segunda-feira, 23 de maio de 2022

A Moral Evolutiva Faz Sentido? Como Algo Subjetivo Pode Ser Objetivo?

  

Por Walson Sales

 

Cólon também faz uma dura crítica aos ateus que defendem uma moral evolutiva, podendo assim dizer. Ele questiona porque as pessoas colocam um jaleco e argumentam que as pessoas são simplesmente animais evoluídos, e depois dizem que nós não devemos tratar as pessoas como animais? Se tudo o que existe é a matéria, então significaria que nós não somos nada, apenas matéria também. Se isso é verdade, então porque nós cremos que os humanos são dignos de respeito? Em um debate com Paul Manata, Dan Barker afirma que os seres humanos não são mais importantes do que um brócolis. Acho muito interessante que um pedaço de brócolis sabe que outros certos pedaços de brócolis são dignos de amor e respeito, como se eles fossem algo mais do que somente um brócolis. Todos os dias, cada um de nós tratamos uns aos outros com respeito e dignidade, e todos sabemos que aqueles que desrespeitam as pessoas não deveriam fazer isso. Isso é verdade para teístas e ateus.Os seres humanos realmente são dignos de respeito. Isso é inexplicável em uma cosmovisão ateísta. Todos os ateus que eu encontrei acreditam que o assassinato e o estupro são algo mau. Em uma cosmovisão ateísta, não significa que, desde que o estuprador aumente a sua felicidade estuprando as pessoas, estuprar pessoas não seria considerado bom para eles? Quem diria que os julgamentos morais do estuprador são falhos e os nossos não? (CÓLON, 2010).

Quando Craig debateu com o Flew, seguiu essa mesma linha de raciocínio. Ele afirmou que, como Russell e Ruse, eu não vejo qualquer razão para achar que, na ausência de Deus, a moralidade evoluída do grupo _homo sapiens_ seja objetiva. Depois de tudo, se não existe nenhum Deus, então, o que há de tão especial nos seres humanos? Eles são somente subprodutos acidentais da natureza, os quais evoluíram relativamente há pouco tempo a partir de um grão de poeira infinitesimal, perdidos em algum lugar em um universo hostil e sem sentido, condenados a perecer coletivamente e individualmente em um futuro relativamente próximo. Na visão ateísta, algumas ações – por exemplo, estupro – podem não ser socialmente vantajosas e, então, no curso do desenvolvimento humano, tornaram-se um tabu. Mas isso não prova absolutamente nada no sentido de que o estupro é realmente errado. Na visão ateísta, não há nada realmente errado no fato de você estuprar alguém. Assim, sem Deus, não existe nenhum certo ou errado absoluto que se impõe em nossa consciência. Mas o problema é que valores morais absolutos existem e, no fundo, todos nós sabemos disso. Não existe nenhuma razão a mais para negar a realidade objetiva dos valores morais do que a realidade objetiva do mundo físico. Ações como estupro, crueldade e abuso de crianças não são somente comportamentos inaceitáveis socialmente, são abominações morais. Algumas coisas são realmente erradas. Similarmente, amor, igualdade e autossacrifício são realmente bons (apud WALLACE, 2003). Como Weitnauer destacou:

 

Em Uganda, Joseph Kony exige de suas crianças soldados matarem as crianças soldados que tentam escapar a mordidas até a morte. Pense sobre isso. Que horror! Existem quaisquer fatos morais que nos dizem que nós podemos estar certos ou errados ou é apenas diferença de opinião? O casamento entre pessoas do mesmo sexo é um imperativo moral ou um acordo completamente arbitrário, nem melhor, nem pior do que quaisquer outras leis? Como os filósofos Cristãos Stuart Goetz e Charles Taliafero colocam “não está claro como alguém pode estabelecer valores normativos sobre a base de processos que são em última análise, por meio de processos inconscientes, não normativos e contingentes em natureza”. Pergunte a seu amigo: você tem mais evidência que o ateísmo é verdade ou que estuprar crianças é errado? Certifique-se de pedir-lhes para defender a sua resposta com razões claras e convincentes (WEITNAUER, 2013).

 

Como defender que é objetivamente errado matar crianças a mordidas ou estuprar crianças se não existem valores morais objetivos? Craig afirma o seguinte sobre toda essa discussão: “Suponhamos que valores como misericórdia, justiça, amor, paciência e similares simplesmente existam. De que maneira isso resulta em qualquer obrigação moral para mim? Por que eu deveria ser moralmente obrigado a, por exemplo, ser misericordioso? Quem ou o que impõe essa obrigação sobre mim? Como destaca Richard Taylor, estudioso da ética, “A obrigação é algo que é devido [...] Mas alguma coisa só pode ser imposta por uma ou várias pessoas”. Não existe a obrigação isolada”. Deus dá sentido à obrigação moral porque os seus mandamentos se constituem para nós obrigações morais. Taylor escreve:

 

Nossas obrigações morais podem [...] ser entendidas como imposição divina [...] mas e se esse doador da lei mais elevado que o homem não for mais levado em consideração? O conceito de uma obrigação moral [...] ainda faz sentido? [...] o conceito da obrigação [é] ininteligível à parte da ideia de Deus. As palavras permanecem, mas o significado se foi.

 

Sendo não teísta, Taylor, portanto, acha realmente que não temos obrigações morais, que não existe certo ou errado. O realismo moral ateísta considera isso horroroso, mas, como Taylor claramente vê, na visão ateísta, simplesmente não existe fundamento para a obrigação, mesmo que as obrigações morais existam de alguma maneira. Por último, se o ateísmo é verdadeiro, então não existe responsabilidade moral por ações pessoais. Mesmo que existissem valores e obrigações morais objetivas debaixo do naturalismo, elas seriam irrelevantes, porque não existe responsabilidade moral. Se a vida acaba na sepultura, então não faz diferença se alguém viver como Stalin ou como um santo. Como disse o escritor russo Fyodor Dostoyevsk: “Se não há imortalidade, todas as coisas são permitidas”. Dado o caráter definitivo da morte, realmente não importa a maneira como vivemos. Isso se mostra como um quadro deveras apavorante para um cético ateu como Kai Nelson:

 

Não fomos capazes de mostrar que a razão exige o ponto de vista moral, nem que todas as pessoas realmente racionais não deveriam ser individualistas egoístas ou não morais clássicos. A razão não decide aqui. O quadro que pintei para você não é agradável. A reflexão sobre isso me deprime...A razão prática pura, mesmo com um bom conhecimento dos fatos, não o levará à moralidade (apud BECKWITH, CRAIG & MORELAND, 2005, p. 600-601).

 

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Referências e notas:

 

BECKWITH, Francis J., CRAIG, Willian Lane & MORELAND, J. P. Ensaios apologéticos (J. F. Cristófalo, trad.). São Paulo: Hagnos, 2006

CÓLON, Brian. Atheism: A Falsified Hypothesis. Recuperado de: http://www.apologetics315.com/2010/04/essay-atheism-falsified-hypothesis-by.html, acessado em 15/04/2022

WALLACE, Stan W (ed.). Does God Exist? The Craig-Flew Debate. Burlington, USA: Ashgate Publishing, 2003

WEITNAUER, Carson. Five Challenges for your Secular Friends. Recuperado de: http://www.reasonsforgod.org/2013/05/five-challenges-for-your-secular-friends/, acessado em 15/04/2022

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