Kenneth Keathley
(Salvation and Sovereignty, pp. 58-62)
Por toda a história da igreja, tanto as igrejas orientais quanto
ocidentais ensinaram que Deus deseja a salvação de todos, embora requeira a resposta
de fé da parte do ouvinte.[1] Esta abordagem das vontades antecedente/consequente não vê nenhum
conflito entre as duas vontades de Deus. Deus antecedentemente deseja que todos
sejam salvos. Mas para aqueles que recusam arrepender-se e crer, Ele
consequentemente deseja que sejam condenados. Desta forma entende-se que Deus é
como um justo juiz que deseja que todos vivam mas que relutantemente ordena a
execução de um assassino.[2] Os desejos antecedentes e consequentes são diferentes, mas eles não
estão em conflito.
A posição das vontades antecedente/consequente parece ser o claro ensino
da Escritura. Deus antecedentemente “amou o mundo de tal maneira que deu o seu
Filho unigênito”, e consequentemente “para que todo aquele que nele crê não
pereça, mas tenha a vida eterna”. Cristo antecedentemente ordena que o
Evangelho seja pregado “a toda criatura”, mas Ele consequentemente decreta que
“quem não crer será condenado”. O paradigma das vontades
antecedente/consequente combina muito bem com a Grande Comissão.
Oden lista quatro características da vontade antecedente de Deus.[3] A primeira é que ela é universal. A salvação é desejada para todos,
proporcionada para todos e oferecida a todos. Esta atitude onibenevolente
incondicional é verdadeiramente antecedente no sentido que ela é dirigida a
toda a humanidade antes de sua aceitação ou rejeição. Segunda, a vontade
antecedente é imparcial. Cristo morreu pelos pecados do mundo todo. O amor
universal logicamente exige a expiação ilimitada. Terceira, a vontade de Deus
de salvar a todos é sincera. Não há nenhuma vontade oculta, nenhum decreto
secreto da reprovação. E quarta, a vontade antecedente é uma vontade ordenada.
É impossível o desejo de Deus permanecer impotente ou irrealizado. A vontade
antecedente de salvar a todos é a base de Suas ações para proporcionar os meios
da graça aos pecadores através de Cristo.
A vontade consequente de Deus possui três componentes.[4] Primeiro, é consistente com as qualidades com que Ele dotou Suas
criaturas. Os humanos estão caídos, mas eles ainda são à imagem de Deus. A
graça de Deus não é coerciva e pode ser recusada. Quando o ouvinte encontra o
evangelho, ele é graciosamente capacitado pelo Espírito para responder
livremente. A decisão do ouvinte de aceitar ou rejeitar o evangelho é genuinamente,
e assustadoramente, sua. Sem dúvida, por que alguns rejeitam o evangelho é um
mistério. Mas no paradigma antecedente/consequente, o mistério da iniquidade
reside no homem e não em Deus.
O segundo aspecto da vontade consequente de Deus segue do primeiro. Se
Deus deseja que a salvação seja consequente a nossa escolha, então esta vontade
é condicional. Terceiro, a vontade consequente é justa. A concessão de Deus da
salvação àqueles que creem é perfeitamente consistente com Sua natureza santa
por causa da obra propiciatória de Cristo (Rm 3.21-26). A condenação de todos
que não creem concorda inteiramente com Sua justiça. A vontade antecedente de
Deus é perfeitamente graciosa; Sua vontade consequente é perfeitamente justa.
Geralmente, os teólogos reformados consideram a abordagem das vontades
antecedente/consequente inaceitável. Eles fazem várias objeções dentre as quais
três se sobressaem. A primeira é que o paradigma das vontades
antecedente/consequente parece tornar a decisão de Deus contingente à escolha
do homem. Eles afirmam que esta abordagem sutilmente coloca o homem no trono de
Deus. Berkouwer argumenta que uma salvação que depende de uma decisão do homem
torna Deus “impotente” e “expectante”.[5] Robert Shank responde que Deus pode estar esperando mas Ele não é
impotente.[6] De fato, a imagem de Deus esperando é um tema rico encontrado em toda a
Bíblia (Is 1.18-20, por exemplo). A abordagem das vontades
antecedente/consequente entende que Deus é o soberano Iniciador e gracioso
Completador da redenção. Se o homem deve escolher entre o céu e o inferno, é
porque o Senhor da Criação colocou esta escolha diante dele.
A segunda objeção à abordagem das vontades antecedente/consequente é que
ela parece sugerir a noção de mérito. Se todos os ouvintes são igualmente
capacitados pela graça para receber o evangelho, e uma pessoa aceita a mensagem
enquanto outro a rejeita, então isto não significa que de algum modo a primeira
pessoa é mais virtuosa do que a segunda?[7] Esta é uma objeção difícil, mas dois pontos devem ser tidos em mente.
Primeiro, esta objeção parece ver a fé como uma espécie de obra, enquanto a
Bíblia consistentemente contrasta a fé com as obras (Rm 3.21-4.8). A fé, por
sua própria natureza, é o oposto das obras porque é uma admissão de uma
completa falta de mérito ou capacidade. O mendigo não adquire mérito quando
abre suas mãos para receber um dom gratuito.[8] Segundo, o mistério não é porque alguns creem, mas porque todos não
creem. Isto novamente aponta para o mistério do pecado. Não há mérito em
aceitar o evangelho, mas há culpa em rejeitá-lo. Esta questão merece mais
atenção, o que explica porque ela é o foco do capítulo sobre a graça superadora
(cap. 4). Creio que o modelo apresentado nesse capítulo – que a graça de Deus é
tanto monergística quanto resistível – é suficiente para responder esta
objeção.
Uma terceira objeção feita por teólogos reformados é que o paradigma das
vontades antecedente/consequente dá “lugar de destaque” ao livre-arbítrio
humano sobre a glória de Deus.[9] John Piper argumenta que a visão secreta/revelada e a visão
antecedente/consequente são basicamente as mesmas exceto por uma diferença
importante.[10] Ambas as visões afirmam que Deus genuinamente deseja a salvação de
todos, ambas as visões sustentam que este desejo é suplantado por um desejo
ainda maior, mas as duas visões discordam sobre o que esse desejo maior é.
Piper afirma que a posição secreta/revelada vê que o desejo maior é o desejo de
Deus de glorificar a Si mesmo, enquanto a posição antecedente/consequente o
desejo maior é Sua dádiva da auto-determinação aos humanos. Piper conclui que o
paradigma secreto/revelado faz maior justiça à glória de Deus.
Entretanto, em sua resposta a Piper, Walls e Dongell enfatizam que os
proponentes da posição das vontades antecedente/consequente não afirmam um
poder humano graciosamente capacitado de auto-determinação por causa dele
mesmo. Antes, a preocupação é retratar fielmente o caráter de Deus. Deus
considera o incrédulo responsável porque o pecado da incredulidade
verdadeiramente pertence ao incrédulo. Os condenados por Deus são justamente
condenados porque receber Cristo era uma escolha genuinamente disponível. Aderir
à escolha humana genuína não é um fim em si mesmo; sustentar a integridade do
caráter de Deus é. Antes que deixar de engrandecer a glória de Deus, a posição
das vontades antecedente/consequente glorifica a Deus mantendo que Seu
procedimento é justo é consistente com Sua natureza santa.[11] Se a melhor forma dos humanos trazerem glória a Deus for escolhê-lo
livremente, então a visão das vontades antecedente/consequente cumpre melhor
este objetivo. Novamente, daremos mais atenção a esta questão no capítulo sobre
a graça superadora.
De maneira interessante, Piper usa a analogia do justo juiz para fazer
seu caso em favor do cenário das vontades secreta/revelada.[12] Ele dá o exemplo específico de quando George Washington enfrentou o
difícil dilema de ter um de seus oficiais favoritos culpado de um crime
capital. Apesar de sua afeição pelo jovem rapaz, Washington deu a ordem para a
sua execução. A ilustração de Piper, na verdade, é um exemplo do paradigma das
vontades antecedente/consequente, porque de acordo com o modelo das vontades
secreta/revelada, Washington secretamente deseja o crime do oficial e inclina a
vontade do jovem para executar o ato.
Tradução: Paulo Cesar
Antunes
[1] T. Oden, The
Transforming Power of Grace (Nashville: Abingdon, 1993), 112. Oden afirma que a Igeja chegou a este consenso acerca das duas vontades
de Deus através de uma série de concílios: Éfeso (431), Arles (475), Orange
(529) e Quiersy (853). Jewett, calvinista, admite que somente a tradição
reformada rejeita o paradigma das vontades antecedente/consequente. Veja
Jewett, Election and Predestination, 98.
[2] João de Damasco parece ser o primeiro a usar a analogia do justo juiz
para explicar a congruência das duas vontades de Deus. Veja Oden, The Transforming Power of Grace,
83, e Jewett, Election and Predestination, 98.
[3] Oden, The
Transforming Power of Grace, 83-86.
[4] Ibid., 87-89.
[5] G. C.
Berkouwer, Divine Election (Grand Rapids: Eerdmans, 1960), 229.
[6] Shank, Elect
in the Son, 129.
[7] Veja T. L.
Tiessen, Who Can Be Saved? Reasessing Salvation in Christ and World
Religions (Downers Grove, IL: InterVarsity, 2004), 238-39; e T. R.
Schreiner e A. B. Caneday, The Race Set Before Us: A Biblical Theology of
Perseverance and Assurance (Downers Grove, IL: InterVarsity, 2001), 318.
[8] Geisler aponta que a fé pode ser vista como uma obra somente por meio
de um equívoco da palavra “fazer”. “Fé é algo que ‘fazemos’ no sentido de que
envolve um ato de nossa vontade sugerido pela graça de Deus. Contudo, a fé não
é alguma coisa que ‘fazemos’ no sentido de uma obra meritória necessária para
Deus nos dar a salvação”. Veja N. Geisler, Eleitos Mas Livres: Uma
Perspectiva Equilibrada entre a Eleição Divina e o Livre-Arbítrio, 1ª. Edição (São Paulo: Editora vida, 2001), 218.
[9] D. Westblade, “Divine Election in the Pauline Literature”, em Schreiner
e Ware, The Grace of God, the Bondage of the Will, 69-70.
[10] Piper, “Are There Two Wills in God?”, 123-24.
[11] Walls e
Dongell, Why I Am Not a Calvinist, 8.
[12] Piper, “Are There Two Wills in God?”, 128.
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