Herman Ridderbos
Respondeu, pois, Jesus, e disse-lhes: Não murmureis entre vós. Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia. Está escrito nos profetas: E serão todos ensinados por Deus. Portanto, todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu vem a mim.
Embora “os judeus” não se dirigem a Jesus diretamente, mas expressam seu desagrado e incredulidade “entre vós” (vs. 43) em relação às reivindicações de Jesus de descendência celestial, ele de maneira nenhuma desconhece a reação deles. Sua resposta é, antes de mais nada, categoricamente negativa: “Não murmureis entre vós”. Ele também não responde à objeção expressa nas palavras “Não é este...?” O que eles consideram como possível ou impossível por seus padrões humanos (cf. 5.43ff.) nunca os levará à fé em seu nome ou os fará participantes de seu dom imperecível. Isto demonstra a impotência do homem natural (“ninguém”) para vir para a salvação revelada em Cristo a menos que o Pai que o enviou o “atraia”, isto é, o leve a ela (para esta “atração”, veja também 12.32 e Jr 31.3; Os 11.14). Pode parecer por esta afirmação que Jesus quis salientar a inutilidade de qualquer diálogo com os judeus. Alguns falam de um conceito de predestinação em João: que o fato dos judeus não estarem dispostos a virem a Jesus mostra que eles não foram atraídos por Deus e, portanto, a salvação para eles não era uma possibilidade.
Mas como o vs. 45 mostra, a intenção é claramente diferente. Jesus baseia o pronunciamento negativo do vs. 45a em uma promessa divina de salvação, “está escrito nos profetas,” a saber, “serão todos ensinados por Deus.” Embora não citado literalmente, a referência é, aparentemente, à afirmação em Is 54.13, onde é dada a um Israel confundido e necessitado a promessa de que Deus mesmo irá conceder-lhes o verdadeiro conhecimento da salvação que eles tanto carecem: “Todos os teus filhos serão ensinados do SENHOR,” uma promessa também concedida em outras partes com referência a uma salvação futura (cf. Jr 31.33, 34), como o dom da nova aliança entre Deus e o seu povo, pela qual todos eles viriam a conhecer o Senhor, “desde o menor até ao maior deles” (cf. 1Ts 4.9; 1Jo 2.20, 27ff.). Ao apelar a esta promessa de salvação diante dos judeus, Jesus, portanto, não os exclui a priori: no “todos” da profecia o caráter universal da vontade redentora de Deus está subentendido.
Mas Jesus confronta estes judeus com o lado inverso desta promessa, isto é, que ninguém irá ter parte nesta salvação na base de sua própria compreensão e conhecimento (cf. “nós conhecemos,” vs. 42 e 3.2). O que impede “os judeus” de virem a Jesus e crerem nele, portanto, não é que a salvação não é pretendida para eles, mas que eles não querem recebê-la da maneira que Deus gostaria de dá-la a eles, a saber, vindo a Jesus. Pois “todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu vem a mim.” Por isso, o fato notável é que Jesus queria que os judeus percebessem sua incredulidade e impotência (“ninguém pode...”) à luz de uma profecia divina de salvação. Exatamente aquilo que eles rejeitam nele como presunção teimosa é o que Deus quer lhes dar nele. “Se o Pai que me enviou o não trouxer” (vs. 44), portanto, se aplica a eles, não apenas negativamente, mas positivamente também.
Obviamente, isto não torna racionalmente transparente a relação entre vir a Jesus como consequência da atração divina e como um ato voluntário e responsável. Baseando-se em “todo,” Bultmann conclui que “qualquer um é livre para estar entre os atraídos pelo Pai.” Ele diz que “atrair” significa apenas “deixar ser atraído.” Mas esta exegese tem sido corretamente rejeitada por outros como estando em desacordo com o “ouvir” e “aprender” totalmente determinado pela vontade divina de salvar. A afirmação “ninguém pode vir a mim” pretende afastar a ilusão que “vir a Jesus” é uma questão sobre a qual alguém pode livremente decidir na base de seu próprio “conhecimento” e possibilidades. Esta observação é frequente no Evangelho (cf. 1.12, 13; 3.3ff.; 5.44); pode-se chamá-la de um de seus pensamentos fundamentais. Por outro lado, entretanto, não é menos típico ao Quarto Evangelho que, em (não apesar de) sua referência radical a Deus, ele convoca uma pessoa a fazer o que ela não pode fazer de si mesma, exatamente como é dito ao coxo para levantar e ao morto para voltar a viver. Até a presente perícope termina com um apelo implícito para crer (vs. 47). Nenhuma tentativa é feita para explicar o envolvimento da fé no poder vivificante de Deus. A Bíblia fala de duas maneiras acerca de uma realidade que, como milagre de Deus, não é transparente ao intelecto, mas a qual o evangelho busca abrir os olhos e corações das pessoas.
Fonte: The Gospel according to John: A Theological Commentary, 232-234
Tradução: Paulo Cesar Antunes
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