Philip Yancey
Uma recente viagem a Inglaterra me
mostrou valiosas compreensões sobre a riqueza.
Fiz uma viagem de dez dias pela
Grã-Bretanha para promover um livro recente. Para minhas leituras matinais,
levei comigo o “Diário”, de John Wesley, do incansável evangelista. Em algumas
manhãs, eu li a jornada de Wesley a uma cidade como Bristol ou Dudley, que eu
iria visitar naquela mesma tarde. Nossa, que diferença!
Eu viajava em um carro confortável e
falava para uma audiência amigável em eventos pagos. John Wesley viajava a
cavalo, debaixo de chuva e neve, falava quatro ou cinco vezes por dia para
grandes audiências em locais abertos e enfrentava oponentes que frequentemente
o recebiam com palavras profanas e pedras.
Terminei de ler o diário de Wesley,
impressionado com sua resistência física, seu estilo de vida austero e sua
dedicação absoluta aos grupos de crentes espalhados por toda a Grã-Bretanha.
Mas não pude deixar de perceber a falta de apreciação que Wesley tinha pelas
belezas e riquezas culturais que abundam nessa nação.
Ao notar um lindo jardim de flores, ele
rapidamente falou: “O que pode encantar sempre, senão o conhecimento e o amor
de Deus?” Visitando uma das grandes casas históricas da Inglaterra, notou: “Não
demorará muito para que esta casa, sim, e toda a terra sejam queimados!” E
depois de se maravilhar com os talentos de um organista cego, acrescentou: “Mas
de que adianta ser melhor em tudo isso, se ainda estiver ‘sem o Deus do
mundo?’”
Nem mesmo o British Museum deixou nele
uma boa impressão. Diante de uma coleção extraordinária, Wesley escreveu: “Mas
que explicação um homem dará ao juiz dos vivos e dos mortos por uma vida gasta
colecionando todas essas coisas?”
Resumindo, Wesley via a graça comum da
beleza e da cultura com uma atitude que se aproximava do desdém. Mais de uma
vez escrevi nas margens do livro: “Relaxa, John”! (Só que pelos padrões dos
ascetas que viviam em cima de postes e comiam apenas pão e água, John Wesley
era um esteta [um apreciador das coisas belas da vida].)
Pouco antes, eu tinha lido a penetrante
parábola de Anthony de Mello sobre um grupo de pessoas viajando por um glorioso
interior em um ônibus com cortinas cobrindo todas as janelas. Focadas no
destino, perderam todas as maravilhas do lado de fora e ficaram brigando pelos
melhores bancos.
Um dos maiores desafios como cristãos é
organizar nossos desejos, de modo a manter equilíbrio apropriado entre nossos
interesses por este mundo e pelo próximo. Como gostar desta vida com as dádivas
da arte, da beleza, da música e do amor e, ao mesmo tempo, servir os pobres e
guardar tesouros para o reino que virá?
A Igreja não está sozinha nessa luta
para encontrar um equilíbrio. Em outros lugares, o hinduísmo, o islamismo e o
budismo, como todas as religiões, têm seitas que matam de fome e torturam os
corpos para alcançar mérito. Entretanto, aqueles que não têm nenhum interesse
pela vida futura não são bons em organizar seus desejos (como o demonstram os
milhões que lutam contra os vícios).
De maneira alguma quero depreciar John
Wesley, que demonstrou o compromisso radical necessário para mudar o mundo. Ele
viajou 650 quilômetros em transporte precário e pregou uns 40 mil sermões,
acendendo o fogo do reavivamento na Europa e nos Estados Unidos, fogo que queimou
por séculos. Ele literalmente pegou a ordem de Jesus de “não guardar para si os
tesouros da terra”.
Wesley, certa vez, falou sobre o perigo
da riqueza: “Temo que onde a riqueza aumentar, a essência da religião cairá na
mesma proporção. Assim, de forma natural, não vejo como um reavivamento da
religião possa continuar por muito tempo. Porque a religião deve produzir, ao
mesmo tempo, esforço e frugalidade, que não produzem riqueza. Ao mesmo tempo em
que a riqueza aumenta, aumentam também o orgulho, a raiva e o amor pelas coisas
do mundo”.
Bebericando um chá, certa tarde, com um
próspero líder cristão em uma amável igreja inglesa, aprendi que, se a
tendência atual continuar, não haverá mais metodistas na Inglaterra em 30 anos.
Meus pensamentos se voltaram para meu próprio país, o mais rico do mundo, e,
ainda, pelo menos até agora, um dos mais religiosos. O que os historiadores
aprenderão sobre a Igreja americana atual daqui a 200 anos?
Uma citação de G. K. Chesterton veio à
minha mente: “É sempre simples cair: há uma infinidade de ângulos para se cair,
mas apenas um para se levantar”.
Tradução de Rachel Vieira Belo de
Azevedo
Publicado na Revista Enfoque,
Edição 79 – FEV/008
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