segunda-feira, 14 de março de 2022

O que é Lógica e qual o papel da Lógica na Crença Religiosa?

 

Lógica é o estudo correto da razão ou das inferências válidas e das falácias presentes, sejam formais ou informais. A lógica ajuda a obter conclusões corretas sobre um assunto e a evitar erros de pensamento que as pessoas cometem frequentemente. Utilizamos a lógica no nosso dia a dia, inclusive em questões religiosas. O uso da lógica e da razão também é encontrada na Bíblia.

 

- "É função do homem sábio conhecer a ordem" - Aristóteles

- "Vamos raciocinar juntos..." - Isaías 1:18

- "Amarás o Senhor teu Deus com toda ... a tua mente" - Mt. 22:37

- “...A razão da esperança que há em nós.” – I Pe 3:15

- “Destruindo os conselhos, e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo;” 2 Coríntios 10:5

 

A lógica é construída sobre quatro leis fundamentais:

 

1.         Lei da não-contradição - algo não pode ser "A" e "não-A" ao mesmo tempo e no mesmo sentido.

2.         Lei do meio excluído ou do terceiro excluído - algo ou é "A" ou "não-A" (Não existe uma opção média ou uma terceira opção).

3.         Lei da identidade - "A" é realmente "A".

4.         Lei da inferência racional - por exemplo, todos os homens são mortais, João é um homem, portanto João é mortal.

 

Lei da não-contradição

Algo não pode ser "A" e "não-A" ao mesmo tempo e no mesmo sentido.

"Deus existe!" – afirma o Cristão

"Deus não existe!" – afirma o Ateu

"Ambos estão certos!" – afirma o Pluralista

 

Perceba que o Pluralista é um inimigo mortal da lógica e da razão, pois defende pontos de vista contraditórios, ferindo portanto a Lei da não-contradição. A forma mais segura de fazer uma pessoa admitir que acredita na lei da não-contradição foi apresentada pelo médico e filósofo muçulmano medieval Avicena nos seguintes termos: "Que aquele que não acredita seja espancado e queimado até admitir que ser espancado e queimado não é a mesma coisa que não ser espancado e queimado". – Avicena. O fato de utilizarmos a lógica e a razão no dia a dia nos impede de ignorar as prescrições médicas com respeito a dosagem de remédios (não é a mesma coisa tomar um ou 10 comprimidos ao mesmo tempo), e nos impede de considerar que é a mesma coisa tomar um copo de vitamina de banana ou um copo de veneno.

 

Lei do Meio Excluído ou do Terceiro Excluído

Algo ou é "A" ou "não-A".

"Tudo veio de uma eternidade pessoal" - Cristão

"Tudo veio de uma eternidade impessoal" - Ateu

 

Não existe uma opção média ou uma terceira opção. Observe como essa lei ressalta os atributos da verdade como algo 'restrito' e 'limitado'. Existe uma espécie de exclusivismo nas proposições de verdade onde o erro deve, necessariamente ser excluído. As duas afirmações acima não podem ser ambas verdadeiras. Uma terá que permanecer e a outra excluída, onde também não existe espaço para uma afirmação média, terceira ou conciliadora.

 

Lei da Identidade

"A" é realmente "A".

"Jesus Cristo é Deus!" - Cristão

"Jesus Cristo não é Deus"! - Muçulmano

 

Ou Jesus Cristo é Deus ou não é! As afirmações teológicas ousadas que são encontradas principalmente no capítulo 5 do Alcorão, livro sagrado do Islamismo, religião que surgiu no século 6 depois de Cristo, nega veementemente a divindade de Jesus, algo reconhecido nas Escrituras Cristãs e pelos pais da igreja primitiva. O debate dos dias atuais está focado, principalmente, sobre questões de gênero, onde o gênero biológico é sistematicamente atacado. A lei da identidade é gravemente ferida em ambos os casos.

 

Lei da Inferência Racional

Lógica dedutiva - raciocínio de premissas verdadeiras a uma conclusão correta.

Tudo o que tem um princípio tem uma causa.

O universo teve um começo.

Portanto, o universo tem uma causa.

 

A primeira premissa é metafisicamente necessária, a segunda premissa pôde ser confirmada por observações científicas, então a conclusão segue naturalmente. Se um dia você chegar em casa do trabalho e encontrar um cavalo na sua sala, apesar das portas e janelas estarem fechadas e sem nenhum sinal de arrombamento, você vai inferir logicamente que alguém colocou aquele cavalo ali. Da mesma forma, se você chegar em casa e encontrar a casa vazia, você vai inferir logicamente e necessariamente que alguém entrou e roubou todos os seus móveis. Se entrar em uma rua deserta e encontrar um corpo caído com um ferimento de arma de fogo na cabeça, você vai inferir logicamente sobre a existência de um assassino nas proximidades.

 

Lógica e Razão vs. Pluralismo

 

O pluralismo sustenta que nenhuma religião é superior a outra no que diz respeito à verdade. Veja o que afirmava o famoso heresiarca: "Não faz diferença se se invoca o Deus mais elevado ou Zeus ou Adonai ou Sabaoth ou Amoun, como os Egípcios fazem, ou os Papaios, como invocavam os Citas". - Celso, século II. O pluralismo não é novidade. Afirma que todo o sistema religioso é igualmente bom no que diz respeito a trazer a salvação da humanidade.

O pluralismo faz uma afirmação exclusivista - que apenas o Pluralismo é verdade "O pluralismo não é e não tem sido amplamente popular no mundo em geral; se o pluralista tivesse nascido em Madagáscar, ou na França medieval, provavelmente não teria sido um pluralista. Segue-se que ele não deveria ser pluralista ou que suas crenças pluralistas são produzidas nele por um processo não confiável de produção de crenças?" - Alvin Plantiga. O principal desafio do pluralismo é que ele luta contra o conceito de Verdade Absoluta. O pluralismo é inerentemente relativista. No Pluralismo - “Tudo é verdade”. Então deveríamos fazer algumas perguntas ao pluralista: (1) “Esta mulher está grávida e não grávida?”; (2) “O pluralista acredita que as afirmações do exclusivista são também verdadeiras?;” (3) “O Pluralismo e o Exclusivismo ensinam a mesma coisa?”; (4) “Como o pluralista sabe que sua visão é verdadeira e as demais são falsas?”

Para tanto, é também importante saber identificar as Falácias Lógicas.

 

Reconhecendo Falácias Lógicas - Significado – contexto significa tudo

 

“Jesus é o Filho de Deus” – Cristão

“Jesus é o Filho de Deus” – Testemunha de Jeová/Mórmon

 

Lei da Identidade. Perceba que as frases são basicamente as mesmas, contudo as pessoas que as afirmam dão um significado completamente diferente a identidade de Jesus. Na primeira, Jesus é o Filho de Deus em Essência e Substância, enquanto que na segunda Jesus é o Filho de Deus por criação e adoção.

 

Dilema defeituoso

 

“Você é uma pessoa de ciência/fatos ou uma pessoa de religião/fé?”

 

Premissas da premissa dedutiva não são verdadeiras. Petição de princípio. A pergunta já pressupõe que a ciência supostamente lida com os fatos enquanto que a religião/fé lida, supostamente com ilusões (tentando diferir entre algo objetivo e subjetivo). Outro argumento capcioso na pergunta é a de que a ciência e a religião são opostos. Erro de categoria – apesar da ciência e da religião estarem em categorias diferentes, elas não são mutuamente excludentes ou antagônicas. Esse erro se assemelha a ideia embutida na pergunta “Se Deus criou todas as coisas, então Quem criou Deus?” Contudo, o argumento que afirma que tudo o que tem um início, tem uma causa, não contempla Deus e nem poderia, pois dentro da natureza de Deus está o conceito de eternidade, o que exclui a ideia de criação. Aquele que é eterno não tem um começo e não pode ser criado.

Ainda é importante dizer que não negamos que existe, de fato, uma diferença do que é objetivo e subjetivo na religião. Entretanto, não descartamos a necessidade de conhecer o contexto em que a Bíblia foi escrita e a mente das pessoas que viveram naquela época. Mas o principal problema é que existe objetividade e subjetividade nas afirmações religiosas e científicas. Se você fala “Jesus vive em meu coração”, isso é de caráter subjetivo, interno, privado e pessoal. Portanto, existem dois tipos de conhecimento: o que é de alcance público e o que é pessoal. Algumas coisas são de conhecimento público, como a distância entre a terra e o sol, ou quem é o atual presidente do Brasil. Outras coisas são do conhecimento privado, como dor de cabeça ou se estou me sentindo bem. A noção popular (destrutiva) é que a ciência lida com o que é objetivo, público, externo e plausível, enquanto a religião lida com o que é subjetivo, privado, interno e pessoal. Não negamos que certos aspectos da religião sejam pessoais, internos e particulares, porém defendemos que importantes aspectos do Cristianismo são objetivos, públicos, externos e plausíveis. O Cristianismo é uma cosmovisão que faz afirmações sobre a realidade. Tais afirmações são verdadeiras ou falsas. Se forem verdadeiras, há evidências que podem sustentá-las, portanto, conhecer que o Cristianismo é verdadeiro deve significar mais do que conhecimento subjetivo, privado, interior, pessoal. Isso significa que nós podemos saber que ele é verdadeiro de uma forma objetiva, pública, externa e plausível. Não podemos esquecer também que essa falácia faz apelo ao argumento da autoridade, deixando implícito que algum cientista deveria ser autoridade final em todos os assuntos, o que não é verdade.

 

Analogia defeituosa

 

“Acreditar em Deus é como acreditar em Papai Noel.”

 

Na falácia da Analogia Defeituosa, o erro se dá por tentar comparar duas coisas que não podem ser comparadas. Todos sabem que a figura do Papai Noel é oriunda do folclore infantil, geralmente popularizada no período das festas natalinas, presente no imaginário das crianças em relação as árvores de natal e os presentes. Todos sabem que não passa de um mito, de um personagem que não existe e de uma crença infantil. A figura de Deus é diferente. Deus é a figura que evoca a causa de tudo no universo. O próprio universo, o tempo, a matéria, o espaço, o meio ambiente milimetricamente planejado, os seres vivos, incluindo nós, os seres humanos, dotados de atributos que são totalmente estranhos na natureza, a saber, emoção, vontade, consciência, razão e liberdade, por termos sido criados a imagem e semelhança de Deus. Qualquer ser pensante e minimamente responsável entenderá que esse tipo de comparação é completamente fora da realidade. Agora, se dissermos que “crer na teoria da evolução é a mesma coisa que acreditar no Papai Noel”, pode sim ser uma analogia totalmente válida, pois a Teoria da Evolução nunca foi observada e se ela realmente ocorreu, ocorreu de forma totalmente aleatória, sem uma mente inteligente por trás e se essa teoria gozar realmente de algum status científico, ela teria que ser tríplice, cósmica, química e biológica, o que seria completamente impossível de ocorrer, tendo em vista os estágios intricados que ela teria que completar para realizar-se. Como disse o ateu Quentin Smith em um debate com o William Lane Craig: “Se o universo foi criado, foi criado do nada, por nada e para nada”. É melhor acreditar no Papai Noel neste caso.

 

Consenso Gentium (opinião da maioria)

 

“A grande maioria dos cientistas acredita na evolução”

 

Um fato interessante nessa falácia é que ela é bem recorrente em conversas e debates. Outro fato brutalmente verdadeiro é que secularistas, humanistas, ateus, agnósticos e outros inimigos da fé cristã tomaram conta dos departamentos de biologia e ciências da maioria das universidades e existe um status positivo e negativos nestes centros. O status positivo é dado a quem aprovar ou adotar a teoria da evolução como verdadeira e o status negativo é dado a quem defender o criacionismo ou a existência de Deus. Eu não estou inventando isso. O documentarista judeu Ben Stein prova isso no documentário Expelled: no intelligence allowed, disponível no YouTube com legendas em português. Outro que prova que os criacionistas foram banidos e são perseguidos nas universidades é o jornalista Larry A. Witham, no livro Where Darwin Meets the Bible: Creationists and Evolutionists in America, onde ele prova que os departamentos de ciências são dominados por inimigos do cristianismo e que para se entrar na elite tem que aceitar e promover a Teoria da Evolução como verdadeira. O fato não se dá se a teoria é verdadeira ou não. Trabalhei essa questão no meu livro A Visão de Mundo Ateísta. E o principal ponto da falácia é que a opinião da maioria não corresponde necessariamente a verdade. Isso é um ponto pacífico.

 

Apelo ao futuro

 

“Um dia o elo perdido entre o homem e seus ancestrais será encontrado”

 

Também conectado ao ítem anterior e à teoria da evolução no exemplo. Apesar de dependermos de conhecimentos ainda não disponíveis em muitas áreas, não podemos estabelecer uma teoria científica sem o seu lastro principal, que no caso da teoria da evolução é o elo perdido entre os seres inferiores e o homem. A teoria enfrenta outros problemas insolúveis como a complexidade irredutível da célula, a barreira genética dos seres vivos (um ser vivo de uma espécie não se transforma em outro ser vivo de outra espécie) e a lei da abiogênese (matéria morta não produz vida), que é o ponto central da evolução. Apelar ao futuro neste caso não servirá muito.

 

Falácia Genética

 

“Você não é biólogo – como você pode dizer que a evolução não é verdade?”

 

Também envolvendo o argumento da autoridade, a falácia genética se relaciona a como uma crença se origina. No caso do exemplo, a crença verdadeira se originaria de forma correta por meio de um curso de biologia, o que não é verdade. Outra forma de atacar a crença religiosa com esta falácia é dizer que a crença se baseia no local de nascimento das pessoas, o que não anularia a existência de uma religião ou cosmovisão verdadeira.

 

Como a lógica/razão se relaciona com a crença verdadeira? A crença é apenas uma questão de...

 

• Pensamento lógico?

• Exame das evidências?

• Reconhecimento da realidade?

…Infelizmente não.

 

A crença real envolve mais do que apenas a transferência de informações e o reconhecimento externo de uma verdade. As pessoas agem contrariamente às evidências o tempo todo. Leia o texto bíblico abaixo e compare-o com as afirmações seguintes:

 

Porque, se pecarmos voluntariamente, depois de termos recebido o conhecimento da verdade, já não resta mais sacrifício pelos pecados,” – Hebreus 10:26

 

Percebeu a lógica usada na declaração bíblica acima? A crença real envolve a Vontade. Leia as afirmações abaixo:

 

 “Se alguém nos provasse este Deus dos cristãos, seríamos ainda menos capazes de acreditar nele.” – Nietzche

“É nossa preferência que governa contra o cristianismo, não argumentos.” – Nietsche

Por que arrazoais sobre estas coisas em vossos corações?” - Marcos 2:8

Ó néscios, e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram!” – Lucas 24:25

“porque com o coração se crê, para a justiça...” - Romanos 10:10

“Quando nos falta a vontade de ver as coisas como elas realmente são, não há nada tão misterioso quanto o óbvio.” – Irving Kristol, Professor de Sociologia

 

Resultado final de se concordar que lógica/razão e religião se misturam:

 

• Uma verdadeira base filosófica facilita a crença em algo;

• A adesão aos Primeiros Princípios é obrigatória na vida e na religião;

• Falácias lógicas devem ser reconhecidas e superadas;

• O pluralismo como um sistema de crenças é descartado;

• Rejeitar o pluralismo não significa [necessariamente] que várias religiões sejam totalmente falsas;

• A crença real ainda envolve mais do que uma compreensão de uma posição lógica;

 

- "Tão hábil é o erro de imitar a verdade, que ambos estão constantemente sendo confundidos. Hoje em dia é preciso um olhar aguçado para saber quem é quem entre Caim e Abel". - A.W. Tozer

 

- "Se acreditamos pela fé que Deus falou, uma vez que o que Deus diz é verdade, tudo o que contradiz a palavra de Deus pode, e deve, ser imediatamente excluído como falso". - Etienne Gilson

 

É o que diz, de fato, o exclusivismo cristão: o Cristianismo Bíblico é verdadeiro e tudo o que se opõe a ele é falso.

 

Fonte: www.confidentchristians.org

 

Tradução, adaptação e acréscimos Walson Sales

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