Por
Walson Sales
Para
começar é bem salutar mostrar a apologética na história da Igreja, a começar
pela igreja primitiva. A Patrística é
dividida em Pais Apostólicos, Apologistas e Polemistas. Os Pais Apostólicos
eram os que foram contemporâneos dos Apóstolos, pois segundo a tradição, ainda
tinham os ensinos dos Apóstolos ecoando nos ouvidos. Os Apologistas e
Polemistas defendiam o Cristianismo primitivo contra as falsas acusações, sendo
que os Polemistas exerciam um tipo de apologética mais ofensiva, voltada ao
ataque mesmo. Para exemplificar a diferença entre Pais Apologistas e
Polemistas, imagine um time de futebol. A equipe que compõe a defesa são os
Apologistas e a equipe que compõe o ataque são os Polemistas. Os Polemistas
saiam ao ataque para, de fato, neutralizar, erradicar toda cultura, doutrina ou
pensamento religioso que se levantasse contra a fé cristã.
Justino
Mártir,[1] por exemplo, é considerado o primeiro filósofo e apologista cristão
e um dos primeiros Mártires mais célebres após os Apóstolos. Ele escreveu
várias defesas da fé cristã às acusações dos oficiais do governo em tempos de
perseguição, cujo principal conteúdo era mostrar que a fé cristã não era uma
ameaça ao governo de Roma. Aqui você já percebe o teor das acusações mais
diversas e falsas.[2]
Um
dos primeiros ataques abrangentes ao cristianismo[3] veio do filósofo grego Celso, que escreveu A palavra verdadeira (175
d.C.),[4] uma polêmica que critica os cristãos por serem membros não lucrativos
da sociedade.[5] Em resposta, o pai da igreja Orígenes
publicou seu tratado apologético Contra Celsum, ou Against
Celsus, que abordou sistematicamente[6] as críticas de Celso e ajudou a
levar ao cristianismo um nível de respeitabilidade acadêmica.[7] No tratado,
Orígenes escreve sob a perspectiva de um filósofo platônico,
recorrendo amplamente aos ensinamentos de Platão.[8] Contra
Celsum é amplamente considerado pelos estudiosos modernos como uma das
obras mais importantes da apologética cristã primitiva.[9]
Outros
apologistas desse período são Aristides de Atenas, o autor da Epístola a Diogneto, Aristo de Pela, Taciano, Melitão de Sardes, Atenágoras de Atenas, Teófilo de Antioquia, Irineu de Lyon, Orígenes, Hipólito de Roma, Tertuliano, Minúcio Felix, Cipriano de Cartago e Vitorino de Pettau.[10] Santo Agostinho que está
mais a frente, na era de ouro dos Pais da Igreja, foi também um grande
apologista.
Ao falar sobre a relação entre a Teologia e Apologética na
Igreja Primitiva, os historiadores da igreja e teólogos Justo Gonzales e Zaida
Péres[11] afirmam que desde datas bem antigas, percebeu-se a necessidade de
defender a fé diante de quem a criticava, assim como de preparar o caminho para
que os não crentes pudessem aproximar-se do evangelho. Assim, por exemplo,
quando a igreja cristã começou sua pregação no meio do Império Romano e de sua
cultura greco-romana, havia quem zombasse dos cristãos porque não tinham deuses
visíveis. Alguns até os chamavam de “ateus”, por essa mesma razão. Diante de
tais críticas e acusações, alguns líderes intelectuais do cristianismo
começaram a buscar pontes entre sua
fé e a cultura circundante. Uma dessas pontes foi encontrada no que alguns dos
mais distintos filósofos da antiguidade - especialmente Platão - haviam dito
sobre o Ser Supremo. Segundo esses filósofos, sobre todos os seres visíveis
deve haver um primeiro Ser, infinito e imutável, do qual a existência de todos
os demais seres é derivada (veremos esse tema quando falarmos no Argumento da
Contingência, dentro do grupo de Argumentos Naturalistas). Unindo essa antiga
afirmação filosófica com a doutrina cristã, esses antigos teólogos cristãos -
personagens como Justino, Clemente de Alexandria e Orígenes - afirmaram que o
mesmo Ser a quem os cristãos chamavam “Deus” ou “Pai” era aquele que os antigos
filósofos haviam chamado de Ser Supremo, Beleza Suprema, Bondade Suprema,
Primeiro Motor etc. Desse modo, mostravam que a fé cristã não era tão
irracional como diziam e que os cristãos, longe de serem “ateus”, adoravam a um
Ser que estava acima do todos os supostos deuses pagãos. Isto é o que se
conhece como a “função apologética” da teologia. Nesse contexto, “apologia”
quer dizer “defesa”. Por isso, aqueles primeiros autores, que escreveram obras
desse tipo, recebem o nome de “Apologistas” ou “Apologetas”. E, por causa
deles, a teologia que se dedica a esse tipo de tarefa recebe o nome de
“Teologia Apologética” ou simplesmente “Apologética”. Indubitavelmente, essa
tarefa é importante e valiosa. Por exemplo, se não fosse por causa daqueles
primeiros apologistas do segundo século, e por quem continuou sua tarefa no
século terceiro e quarto, o cristianismo não poderia ter entrado em diálogo com
a cultura circundante.
Certamente, no livro de Atos vemos primeiro a Pedro, logo a
Estevão e por último a Paulo, todos judeus, defendendo a fé cristã em presença
de outros judeus que não a aceitavam. No dia de hoje, visto que existem tantos
argumentos contra a fé cristã, é necessário refutá-los, se não essencialmente
para provar a verdade dessa fé, ao menos para remover os obstáculos falsos que
se colocam no caminho dela. Assim, por exemplo, a teologia em sua função
apologética pode ajudar-nos a refutar os argumentos dos ateus, que afirmam ser
impossível crer em Deus. Por outro lado, contudo, a teologia como apologética
apresenta também seus perigos. Sobre isso voltaremos em outro capítulo ao
tratar sobre as “provas” da existência de Deus. Em todo caso, parte do perigo
está em que o argumento apologético é como uma ponte em tráfego, flui nas duas
direções: não somente serve para convencer os não crentes, mas também pode
convencer os crentes, torcendo o conteúdo de sua fé. O exemplo mais claro disso
vemos nos argumentos dos “apologistas” do segundo século, a quem já nos
referimos, e no modo em que seus pensamentos têm impactado a doutrina de Deus.
Quando esses apologistas enfrentaram a cultura greco-romana, viram-se na
necessidade de defender sua fé em um Deus único e invisível, quando nessa
cultura os deuses eram muitos e também vistos nas estátuas que se colocavam nos
templos. Para responder a essas críticas, os apologistas recorreram aos
escritos de Platão que falavam de um Ser Supremo, e disseram que esse era o
Deus dos cristãos. O grande valor de tal argumento estava em conseguir, para a
proclamação da fé, o apoio de um dos mais respeitados pensadores da
antiguidade, Platão. O grande perigo estava em que os cristãos chegassem a
pensar - como de fato fizeram - que a maneira que Platão fala do Ser Supremo é
melhor e mais exata que a maneira que a Bíblia fala de Deus. Como consequência
disso, boa parte da teologia cristã começou a conceber Deus como um ser
impessoal, impassível, afastado das realidades humanas e, portanto, muito
distinto do Deus de Israel e de Jesus Cristo, que se envolve na história
humana, sofre com aqueles que sofrem, responde as orações etc.
A apologética na Idade Média e
início do período moderno. Anselmo de Cantuária propôs o famoso
argumento ontológico em seu Proslógio. Tomás de Aquino apresentou as cinco vias,
ou argumentos para a existência de Deus, na Summa Theologica,[12]
enquanto sua Summa contra os gentios era
uma grande obra apologética.[13] Tomás de Aquino também fez críticas
significativas ao argumento ontológico que resultou em sua popularidade perdida
até ser revivido por René Descartes em suas Meditações.[14]
Blaise Pascal[15]
delineou uma abordagem da apologética em seus Pensamentos:
Os
homens desprezam a religião; eles a odeiam e temem que seja verdade. Para
remediar isso, devemos começar mostrando que a religião não é contrária à
razão; que é venerável inspirar respeito por ela; então devemos torná-la
amável, fazer com que os homens bons esperem que seja verdade; finalmente,
devemos provar que é verdade.[16]
A
Apologética no período moderno tardio. A
apologética cristã continua nos tempos modernos em uma ampla variedade de
formas. Entre os católicos romanos há o Bispo Robert Barron, G.K. Chesterton,[17]
Ronald Knox, Arnold Lunn, Karl Keating, Michael Voris, Peter Kreeft, Frank Sheed, e o Dr. Scott Hahn. O ortodoxo russo, Seraphim Rose é
talvez o mais conhecido apologista ortodoxo oriental de
língua inglesa moderna. Entre os evangélicos, está o anglicano C.S. Lewis (que popularizou o argumento
agora conhecido como trilema de Lewis).[18] Entre
os apologistas protestantes do século XIX, havia William Paley que
popularizou a analogia do Relojoeiro. Na primeira metade do século
XX, muitos fundamentalistas cristãos se
tornaram apologistas bem conhecidos. Alguns dos mais conhecidos são R.A. Torrey e John Gresham Machen. O evangélico
Norman Geisler, o luterano John Warwick Montgomery e o presbiteriano Francis Schaeffer
estavam entre os apologistas cristãos mais prolíficos na segunda metade do
século XX e no século XXI, enquanto Gordon Clark e Cornelius Van Til
iniciaram uma nova escola de apologética filosófica chamada pressuposicionalismo, que
é popular nos círculos calvinistas. Outros
incluem Douglas Groothuis, Josh McDowell, Ronald Nash, Hugo Anthony Meynell, Timothy J. Keller, Francis Collins, Vishal Mangalwadi, Richard Bauckham, Craig A. Evans, Darrell Bock, John F. MacArthur, Michael R. Licona e John Lennox.
William Lane Craig, Alvin Plantinga estão, junto com Alister McGrath, entre os
apologistas mais influentes hoje.[19]
Referências e notas:
[1] Flávio Justino, também conhecido como Justino Mártir
ou Justino de Nablus, foi um teólogo romano do século II, mártir e santo da
Igreja Católica. Escreveu uma defesa chamada Apologia.
[2]
Dentre os líderes que devotaram sua vida à refutação do gnosticismo e de várias
heresias, podemos apontar três principais deste período: Irineu, Tertuliano e
Hipólito. Para um guia mais completo da trajetória dos Pais Apologistas e
Polemistas, recomendo estes dois livros: (1) BERCOT, David W (Editor). A
Dictionary of Early Christian Beliefs: A Reference Guide to More Than 700
Topics Discussed by the Early Church Fathers. Peabody, Massachusetts: Hendrickson
Publishers, 2012; (2) FRANGIOTTI, Roque. História
das Heresias (Séculos I – VII): Conflitos ideológicos dentro do Cristianismo.
São Paulo: Paulus, 1995.
[3]
Excelente apanhado histórico e bibliográfico encontrado na Wikipedia, onde me
inspirei para este trecho: https://pt.wikipedia.org/wiki/Apolog%C3%A9tica_crist%C3%A3,
também busquei adquirir as obras citadas nas referências para a minha biblioteca
pessoal.
[4] FERGUSON, Everett. Backgrounds of Early Christianity.
Second ed. Grand Rapids, Michigan: William B. Eerdmans Publishing Company,
1993, pp. 562–564.
[5] THOMAS, Stephen.
«Celsus». In: McGuckin. The Westminster Handbook to Origen.
Louisville, Kentucky: Westminster John Knox Press, 2004, pp. 72–73.
[6] McGuckin, John
Anthony. «The Scholarly Works of Origen». The
Westminster Handbook to Origen. Louisville, Kentucky:
Westminster John Knox Press, 2004, pp. 32–34.
[7]
OLSON, Roger E. História da Teologia
Cristã: 2000 anos de tradição e reformas (traduçâo Gordon Chown). São Paulo: Editora Vida, 2001, p. 101.
[8] GRANT, Robert M. The Encyclopedia of Philosophy.
The MacMillan Company & The Free Press. pp. 551–552
[9] GREGERMAN, Adam
(2016). «Chapter 3: Origen's Contra Celsum». Building on the Ruins of the Temple. Mohr Siebeck. Col: Texts and
Studies in Ancient Judaism. 165. Tübingen, Germany: [s.n.]
[10] GOODSPEED, Edgar
J. (1966). A History of Early
Christian Literature: Revised and Enlarged by Robert M. Grant. Chicago: Chicago University Press, 1996, pp. 97–188.
[11] GONZALEZ, Justo L.; PÉREZ, Zaida M.; Introdução á Teologia Cristã. (Tradução
Silvana Perrella Brito). Santo André, SP: Editora Academia Cristã, 2006.
[12] DULLES, Avery
Robert Cardinal. A History of
Apologetics. San Francisco: Ignatius Press, 2005.
[13] L Russ Bush, ed. Classical Readings in Christian
Apologetics. Grand Rapids: Zondervan, 1983.
[14] https://plato.stanford.edu/entries/descartes-ontological/
[15] PASCAL, Blaise. Pensées
[16] GROOTHUIS,
Douglas. Christian Apologetics.
Downers Grove: IVP Academic, 2011 pp. 25–31.
[17] CHESTERTON, G K. The Everlasting Man. Radford: Wilder
Publications, 2008
[18] LEWIS, C S (2001).
«The Shocking Alternative». Mere
Christianity. San Francisco: HarperCollins,
2001, pp. 54–56
[19] Segue uma relação de 100
grandes apologistas cristãos, aqui: https://www.bomdiacomteologia.com/2020/01/relacao-de-100-apologistas-cristaos.html
Nenhum comentário:
Postar um comentário