segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Breve apanhado histórico da Apologética


Por Walson Sales

 

Para começar é bem salutar mostrar a apologética na história da Igreja, a começar pela igreja primitiva. A Patrística é dividida em Pais Apostólicos, Apologistas e Polemistas. Os Pais Apostólicos eram os que foram contemporâneos dos Apóstolos, pois segundo a tradição, ainda tinham os ensinos dos Apóstolos ecoando nos ouvidos. Os Apologistas e Polemistas defendiam o Cristianismo primitivo contra as falsas acusações, sendo que os Polemistas exerciam um tipo de apologética mais ofensiva, voltada ao ataque mesmo. Para exemplificar a diferença entre Pais Apologistas e Polemistas, imagine um time de futebol. A equipe que compõe a defesa são os Apologistas e a equipe que compõe o ataque são os Polemistas. Os Polemistas saiam ao ataque para, de fato, neutralizar, erradicar toda cultura, doutrina ou pensamento religioso que se levantasse contra a fé cristã.

Justino Mártir,[1] por exemplo, é considerado o primeiro filósofo e apologista cristão e um dos primeiros Mártires mais célebres após os Apóstolos. Ele escreveu várias defesas da fé cristã às acusações dos oficiais do governo em tempos de perseguição, cujo principal conteúdo era mostrar que a fé cristã não era uma ameaça ao governo de Roma. Aqui você já percebe o teor das acusações mais diversas e falsas.[2]

Um dos primeiros ataques abrangentes ao cristianismo[3] veio do filósofo grego Celso, que escreveu A palavra verdadeira (175 d.C.),[4] uma polêmica que critica os cristãos por serem membros não lucrativos da sociedade.[5] Em resposta, o pai da igreja Orígenes publicou seu tratado apologético Contra Celsum, ou Against Celsus, que abordou sistematicamente[6] as críticas de Celso e ajudou a levar ao cristianismo um nível de respeitabilidade acadêmica.[7] No tratado, Orígenes escreve sob a perspectiva de um filósofo platônico, recorrendo amplamente aos ensinamentos de Platão.[8] Contra Celsum é amplamente considerado pelos estudiosos modernos como uma das obras mais importantes da apologética cristã primitiva.[9]

Outros apologistas desse período são Aristides de Atenas, o autor da Epístola a Diogneto, Aristo de Pela, Taciano, Melitão de Sardes, Atenágoras de Atenas, Teófilo de Antioquia, Irineu de Lyon, Orígenes, Hipólito de Roma, Tertuliano, Minúcio Felix, Cipriano de Cartago e Vitorino de Pettau.[10] Santo Agostinho que está mais a frente, na era de ouro dos Pais da Igreja, foi também um grande apologista.

Ao falar sobre a relação entre a Teologia e Apologética na Igreja Primitiva, os historiadores da igreja e teólogos Justo Gonzales e Zaida Péres[11] afirmam que desde datas bem antigas, percebeu-se a necessidade de defender a fé diante de quem a criticava, assim como de preparar o caminho para que os não crentes pudessem aproximar-se do evangelho. Assim, por exemplo, quando a igreja cristã começou sua pregação no meio do Império Romano e de sua cultura greco-romana, havia quem zombasse dos cristãos porque não tinham deuses visíveis. Alguns até os chamavam de “ateus”, por essa mesma razão. Diante de tais críticas e acusações, alguns líderes intelectuais do cristianismo começaram a buscar pontes entre sua fé e a cultura circundante. Uma dessas pontes foi encontrada no que alguns dos mais distintos filósofos da antiguidade - especialmente Platão - haviam dito sobre o Ser Supremo. Segundo esses filósofos, sobre todos os seres visíveis deve haver um primeiro Ser, infinito e imutável, do qual a existência de todos os demais seres é derivada (veremos esse tema quando falarmos no Argumento da Contingência, dentro do grupo de Argumentos Naturalistas). Unindo essa antiga afirmação filosófica com a doutrina cristã, esses antigos teólogos cristãos - personagens como Justino, Clemente de Alexandria e Orígenes - afirmaram que o mesmo Ser a quem os cristãos chamavam “Deus” ou “Pai” era aquele que os antigos filósofos haviam chamado de Ser Supremo, Beleza Suprema, Bondade Suprema, Primeiro Motor etc. Desse modo, mostravam que a fé cristã não era tão irracional como diziam e que os cristãos, longe de serem “ateus”, adoravam a um Ser que estava acima do todos os supostos deuses pagãos. Isto é o que se conhece como a “função apologética” da teologia. Nesse contexto, “apologia” quer dizer “defesa”. Por isso, aqueles primeiros autores, que escreveram obras desse tipo, recebem o nome de “Apologistas” ou “Apologetas”. E, por causa deles, a teologia que se dedica a esse tipo de tarefa recebe o nome de “Teologia Apologética” ou simplesmente “Apologética”. Indubitavelmente, essa tarefa é importante e valiosa. Por exemplo, se não fosse por causa daqueles primeiros apologistas do segundo século, e por quem continuou sua tarefa no século terceiro e quarto, o cristianismo não poderia ter entrado em diálogo com a cultura circundante.

Certamente, no livro de Atos vemos primeiro a Pedro, logo a Estevão e por último a Paulo, todos judeus, defendendo a fé cristã em presença de outros judeus que não a aceitavam. No dia de hoje, visto que existem tantos argumentos contra a fé cristã, é necessário refutá-los, se não essencialmente para provar a verdade dessa fé, ao menos para remover os obstáculos falsos que se colocam no caminho dela. Assim, por exemplo, a teologia em sua função apologética pode ajudar-nos a refutar os argumentos dos ateus, que afirmam ser impossível crer em Deus. Por outro lado, contudo, a teologia como apologética apresenta também seus perigos. Sobre isso voltaremos em outro capítulo ao tratar sobre as “provas” da existência de Deus. Em todo caso, parte do perigo está em que o argumento apologético é como uma ponte em tráfego, flui nas duas direções: não somente serve para convencer os não crentes, mas também pode convencer os crentes, torcendo o conteúdo de sua fé. O exemplo mais claro disso vemos nos argumentos dos “apologistas” do segundo século, a quem já nos referimos, e no modo em que seus pensamentos têm impactado a doutrina de Deus. Quando esses apologistas enfrentaram a cultura greco-romana, viram-se na necessidade de defender sua fé em um Deus único e invisível, quando nessa cultura os deuses eram muitos e também vistos nas estátuas que se colocavam nos templos. Para responder a essas críticas, os apologistas recorreram aos escritos de Platão que falavam de um Ser Supremo, e disseram que esse era o Deus dos cristãos. O grande valor de tal argumento estava em conseguir, para a proclamação da fé, o apoio de um dos mais respeitados pensadores da antiguidade, Platão. O grande perigo estava em que os cristãos chegassem a pensar - como de fato fizeram - que a maneira que Platão fala do Ser Supremo é melhor e mais exata que a maneira que a Bíblia fala de Deus. Como consequência disso, boa parte da teologia cristã começou a conceber Deus como um ser impessoal, impassível, afastado das realidades humanas e, portanto, muito distinto do Deus de Israel e de Jesus Cristo, que se envolve na história humana, sofre com aqueles que sofrem, responde as orações etc.

A apologética na Idade Média e início do período moderno. Anselmo de Cantuária propôs o famoso argumento ontológico em seu Proslógio. Tomás de Aquino apresentou as cinco vias, ou argumentos para a existência de Deus, na Summa Theologica,[12] enquanto sua Summa contra os gentios era uma grande obra apologética.[13] Tomás de Aquino também fez críticas significativas ao argumento ontológico que resultou em sua popularidade perdida até ser revivido por René Descartes em suas Meditações.[14] Blaise Pascal[15] delineou uma abordagem da apologética em seus Pensamentos:

 

Os homens desprezam a religião; eles a odeiam e temem que seja verdade. Para remediar isso, devemos começar mostrando que a religião não é contrária à razão; que é venerável inspirar respeito por ela; então devemos torná-la amável, fazer com que os homens bons esperem que seja verdade; finalmente, devemos provar que é verdade.[16]

 

A Apologética no período moderno tardio. A apologética cristã continua nos tempos modernos em uma ampla variedade de formas. Entre os católicos romanos há o Bispo Robert Barron, G.K. Chesterton,[17] Ronald Knox, Arnold Lunn, Karl Keating, Michael Voris, Peter Kreeft, Frank Sheed, e o Dr. Scott Hahn. O ortodoxo russo, Seraphim Rose é talvez o mais conhecido apologista ortodoxo oriental de língua inglesa moderna. Entre os evangélicos, está o anglicano C.S. Lewis (que popularizou o argumento agora conhecido como trilema de Lewis).[18] Entre os apologistas protestantes do século XIX, havia William Paley que popularizou a analogia do Relojoeiro. Na primeira metade do século XX, muitos fundamentalistas cristãos se tornaram apologistas bem conhecidos. Alguns dos mais conhecidos são R.A. Torrey e John Gresham Machen. O evangélico Norman Geisler, o luterano John Warwick Montgomery e o presbiteriano Francis Schaeffer estavam entre os apologistas cristãos mais prolíficos na segunda metade do século XX e no século XXI, enquanto Gordon Clark e Cornelius Van Til iniciaram uma nova escola de apologética filosófica chamada pressuposicionalismo, que é popular nos círculos calvinistas. Outros incluem Douglas Groothuis, Josh McDowell, Ronald Nash, Hugo Anthony Meynell, Timothy J. Keller, Francis Collins, Vishal Mangalwadi, Richard Bauckham, Craig A. Evans, Darrell Bock, John F. MacArthur, Michael R. Licona e John Lennox. William Lane Craig, Alvin Plantinga estão, junto com Alister McGrath, entre os apologistas mais influentes hoje.[19]

 

Referências e notas:

 

[1] Flávio Justino, também conhecido como Justino Mártir ou Justino de Nablus, foi um teólogo romano do século II, mártir e santo da Igreja Católica. Escreveu uma defesa chamada Apologia.

[2] Dentre os líderes que devotaram sua vida à refutação do gnosticismo e de várias heresias, podemos apontar três principais deste período: Irineu, Tertuliano e Hipólito. Para um guia mais completo da trajetória dos Pais Apologistas e Polemistas, recomendo estes dois livros: (1) BERCOT, David W (Editor). A Dictionary of Early Christian Beliefs: A Reference Guide to More Than 700 Topics Discussed by the Early Church Fathers. Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 2012; (2) FRANGIOTTI, Roque. História das Heresias (Séculos I – VII): Conflitos ideológicos dentro do Cristianismo. São Paulo: Paulus, 1995.

[3] Excelente apanhado histórico e bibliográfico encontrado na Wikipedia, onde me inspirei para este trecho: https://pt.wikipedia.org/wiki/Apolog%C3%A9tica_crist%C3%A3, também busquei adquirir as obras citadas nas referências para a minha biblioteca pessoal.

[4] FERGUSON, Everett. Backgrounds of Early Christianity. Second ed. Grand Rapids, Michigan: William B. Eerdmans Publishing Company, 1993, pp. 562–564.

[5] THOMAS, Stephen. «Celsus». In: McGuckin. The Westminster Handbook to Origen. Louisville, Kentucky: Westminster John Knox Press, 2004, pp. 72–73.

[6] McGuckin, John Anthony. «The Scholarly Works of Origen». The Westminster Handbook to Origen. Louisville, Kentucky: Westminster John Knox Press, 2004, pp. 32–34.

[7] OLSON, Roger E. História da Teologia Cristã: 2000 anos de tradição e reformas (traduçâo Gordon Chown). São Paulo: Editora Vida, 2001, p. 101.

[8] GRANT, Robert M. The Encyclopedia of Philosophy. The MacMillan Company & The Free Press. pp. 551–552

[9] GREGERMAN, Adam (2016). «Chapter 3: Origen's Contra Celsum». Building on the Ruins of the Temple. Mohr Siebeck. Col: Texts and Studies in Ancient Judaism. 165. Tübingen, Germany: [s.n.]

[10] GOODSPEED, Edgar J. (1966). A History of Early Christian Literature: Revised and Enlarged by Robert M. Grant. Chicago: Chicago University Press, 1996, pp. 97–188.

[11] GONZALEZ, Justo L.; PÉREZ, Zaida M.; Introdução á Teologia Cristã. (Tradução Silvana Perrella Brito). Santo André, SP: Editora Academia Cristã, 2006.

[12] DULLES, Avery Robert Cardinal. A History of Apologetics. San Francisco: Ignatius Press, 2005.

[13] L Russ Bush, ed. Classical Readings in Christian Apologetics. Grand Rapids: Zondervan, 1983.

[14] https://plato.stanford.edu/entries/descartes-ontological/

[15] PASCAL, Blaise. Pensées

[16] GROOTHUIS, Douglas. Christian Apologetics. Downers Grove: IVP Academic, 2011 pp. 25–31.

[17] CHESTERTON, G K. The Everlasting Man. Radford: Wilder Publications, 2008

[18] LEWIS, C S (2001). «The Shocking Alternative». Mere Christianity. San Francisco: HarperCollins, 2001, pp. 54–56

[19] Segue uma relação de 100 grandes apologistas cristãos, aqui: https://www.bomdiacomteologia.com/2020/01/relacao-de-100-apologistas-cristaos.html


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