele que
facilmente o domina.
Esse
é o estado de todo o homem natural, seja ele um transgressor escandaloso, seja
um pecador decente e respeitável, tendo a forma, mas não o poder da piedade.
Sermões:
“O espírito de escravidão e de adoção”, I, 1-8 (S, I, 181-185).
Todos
os homens são “ateus no mundo”. Mas o próprio ateísmo não nos isenta da
idolatria. No seu estado natural, todo o homem nascido no mundo é idólatra. É
provável que não tenhamos em mente, na verdade, um sentido tão vulgar da
palavra. Não gostamos que os pagãos idólatras cultuem as imagens fundidas ou
gravadas. Não nos curvamos perante um pedaço de madeira, obra das nossas
próprias mãos. Não oramos aos anjos ou aos santos nos céus como não o fazemos
aos santos na terra. Mas que fazemos então? Nós temos posto ídolos no nosso
coração; a eles nos curvamos e os cultuamos; cultuamos a nós mesmos,
atribuindo-nos a honra que só pertence a Deus. Por isso todo o orgulho é
idolatria, é atribuirmos a nós mesmos o que só a Deus é devido. E embora o
orgulho não tenha sido feito para o homem, onde está alguém nascido sem ele?
Assim roubamos a Deus do Seu direito inalienável e, idolatricamente, usurpamos
a sua glória.
Mas
o orgulho não é a única espécie de idolatria de que, por natureza, somos
culpados. Satanás estampou a sua imagem no nosso coração também com referência
à obstinação. Antes de ser expulso do céu, ele disse: “Eu me assentarei no lado
do norte”, farei a minha própria vontade e prazer independemente da vontade do
Criador. O mesmo diz todo aquele que é nascido no mundo, e, isso, em mil casos;
e acrescentamos que o fazem sem corar-se por isso, sem temerem e sem se
envergonharem...
Assim
trazemos a imagem do diabo e andamos nos seus passos, mas no passo seguinte nós
o deixamos para trás. Somos idólatras e ele não é culpado disto, isto é, o amor
do mundo que, agora, é tão natural a todo homem como o amor à sua própria
vontade. Que nos é mais natural do que procurar a felicidade na criatura ao
invés de no Criador, procurar aquela satisfação na obras das suas mãos, sendo
que ela só pode ser encontrada em Deus? Que é mais natural do que “o desejo da
carne”, isto é, do prazer dos sentidos em todas as suas espécies?...
Deste
modo são os desejos dos olho – os desejos dos prazeres da imaginação. Surgem
dos objetos grandes, bonitos ou fora do comum, se os dois primeiros não
coincidem com o último, pois, após uma pesquisa diligente, parece que os
objetos grandes e os bonitos não agradam mais do que os novos. Quando a
novidade dos mesmos desaparece, desvanece-se, pelo menos, a maior parte do
prazer que causavam; na mesma proporção, quando se tornam familiares, tornam-se
maçantes e insípidos...
Um
terceiro sintoma desta doença fatal – o amor do mundo, que lança raízes tão
profundamente na nossa natureza, é “o orgulho da vida”, o desejo do elogio, da
honra que vem dos homens. Os maiores admiradores da natureza humana admitem-no
como sendo inteiramente natural, tão natural como a vista, a audição, ou
qualquer outro dos sentidos externos. Ficam por acaso envergonhados disso os
homens letrados, os de entendimento refinado e desenvolvido? Longe deles esteja
o gloriarem-se nisso!... Mas imaginaria alguém que estes homens tenham ouvido
de Jesus Cristo ou de seu apóstolos, ou que tenham conhecido aquele que disse:
“Como podeis crer vós que recebeis honra uns dos outros e não procurais a honra
que só vem de Deus”? Mas se isto é realmente assim, se é impossível crer quando
se recebem ou se procuram a honra uns dos outros e não a que só vem de Deus,
então em que condição está toda a humanidade! Tanto os cristãos como os pagãos!...
Em
primeiro lugar, podemos aprender daí uma grande e fundamental diferença entre o
cristianismo, considerado como um sistema de doutrina, e o paganismo mais
refinado. Muitos dos antigos pagãos descreveram exaustivamente os vícios de
determinados homens. Falaram muito contra a sua ambição ou crueldade, da sua
luxúria ou prodigalidade. Alguns ousaram dizer que “nenhum homem nasce sem
vícios de uma ou de outra espécie”. Mas nenhum deles sabia da queda do homem de
modo que nenhum conhecia a sua corrupção total. Não sabiam que os homens estão
vazios de todo bem e cheios de toda espécie de mal. Ignoravam totalmente a
completa depravação de toda a natureza humana, de todo o homem nascido no
mundo, de todas as faculdades de sua alma, não tanto por determinados vícios
que reinam em determinadas pessoas como pelo dilúvio geral do ateísmo e da
idolatria, do orgulho, da obstinação e do amor do mundo. É esta, portanto, a
primeira grande distinção entre o paganismo e o cristianismo. Um reconhece que
muitos homens estão afetados por muitos vícios e mesmo nascem com uma propensão
para os mesmos, mas supõe, no entanto, que em alguns o bem natural
contrabalança o mal; o outro declara que todos os homens “são concebidos em
pecados” e “formados em iniquidade”, e que, portanto, há em todo homem uma
“mente carnal que é inimizade contra Deus”...
Em
segundo lugar, aprendemos que todos os que negam isto, chamem-no “pecado
original” ou de qualquer outro nome, ainda são pagãos no ponto fundamental que
diferencia o paganismo do cristianismo. Podem admitir, na verdade, que os
homens tenham muitos vícios, que alguns nascem conosco, e que,
consequentemente, não nascemos tão sábios ou tão virtuosos como devíamos,
havendo alguns que afirmam redondamente que “nascemos com propensão tanto para
o bem como para o mal, e que todos os homens são, por natureza, tão virtuosos e
sábios como foi Adão na sua criação”. Mas aqui está a questão: está o homem por
natureza cheio de toda espécie de males? Está ele destituído de todo bem? Caiu
ele totalmente? Está a sua alma inteiramente corrupta? Voltando-se ao texto: “é
toda a imaginação dos pensamentos do seu coração continuamente má?” Admita o
Sr. isto e será cristão; negue-o e será ainda um pagão.
Sermões:
“Pecado original”, II, 7-III, 2 (S, 218-23).
Preguei
em Bath. Estavam presentes alguns dos ricos e grandes, aos quais e a todos os
restantes declarei com toda a simplicidade de linguagem: 1) Que eles eram, por
natureza, todos filhos da ira; 2) que todos os seus sentimentos eram corruptos
e abomináveis, e 3) que todas as suas palavras e obras nunca poderiam ser
melhores senão pela fé, e 4) que um homem natural não tem mais fé do que um
demônio se tem tanto quanto ele. Um deles, ó Senhor, ficou muito calmo até que
cheguei ao meio do quarto ponto. Então, levantando-se, disse: “Faz calor! Faz
muito calor!” E desceu as escadas o mais depressa que pôde.
Diário:
“Segunda-feira, 24 de janeiro de 1743” (III, 65).
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